O MEU AMIGO FERROLHO
CRÓNICAS LOCAIS-64
O MEU AMIGO FERROLHO
Ferraz da Silva
O meu amigo Ferrolho morreu. Morreu subitamente. E porque era um homem bom, simples, amigo dum amigo, subitamente também senti um forte choque e lamentei comigo a sorte que lhe chegou na meia-idade, com vida para viver por alguns anos e família para gozar da sua companhia. Mas a vida não leva em conta estes pequenos nadas e faz de nós humanos, os ínfimos seres que somos, sujeitos á lei severa do universo. Afinal, frágeis chalupas á deriva, prontas a sucumbir em qualquer momento em mar calmo ou sereno, sem consulta marcada.
Foi o que lhe aconteceu, bom paginador que era!
Bom paginador, o António Ferrolho e se falo dele aqui, neste jornal que tem vinte e cinco anos de existência, é porque também o meu amigo Ferrolho esteve no inicio deste projecto e a este projecto deu o seu trabalho, a sua vontade, a sua arte, as suas horas vagas. Com carinho, acrescento.
As primeiras paginações do jornal da Mealhada foram deste homem, o que aprendi e aprendemos então, foi com este homem. Os conhecimentos que os poucos colaboradores do quinzenário adquiriram em termos de programas de PC (computador), foram deste homem. Foi ele que nos ensinou graficamente a fazer jornais. Foi ele que nos ensinou a bater texto, a fazer títulos, caixas, cabeçalhos, a fazer fotografia, a dominar o mínimo do page maker ou do fotoshop para inserir informação nas páginas e compor com carinho e com amor, como se fossem filhos, as primeiras edições.
Nessa altura, com o material a granel e umas ideias da sua distribuição por páginas desenhadas a lápis preto, em cima duma mesa na sede, compostas depois na FIG, algumas na sua casa, em Vila Verde, onde fui algumas vezes a solicitar auxilio, outras á pressa nas horas de aflição, quando nos falhava o material e nos faltava a sabedoria para fechar uma edição. Foi com ele que aprendi o suficiente para fabricar este pequeno produto.
É que este jornal, que agora me pertence apenas duma forma honorífica, (nem sequer uma espécie de honoris causa), onde o meu voto de fundador já não é preciso para funcionar, como aliás o dos outros fundadores, teve um princípio. Teve uma gestação difícil, discutida, partidarizada e finalmente fraccionada mas talvez por isso, por ter sido feito de arranques e retrocessos, de calma e agitação, de tentativas de aproveitamento, mas também duma liberdade que se foi impondo maioritariamente, nos tenha marcado com mais profundidade e criado dentro de cada um que o viveu, um amor invulgar que só agora o dinheiro, a mola destas coisas quando a politica retira o apoio á imprensa regional, que é o mesmo que dizer, retira a liberdade, acabou por tomar.
Não de assalto, tomou-o dentro da lei, mas não dentro da moralidade que o equilíbrio, a justiça, a posse e a liberdade do jornal teve. Isto é, o jornal agora tem dono, ou donos, acabou a mesa plural onde esgrimíamos nós, os vinte ou vinte e tal sócios, as nossas dificuldades e pontos de vista. Com alguns excessos, mas também com uma vontade férrea de continuar e continuar como era, não fossem vicissitudes que poderiam muito bem ser transponíveis ou evitadas.
Hoje, essa luta terminou, o jornal, nesse sentido que teve de criação, de ente, de filho, não existe, passou a ser alguma coisa que me diz pouco ou nada uma vez que se cortaram os laços afectivos ou os cordões umbilicais que nos ligavam. Dos muitos sócios que foram, poucos tiveram essa ligação tão íntima, digamos paternal com o periódico , desde o inicio e do seu primeiro director, também conciliador e grande amigo, o Prof. Armindo Pega que, sem escrever uma letra possibilitou o lançamento do mesmo.
Estas considerações, que não tem a ver com o motivo principal da crónica, são apenas para sublinhar que o meu amigo Ferrolho, enquanto tive alguma responsabilidade no periódico, esteve sempre ao dispor para ajudar no que fosse preciso embora, diga-se, o jornal lhe tenha pago o tempo dispendido. Porém há coisas, como a disponibilidade e a boa vontade, que o dinheiro não paga e há que reconhecer o interesse e a vontade deste homem que faz dele, na minha opinião e a título póstumo, um grande amigo do jornal, ao qual recorri variadas vezes para que o mesmo saísse a horas e a contento do leitor. Num tempo em que ninguém, de dentro, ganhava dinheiro para o por na rua, já que foi uma obra de amor, não de finanças ou interesses, pois o único objectivo foi dotar a Mealhada dum quinzenário que retratasse o concelho e lhe escrevesse os anseios.
Quando há meia dúzia de anos deixei o projecto, o conhecimento que existia era herdado dele e julgo que hoje, mesmo em termos gráficos, se regrediu e não se aprendeu mais nada do que deixou ficar, do que ficou do mestrado amigo e competente do nosso amigo Ferrolho.
É por isso que o António Simões Ferrolho, merece ser aqui recordado, aqui e em outros jornais vizinhos onde prestou com honestidade e profissionalismo, o seu trabalho. Na Região Bairradina, no Gandarez, no Jornal da Figueira, noutros que não recordo de momento e finalmente no Popular de Soure, onde acabou na semana passada.
Telefonei-lhe há um mês para lhe pedir um disco do fotoshp actualizado e para além de o encontrar bem, respondeu pronta e afirmativamente ao meu pedido, ficando combinado entre nós telefonar-lhe de novo para o ir buscar á FIG na hora do almoço, para juntos conversarmos uns minutos numa qualquer mesa da refeição na Pedrulha. Tal não aconteceu.
È que há dias, estando casualmente a escutar a Voz de Soure, coisa que não é vulgar nas minhas audições de rádio, ouvi a fatídica notícia da sua morte. Chocado, fiquei na dúvida e só um telefonema para o Diário de Coimbra acabou por confirmar a triste novidade.
Aqui deixo a minha homenagem simples a um homem que além de amigo pessoal, foi amigo da sua arte de paginador, dos bons que havia na zona centro e, acidentalmente um amigo do jornal que há-de ficar na história da sua génese, se algum dia existir história para contar.
Que descanse em paz!
Luso, Novembro, 2008 mealhadatemas.blogs.com