Friday, November 21, 2008

O HOSPITAL DA MISERICÓRDIA

 

   CRÓNICAS LOCAIS-63

 

 O HOSPITAL DA MISERICÓRDIA DA MEALHADA

 

  Ferraz da Silva

 

     Independentemente das pessoas, organizações, associações ou partidos políticos que estão na retaguarda de muitas iniciativas que se fazem por esse país fora, as obras levadas a cabo, quando se revelam úteis e de qualidade, devem ser merecedoras de louvores, solidariedade e apoio, não para premiar quem as concebeu e executou, mas para reconhecer, dentro dos parâmetros e valores duma sociedade civil, a utilidade que podem ter para o respectivo colectivo. Está neste caso o Hospital da Misericórdia da Mealhada cuja direcção e irmandade, ao dotar o concelho dum excelente hospital, merece os agradecimentos cívicos da população e o reconhecimento indiscutível da sua utilidade, da sua funcionalidade e da sua qualidade, dirigido em primeira instância, á comunidade concelhia. Não tem discussão, são factos.

   Juntamente com a Misericórdia, munícipes e autarcas podem e devem congratular-se

com esta estrutura, senão mesmo agradecer á dita Misericórdia a dita obra que não só pode servir o concelho nas suas necessidades primárias na área da saúde, como apoiar, quando possível, uma região que se pode alargar a alguns concelhos mais.

   Ao tempo do provedor Pato de Macedo, figura com quem partilhava algumas ideias frequentemente, escutei o anseio do seu sonho principal, que passava exactamente pela remodelação do velho hospital, no sentido de o transformar numa retaguarda de apoio aos doentes do município, mas também àqueles que, em fases terminais, necessitassem duma ajuda especializada em momentos difíceis, para os quais as próprias famílias não tem meios nem disponibilidade e nem conhecimentos.

    Dentro da modéstia da minha opinião, sempre o incentivei na via da execução deste desejo nobre e esclarecido, pois também por experiência própria tinha presente uma situação familiar cuja vida terminou, por incapacidade doméstica, nas instalações antigas, já degradadas e quase abandonadas, da unidade hospitalar.

    Redimensionado para melhor a obra está feita, há que reconhecer, com dignidade e qualidade indesmentível e a prestar serviços, pela experiência que já me foi dado observar, em óptimas condições.

   Não posso pois deixar de reconhecer a extrema importância do hospital e concluir que, se bem entendida a dimensão do empreendimento, ela pode, mercê da nossa inserção numa zona centro vizinha duma unidade central, preencher uma lacuna que havia no município neste sector e assim solucionar de vez e por algumas décadas, os problemas da saúde, devidamente emparceirados com as unidades de Coimbra.

   Por isto me admiro quando os autarcas, de uma forma que não compartilho nem compreendo, se manifestam contra um apoio sustentável á unidade hospitalar.

  Se bem que no estranho mundo em que vivemos apareçam ministras a defender a passagem de ano de todos os alunos, quer saibam quer não saibam e ao mesmo tempo a obrigar os professores a uma rigorosa avaliação depois de trazerem um canudo das universidades, isso não quer dizer que o insólito e o absurdo se estenda a todo o lado como peste, por isso, neste caso particular dum município que, mercê do trabalho dos seus cidadãos se apetrechou qualitativamente no campo da saúde, um poder público lúcido, não tem mais que reconhecer o interesse e o bom trabalho da Misericórdia e dar-lhe o seu apoio. Justificações, neste caso, estão evidenciadas por natureza e o resto, não passa de enquadramentos jurídicos adequados. Se assim não fosse, como é que há autarquias que mandam os seus cidadãos a Cuba para serem operados? Aqui, sabemos, isso não acontecia. Antes a morte! Porque o que não há, é vontade política de assumir a responsabilidade dum papel para que foram eleitos os nossos autarcas e considerar as pessoas nos valores e necessidades que na realidade merecem.

