Thursday, August 21, 2008

BENS QUE SE DELAPIDAM

 

 CRÓNICAS LOCAIS-59

 

OS BENS QUE SE DELAPIDAM

Ferraz da Silva

No contexto europeu do negócio das águas, a água do Luso tem uma pequena dimensão e ocupa um lugar insignificante no ranking das ofertas correspondendo a um mini circuito de distribuição em termos de continente, praticamente inexistente. Isto, que equivale ao nosso pequeno tamanho como país e á nossa fraca capacidade como penetradores de mercados, não deixa de ser um negócio aliciante em termos de rendimento auferido e exportado para os detentores do bem, tanto ou tão pouco que as sucessivas mãos por onde tem passado o tem mantido e desenvolvido, explorando e exportando os lucros duma riqueza que, como sabemos, lhes caiu nas mãos mais ou menos por engano, distracção ou desconhecimento. Como consequência o negócio das águas que começou pelo negócio das termas acabou por ser desvirtuado e o negócio original acabou por ser esmagado pelo segundo e pelo apoderar das matérias-primas e dos meios de produção por parte do capital. Em tempos antigos, apenas cobiçados e distribuídos pela especulação nacional, hoje, á mercê dos grandes grupos continentais e mundiais que se apoderam da riqueza esteja lá onde estiver através dum capital especulativo que não tem rosto nem grei.

É assim que se assiste á simples gestão de expectativas continuamente geradoras de mais valias que são de imediato e sucessivamente aproveitadas para realizar capital num frenético ciclo do mão em mão.

É assim que uma riqueza nacional, a água, que poderia ser um motor de desenvolvimento dum pobre lugar e dum pobre município contribuindo para o bem estar e melhoria das condições de vida dos seus naturais, acaba por ser um veículo de enriquecimento de uns poucos travestidos, mercenários sem rosto nem identificação.

            Para além da atávica incapacidade política caseira de colocar o património ou os bens nacionais ao serviço das pessoas está a postura de subserviência tradicional, conivente ou não e a pequenez do nosso território ao qual se alia, talvez como em nenhum outro lugar da Europa, a pequenez da nossa mentalidade.

O resto, é a estranha realidade do mundo de hoje, o domínio do mais forte, do menos escrupuloso ou do mais esperto, um ciclo de irracionalidade ou mesmo da bestialidade que atravessa o globo, onde o absurdo e a negação de valores essenciais da humanidade são pisados, esquecidos e substituídos pelo egoísmo duma cultura individual dirigida pelo engodo, pela cegueira, pela mentira, pela apropriação indevida das riquezas e pela imposição do low cost como resposta a uma nova massificação do homem. Uma regressão ética e moral na civilização do mundo ocidental e uma Europa burocrata e incapaz a desafiar o impossível estão a provocar uma rotura e uma derrocada ao nivelar o mundo pelas suas piores referências deitando fora uma aprendizagem e um saber que séculos de luta e experiência custaram a adquirir e conduziram esse mesmo mundo ocidental a níveis de bem estar e de equitatividade nunca atingidos.

Estou a rabiscar estas linhas que hei-de mandar logo que possa ao jornal,
em plena Praça Navona , em Roma , diante de três monumentais fontes de Bernini,  no dia 2 de junho , feriado nacional , dia da implantação da republica italiana , o nosso  cinco de outubro  e depois de assistir ao tradicional desfile militar , desta vez com a inédita curiosidade de o norte   do país se fazer representar  por um embaixador,  sinal dos tempos conturbados que aí temos e seguro na minha mão um grosso volume dum livro da livraria feltranelli cujo título é , mil locais  do mundo que  obrigatoriamente deve  visitar na sua vida. E cá está, em três ou quatro páginas seguidas, o nosso Portugal que, ao contrário do que se possa pensar, também tem lugares eternos a visitar. Vou citá-los: o Museu Gulbenkian, em Lisboa, a vila de Óbidos, a cidade património da humanidade, Évora, a Pousada de Stª Isabel, em Estremoz, a Vila de Sintra e a Mata e Palace do Buçaco.

Não mais. São os nossos sete lugares entre mil em todo o mundo, que merecem figurar neste compêndio turístico de primeira qualidade. Podemos aceitar que este não é único critério, mas é, face aos mil recursos apresentados em todo o conjunto da obra, um critério de alta qualidade e que para nós, oriundos dum pequeno local dum pobre município , ainda mais pobre de gente que de bens patrimoniais , satisfaz plenamente pela justiça da escolha apresentada  confirmando  de algum modo aquilo que com insistência  temos defendido.

A Mata Nacional do Buçaco, recurso turístico de primeira grandeza, a riqueza patrimonial água, motor de desenvolvimento duma área termal e não só e o recurso gastronómico de qualidade que é o leitão poderiam fazer do pobre município que somos, um município forte e rico, capaz de proporcionar aos seus residentes uma qualidade de vida e de bem estar invejável e auto-suficiente.

O património, por mais valioso que seja, não se auto transforma, se não existirem pessoas minimamente capazes de entender os fenómenos que se desenvolvem á sua volta. Essa massa critica para questões tão reais e pertinentes como estas, não existe e isso, paga no seu todo, o município. E paga bem!!!

Roma, Junho, 2008 mealhadatemas@blog.com

          

 

 

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NA PENSÃO BRITES

                  

CRÓNICAS LOCAIS-58

 

Ferraz da Silva


 NA PENSÃO BRITES

 

    Se bem te lembras Júlia, dormimos na pensão Brites á entrada de Chaves, vínhamos de Vila Verde da Raia pela auto-estrada de Ourense. Deixáramos Bragança ás nove da manhã Parque de Montezinho adentro até França, Portelo e próprio Montezinho, uma aldeia esquecida no beijar da raia antiga em serras redondas como ovos de avestruz, lisas, quentes e tresandando a urzes, anavalhadas aqui e ali por afloramentos de rochas á flor da terra numa procura da vida que se ensaia da parte de fora, ao sol, para muitos animais de sangue frio.

   Em Julho o calor sufoca e mistura-se com moléculas do estradão da montanha que as rodas do laguna levantam e logo repartem até entrar na pequena aldeia por uma rua apertada a pedir licença, por onde se sentam escondidas, debaixo de sobrados e alpendres, mulheres á sombra a perscutar em silêncio a chegada de quem raramente vem. Há um esperar recíproco, intemporal, incógnito, elas, sentadas no banco de madeira, num rebate a rocar num tempo que parou, nós, velozes a chegar, olhos abertos ávidos de deserto, dum precipício de natureza pura para nos inebriar os sentidos mal despertos na velocidade duma existência diferente. E fugaz.

  Sardões gigantes de cauda comprida e coluna verde-escura sarapintam a preguiça estendidos ao sol e olham atentos os inimigos comuns, todos da mesma raça. Fogem bruscos, apressados como gato perante a aproximação repentina dos humanos. A explosão, seja do que for, atormenta-os. Param, rearmam as defesas e de gola inchada em volta do pescoço esticado, levantam a cabeça nos olhos do intruso e observam de patas alargadas. Como ás mulheres do Minho em dia de romaria em Ponte de Lima, enrola-se-lhes o cordão grosso em voltas no pescoço e brilha como ornamento não doirado mas polido pelas cores difíceis das penedias.

   É um brasido a rocha nua onde poisam as peles e desaparecem como o disparar dum clic fotográfico se com arma basilar recolhida do chão lhe atiramos a pedrada da repugnância e da repulsa que trazemos atávica no interior esquecido. Restos da primitiva geração e da inimizade endémica entre o homem e répteis? Não estamos ali para saber, só para observar estes antepassados de extintos dinossauros de grandeza liliputiana.

  Como fogem regressam instantaneamente em movimentos bruscos, primeiro dos buracos e pedras e dos muros em espreitadelas cautelosas, cabeça a reassumir na vaga do calor sinalizando a lura ou toca esburacada, um corte dum carvalho, a falha dum calhau ou um montão de lenha donde vão sugerindo o corpo na proporção dos preparos. Devagar, devagar, recolhem confiança e retornam ao sol brilhante, o deus supremo dos altos transmontanos onde se estende o verão.

   Um freixo velho deita os braços sobre o pequeno terreiro do centro cívico rudimentar, convidativo, confortável. O mesmo deus sentou ali a natureza própria e deixou-se pasmar embevecido no olhar em seu redor para adormecer definitivamente. Parámos. Tudo parece em pó, em ruína, um acervo acabado.

  - Não há uma loja onde se beba um refresco?

     A face tisnada, queimada e enrugada limita as franjas pretas do lenço grande que cai blusa abaixo por sobre os restos de seios secos e lisos.

    -A loja a esta hora está fechada, senhora, só em França ….

