Tuesday, May 5, 2009

CRIME NA NOITE ESCURA

RÓNICAS LOCAIS

 

CRIME NA NOITE ESCURA-71

 

Ferraz da Silva

 

 

   O Rui deitou o fogo a umas ramas de acácia que alguém cortou e inadvertidamente deixou no mesmo lugar. No primeiro dia da primeira vez, chamaram os bombeiros que acudiram prontamente e rapidamente debelaram o fogo que, não sendo coisa de alarmar, corria o risco de se propagar.

 Porém o Rui, que tem zonas do córtex frontal absolutamente danificadas, ou porque não ficasse satisfeito com a rápida extinção das chamas ou porque não tenha atingido a vingança programada, dois dias depois, pela segunda vez, ao passar no mesmo local a caminho de casa voltou a incendiar as ramas de acácia velha já anteriormente incendiadas, mas agora quis a sorte, ou o azar do Rui, que o seu acto fosse observado por um vizinho que o advertiu e denunciou.

 Depois dos bombeiros terminarem mais esta acção de rescaldo dos restos das sobreditas ramas de acácia austrália, o Rui, também vulgarmente conhecido por Xira, ou Chira, confessou o crime e foi levado pela policia para o posto do município e presente ao tribunal de Águeda onde ficou preso preventivamente pela sua acção criminosa.

  Em traços largos foi o que aconteceu e no dia seguinte o jornal nacional de maior circulação deste país, informava, a bem das estatísticas e da eficiente captura policial de foras da lei, que fora apanhado e levado a tribunal um perigoso incendiário de trinta e oito anos de idade.

 Eu conheço o Rui. A bem dizer toda a gente conhece o Rui, ainda bem que ficou na prisão preventivamente, pelo menos terá direito a comer, a dormir, a tomar banho e descansar na tarimba umas boas horas da sesta, gozando o fare niente e o bom trato. O Rui bem precisava de férias, quiçá, as férias duma vida por conta do Estado de direito. E de barriga cheia. Finalmente!

  Numa noite do verão passado, regressava eu a casa no fim dum passeio estival quando ouço aflitivamente a sirene do 112 que se dirigia na minha direcção. Estuguei o passo porque distingui cem metros á frente e na beira da estrada, um corpo estendido. Era o Rui e mal eu cheguei ao local parou junto de mim a ambulância, cujos operadores, depois de verificarem a personagem comentaram que era a segunda vez que o vinham buscar. Vinho? Perguntei. O que havia de ser? E levaram o rapaz mais uma vez quando não dava sinal de voz, naturalmente fingido e desejoso, na sua etérea condição, de dar um tranquilo passeio de automóvel. É natural ter feito sete ou oito quilómetros a pé, no regresso, para gozar este prazer da sua mente afectada, mas que é uma maneira própria de interagir com o meio, isso é verdade.

Á dois anos, como acontece todos os anos, tinha o meu quintal a transbordar de silvas e, lembrando-me que o Rui me tinha perguntado havia pouco tempo se tinha algum biscate que fizesse, chamei-o ao local e propus-lhe o corte das silvas por empreitada. Acordamos o preço, a data e o pagamento, metade a meio do corte, outra metade no fim depois do trabalho feito. Líquidos, só água e ferramenta, a meias.

Era uma manhã de segunda-feira, oito horas, Maio ou Junho, não me recordo bem, quando o Rui apareceu para fazer o trabalho, sem ferramentas e a fumar cachimbo. Que não, naquele dia não poderia ser e metendo os pés pelas mãos na sua irresponsabilidade nascitura, convenceu-me que as silvas ficariam por cortar, não fosse eu tirar-me de cuidados e fazê-lo por mim próprio.

 Mas o Rui tem um nunca acabar de histórias, não sei se alguma com honras de jornal diário como esta, mas sem dúvida todas elucidativas e a atestar a sua falência emocional, os seus descontrolados impulsos e a sua falha afectiva e de razão.