No caso do hospital, se outras razões não existissem, existe o facto de não haver dinheiro que pague a saúde de ninguém, e por isso também não haver dinheiro que pague a prevenção, esta mais eficiente e necessária que propriamente a doença depois de manifestada.

   Sei que a Câmara da Mealhada participou na construção com quinhentos mil euros, mas isso não dá o direito a qualquer autarca de se manifestar satisfeito e muito menos considerar ter cumprido o seu dever para com o cidadão que nele confiou. Porque devia ser claro que os autarcas eleitos estão para servir os munícipes, não para se servirem deles. Porém os edis agarram-se aos tachos, passe a expressão popular, com as unhas e os dentes e quanto mais tempo se empoleiram na cadeira, mais se julgam donos e senhores do território, dos lugares, dos empregos e não raro, também das pessoas. Com sobranceria e má educação, até…

   Este desiderato político terá um dia que acabar e as pessoas terão de prestar contas dos seus actos, numa democracia aberta e participativa, ao contrário do silêncio e oportunismo que são o lugar-comum da maioria dos autarcas. Senão vejamos onde nos levou nos dias de hoje, a ditadura do silêncio, do oportunismo, do engodo, da desregulamentação, do individualismo!

   Neste caso da saúde há que definir claramente o que é prioritário para as pessoas e o que não é, e por isso coloco algumas perguntas pertinentes:

    Será melhor ter boas estruturas na área da saúde ou ter cinemas a trabalhar para ninguém com milhares de euros de prejuízo todos os meses?

    Será prioritária uma urgência permanente para as pessoas, ou bancadas e relvados para meia dúzia de munícipes assistirem sentados aos jogos de futebol?

É isto apoio ao desporto, aos sentados nas bancadas?

    Serão prioritários bons quartos num hospital ou semáforos espalhados pelos mais recônditos lugares onde provocam mais acidentes do que previnem?

    Serão prioritários pavilhões ou boas salas de operações num hospital que nos acuda?

    O Piddac para 2009, a título de exemplo, contempla uma verba de 70.000 euros para a recuperação de um cinema. Todos sabemos que a obra vai custar, entre seiscentos, setecentos mil euros e sabemos também que a associação proprietária não tem nem de perto nem de longe, a verba para a fazer. Quem vai pagar o que falta se o Estado, como o orçamento deixa antever, não comparticipar? Ninguém tem dúvidas, é a Câmara, apesar do edifício ser propriedade privada. Para lá da promiscuidade inerente, pergunto, o que é prioritário, mais um cinema para dar prejuízo á Câmara, ou apoio ao cidadão na causa hospitalar, quando caminhamos para um mundo de cada vez mais low cost e de menos qualidade?

   Será também prioritário dar dinheiro a mercenários do futebol de fora do concelho, mais úteis que o hospital? Serão estas as prioridades mais justas? Serão mesmo as que pretendemos? E muitas outras mais se poderiam referir.

     Em minha opinião, é preciso reflectir e tentar perceber quais são na realidade os interesses do cidadão e quais são de facto os investimentos prioritários. Coisa que a nossa edilidade, tanto quanto me apercebo, não cura de saber, agindo como se vivessem num Olimpo acima do comum mortal, utilizando o munícipe apenas para alicerçar a sua coroa divina. Tudo de barro, como outro caco qualquer!

   Quanto ao Hospital da Misericórdia, não tenho dúvidas, é muito mau sinal o terminar das urgências, nocturnas que sejam, bem como o lavar das mãos, politicamente irresponsáveis, duma autarquia gasta e sem ideias. Á maneira do professor Marcelo, de quem não sou aliás grande admirador, parabéns Misericórdia. Cinco pontos, em cinco. Até para a semana!