   Não te lembras Júlia das rápidas indagações? Do som cavado das vozes ou do eco surdo a propagar-se em ondas na rapidez dos átomos? Mosquitos zumbiam á volta das interrogações á procura da nossa pele e cigarras cantavam em melopeia surda. O calor assomava em ondas magnéticas ao ritmo de fissura atómica no núcleo do astro rei.

    - Fica longe, a França? Perguntaste.

    - Fica donde vieram, não há outro caminho.

   Retomamos viagem pelos mesmos trilhos do sol da beira bosque por onde tínhamos vindo e no Portelo onde a antiga fronteira se escancara sem traves nem policias, cortamos á esquerda para Sanabria, Verin e depois Chaves.

  Foi ao entardecer que encontramos um quarto, no rés-do-chão escuro, fresco e vulgar ao entrar na cidade, na pensão Brites. Regressamos após um jantar para lá do rio, o Tâmega, pela velha ponte de Trajano, tal como o panteão de Roma ainda ao serviço das civilizações, mais de dois mil anos de idade e de labor. São obras-primas da arquitectura e da cultura humana.

   Depois dum banho atiraste-te á cama olhos postos no teto no  seu estuque amarelado a pensar alto se isto vale a pena.

   -Valer a pena o quê, perguntei….

   -Se viver vale a pena!

   -Ah! Tenho a certeza que sim, que tudo vale a pena, como dizia o poeta.

    É estranho duvidarmos de nós próprios. Talvez a vida seja apenas o momento que passa. Se fluírem, transformam-se num riacho, num ribeiro, num rio, vida própria. E num lago, se houver continuação. Caso contrário tudo não passou do momento vivido. Feliz ou infeliz, é indiferente, há-os de toda a qualidade mas vivê-los bem sempre é melhor!

  -Viver é o presente sim, o agora, o momento, continuas. Talvez nem haja passado quando o passado morre, há apenas presente, o passado, passou…não faz sentido.

   A serra do Larouco aproxima-se enquanto percorremos a fita estreita do alcatrão na direcção de Vilar de Perdizes para cumprir a promessa de recolher as ervas dum padre Fontes qualquer, lavadas, esconjuradas e livres de belzebu, purificadas na última feira das bruxas de Montalegre também chamada, eufemisticamente, Congresso de Medicina Popular.

  Não te percebo as crenças, para lá das interrogações e dúvidas constantes. Não percebo as ervas e mezinhas, as bruxas, os videntes, os espíritas e Cristo nisto tudo. Talvez por não ser homem de fé, por não ser homem de dogmas, não tenha necessidade desse maravilhoso para entender o mundo. A Terra onde nascemos basta-me. A vida é já de si algo de belo para nos entreter no prazo curto duma inteira existência. E acabamos sem a perceber. Parafraseando Sócrates, só sei que nada sei. É verdade.

Pela intranquilidade chegamos a Vilar de Perdizes, não por busca. Pelo desequilíbrio, não pelas ervas. Pelos bons e pelos maus caminhos, o homem faz-se a si próprio, depois, tudo não passa duma questão de tempo, como quem encaixa paciências nos buracos do labirinto. Pode viver-se em vão, sem sair do mesmo sítio, ainda que se caminhe todos os dias. E pode acontecer o contrário. O arbítrio, o acaso, o momento são pautas consideráveis.

    De qualquer forma eu tinha razão, há sempre um futuro qualquer, por isso seguimos a viagem e desta vez, na Adelaide, no Gerês, fizemos o poiso que se seguiu. Um degrau.

  Manhãzinha, prosseguindo a peregrinação, subimos a São Bento da Porta Aberta e foi de porta aberta, ajoelhada, que te prostraste nas rezas do consumo corrente. Nem para o desajuste há rezas feitas. Unguentos, ervanária, terras daqui e dali ou mesmo água do mar.

O homem faz-se, nós construímos tudo, a água benta também.  

 No Canal Caveira, não se tinha tomado um chá de lampião depois dumas saborosas sardinhas em molho de escabeche??? Quem foi que receitou o estranho chá numa vinda do vau, Júlia ?

 

                                                                      mealhadatemas@blog.com

 

 

 

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Friday, May 16, 2008

HISTÓRIA BURRIQUEIRA

  
   
  

HISTÓRIA BURRIQUEIRA

 

 

    Em 1950 ainda existiam burros no Luso e no Buçaco em plena actividade empresarial, isto é, fazendo o transporte de clientes para a serra, do Buçaco para as Almas, para a Cruz Alta ou para qualquer outro percurso combinado entre ofertante e utilizador.

   Cavaleiro sentado na macieza dumas gastas albardas, o burro conhecedor instintivo do caminho e o burriqueiro atrás, de vergasta na mão, tocando a azémola ou sacudindo as moscas procurando transmitir ao ocasional ocupante o prazer de sentir as rédeas sobre as orelhas do asno imaginando-se veloz na garupa dum puro sangue ou a com a leveza dum Aladino sobre crinas enfeitiçadas cavalgando para um etéreo harém. O marketing não é descoberta de espertos dos nossos dias que apenas o elevaram á condição da cátedra para sacar uns cobres, pois como se vê, um simples e modesto burriqueiro do século passado pode testemunhar a necessidade, a que agora chamam ciência, de vender ilusões. Pelo melhor preço.

   Ir ao Palace Hotel custava cinco escudos, á Cruz Alta sete e quinhentos e á fonte do Castanheiro com paragem no garoto para beber um copo de água fresca e volta pelo Lusitano, ficava por vinte e cinco tostões. Para famílias, a viagem podia ter um desconto consoante as burras requeridas e as burricadas, brincadeiras mais abrangentes sujeitas a imprevistos e demoras, tinham uma taxa fixa um pouco mais elevada, mas tudo dependia da habilidade em fazer, para um e outro lado, um bom negócio.

  À noite, o Zé Posta recolhia as burras no Luso d’Além numas arcadas antigas debaixo da casa própria e fazia contas aos ganhos, á despesa dos animais, ao sustento, ás doenças e era depois da refeição comida á pressa noite dentro que as sacudia, limpava e deixava ficar prontas para na manhã seguinte reiniciar o negócio com a barriga cheia, estacionadas na avenida, acima das onze bicas.

    Coexistiam com um fotógrafo á la minuta na mesma fonte de S. João que fazia os sábados e domingos no Buçaco, por isso não é raro encontrarmos fotografias de burricadas, gratas recordações dos nossos avós, bisavós e veraneantes.

   No monte de Santa Luzia, em Viana do Castelo, ainda hoje existem estes velhos fotógrafos que são museus vivos dum passado não muito longínquo que nada tinha a ver com a rapidez dos nossos dias nem com a proliferação de aparelhos que surgiram depois desde os kodakes às câmaras digitais, aos próprios telemóveis e ás filmadoras de mão. Não há muito tempo ali me fiz fotografar com elegante companhia ao estilo antigo a quem dei fotos e chapas em preto e branco que hoje, por curiosidade, gostaria de ter.

   Coexistiam ainda no negócio dos transportes uma dezena de táxis (quem se lembra dum fiat balilla?) e não consta que existissem desavenças entre a competitividade duns e doutros, sinal de que os tempos corriam melhor nas termas e de que a mata do Buçaco era também um lugar de passagem, mas também motivo para estadia prolongada.

  Não precisei na exactidão da data em que nascem estas burricadas, mas não será difícil imagina-las em paralelo com o desenvolvimento termal e parecem ser um produto pioneiro do nosso turismo, o que significa, traduzindo para linguagem actual, um dos primeiros recursos entre a diversidade que faz hoje a oferta do pacote da actividade. Podemos rir destes primórdios recentes mas de facto em toda a primeira metade do século passado há noticias do recurso um pouco por todo o lado e ainda hoje restam nalguns lugares, por reactivação em experiências interessantes, algumas delas catalogadas como turismo de aventura, se bem que tenha sido sempre uma aventura andar de burro. Para além da teimosia, nos dias que correm o burro burro é uma raridade, embora o burro metafórico seja mais comum que a legitima e nos puxe, teimoso, para trás. Há ainda muitos.

  Ora um dia, nesses conturbados anos de cinquenta do século passado, regressava do Buçaco o Zé Posta com um par de burros no fim de mais um dia de jornada. Encarrapitava-se em cima da beltrana uma burra mansa, serena, tão habituada aos mimos do freguês como á chibata do dono ou ás ferradas das moscas e segurava pela trela o várzeas, um burro nascido debaixo da ponte, o que se pode dizer um burro burro de todo, de nascença e de ensinanças, á maneira da azémola do prodigioso Sancho Pança e de seu amo o senhor D. Quixote para sermos mais verdadeiros. Anoitecia. Na sineta do Convento deram sete badaladas finas, arremessadas em bruto como Frei Thomas das Mazelas gostava de fazer durante as guerras liberais, costume depois continuado por sucessivos guardas do mosteiro ciosos da tradição, desde que houve a confiscação dos bens em 1834 salvo erro.