  Não precisamos ir a Descartes, Punset ou Damásio para concluir das deficiências natas do Rui, ampliadas e agravadas pelo meio e ambiente onde se insere a sua participação, afinal, neste espectáculo grotesco do mundo em que vivemos, tão grotesco que o define, num jornal nacional, como perigoso incendiário. Quando afinal, me parece que seja mais vítima que outra coisa, vitima duma sociedade alienada á força do dinheiro, do stress , da agressividade, do individualismo. Vitima duma sociedade dirigida pela especulação desenfreada, pela ganância de elites de malfeitores, caracterizada pela agressividade, falta de respeito para com o próximo, pela falha dum sistema de saúde que não dá ao cidadão comum, hoje o cidadão low cost, o direito á saúde, ao tratamento,

apenas acessível, tal como a justiça , a ricos .

  O Rui, ou Xira, digo-vos eu, não tem, nunca teve, refeição certa. Nunca teve telha segura, nem um apoio, uma mão interessada, nunca obteve, provavelmente, um gesto carinhoso dum familiar ou amigo, nunca foi visto por um psiquiatra ou até por uma instituição estatal que lhe verificasse a saúde do corpo e a saúde da mente. Ao Rui, como a um cão, dá-se talvez um pontapé, um riso irónico, um cobertor e um monte de palha para deitar os ossos. Como pode surgir num noticiário nacional como um incendiário? Um irresponsável, ainda vá, um incendiário, não concordo. Não se poderá perguntar, por outro lado, se os incendiários não somos nós, todos os outros?

 Incendiário para satisfazer as policias que fizeram um bom trabalho ao captura-lo? Incendiário para termos um bode expiatório que nos consola intimamente a substância, nos alivia a alma e satisfaz a agressividade? Incendiário para comodidade dos déspotas e tiranos deste mundo selvagem ?

Serão insondáveis os desígnios da alma humana, hoje largamente identificada apenas com a mente? Não tanto assim, amanhã saberemos, mapeado que esteja o cérebro, as razões que por agora, muita razão desconhece.

 Ainda bem que o Rui ficou em prisão preventiva. Os dias em que lá estiver, tem comida quente, a tempo e horas, em cima duma mesa! Como raramente tem !

 Apesar disso, vale a pena perguntar se num país onde os criminosos não ficam em prisão preventiva, onde os ladrões andam á solta a roubar ainda mais do que roubaram, onde as pressões do poder, politico, judicial, ou económico não se julgam, onde o sentido de Estado se transformou no interesse individual de corruptos e oportunistas, porquê prisão preventiva para o Rui quando apenas precisou desde criança dum psiquiatra ou dum neurologista que lhe acompanhasse os neurónios.

Sem aplausos para o acto em si, preventiva por fogo posto!? Anedótico!

 Em Portugal, Europa, Século XXI. Abril/2009

águasdoluso.blogs.sapo.pt

Posted by peter at 22:07:01 | Permalink | Comments (1) »

PASSEIO TERMAL

CRÓNICAS LOCAIS-70

 

PASSEIO TERMAL, LUSO-LONGROIVA

 

Ferraz da Silva

 

No verão de 1902/03 o rei D. Manuel II, então príncipe, passou pelo Buçaco num passeio de estudo e deslocou-se em seguida para Penacova, por Coimbra. O rei tinha a mania de anotar nos seus cadernos de apontamentos as distâncias percorridas e anotou 50,8 Km. N’outro passeio á Serra da Estrela dirigiu-se de Mangualde para o Buçaco e anotou nos mesmos cadernos 140,9 Km e, seguindo do Buçaco para Tancos anotou a distância de 180Km.

 Nestes princípios do século passado o Buçaco era uma estância em desenvolvimento acelerado e o Luso recebia muito mais utentes do que hoje apesar das termas se resumirem ao edifício antigo , aquele que veio a existir até 1934.