Luso, Outubro, 2008                               mealhadatemas@blog.com

 

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O ESTRANHO CASO DO CAMPO DE FUTEBOL

 

CRÓNICAS LOCAIS-62

 

  Ferraz da Silva

 

 O ESTRANHO CASO DO CAMPO DE FUTEBOL-1

 

   Não vou pedir ajuda ao famoso detective Sherlock Holmes nem á minha querida amiga Júlia, a criminóloga, que adoro cada vez mais, mas vou eu próprio deslindar, se é que isto tem deslindação (?), este insólito caso do campo de futebol a que chamei estranho, porque na realidade se trata, não de crime premeditado, mas de comportamentos afectivos, sentimentais e de casmurrice endémica a que a rotina conduz com o á vontade e abuso puro e simples dos poderes públicos instalados, como não podia deixar de ser, os eleitos dinossáuricos, mais bem dito apodrecidos, a que nos vamos habituando. Será que só vão de cadeira? Vamos ver!!!!!

 Corro o risco, sempre o mesmo, perdoem-me os leitores que não sendo muitos são bons, corro o risco, dizia, de ser acusado de repetitivo, cáustico, teimoso, mas gente mais teimosa que Sherlock Holmes ou o próprio Hércules Poirot eu não conheço, eles que, liminarmente, conseguem levar sempre a água ao seu moinho, coisa que eu, é notório, não tenho a capacidade de fazer, embora descasque a batata com as melhores intenções dentro do melhor espírito civico e tendo sempre na perspectiva os interesses do município. Na minha óptica, indiscutivelmente!

    Eu julgo mesmo que um homem sem opinião é como uma mulher sem atractivos e por isso insisto neste vício herdado do Bairro Alto, quando aproveitava algumas horas que me sobravam do trabalho diário para ajudar na revisão das provas do Diário de Lisboa e juntar assim uns cobres para ver umas revistas no Maria Vitória com a saudosa Ivone Silva e as pernas da Marina Mota, então uma garota. Era no tempo em que um artigo da Seara Nova podia por o Chiado em alvoroço e as pessoas desapareciam apalermadas com a chegada da pide, escondidas no primeiro patamar ou vão de escada, não fosse o diabo tecê-las e metê-las na ramona. Pela mesma época aqui no município, alguns travestidos faziam um pretenso jornal contestatário onde imperava mais a maledicência que propriamente a consciência politica, todo ele feito de empirismo e de inveja. Não teve grandes consequências, como não podia deixar de ser, viu-se.

    Mas chega de retórica e vamos aos factos:

    Apesar de mealhadense assumido, sou burriqueiro, como todos sabem e compreensivelmente, neste momento conheço melhor os problemas donde estou todos os dias que do resto do município, por tal motivo que me perdoem se a questão tem a ver mais uma vez com o Luso, embora eu considere que se trata dum caso de todos.

   Nesta deserdada terra existe um centro de estágios que foi construído objectivamente como estrutura de apoio ao turismo e um campo de futebol que era pertença do clube local, que a Câmara, mercê de dívidas assumidas á segurança social pelo dito grupo, acabou por comprar. Esclareço que não fez como noutros casos em que munícipes oportunistamente ensaiados pelo poder instalado, oferecem terrenos á câmara para que depois ela faça estádios, não, não foi assim, foi de facto pelo assumir de compromissos financeiros que a associação desportiva não tinha hipóteses de solver.

   Se fossem o Sherlock ou a querida Júlia, facilmente chegariam a esta primeira conclusão a que eu, não sendo nem uma coisa nem outra cheguei, mas basta andar algum tempo pelos meandros politiqueiros para se aprender este catecismo que faz parte integrante do abecedário da carreira. Tal como o lambe botas!