   A mata estava em silêncio total como naqueles fins de tarde aprazíveis, quase divinos em que podemos escutar o nada que nos envolve como se não existíssemos. Nem o próprio mundo tem existência real nesses solenes momentos em que se ouve apenas o silêncio em toda a redondeza e as árvores são sentinelas mudas dos espectros soturnos duma tarde em queda lenta. Apenas o arre burro do Zé cortava de vez em quando a solenidade divina e o enxoto era empurrado pela aragem com a suavidade dum sonho. Foi neste marear sereno e cálido que se precipitou o acontecimento, pois dá-se que á mansidão da beltrana se opõe a brusquidão lazarenta do outro e quando desciam ao campo da bola para atalhar o caminho não é que o várzeas dá de zurrar e escoicinhar a beltrana num pinoteio de palco com cagatório de birra!!!!??? De imediato, o Zé, apertando nos calos a rédea que se soltava, foi no desequilíbrio, tombou no chão e por pouco não foi arrastado estrada abaixo a morder o pó nas tamancas. A custo, sozinho, puxou a burricada para casa com a vergasta em sarilho num badanal dos infernos.

  Tão maltratado que nem lhe apeteceu comer e ao outro dia, não de burra, mas de táxi, foi, por insistência da mulher, á endireita de Paraimo para lhe pôr duas costelas no sítio, tanto quanto o manso asno, por simpatia do outro, lhe pôs abaixo.

 -E se não vinha tão depressa, disse a curandeira depois duma massagem e de o entrapar em panos e aguardente, amanhã não se podia levantar.

   Deitado por alguns dias sobre uma arca de broa antiga, esticou-se quanto pode para endireitar a ossatura, descanso que a dureza da vida cedo atirou para a necessidade do trabalho que o verão não se podia perder ao sabor dos luxos da doença, sobretudo de quedas de burras , o pão nosso de todos os dias !

   Mas foi porém quando se queixou á santinha da aspereza e das dificuldades, da numerosa família e do azar que lhe batia á porta que a mulher, condoída de tanta mazela e chorosa lamuria o mandou em paz sem lhe cobrar um tostão.

  E o Zé, reconhecido, puxando da humildade e da gratidão que lhe perpassou pela alma, sinceramente, disparou:

  -Quando for ao Luso, pergunte pelo Zé da Posta, que lhe dou uma barrigada de burro como nunca levou na sua vida!!!!!

  Maio,2008                                    mealhadatemas@blog.com/lusotemas@blog.com

 

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Friday, May 2, 2008

TERMAS DO LUSO

                   CRÓNICAS LOCAIS-56

    Ferraz da Silva

  

    DE VOLTA ÁS TERMAS DO LUSO -56

   .

    Passou-se há quarenta anos talvez, quando não havia febre pela televisão e as tertúlias de jovens se juntavam todos os dias á noite para fazer teatro. Eram peças clássicas, sobretudo comédias ou farsas e um dia, por acidente, uma revista. Entre Salve-se Quem Puder ou Alto lá com Isso, ficou com o segundo nome e por empréstimo chamou-se oficialmente Costa do Sol em Festa, uma revista de Cascais que já tinha passado pelo crivo da censura e estava portanto ao abrigo do lápis vermelho do santo oficio salazarento que tinha tanto de engano como de ser enganado.

   Claro que o texto era o nosso, escrito em noitadas de arrebatadas ceias tiradas em casa deste e daquele mas sobretudo do ensaiador, discípulo da Corina Freire. Um bloco de papel numa das mãos, um naco de chouriça, uma bebida alcoólica e a boa disposição donde disparavam quase instantaneamente as piadas, os quadros, os intérpretes.

   No seu desenvolvimento, entre danças e cenas, a coisa tinha um compere á maneira do Salvador no Parque, um bife, o Santos e era numa destas mudanças de número quando eu cruzava rapidamente o palco com um balde de cal na mão direita e um pincel de cerdas na outra, que a Maria Aurora me perguntava com cara de admirada:

   -Olha lá Manel, onde é que vais com tanta pressa?

   E respondia eu com a solícita prontidão dum trolha enfarinhado:

   -Olha, para cumprir as leis da Câmara pintei as casas todas do Luso, agora vou pintar a Câmara, que bem precisa!!!!

   Perante o texto simples desta passagem de urgência, espécie de 115, desabava a rir, da plateia á geral, o Teatro Avenida e semanas depois o Teatro Messias, sem que nós próprios descortinássemos o motivo da pilhéria, a não ser no inesperado desconcerto da sumaríssima acção.

 E só no fim do gargalheio é que o senhor Silva, sentado no banco do piano de cauda, levantava a cabeça, dava o dó e prosseguia a dedilhar a música…

  Quarenta anos depois, comparativamente, a Câmara voltou a assumir esta figura pateta do olha para o que digo não para o que eu faço, ditado antigo destinado a tipificar o desenfreado apetite de alguns monjes e abades, passe o exagero, quando se refere permanentemente ao Luso e ao Buçaco como a sala de visitas do concelho turístico para ter a sala abandonada, em termos práticos, quanto toca a trabalhar pela defesa e desenvolvimento dessa riqueza e património. Podemos desculpar aos autarcas a distracção, a ignorância, a incompetência, mas, reconhecendo embora o nervosismo e a desorientação por que passam, de hipocrisia politica já chega!!! Estamos fartos!!!!

   Não vou pormenorizar o caso da obra na fonte de S. João que podia ser requalificada em trinta dias e não em duzentos e setenta se a autarquia soubesse o que anda a fazer e tivesse algum respeito pela actividade de quem vive disto, mas sim desse outro caso que foi o assentar da administração da concessionária das águas no banco do diálogo, não pela acção da Câmara da Mealhada, mas pela acção dum grupo de pessoas das termas que vêm a sua vida a andar para traz, precisam de viver e por isso de lutar pela reanimação das mesmas e da terra, quando os eleitos, quer os locais quer os municipais, o não sabem fazer.

    Estes pontos nos ii são essenciais para se perceber mais uma vez a qualidade de quem comanda os destinos políticos do município, (e da freguesia!) de novo numa postura negligente e absolutamente nula no que toca á defesa dos interesses vitais do mesmo. Claro que não me movem as pessoas enquanto pessoas, apenas como actores e intérpretes da farsa politica que representam á qual nós, cidadãos, assistimos e a qual devemos, pela cidadania que nos cabe, analisar e criticar.

  Na minha perspectiva, os novos factos traduzem-se assim:

  Depois de no mês passado sermos brindados com o plano estratégico dum Luso Inova camarário de 50 milhões de euros para satisfazer contínuos vazios políticos de consciências angustiadas, eis que é anunciado um mês depois, por força da pressão activa do mesmo grupo de pessoas junto do Ministério da Economia, o falado Luso 2007, desta vez pela mão apressada da SAL numa parceria com uma empresa de clínicas dentárias, donde nascerá, eventualmente, uma hipotética empresa termal onde a autarquia Câmara, curiosamente, não tem assento nem voz, colocando-se mais uma vez de lado, silenciosa, muda, a ver passar os comboios…Com este executivo podia ser de outra maneira? Dramaticamente, não!

  Não faço ideia se o parceiro apresentado pela SAL é bom ou mau, se tem experiência em termas e Spa’s ou não, mas tem-no, isso é líquido, em clínicas dentárias luxuosas. Vamos esperar  mais três meses pelos projectos prometidos!

    Registe-se no entanto que o investimento anunciado de três milhões de euros (investimento total confirmado em entrevista ao MM pelo nº 2 da concessionária de seiscentos mil contos antigos) numa área de mil e quatrocentos metros quadrados, para fazer e meter um novo centro de bem estar ou spa e uma clínica, onde já estão umas termas e um bloco de fisioterapia á espera da modernidade que a concessionária lhe não tem dado, será suficiente? (Para que melhor se possa comparar a dimensão dos números, lembremos que a Câmara se propõe fazer uns novos paços municipais por dez milhões de euros, o edifício, a preços actuais))

 Será que a nova empresa termal a constituir (?) vai abrir-se a novos investidores?

 Será que depois da concessionária ter vendido o hotel e os terrenos que destinava ao SPA, irá readquirir os mesmos e recriar o seu ex- parque hoteleiro?

 Será que as novas (?) estruturas darão acesso pela via económica a toda a gente?

 Será que a autarquia Câmara aproveitou para exigir garantias escritas?