Se nesta época remota as viagens eram difíceis pelas estradas existentes, o caminho de ferro abria as portas da liberdade a muitos citadinos, sobretudo a uma Lisboa habituada a ir ás hortas ou a ir a banhos a Belém, donde vieram muitos dos que engrandeceram as Termas.

Cento e sessenta e dois quilómetros de boas estradas separam-nos hoje dumas pequenas termas que se estão igualmente a engrandecer, Longroiva, concelho de Meda, no distrito da Guarda. Vamos a Santa Comba, Mangualde, Celorico, Trancoso, á aldeia medieva de Marialva, muito bem aproveitada para o turismo e num pulo encontramos adiante e á esquerda a cortada para Longroiva, um, dois quilómetros se tanto.

É a primeira vez que deixo o rumo de Foz Côa para ir ao coração da aldeia. Na região, as amendoeiras começam a florir e na paisagem agreste renasce esse esplendor do vestido branco e rosa com que se ornamenta a natureza na hora da criação. Logo após uma pequena subida ziguezagueando, surge o velho edifício termal, logo seguido do novíssimo e ainda pintado de fresco, estabelecimento renovado. Á frente, uma placa indicativa do apoio recebido da CEE e levantando a vista, acima  das palavras, vislumbra-se a silhueta austera do velho castelo ao lado da torre sineira da igreja matriz.

Longroiva é uma aldeia interior, perdida entre Trancoso, Meda, Foz Côa, Castelo Rodrigo e Almendra mas é, pelas suas águas termais, uma princesa da região. Sulfurosas, são conhecidas desde a ocupação romana do território, serviram estes e o reino e, passando por vicissitudes várias, estão hoje ao serviço da república.

Não há um hotel, não há uma pensão, os termalistas alojam-se em casas particulares e os vizinhos deslocam-se das suas próprias terras em vai vem mas, graças á perspicácia dos naturais e ao apoio declarado da sede do concelho, construíram um estabelecimento termal novo de se tirar o chapéu, cómodo, qualificado, dotado do moderno equipamento de termas clássicas e preparado para assumir variadas vertentes.

 Diz na placa que custou cinco milhões de euros com a ajuda da CEE e da Câmara, o dobro portanto, anunciado para a requalificação do Luso.

Chegado aqui, devo acrescentar a título de comparação, que recentes intervenções em termas custaram ou vão custar 80 milhões de euros em Vidago, 60 milhões de euros no Vimeiro, 30 milhões de euros em Monte Real, 10 milhões de euros em Unhais da Serra, 15 milhões de euros na Cavaca (Sabugal), etc, etc…É público.

O caso leva-nos pois a questionar mais uma vez e com legitimidade o que se vai fazer no Luso com 3 milhões de euros (dois milhões, palavras do administrador, se se conseguir fazer com esse dinheiro) investimento que, soube-se também, é em exclusivo da Sociedade das Águas. O que é no mínimo curioso!

 Pois eu proponho-me antecipar o cenário termal do Luso, seguindo á regra o projecto apresentado pela concessionária e seu parceiro que, pela amostra, pouco parecem perceber do negócio das termas. Basicamente é assim:

a) as termas clássicas, isto é, aquilo de que o Luso vive desde o séc. XIX e XX, vão ficar reduzidas á actual buvete termal uma redução para um terço em área.

b) a actual zona dos tratamentos e banhos , portanto o corredor que liga  a entrada á buvete, vai ser desmiolado e ali  construídos dois mega SPAs ( ?) em 480 metros quadrados, que é a área deste espaço. Ridícula a palavra mega e SPA !

c) o edifício da fisioterapia vai ser dividido em duas partes , uma parte para continuar a fisioterapia, outra parte para instalar uma clínica dentária sem quartos, os doentes terão que se hospedar  no grande hotel, presume-se…

Pessoalmente tudo isto me parece um absurdo, tudo me parece uma brincadeira, tudo leva a crer que não há consciência do que se está a fazer.

