O HOSPITAL DA MISERICÓRDIA
CRÓNICAS LOCAIS-63
O HOSPITAL DA MISERICÓRDIA DA MEALHADA
Ferraz da Silva
Independentemente das pessoas, organizações, associações ou partidos políticos que estão na retaguarda de muitas iniciativas que se fazem por esse país fora, as obras levadas a cabo, quando se revelam úteis e de qualidade, devem ser merecedoras de louvores, solidariedade e apoio, não para premiar quem as concebeu e executou, mas para reconhecer, dentro dos parâmetros e valores duma sociedade civil, a utilidade que podem ter para o respectivo colectivo. Está neste caso o Hospital da Misericórdia da Mealhada cuja direcção e irmandade, ao dotar o concelho dum excelente hospital, merece os agradecimentos cívicos da população e o reconhecimento indiscutível da sua utilidade, da sua funcionalidade e da sua qualidade, dirigido em primeira instância, á comunidade concelhia. Não tem discussão, são factos.
Juntamente com a Misericórdia, munícipes e autarcas podem e devem congratular-se
com esta estrutura, senão mesmo agradecer á dita Misericórdia a dita obra que não só pode servir o concelho nas suas necessidades primárias na área da saúde, como apoiar, quando possível, uma região que se pode alargar a alguns concelhos mais.
Ao tempo do provedor Pato de Macedo, figura com quem partilhava algumas ideias frequentemente, escutei o anseio do seu sonho principal, que passava exactamente pela remodelação do velho hospital, no sentido de o transformar numa retaguarda de apoio aos doentes do município, mas também àqueles que, em fases terminais, necessitassem duma ajuda especializada em momentos difíceis, para os quais as próprias famílias não tem meios nem disponibilidade e nem conhecimentos.
Dentro da modéstia da minha opinião, sempre o incentivei na via da execução deste desejo nobre e esclarecido, pois também por experiência própria tinha presente uma situação familiar cuja vida terminou, por incapacidade doméstica, nas instalações antigas, já degradadas e quase abandonadas, da unidade hospitalar.
Redimensionado para melhor a obra está feita, há que reconhecer, com dignidade e qualidade indesmentível e a prestar serviços, pela experiência que já me foi dado observar, em óptimas condições.
Não posso pois deixar de reconhecer a extrema importância do hospital e concluir que, se bem entendida a dimensão do empreendimento, ela pode, mercê da nossa inserção numa zona centro vizinha duma unidade central, preencher uma lacuna que havia no município neste sector e assim solucionar de vez e por algumas décadas, os problemas da saúde, devidamente emparceirados com as unidades de Coimbra.
Por isto me admiro quando os autarcas, de uma forma que não compartilho nem compreendo, se manifestam contra um apoio sustentável á unidade hospitalar.
Se bem que no estranho mundo em que vivemos apareçam ministras a defender a passagem de ano de todos os alunos, quer saibam quer não saibam e ao mesmo tempo a obrigar os professores a uma rigorosa avaliação depois de trazerem um canudo das universidades, isso não quer dizer que o insólito e o absurdo se estenda a todo o lado como peste, por isso, neste caso particular dum município que, mercê do trabalho dos seus cidadãos se apetrechou qualitativamente no campo da saúde, um poder público lúcido, não tem mais que reconhecer o interesse e o bom trabalho da Misericórdia e dar-lhe o seu apoio. Justificações, neste caso, estão evidenciadas por natureza e o resto, não passa de enquadramentos jurídicos adequados. Se assim não fosse, como é que há autarquias que mandam os seus cidadãos a Cuba para serem operados? Aqui, sabemos, isso não acontecia. Antes a morte! Porque o que não há, é vontade política de assumir a responsabilidade dum papel para que foram eleitos os nossos autarcas e considerar as pessoas nos valores e necessidades que na realidade merecem.
No caso do hospital, se outras razões não existissem, existe o facto de não haver dinheiro que pague a saúde de ninguém, e por isso também não haver dinheiro que pague a prevenção, esta mais eficiente e necessária que propriamente a doença depois de manifestada.
Sei que a Câmara da Mealhada participou na construção com quinhentos mil euros, mas isso não dá o direito a qualquer autarca de se manifestar satisfeito e muito menos considerar ter cumprido o seu dever para com o cidadão que nele confiou. Porque devia ser claro que os autarcas eleitos estão para servir os munícipes, não para se servirem deles. Porém os edis agarram-se aos tachos, passe a expressão popular, com as unhas e os dentes e quanto mais tempo se empoleiram na cadeira, mais se julgam donos e senhores do território, dos lugares, dos empregos e não raro, também das pessoas. Com sobranceria e má educação, até…
Este desiderato político terá um dia que acabar e as pessoas terão de prestar contas dos seus actos, numa democracia aberta e participativa, ao contrário do silêncio e oportunismo que são o lugar-comum da maioria dos autarcas. Senão vejamos onde nos levou nos dias de hoje, a ditadura do silêncio, do oportunismo, do engodo, da desregulamentação, do individualismo!
Neste caso da saúde há que definir claramente o que é prioritário para as pessoas e o que não é, e por isso coloco algumas perguntas pertinentes:
Será melhor ter boas estruturas na área da saúde ou ter cinemas a trabalhar para ninguém com milhares de euros de prejuízo todos os meses?
Será prioritária uma urgência permanente para as pessoas, ou bancadas e relvados para meia dúzia de munícipes assistirem sentados aos jogos de futebol?
É isto apoio ao desporto, aos sentados nas bancadas?
Serão prioritários bons quartos num hospital ou semáforos espalhados pelos mais recônditos lugares onde provocam mais acidentes do que previnem?
Serão prioritários pavilhões ou boas salas de operações num hospital que nos acuda?
O Piddac para 2009, a título de exemplo, contempla uma verba de 70.000 euros para a recuperação de um cinema. Todos sabemos que a obra vai custar, entre seiscentos, setecentos mil euros e sabemos também que a associação proprietária não tem nem de perto nem de longe, a verba para a fazer. Quem vai pagar o que falta se o Estado, como o orçamento deixa antever, não comparticipar? Ninguém tem dúvidas, é a Câmara, apesar do edifício ser propriedade privada. Para lá da promiscuidade inerente, pergunto, o que é prioritário, mais um cinema para dar prejuízo á Câmara, ou apoio ao cidadão na causa hospitalar, quando caminhamos para um mundo de cada vez mais low cost e de menos qualidade?
Será também prioritário dar dinheiro a mercenários do futebol de fora do concelho, mais úteis que o hospital? Serão estas as prioridades mais justas? Serão mesmo as que pretendemos? E muitas outras mais se poderiam referir.
Em minha opinião, é preciso reflectir e tentar perceber quais são na realidade os interesses do cidadão e quais são de facto os investimentos prioritários. Coisa que a nossa edilidade, tanto quanto me apercebo, não cura de saber, agindo como se vivessem num Olimpo acima do comum mortal, utilizando o munícipe apenas para alicerçar a sua coroa divina. Tudo de barro, como outro caco qualquer!
Quanto ao Hospital da Misericórdia, não tenho dúvidas, é muito mau sinal o terminar das urgências, nocturnas que sejam, bem como o lavar das mãos, politicamente irresponsáveis, duma autarquia gasta e sem ideias. Á maneira do professor Marcelo, de quem não sou aliás grande admirador, parabéns Misericórdia. Cinco pontos, em cinco. Até para a semana!
Luso, Outubro, 2008 mealhadatemas@blog.com