 Neste item, claro que não. Mais uma vez politicamente apalermada, pôs-se de lado, riu-se, bateu palmas e continuou a não obter nenhum compromisso escrito de mais estas promessas, bem pelo contrário, no dia imediato apressou-se a desembargar umas obras que tinha mandado embargar á concessionária, não se sabe se por cautela se para propaganda politica e juntou ao acto a ignorância de declarar que este projecto, que ainda nem sequer existe e que prevê um investimento de três milhões de euros, é melhor que o seu plano estratégico do Luso Inova que previa, disseram-no há poucos dias publicamente com claras intenções propagandísticas, um investimento de cinquenta milhões de euros!!!

  Saberão do que falam??? Saberão para quem falam? Com investimentos da concessionária das termas, para lá dos três milhões, não se podem contar. Faltam quarenta e sete milhões para o Inova. Quem vai continuar ou completar o pomposo plano estratégico do Luso? A Câmara e o seu executivo, tão falho de estratégias como de ideias, já encontrou algum parceiro?????   

 PS- Parabéns sim ao grupo de cidadãos. Sem o poder negocial nem o poder de dissuasão da autarquia, não só os obrigou a correr aflitivamente até ao Ministério da Economia como os obrigou a abrir um canal para o diálogo. Porque afinal, eles têm medo como se demonstrou facilmente! Um medo directamente proporcional á inaptidão política da maioria da Câmara!

 

Luso, Maio, 2008                        mealhadatemas@.com      lusotemas@.com

 

  

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MARATONA SE LISBOA

                CRÓNICAS LOCAIS-55

                 Ferraz da Silva

               A MEIA MARATONA 
              
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    Eram dez e meia da manhã já a praça da portagem em Almada era pequena para acolher tanta gente. A maior parte, como eu, vestindo uma camisola verde alface á qual procurava pregar o dorsal número vinte e oito mil setecentos e vinte e quatro com o kit de alfinetes que me foi dado para o efeito, mais uma mala edp com uma garrafa de água, umas bugigangas e juntamente uma medalha comemorativa, tudo pela quantia de dezassete euros, fui dos atrasados, mais um bilhete de ida e volta da CP para atravessar o Tejo pela ponte Salazar e 25 de Abril, estranha coincidência!
  Da Avenida de Roma ao Pragal, já a enchente era grande no comboio urbano, para mim e para todos os não amigos, por isso não convidados, do senhor Sócrates que foram colocados na portagem por carros de altíssima cilindrada, daqueles que nós pagamos. Nós, cidadãos, fomos alegremente no comboio e já é sorte ter um bilhete de borla, não tanto pelo dinheiro mas pela simpatia ou pelo engodo, nunca se sabe se isto é feito ou não com segundas intenções, mas que o estacionamento dos pasteis de Belém onde ás vezes ponho o carro ao domingo de manhã para comprar o jornal quando me encontro em Lisboa estava reservado por uma dúzia de policias para o senhor Sócrates e mais os seus convidados, isso via-se pelas bombas que lá não costumam estar.
   Trinta mil a passar a ponte a pé, é muita coisa e não sendo dos primeiros, já estava meio estafado de subir as barreiras da estação para a portagem, alinhei mais perto da retaguarda que do topo, de modo que enquanto os primeiros a partir já corriam a bom correr, ainda nós, dos últimos, conversamos animadamente sobre o percurso do sol entre as nuvens que apareciam, sobre a viagem do benfica ao marítimo da madeira ou sobre a marcha dos professores, mais setenta mil do que nós, mesmo assim a ocupar dum lado ao outro a ponte sobre o Tejo.
  O Sócrates mais a Rosa Mota e uma chusma de seguranças mais um pelotão de paraquedistas em formação de corrida a correr não sei porquê, acabaram por partir primeiro, entre palmas e assobios, enquanto a minha vizinha do lado dava a chupeta ao bebé sentado no carrinho, para o silenciar pelo seu precoce protesto.
   Foi mais ou menos a partir desta altura que a minha mole, como um todo, meteu os pés a caminho dando seguimento á permanente partida que se estendia já por meia hora e a horda de novos infiéis deixou a margem sul a caminho da meta, do outro lado, no norte.
  A verdade, é que nesta corrida da meia maratona de Lisboa que já vai no seu décimo oitavo ano de edição, a minha segunda, não há só uma corrida mas várias corridas em conjunto.
   Uma para os profissionais, aquela que mostra a televisão. É a dos campeões, dos craques, dos conhecidos, negros etíopes os primeiros a chegar, por isso são também os primeiros a partir. Vai depois a corrida dos europeus mais os que tem a mania que correm, partem a explodir força como um carro a gasogénio ou a máquina a vapor, mas a meio expulsam gazes, levam a língua de fora e chegam alagados em suor juntamente com os amadores verdadeiros que correm por correr para manterem a forma, são a maior fatia em competição e chegam no primeiro lote.
  Os da mini maratona vêm depois. Ministros, secretários de estado , chefes de gabinete e convidados, os que dão lustro, correm depressa para os carros de cilindrada, para os almoços, pavoneiam-se para a televisão, saúdam com a mão o povo anónimo, correm o que não correm nas suas várias funções, mas chegam atrasados, anos que não perdoam, excessos, barrigas, poltronas. São montras ambulantes, não correm para ganhar correm para aparecer.
  Surgem então os mini amadores, corredores de bocados de domingos, farrapos de percursos, jovens, casais, terceira idade, correm e andam, andam e correm, não tem horário nem regam ilusões, levam os seus lulus as senhoras, vestem uma camisola do sporting os garotos, carrinhos de bebés as mães, um trompetista , o homem dos sete ofícios, o burro alentejano e finalmente para apanhar algum distraído, o carro vassoura.
  Nos Jerónimos, entre o fim da corrida e o domingo de ramos, é uma festa protagonizada pela multidão dos participantes de boa vontade. Desapareceram os campeões, os políticos, a televisão e na grandeza da praça e dos jardins espalham-se milhares de portugueses um pouco de todo o lado. Alguns, dos que trouxeram o farnel, não perdem tempo, outros, que também são de fora, chegam-se ao restaurante mais próximo para recuperar as forças.
  Subi a Calçada da Ajuda e no Serrano, um conhecido antigo, encomendei uma dose de cozido á portuguesa á moda de Lisboa que, por pouco dinheiro, foi mais que suficiente para acompanhar uma picheira de tinto alandroal de óptima qualidade.
  Um dia á portuguesa onde só destoaram os ministros em carros de grande cilindrada!
  No próximo ano, leitor, se puder, não perca esta oportunidade única de participar num evento impar aberto a toda a gente e cheio de vivacidade e alegria. Não vai arrepender-se, garanto!!!
  Lisboa, Março,2008                                           mealhadatemas.blog,com

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Sunday, April 6, 2008

VENEZA GIULIA

 

Ferraz da Silva

VENEZA GIULIA

 