Reduzir o espaço das termas clássicas é reduzir automaticamente a maior parte dos aquistas no Luso, que foram pouco mais de mil em 2008 e, já ouvi a excelentes especialistas que, unicamente no espaço da buvete, poucas hipóteses existem de atender mais de 500 utentes.

Reduzir o espaço termal a umas termas que já são das mais pequenas do país é claramente encolher a estância e logo, dizer não ao segmento tradicional dos frequentadores, aqueles que, por se hospedarem em qualquer lado, sempre foram o fermento da vila.

 Além disso a qualidade, o conforto, os cuidados, o atendimento, irão agravar-se e a recuperação para os três mil aquistas que o Luso ainda não há muito tempo tinha, vai ser uma miragem, pois irá acontecer o contrário.

Em relação ao SPA, anunciado como mega SPA, é do conhecimento geral que em 480 m2 isso não é possível, portanto aqui, ou trata-se de falta de conhecimentos ou de engano deliberado dos promotores. Pois se a concessionária vendeu os terrenos e construções onde o prometeu fazer, como o pode fazer agora? Só readquirindo aquilo que vendeu! E que clientes para o SPA que vai começar dum zero perante um termalismo clássico que potencialmente atinge um horizonte de 3.000/4.000? Com um vinha o outro e com o outro, quantos vem??? De resto, chamar SPA ao que está desenhado no projecto só por brincadeira se pode levar a sério!

Quanto á terceira parte, a clínica dentária, vai nascer segundo o mesmo projecto, em metade da fisioterapia. Mas se aquele espaço já é de si acanhado para as funções que tem, como vai suportar ainda uma clínica? Clínica pressupõe doentes. Onde se vão instalar? No Hotel. Concluímos que os prováveis clientes serão oriundos dum segmento alto da população, por isso serão seleccionados e poucos, não havendo qualquer garantia de que venham. Não que estejam a mais, mas porque não substituem os tradicionais, que animam a terra. Uns e outros são precisos mas uns são certos, outros não.

Tudo continua a indicar que a concessionária não percebe ou não quer perceber o problema do Luso e vai tentando furtar-se, com o apoio da Câmara da Mealhada, ao cumprimento das suas obrigações.

Toda esta tentativa de meter o Rossio na Betesga não será mais que liquidar as Termas? Desenvolvimento, isso, seguramente não parece e lavar a cara, não resolve.

Perante este cenário que pode ser destruidor para o Luso a Câmara da Mealhada, representante dos eleitores e dos interesses do município o que faz? Em vez de se colocar ao lado dos seus interesses, exigindo o cumprimento da concessão termal, opta por estar conivente com os objectivos da concessionária num protelamento constante das questões e em mini projectos que atrofiam a estância.

O Presidente da edilidade socialista pode dizer, como já disse, que nada percebe de Termas, mas não se pode escudar nesse desconhecimento da forma leviana que faz, para se furtar a incómodos. Se não sabe procure quem saiba! Não se pode calar politicamente por 60,70,ou 80 mil contos que o Luso lhe arranjou em Contrexeville e aguardar impávido e sereno pela morte definitiva da estância termal. Pela via politica, ou pela via judicial, há que colocar em causa as intenções da concessionária e pôr em causa, se necessário for, a concessão. Doutro modo, não se pode aceitar! Não faltarão interessados se a Água do Luso vier um dia a concurso público!!!

 Quando voltei de Meda e de Longroiva, 324 quilómetros depois, trazia comigo os parabéns a municípios como Meda, Sabugal, Nisa, ou Covilhã, onde se luta pela defesa das terras, das pessoas, dos seus interesses, ao contrário do que acontece na Mealhada concelho onde a luta diária é pelo comodismo, pela inveja, pela destruição, pelo saloismo , pela conservação do lugar.

  E como o rei, que mal teve tempo para governar o seu malfadado reino, anotei nos meus cadernos estas mirabolantes promessas e a incúria duma autarquia que em vez de zelar pelos interesses dos seus cidadãos  os ataca como principais inimigos !