  Acontece que a Câmara, que trata do centro de estágios, abandonou o campo do pobre clube que passou a ser o pior do concelho e onde disputam todos os anos um campeonato qualquer, sujeito mesmo a que os organismos da bola o impeçam, por falta de condições. Eu falo um pouco desprendido do assunto pelo simples facto de não ser grande adepto deste desporto câmara-dependente, pois ainda hoje não quero entender porque se distribui dinheiro público, que é nosso, pelo futebol e não se distribui o mesmo dinheiro, nosso, pelas associações de cultura, mas o caso, verdadeiramente estranho do campo de futebol, tem a ver com a utilização do centro de estágios.

  Acontece que estranhamente, ao Clube Desportivo do Luso está vedado o acesso ao novo campo relvado, o dos estágios, enquanto por ali treinam semanalmente, quando querem, os atletas do Desportivo da Mealhada e os mercenários do Futebol Clube da Pampilhosa, originando uma inaceitável situação discriminatória entre associações concelhias. Isto é verdadeiramente um atentado aos mais elementares direitos do cidadão municipal que, ninguém tenha ilusões, amanhã acontecerá em qualquer outro local do município sobre qualquer outra questão. Escandaloso!!!

   Foi perante este estranho fenómeno do campo de futebol que indaguei e vim a saber que a ordem é transmitida ou retransmitida por um sujeito de Arganil, desconhecido no lugar, ex-prestador de serviços á Câmara, hoje edil numa estranha promiscuidade politica, e confirmada pela presidência da Câmara, apostada politicamente, como tenho dito muita vez e com razão, em enterrar as termas do Luso e apagar, em termos práticos, a própria vila. Indagando e reflectindo, não encontrei razões para que isto aconteça, como não encontrei razões para que o dito Centro de Estágios não tenha uma gestão capaz de o por a funcionar eficazmente.

    No inquérito levado a cabo e das diligências empreendidas, conclui igualmente que a nossa edilidade tem dificuldade em sair dos próprios aposentos e a prova disso é que no período das minhas indagações encontrei o plenário em reunião entre a meia noite e a uma hora da manhã em plena obra da Fonte de S. João, supostamente ás escondidas, tal como encontrei um vereador que não identifico para não molestar ninguém, em alegre patuscada com um engenheiro camarário, um autarca da freguesia, trabalhadores municipais e alguns munícipes, todos também num convívio que me deixou perplexo sobre a desvirtuada democracia e a relação promíscua entre políticos eleitos, responsáveis autárquicos com poder de decisão, subordinados e cidadãos, situações que podem induzir interpretações dúbias para os envolvidos e para os próprios partidos políticos que representam. Não que das minhas demandas tenha retirado alguma conclusão, fique claro, mas tão só pelo aspecto, em minha opinião, pouco digno e salutar para quem gere órgãos e dinheiros públicos. Á mulher de César, não basta ser séria, muito menos na coisa pública…

  Como se vê, não precisei de ir mais longe para provocar um terramoto de descobertas que poderia continuar se me não faltasse espaço e a paciência do jornal e dos leitores, para me aturarem. Os reformados, com muitas horas de vazio, podiam ser muito úteis, podem crer!

Por absoluta falta de espaço fico por aqui, mas voltarei em breve ao mesmo tema, pois este caso do estranho caso do campo de futebol, como percebi, tem muito mais que contar.

 É que não nos podemos fiar apenas na gazeta estalinista que nos impingem mensalmente, paga pelo nosso bolso!!!   

PS- Sobre o meu artigo anterior , devo informar que os generais, entre reserva e activo, são duzentos e sete.

Para um efectivo total de 40.000 homens, significa que há 5generais por cada 1.000 soldados. Ora como em cada 1.000 soldados há no mínimo 150 oficiais e sargentos, elevará a média para 6 generais por 1.000 soldado rasos. Julgo que continuamos seguros! Seguríssimos!!!! Não temos é este rácio no ensino e na saúde, o que é pena!!!!

Luso, Outubro,                                                    2008 Mealhadatemas.blog.com  

 

Posted by peter at 16:16:07 | Permalink | Comments (1) »