 Desembarquei em Santa Lúcia ao fim da tarde com duas horas de atraso sobre o meu horário previsto e digo meu horário porque face ás disponibilidades existentes sou eu que os escolho e faço como as malas, sem a companhia de Júlia que deixou de me transportar sentimentos e palavras e âmago delas próprias, mudou-se como quem muda de camisa, por promessas de empirismo financeiro. Apenas uma questão de verbo, pois também não quis aprender a língua de Dante ou fazer fisioterapia para agilizar as pernas quando se começou a queixar às sextas-feiras á noite depois de meia dúzia de danças pendurada no meu pescoço a murmurar meu amor, íamos já no tango e no bolero e a orquestra arrastava-se na languidez da música e dos corpos enlaçados. Uma safa!
 Tomei um regional barato com paragem em Bréscia, Peschiera do Lago Garda, Verona, Pádua e Vicenza . O comboio, ao contrário do automóvel que nos prende a instrumentos egoístas e totalitários, permite-nos continuar a usufruir duma vida normal em movimento, como se fossemos sentados na mesa do café ou no jardim da cidade e cada carruagem desenvolve a sua própria sociabilidade, cria o seu próprio ambiente e sustenta por si própria a vida de quantos vão numa emergente comunicação entre a vivência interior que passa e a de fora, que está. Parece um paradoxo de Einstein mas a verdade é que nos deixa pensar segura e tranquilamente, sonhar, ou ligar á ficha da corrente o blog pessoal. Continuo a dizer que o comboio é um excelente meio de viajar, o perfeito, no próximo futuro.
 Na paragem de Verona, a cidade onde William Shakespeare ficcionou Romeu na sua trágica paixão, encontrei restos da publicidade da época lírica anterior cheia de figurantes da Aida de Verdi, a ópera mais famosa que se representa na Arena da urbe com toda a circunstância e foi aí que me veio em sugestão nos gestos e olhares pictóricos do enorme painel, a figura de Júlia, mas não lhe consegui fixar o engelhar do rosto nem o buraco negro dos silêncios tal a distância se apoderou de nós.
  As paixões não são bens duradouros, umas porque se apagam, outras porque se esquecem, outras não se alimentam, outras porque se traem e outras ainda consomem-se em mortes e tragédias como as shakespearianas e são o encanto e o entretenimento de gerações sucessivas presas á realidade que a ilusão mistifica. Só estas, lendárias, sobrevivem.
  Depois veio a outra Júlia, a criminóloga e apanho-a sempre, quer desembarque em Malpensa ou no Galileo Galilei, apanho-a e seguimos viagem juntos, ás vezes por poucos dias, outras, por mútuo consentimento, até ao derradeiro minuto. A bem dizer depende do seu trabalho. Pelo caminho, vou-lhe lembrando que está cada vez mais magra, mais pequena, qualquer dia anoréctica e ela responde que não, que gosta de ser assim pequena, a caber-me no bolso do casaco, ligeira e leve como uma folha de papel, que és, digo eu e ela ri-se enquanto se agarra á minha mão e atravessamos a passadeira a correr.
   Exactamente no verão passado, numa mini corrida, fomos propositadamente a Verona para ver as Bodas de Fígaro. Era noite de estreia e como nos tinha dito a nossa companheira de viagem a caminho da pousada da juventude, a lotação da Arena estava totalmente esgotada há um mês, mas acrescentou que se arranjava sempre bilhete de última hora. Seguindo o seu raciocínio e a lógica portuguesa, da estátua de Dante na Piazza dei Signori, à Casa di Giulietta, ao Castelvechio ou ás margens do rio Adige, tudo foi pouco para procurar na candonga. Nada. Porém á hora, os bilhetes saltaram como por magia de qualquer lugar e não ficou de fora quem tivesse dinheiro contado para dar pelo mágico papel. Talvez porque a Arena de Verona, o velho coliseu romano da cidade, tenha lugares mais que suficientes no seu perfil elíptico para satisfazer tanto as exigências da oferta como as da procura e mesmo os próprios excessos.
  No cais de S. Silvestro, nós vivemos numa Europa de santos, terminei a viagem deixando finalmente o canal para entrar meio minuto depois no refúgio de Antonella Giuspinni, a minha anfitriã no centro da cidade, dois passos de S. Marcos e bem perto dum bar tunisino aberto sobre a rua onde costumamos saborear crepes recheados de chocolate quente, feitos ali á nossa frente ante o cheiro que se apodera do ar e faz juntar os clientes num arraial de espera. O chocolate escorre quase tão delicioso como o de Bionaz, nos Alpes, na estufa divina do bar Sàssone ao fim da tarde, durante o silêncio dum nevão. São clientes de todas as nações pelas ruas estreitas, articuladas, frias e escuras, lembram a baixa medieva de Coimbra numa maior dimensão e entrecortada por pontes e canais que o fim do dia esconde na penumbra. À noite, só no grande canal o trânsito continua, targhetos e vapores, gondoleiros e taxistas numa azáfama ao sabor da época do ano, neste caso, do pós carnavalesco.
 Depois de tomar banho e sair, desceu um nevoeiro cerrado sobre a urbe e a fraca iluminação reflecte-se em múltiplas tonalidades sobre o contorno das águas. Telefonei a Júlia, estava pronta, agora aguardo na Ponte de Rialto com duas máscaras na mão conforme o prometido. Com elas nas faces, disfarçados ou escondidos, fomos á Academia em Dorsoduro saborear na velha trattoria de Cantinone um magnifico risotto terra mar, uma espécie de arroz de marisco com legumes e cogumelos á mistura, por um preço razoável, um ambiente acolhedor e duas horas de divertimento acompanhados por máscaras brilhantes que aparecem de todo o lado.
  Veneza, que começou a cavar o seu desastre desde a viagem de Vasco da Gama, trocou a sua antiga opulência por um coração divertido e colou em definitivo o Carnaval da cidade ao calendário do turismo. Hoje, sobrevive dos vidros de Murano, da produção industrial de máscaras e da visita dos turistas, milhões, que se acolhem na cidade com o gigantismo de um exército de formigas. E Veneza recebe-os com a magnitude da sua opulenta história mais a magia dos seus canais, a torre das suas igrejas e São Marcos, o santo que conseguiu roubar aos bizantinos para sepultar na laguna e ao qual ergueu um monumento da cristandade com projectos do Islão. Resultou numa obra de arte de incomparável beleza que todos os dias apetece revisitar, se as filas, durante o ano, o não impedissem de fazer.
  Sentados na vasta praça perto do Campanile, meia noite na Torre dell’Orológio, tirei de mim a colorida máscara de dama quinhentista e leve, tão leve como uma esponja pode ser ao balançar-se nas águas dum oceano sereno, encostei os lábios aos lábios do cavalheiro, a Júlia, criminóloga e quinhentista, que agradeceu com afecto o derradeiro mimo num sonho duma noite de Inverno, em S. Marcos , Palácio dos Doges, Fevereiro, ano da graça de 2008.
 Quando o airbus me despejou na Portela quinze dias depois, já a criminóloga se encontrava em Londres ao serviço de sua majestade num papel de emigrante honesto e simples e mais que isso, inteligente, tanto ou mais que se conseguiu encaixar com êxito nos serviços secretos. Sei que não é o SherloK Holmes mas para lá caminha!
  Prova provada de que alguns portugueses por esse mundo fora são bem capazes de passar a fasquia da tacada do golfe e da reforma choruda reservada a parasitas comunitários, através do trabalho e do saber, como o caso de Augusto Esquetim Pardal, alentejano de Cuba, que se especializou em sparghetti, macarrão e raviolis, em tagliatelles, tortellini , cannellini ou farfalloni , sem esquecer a saborosa focaccia  da Liguria.
 Gere por sua conta e da mulher Fiordaliso,  a Trattoria Santo António, em Marghera.
-          Piano, piano, se va lontano ! Diz…
-          É vero. Arriverderci, Augustus !!!!
 
Veneza Giulia, Fevereiro, 2008                                                       Mealhadatemas.blog.com                                                    

 

 

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Tuesday, March 4, 2008

SANTO ANTÓNIO DE LISBOA

  


   

CRÓNICAS LOCAIS-52

Ferraz da Silva

 