 

 

Posted by peter at 21:53:13 | Permalink | No Comments »


 CRÓNICAS LOCAIS

 

 Ferraz da Silva

 

  UM ALMOÇO LIGURE-69

   –Saímos juntos Júlia, saímos juntos! Se não te lembras eu sei, saímos juntos…com destino á Peneda, ou á Falperra, uma senhora… mas juntos !   O mutismo inicial dá origem a uma conversa animada, ás vezes de pouco nexo, ora quimérica como se estivéssemos a sair dum sonho, ora despojadas de conteúdo real como se antevíssemos um purgatório circunscrito ao horizonte visível, ora ásperas e desconcertantes mas sobretudo magras, secas, inconclusivas. Não raro a discussão, acordo e desacordo, coisa nenhuma. Se sós, antes do fim, se acompanhados, depois das despedidas. Como na vida de todos os dias limitados á perspectiva temporal, a verdade do nosso tempo, viveiro onde fermentam certezas, inquietações e dúvidas. Nunca aclaradas.   Subimos ás cegas ao lago de Rondanina no grande baixio dos mil e setecentos metros do monte Elba e dos cumes que alinhados em redor lhes despejam as águas. É uma cortina de picos na direcção do céu entremeados de valeiros que despejam enxurradas ao sabor da meteorologia onde abundam os javalis em varas de liberdade e alguns lobos.   Quando acabamos a volta em redor do imenso lago e começamos a descer, além das pequenas aldeias espalhadas pelas encostas, encontramos o aglomerado de Torriglia á roda do campanário ponta de lápis, não á moda octogonal da matitona mas redondo, afiado e pintado de ocre amarelo como todos os seus irmãos que avistamos ao longe empoleirados. Massena, o general do Buçaco, também por aqui andou em 1800 a travar batalhas que acabaram por dar a Napoleão e á França a posse da região e mataram definitivamente a república de Génova, onde nasceu Colombo.     Curiosamente o navegador tem dois berços afastados um do outro por uma dúzia de quilómetros. Um no centro histórico da urbe junto á Porta Soprana uma das conservadas entradas medievas da cidade. Tem o acontecimento gravado a ponteiro numa lápide e é o berço oficial do grande descobridor. O outro, doze mil metros depois, a levante,  é o embirrento empecilho da versão popular a empurrar a maternidade para Quinto um bairro entretanto integrado na cidade que ao tempo de Colombo seria apenas um ponto de passagem á margem da via Aurélia plantado entre a íngreme encosta e a beira-mar. Lá está ainda de pé a casa que os moradores locais não se cansam de apontar como a verdadeira casa de Colombo, Columbus de terra rubra, cor das calçadas com que é recoberto o chão das veredas que sobem e descem entre vertente e mar por escadarias íngremes, sinuosas, antigas e becos apertados nas gargantas. António Tabuchi, em Fio do Horizonte, conta isto muito bem. É hoje uma casa de retiro religioso protagonizado por uma ordem cristã com três freiras e missa pública aos domingos de manhã de porta aberta.   Torriglia , fica bem no interior montanhoso deste mar sereno  para onde correm em torrentes os dispêndios das nuvens. Não tem nomes de rios mas de torrentes porque tão depressa estão cheios, como secos, mais bazófias que o Mondego nos tempos em que corria livre e inundava os campos de Coimbra a Montemor-o-Velho.   Aqui, as torrentes descem dos Apeninos Ligures que caiem abruptamente sobre o mar de diversas altitudes e dão lugar a uma costa recheada de baias e enseadas ou de pequenos cabos e penínsulas que fazem portos rendilhados na rocha das vertentes, vistos de cima, lá de algum santuário da montanha, como de Stº Hilário, por exemplo, a lembrar um mini mundo de Gulliver, do sonho e de brincar com barcos e piratas do antanho. Velhos castelos lançados sobre as águas são testemunho fiel das lutas entre cidades mediterrânicas ou abrigos dos cruzados de Federico Barba Roxa, na senda da