 - Desculpe , sorella,  onde nasceu Santo António ?
A irmã , que caminhava de olhos pregados no chão em passo leve e miúdo,
fixou-me hesitante e ante a postura respeitosa á qual tinha subtraído  um clássico chapéu de coelho curtido que me havia custado uma fortuna na praça de S. Marcos, respondeu duvidosa:
- Suponho que em Lisboa, mas é melhor perguntar no centro de estudos antonianos ao lado da sacristia.
-Grazzie mille ,sorella e buona giornata…
Atrás de nós o santo , por pura intercepção da sua imagem mais de quantas estátuas, orações e amuletos que se espalham em volta do seu altar que por si só faz das nossas igrejinhas mini templos, testemunhou este pequeno diálogo e calou-se. Ao fim e ao cabo eu pretendia apenas testar a sabedoria da sorella e provar se entre tanta gente nem uma freira , devota a coisas dos altos céus, conheceria a identidade do nosso casamenteiro Fernando de Bulhões. É que também Antonella Giuspinni, por exemplo, a minha anfitriã na rua de S.Polo, que é como eu  amante da Lualdi ,  Felinni,  de Sicca e de Sofhia, pessoa esclarecida em termos religiosos, desconhecia a origem do grande milagreiro lusitano e muito admirada ficou quando lhe disse, pouco confiante em que me acreditasse aliás, que se tratava do grande Santo António de Lisboa. 
 Mesmo a mulherzinha que me vendeu á sombra da estátua equestre de  Gattamelata, de Donatello, um Santo António de plástico emoldurado em lata  martelada me fez saber, quando lho perguntei, que o santo era de Padova e bateu-me o pé quando lhe disse que não, apesar dos quinze euros  que paguei pela fraca lembrança do orador.  A obra, de inspiração popular, é   igual a uns santinhos  de papel que existiam noutros tempos em Coimbra representando a imagem  da Rainha Santa encaixilhada sob o vidro, na mesma lata martelada, com um comprido   manto roxo donde sobressaía por volta do pescoço um vestido amarelo e depois , na cabeça, a coroa.
 Lembro-me muito bem. Do colo caiam-lhe meia dúzia de rosas encarnadas e daí o meu ingénuo crédito ao milagre de então, na idêntica proporção em que hoje o dou  á caridade dos avaros. Ainda há-de andar lá por casa em qualquer canto escondido essa velha relíquia da iniciação cristã familiar que era então um dos cultos mais seguidos do centro de Portugal ,  todos eles destruídos pelos interesses político conjunturais duma senhora de Fátima, agora  em adaptação acelerada ao low cost  das almas.
  Certo é que os Paduanos que lhe chamam ‘il santo’, ( o santo) lhe ergueram um descomunal monumento a partir de 1232 , um santuário que mistura materiais e estilos, do românico ao bizantino e ao gótico, em torres,   abóbadas, minaretes, agulhas, ângulos e recantos que lhe dão uma heterogeneidade epistolar. Em tudo oposto á vida e espírito do pregador que terá sido um  seguidor fiel da doutrina franciscana que enfim, na sua essência  primitiva, pouco ou nada tinha a ver com a opulência mundana !!
 Apesar de tudo , acho que os Paduanos deram a Santo António a dimensão e a magnificência que os seus compatriotas  apesar de se alimentarem de mitos, nunca  lhe poderiam dar e juntaram na cidade duas figuras que fazem parte da história universal. Uma da igreja, Il Santo, outra da arte, Giotto.
  Giotto era florentino, não paduano , mas ir hoje á cidade  e não ver a pintura de Giotto na Capela Scrovegni  é como ir a Roma , passe a expressão, e não ver o papa. Construída em 1303 por Enrico Scrovegni, com  a intenção de salvar seu pai ,acabado de falecer, do inferno de Dante descrito na Divina Comédia, a capela tem no seu  interior aquilo que poderá ser  uma pequena  proto-capela Sistina  da autoria de Giotto, onde o artista desenvolve em frescos admiráveis  a vida de Cristo considerados hoje a  sua principal obra prima. De  1303 a 1335, dedicou-se a este trabalho em honra da Madonna desenvolvendo-o em temas relacionados com a vida familiar  e a vida pública de Cristo , socorrendo-se da narrativa não só dos evangelhos oficiais, como dos evangelhos apócrifos.
  São duas figuras importantes com duas obras associadas que fazem de Pádua um lugar de paragem obrigatório para quem anda por perto .
Por mim, perdido pelas ruas desde as nove da manhã, resta-me voltar á estação ferroviária e retirar um bilhete para Santa Lúcia nas máquinas automáticas, curiosamente, com uma opção em língua portuguesa, coisa nem sempre vista por esse mundo fora .É já noite quando troco o comboio pelo vaporeto da linha um e balançando ao sabor das águas calmas do grande canal, vou relembrando aquela poesia de Augusto Gil , dita de maneira soberba pelo grande João Vilaret  nos velhos tempos da televisão portuguesa:
        Saíra Santo António do Convento
        A dar o seu passeio costumado
        E a decorar num tom rezado e lento
        Um cândido sermão sobre o pecado….
E já na entrada do Cá Arco Antico, dizia ainda para comigo num exercício de memória difícil .
        …o luar , um luar claríssimo nasceu
        num raio dessa linda claridade
        o Menino Jesus baixou do céu
        e pôs-se a  brincar com o capuz do frade…

 

Veneza, Fevereiro,2008                            mealhadatemas.blog.com   

       
 

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TERMAS DO LUSO

    CRÓNICAS LOCAIS-51
    Ferraz da Silva
   Quatro hotéis, várias clínicas de estética, spa’s, ginásios, dezenas de estabelecimentos comerciais, centros de investigação, parque industrial, mil empregos, saúde, beleza, bem estar, enfim cinquenta milhões para investir, se aparecer por aí um rei Minos, lembram-se do rei Minos… ???
  A propósito, ainda este ano me mascarei pelo natal e o meu neto comeu-a quando debaixo da barba branca, seguro da mística figura arremedei a voz grossa dum fadista de Lisboa e disparei, entrando de rompante  na sala de jantar :
   -Ah!… Ah!… Ah!… chegou o pai natal !!!!!!
 Olhou silencioso, depois admirado, espantado e finalmente encantado! Entre respeito e medo, não me reconheceu! Tem três anos …!  Não me desmanchei, mas  perante um sapatito pequeno,  piccolo, piccolo, que nem se via debaixo das bugigangas, relembrei os meus  magros tempos de criança e murmurei para comigo:
   -Não há fome, que não dê em fartura!!!!
    O Luso está na mesma.
   -Não há fome que não dê em fartura!!! Diz-se…
    E dei comigo a pensar:

  - …se até aqui era a concessionária das águas a enganar o Luso e o Concelho com as suas  promessas, agora é um executivo da Câmara politicamente alucinado que se junta ao coro, tentando vender aos eleitores a mesma cartilha que há vinte anos lhe vem sendo impingida pela concessionária , isto é,  sonhos, mentiras e  incumprimentos!

  Numas termas que, de degradação em degradação, caíram em agonia permanente, a fartura é tanta que o pobre não só desconfia, não acredita…!  Nem concessionária nem câmara têm crédito para oferecer seja o que for porque a verdade é que já não se pode acreditar   em quem não nutre o mínimo  respeito pelo factor humano dirigindo-lhes  sucessivas e  insultuosas lérias.

  O administrador sal que esteve na apresentação privada da estratégia encomendada pelo município para o Luso , pediu com todo o á vontade a paciência das pessoas para o seu próprio plano do Luso 2007 que já devia estar executado e nem sequer projecto tem. Segundo relata a imprensa que esteve presente, metendo as mãos pelos pés pediu ao Luso que se tranquilizasse, dando conta que a empresa não perdeu de vista a restruturação do Luso-cujo projecto previa o inicio das obras em 2007-pedindo paciência á população e tranquilizando-a ao dizer que brevemente o projecto começará a ser desenvolvido.
  É curioso que se tenha esquecido de que o plano apontava para 2007 como ano de inauguração e não do começo de obras, e é tanto mais sintomática esta afirmação na medida em que não se acredita que o administrador não saiba a calendarização dos compromissos da sua empresa . Também não se sabe se aquele administrador sabia ou não sabia, ele não o disse, se naquele momento a empresa ainda era propriedade da Newcastle , ou se já era   da Heineken, pois acabara de ser transaccionada mais uma vez, por tal motivo não chegaremos a saber em nome de qual empresa falava e prometia e não acreditamos que a  distraída Câmara da Mealhada o não soubesse. Soubesse ou não, calou.  É preciso dizer basta a políticas de branqueamento quer de incapacidades , quer de incompetências ou de preparativos de futuros actos eleitorais.
   Numa leitura transversal a vinte anos de promessas feitas, é legitimo concluir que se tratou de mais uma mistificação desta vez com a conivência e apoio duma autarquia que não entende nem defende os interesses do município. Não é que o plano estratégico não seja necessário , neste capitulo a câmara anda atrasada quatro anos, desde que lhe foi sugerida a urgência dum  plano e duma nova empresa para as termas, porém não é dum plano irrealista e megalómano que se precisa ,mas dum plano exequível, razoável, com alicerces, sustentação e credibilidade.
   É mais que oportuno saber até onde vai o apoio da concessionária á construção de quatro novos hotéis, se há bem pouco tempo vendeu o Grande Hotel que era um dos marcos da hotelaria do centro do país  e lhe pertencia ! Para quê mais quatro hóteis se a capacidade hoteleira instalada está longe de ser ocupada a cinquenta por cento ? Quem  delineou a estratégia conhece  a  realidade das termas do Luso ? Parece tratar-se duma brincadeira , não das brincadeiras de carnaval a que estamos habituados, mas  coisa mais séria e responsável !
   A Câmara da Mealhada, em termos políticos absolutamente ignorante e desnorteada em relação ao Luso e a uma politica termal, tenta lavar as mãos que tem completamente sujas por incapacidade na obrigação de fazer cumprir o plano Luso 2007, comprando ela própria uma estratégia para a qual não tem competência suficiente enquanto a concessionária da água de mesa for a mesma concessionária das termas e não definir ela própria até onde vai a sua intervenção, com quem, com que abertura , com que estrutura ou com que parceiros ,já que por ela própria também é há muito tempo evidente que não quer , não sabe, não lhe interessa nem   pretende intervir nas termas  .  Isto, que é tão claro como a água, para a Câmara da Mealhada é chinês, e tanto mais chinês desde  que em termos políticos se vendeu em definitivo pelos tostões litros.
  Se a concessionária queria intervir nas termas, não tinha vendido os terrenos para onde  projectava a modernização. Não tinha cedido o hotel nem deslocado o seu apoio administrativo para Vila Franca de Xira. A concessionária quer apenas vender água e levar os lucros  para fora do município, não quer mais nada.
  Para os sucessivos proprietários, umas modestas termas perdidas num cubículo da europa, internacionalmente desconhecidas, penduradas em negócios do liberalismo selvagem em que a desregulamentação e a impunidade dominam, servem para alguma coisa? Não pondo sequer a hipótese da sua sobrevivência, concluem que se isso não dá uns milhões, fechem-se. Depois, acabam por saber que é nestas termas que está pendurada a concessão da venda da água de mesa e aí, travam, mandam remendar o telhado, substituir três ou quatro banheiras partidas e não fecham a porta. Porque não podem. Têm medo. Pelo que se vê, sem razão, mas têm mêdo !
 E nós, nós autarquias, nós ministérios, nós governos, não temos uma concessão para discutir ? Ou nem aquilo que é nosso sabemos defender ??? Quem lucra ?????
  Na minha opinião, de positiva, apenas a presença da CCRC, disposta, com o quadro de apoio existente, a colaborar. Mais claro que a presença  não vejo como, mas será que os projectos , como se ouviu, aparecem ? Ou será sempre e só o escandaloso golf ao lado dos carris  e do barulhento nó ????
   Também como mera opinião, os autarcas  deviam ter a honestidade política suficiente para reconhecer os seus condicionamentos, demitindo-se, dando assim lugar a eleições antecipadas capazes de gerar, no menor espaço de tempo, um executivo capaz de perceber o sítio onde vive e aproveitar as oportunidades que surgem..
  Quanto ás termas, não há ninguém que as viva que não saiba, até empiricamente, dizer como começar. SAL e Câmara é que não querem entender.  Estranha cegueira !
Nervi,Fev.2oo8                                                                       lusotemas.blog.com

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O BI DO REI AFONSO

        CRÓNICAS LOCAIS-50

      Ferraz da Silva

     (…em politica, o resultado é tudo. Uma imbecilidade que casualmente alcança êxito é um rasgo de génio. O plano mais admirável, se fortuitamente se gorou, não passa duma imbecilidade.)
 Amélia, Rainha de Portugal

     Para mim, o melhor português foi Dom Afonso Henriques, ainda que não tivesse bilhete de identidade nem consciência sequer de o ter sido. Uma coisa porém é certa, foi o primeiro dos que depois vieram, após lutas recontros e batalhas, pela conquista dum território cobiçado, discutido palmo a palmo com o suor do seu rosto, num tempo medievo em que o povo não ia a votos mas a nobreza, que conduzia os destinos políticos do embrionário reino, pagava com a vida os riscos assumidos.

   Por isso também o nosso primeiro rei foi sepultado em Santa Cruz de Coimbra cheio de espadeiradas ressequidas e uma perna partida herança de Badajoz quando o atrevimento lhe foi além da chinela e ficou, como diz a história, com a lata da armadura entalada numa porta. Pagou caro o arrojo, sofreu com a mazela até á hora da morte!

    Teve o seu querer que era maior que ele próprio, vontade hercúlea, um sonho de grandeza, trabalho permanente e dádiva total. A vida por um condado, um reino por recompensa. Não sendo bruxo nem adivinhador, duvido que lhe tenha passado pela cabeça consciência dum futuro!

    Mais coisa menos coisa foi o que ouvi da professora Laurinda na minha pré-história no ensino primário e apesar da inúmera historiografia que li depois sobre o primeiro rei é ainda hoje, duma maneira sucinta, o que me fascina e encanta na sua rude figura de criador do reino. Um gigante.

  O reino prosseguiu a sua luta e instalou-se progressivamente no território e no tempo, fez uma história de feitos, de guerras e virtudes, sucessos e desgraças, de erros e omissões corporizado em três massas distintas, os que mandam, os que rezam, os que obedecem e que raramente, salvo por questões relacionadas com fundamentalismos, revoluções, alarmismo de poderosos ou ditaduras impostas, se uniram.

   Mas sempre que o fizeram criando oportunidades únicas para alterar e aperfeiçoar toda a comunidade, ou não souberam fazê-lo ou fizeram-no de modo a voltar sempre ao mesmo, adiando á massa dos que obedecem a chegada da cultura e da civilização, mantendo-os ordeiramente na miséria atávica e no limiar da pobreza que acompanhou reino e nação.

    Larga percentagem desta massa indistinta espezinhada, optou pelo silêncio e pela emigração e outra percentagem desta massa habituou-se ao engodo, á escravatura, á punição, ás correntes, ao horror das galés, ao perigo dos franceses, ao apetite comunista, á bancarrota, á precariedade. Uma China!

  Mas há outra coisa pior que é a sustentada debilidade económica em que vive esta massa, ainda hoje num Portugal CEE, orgulhoso de dez estádios de futebol, de inócuos tratados de Lisboa, de mentecaptas discussões sobre aeroportos e alheio ao interesse e bem estar da sua população.Com a bênção da superstição da massa que ora, a democracia é isto, mais a cómoda esponja sobre o oportunismo que em todas as eras tem acompanhado a massa do mais forte e mais essa subserviência económica dum povo oculto pela gesta dos heróis, ás vezes sábios.

   Esta dependência económica que mantêm mais de um milhão de portugueses com trezentos e trinta euros mensais e a maior parte dos restantes entre isto e o que vai até mil é que dá origem ao silêncio, á renuncia, á tristeza ou á desilusão, ao vazio instalado e á descrença que se multiplica. E se multiplicou sempre. É esta mesma dependência promovida por sucessivos poderes que os mantém há muitos séculos na ignorância, no esquecimento dos seus direitos, afastados do conhecimento, da redistribuição da riqueza ou da condição humana, em proveito de elites presunçosas que nunca conseguiram, em oito séculos de história, construir um estado de honestidade e de justiça, mas sim um condado de papeis, burocracia, hierarquias, exploração e subserviências, a seu favor e prazer. A monarquia primeiro a república depois.

  O triunfo dos porcos de George Orweell numa versão animals, Pink Floyd, uma caldeirada á portuguesa como não podia deixar de ser!

  Como diz o cantor Rui Veloso em entrevista recente, o português é cobardola, vive num clima de medo, é fatalista e conformado. Ninguém protesta nem exige nada
   Porquê?????

   Sem dizer tanto, pobre e acanhado, assiste de facto ao espectáculo indigno, indecoroso, indecente, que lhe dá dia a dia a massa do poder na disputa dos poucos lugares de distribuição da riqueza comum. A sopa dos pobres dos espertos, o dote do privilégio! Nas administrações privadas ou públicas, nas empresas, nas assessorias, na CEE, donde recolhem, não sabemos porquê, boas fortunas. Administradores, políticos, corporações e oportunistas, como monarcas, fidalgotes, morgados e caciques doutras eras, gerem entre si este nebuloso mundo onde os segredos são muitos e os escrúpulos parecem ser nenhuns mas a vida, pelos vistos, uma libertação e um paraíso, aberto aos  sobredotados  que nasceram de cu virado para o sol.

  É inaceitável que num país da nossa dimensão, um banqueiro, público ou privado, se reforme com somas astronómicas como as que tem sido anunciadas na imprensa diária ou que políticos se banqueteiem entre a administração e empresas muitas vezes peritas em especulação e despedimentos, donde auferem não poucas vezes rendimentos escandalosos. Cenários que o bastonário da ordem dos advogados teve a coragem de abordar mas que, por ninguém saber deles para além da vox populi , causam espanto e admiração entre os ungidos. Tal qual como na morte do rei D. Carlos, já que estamos no centenário do regicídio, fora o Costa e o Buiça, mortos, ninguém soube de nada! Vergonhoso!!!

   Para mim, que sou do tempo das magrezas salazaristas e seu inimigo natural, que redigi uma declaração anticomunista para ter trabalho que havia, trata-se de ostentação, de despotismo e de abuso de poder sem escrúpulos e da constatação que em Portugal, deste as primeiras benesses distribuídas pelo mestre de Avis, entre as quais as do santo Condestável que por pouco não recebeu Portugal inteiro, nada mudou.

Heróis baratos, só o povo anónimo!!!

 Sem querer legitimar seja o que for, um pateta salteador de bancos por conta própria, põe uma meia na cabeça, empunha uma arma de fogo, a sério ou a fingir e arrisca a vida para hipoteticamente trazer do caixa uns trocados que lhe dão jeito mas que não deixam de ser trocados para as administrações. Está como o Rei Afonso, arrisca-se a morrer com um tiro, a ficar sem uma perna, um braço, ou malhar com os costados na cadeia toda a vida. Outros contudo, nada arriscam!

 Pergunto-me sobre a rejeição dum Salazar no campo de valores, ainda que alguns me não dissessem nada. Mas a revogabilidade de coisas tão simples como a educação, a disciplina, o equilíbrio e a justiça, valores insensatamente delapidados desde a abrilada, deixam-nos suspensos e frustrados sobre a liberdade adquirida.