Terra Santa. Torriglia cujo crescimento tanto se deve aos bombardeamentos ingleses da última grande guerra, quando serviu de refúgio á cidade vizinha, como ao aumento de preço da habitação urbana nos dias que decorrem é onde encontramos a típica locanda  Becassa para matar a fome. Era já tarde, por sorte conseguimos um lugar e um almoço lígure onde não faltou a tradicional e proibida, coisas da CEE, mioleira frita, como o bolo de bacalhau, os peixinhos da horta, a costeleta de anho passada e frita á maneira local na companhia dum barbera de monferrato com origem controlada no outro lado da montanha, frutado, seco, macio como a planície do Pó, Alessandria e Pavia, donde vem e … nada de massas.  Agitamo-nos depois em discussões filosóficas, como sempre sem acordo visível enquanto na mesa ao lado, corrida a toda a largura da casa frente ao crepitoso fogão , decorre um animado convívio de terceira idade acabado entre brindes licorosos de limoncello e amareto e dum intragável licor de mirtilo da Certosa de Pavia, que fazem esquecer de momento o problema da falta de neve em pleno mês de Dezembro.  É que para toda a gente deste norte do Tirreno, governos incluídos, esta falta de frio e dos consequentes nevões, são uma verdadeira tragédia para o turismo local e consequentemente para as pessoas que dele vivem, mesmo em Torriglia aonde não há pistas de esquiar mas onde não deixa de nevar em sinal de equilíbrio para uma boa harmonia de natal. Por estranho que pareça há países onde o mal de uns é preocupação de todos ainda que um papa qualquer vindo dos bárbaros do norte se esforce por meter o bico na esfera dos políticos sem senso e sem experiência. A vida real acaba sempre por pesar mais do que as sentenças, sejam terrenas ou divinas.  Na locanda, a minha amiga Júlia deixa-se enfim vencer pelo efeito do deus Baco na pura essência dum licor leve e tardio e remete-se ás tréguas que acontecem por uma esfuziante retoma de amores ameaçados. Tiro-lhe da bolsa em pele um pequenino frasco de eternity que lhe ofereci no último natal e perfumo-lhe a face e o pescoço como se utilizasse um cachimbo da paz. Encosto-a ao meu ombro e deixo-a adormecer instantaneamente durante cinco minutos, o tempo suficiente para recuperar dos etéreos efeitos da garrafa de barbera e consciencializar-se que tem os pés agarrados ao chão e que se cair, seguro-a num abraço. Peço a conta e pago. Consegue andar. Em silêncio começamos a descida. Um dia, penso, há-de ficar aturdida e presa a um oportunista qualquer que lhe contará histórias de encantar depois de a adormecer num dolceto ou num Bairrada, sem recuperação.  Connosco correm torrentes em cada prega dos vales saltando de pedra em pedra, de cascata em cascata num cantarolar adivinhado pelo ar condicionado. Fantasmas do crepúsculo desenham-se nas sombras da floresta nas curvas do caminho e os promontórios rochosos recortados nos picos transformam-se em figuras na nossa imaginação. É assim que nascem os gigantes, quando na beira-mar, adamastores.   Pelas notícias da rádio 19 começou finalmente a nevar qualquer coisa nos Alpes de Monte Carlo enquanto o mar se aproxima cada vez mais de nós antes de nos precipitarmos nele através de gargantas profundas defendidas pelas defesas acasteladas da cidade   Muito para trás de nós ficou a Srª da Peneda, Castro Laboreiro, Melgaço e Vila Nova de Cerveira onde á beira do Minho os peixes voavam desafiando as leis da gravidade antes duma noite de insónias, esquecidas que foram as pastilhas reni, digestivas e seguras para acalmar o estômago. E os nervos. Até amanhã. E adormecemos na Feira, como de costume.                                                 Torriglia, Dezembro,2006  

Posted by peter at 21:50:42 | Permalink | No Comments »