   Sobre os valores se impôs um novo rei, o dinheiro e a sociedade globalizante deitou por terra as humanizações e caminha cada vez mais para a bestialidade. É o preço da riqueza concentrada perante a pobreza geral. Filhos da mãe e filhos da outra!

  E o povo, não reage? No caso do povo português, que nunca foi educado no apuro da sua capacidade critica, mãe de todo o desenvolvimento, baixa a cerviz, tira o chapéu ao rei engolindo uma obscenidade e, como diz Rui Veloso, não protesta nem exige nada, emigra, aguenta no silêncio as injustiças da vida, vai a Fátima a pé por promessa de melhores dias, vê o Benfica ao domingo a coxear e agoniza as suas dificuldades na ancestral nostalgia que originou o fado, enquanto lhe entra em casa via televisão, a pindérica riqueza dos show boys e as mamas, em silicone, do jet set rafeiro que não tem onde cair morto nem instrução, cultura , conhecimento, civismo ou  educação. Macarrónico!!!!

  Não afirmo que falte um Salazar, não afirmo isso, mas que falta um herói como o nosso Afonso Henriques, isso acho que sim. É o melhor! Em meia dúzia de fossados, era bem capaz de correr tudo á espadeirada e dar a todos, como bom português, o mesmo bilhete de identidade.

  Já agora, electrónico!

   Luso, Janeiro, 2008                                                         mealhadatemas.blog.com

     

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A JUNTA TURISMO E TERMAS CARTAXO


   Ferraz da Silva 


    
Mal acabara de festejar a entrada do novo ano com um bízaro Lucky Look do meu amigo Soares, o melhor entre os melhores, atrevia-me a dizer, quando me entra casa dentro a noticia do fim de mais um organismo do concelho, curiosamente mais uma instituição da freguesia do Luso, a Junta de Turismo. Era coisa que estava prometida, mas a situação de ter passado em tempos por administrador delegado deste órgão, mais o facto de ser oriundo do pequeno pólo turístico do concelho, acarreta-me um sentimento de perda duma referência difícil de substituir no imediato.
Apesar da instituição estar prestes a atingir cem anos de longevidade, nasceu em 1922, não quero no entanto derramar lágrimas de saudade sobre um órgão que cumpriu literalmente as suas funções enquanto funcionou e que, alteradas que foram as premissas, as necessidades e as dimensões do presente terá que ser naturalmente modificado e ajustado ás condições dum século novo que entra de pés para a frente, mais ou menos ás cegas, numa globalização em busca de ordem e regulamentação.
   È aqui apenas que nos podemos chocar com as certidões de óbito, isto é, com a morte prematura de alguma coisa que não foi substituída por nada equivalente e fica órfã por tempo indeterminado. Ou para sempre. E é também aqui que voltamos a chocar-nos com a displicência dos responsáveis políticos uns, da administração central por começarem as obras pelo telhado, outros, os da administração local por não saberem, nem terem, face á destruição dum órgão importante para o município como é o órgão do turismo, uma ideia, um projecto, uma solução, uma alternativa, coisa que se discuta, se proponha e se exija ao novo poder de forma séria e categórica como a tradição, a experiência e o pioneirismo do turismo no concelho exigem. Tal como no SPA 2007, lá vai a Câmara da Mealhada a reboque do facto consumado, sem ideias nem projectos, desarmada e muda, metaforicamente aligeirada para se representar no préstito alegre e desportiva, como já fez com as termas. De casaca e de fiacre.
   Porque ao fim e ao cabo nos parece que é indispensável a continuação de algo que substitua, seja com que nome for, a Junta de Turismo, é penoso verificar que nem ideias há, quanto mais esperança de ver alguém lutar por elas.
   Curiosamente, isto passa-se no mesmo Luso e Buçaco que a autarquia município faz questão de sistematicamente abandonar em todas as suas dificuldades como dum jogo de futebol se tratasse á mercê dum apito doirado do cata-vento camarário a brincar levianamente com o núcleo fundamental do turismo concelhio! É que elas são, infelizmente para a autarquia, tantas as coincidências, que dá para pensar e duvidar das boas ou más intenções de quem ocupa os lugares.
    Senão vejamos:
    Pelo dito SPA 2007, a Câmara calou-se numa atitude politica covarde, nada fez; pela barragem do Vale da Ribeira, idem aspas; pela recuperação da zona central do Luso ainda que venha a fazer não resolve o problema; pela chamada Quinta do Alberto, nada vai fazer, é questão que continua; pelos maus cheiros da baganha, idem; pela deficiente iluminação da vila, nada; pela Mata Nacional, é o Estado; pelo Centro de Saúde, é o Estado; pelo campo de golf, aproveita o Luso-Buçaco para o fazer na Pampilhosa; Junta de Turismo acaba, não tem qualquer ideia (renascerá na Pampilhosa?).
 Convenhamos que são muitas coincidências para a freguesia do Luso e área do turismo em particular das quais a autarquia se alheou completamente. Face á incapacidade constante sobre questões tão importantes para o município, pode-se mesmo presumir haver políticos na Câmara que desejam e se satisfazem com a destruição a que vimos assistindo, sobretudo quando essa destruição recai, como tem acontecido e disse, sobre a freguesia do Luso. A sua actuação recheada de secretismo, de incapacidade de diálogo, de incompetência, perante questões cruciais para a vida publica são disso testemunho, enquanto se põe politicamente de joelhos ante a concessionária das águas, ou promotores turísticos privados, caso do golfe, cujo investimento que se propõem fazer é zero. Àqueles que tem investido centenas de milhares de contos, a esses, não consta que a câmara tenha ajudado, bem pelo contrário!
   Esta autarquia está politicamente podre, doente, morta e não serve os interesses dum município cada vez mais fechado e pacoviamente isolado no contexto da Bairrada e do centro. Não interessa esta maneira de trabalhar, de fazer as coisas, de tratar o cidadão.
  Que pensar da passividade dum executivo moribundo, ante a força e vivacidade demonstradas pelo vizinho concelho de Anadia a lutar, de autarquia á cabeça, pela defesa das suas urgências? Ou do seu plano director? Ou do leitão á Bairrada, que é de todos, não venham uns burocratas da CEE degolar, á nossa frente, a galinha dos ovos d’oiro enquanto aqui se discute se é da Mealhada ou da Bairrada!  
  Que pensar do trabalho profícuo do município vizinho de Cantanhede que iniciou á dez anos o mesmo parque intermunicipal de Murtede Pedrulha em conjunto com a Mealhada, que já o tem feito com boas estruturas e algumas boas empresas enquanto o imobilismo da Mealhada gerou, no mesmo tempo, o pouco ou nada que lá está? A competência tem que se medir e parece-me, não há melhor maneira de o fazer, do que esta, neste caso, tempo e espaço em completa evidência.
  Já no caso da concessionária das Termas do Luso, na situação de incumprimento do  Spa 2007 (era um spa , para que não restem dúvidas) fica-se sem saber se a Câmara da Mealhada tem optado por defender os interesses da população do concelho se os interesses da Scottish and Newcastle, parece-me que é assim que se escreve,  pois continua a pactuar com  os adiamentos crónicos das promessas , sem pulso para exigir o cumprimento da palavra dada ou  seja continua a ser levada  pelos experts da Newcastle que assim vão levando a água ao seu moinho  num engano permanente aos  provincianos locais.
  Á fogosidade de Anadia, contrapõe o fracasso, a desilusão, a desistência, ao trabalho de Cantanhede a burocracia e o imobilismo, porque a verdade é que não há políticos á altura para resolver os desafios que se colocam ao município.
  Na continuação do excelente bísaro, do meu amigo Soares, vim a saber também, pelos jornais do concelho, que afinal a propaganda das quatro maravilhas já tinha chegado ao Cartaxo e á Arruda dos Vinhos. Parabéns!
   Em relação às termas do Cartaxo, o Vasco Santana foi pioneiro com o Pai Tirano do saudoso Lopes Ribeiro ou com a Canção de Lisboa, se me não falha a memória, mas foi coisa que sinceramente, nunca vendeu quartos, se vendeu foram quartilhos!
   De qualquer modo já se fica com uma ideia das maravilhosas ideias da Câmara da Mealhada para a promoção turística. De espantar! Continuem que vão longe !
  Vejam só, a Junta de Turismo Luso-Buçaco , há dezenas de anos  a gastar um dinheirão na  BTL  e nunca se lembrou do Cartaxo! E esta?????
  Perante mais este ovo de Colombo saído da cartola do executivo municipal, só nos resta calar a voz e rendermo-nos á iluminação evidente dos seus catedráticos políticos!
  Como dizia o Marques da Silva, no tempo do Bairradina, Bom ano!
Mealhadatemas.blog.com                                                                  Janeiro,2008

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