OS 127 GENERAIS
Crónicas Locais Ferraz da silva
OS 127 GENERAIS
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Trinta anos depois, agora com netos, então com filhos, meti-me no carro rumo ao All Garbe e á praia dos Olhos d’Água, freguesia da novíssima cidade de All Bufeira (?). O mesmo Garb Andaluz muçulmano, depois do reino de Portugal e que é agora uma pró colónia britânica, daí talvez o All que os experts nacionais pagaram a um idiota qualquer para fazer a promoção, só o que nos faltava para aquilo se assemelhar a um apêndice de Gibraltar e mandar mais o sopro da Scotland Yard que a boca inteira da judiciária portuguesa, quando esta, parece, ter sido chão que deu uvas. Parei na área de serviço de Pombal para beber um café e comprar o jornale fiquei sumamente espantado com um destaque da primeira página sobre a quantidade de generais existentes neste país. Era o dia 10 de Setembro de uma quarta-feira de manhã e nem o café me caiu bem no estômago ante tanto general de reserva, coisa que de todo grassava na minha ignorância eu que, de generais, poderia supor afinal meia dúzia. Uma, já julgaria de mais para consumo da nação! Devo esclarecer que nunca gostei de fardas, fossem de generais, marechais, de bombeiros, policias ou filarmónicas, apesar de na dúzia de anos ter usado nas tardes de quarta feira e sábado a velha farda da mocidade portuguesa que aliás trocava gostosamente por uns pontapés na bola no campo de Santa Cruz em Coimbra, para além de ter assistido desde garoto á parada militar do 27 de Setembro no Buçaco, que metia fardas de granadeiros, lanceiros e ás vezes saias xadrez das bandas escocesas enfiadas em pernas tortas e peludas. Ainda não havia mulheres nas forças militarizadas! De Santa Cruz, que era palco dos feriados do liceu, lembro-me que um dia fiz uma camisola do Benfica com uma espécie de top da minha mãe, na qual cosi, a coberto dos olhos da família, um número sete, recortado duns restos velhos de lençol da minha tia Arménia. Nunca fui grande futebolista, porém a brincadeira valeu-me mais tarde quatro ou cinco bofetões quando se veio a descobrir o equipamento clandestino escondido na bagagem dos cadernos. Foi assim que cheguei aos Olhos D’Água a pisar e a repisar a história dos generais e do país dos generais. E a perguntar-me quantos terá a França, a Alemanha, o Reino Unido ou uma república de bananas da África Equatorial!!! E conclui que afinal, pode haver quase um general em cada esquina! Ou, feitas bem as contas, pelo menos um general por cada município lusitano, deve existir! É obra! Claro que isso não tem nada de mal, bem pelo contrário, estamos descansados, seguros, defesos! É uma garantia absoluta em caso de guerra, quer clássica, quer química, atómica, até cirúrgica e o cidadão, como é evidente, deve ganhar pouco que a crise é grande, mas deve estar seguro para dormir bem. Calotes não causam insónias! Depois, ganhar pouco e pouco comer dá saúde e faz crescer! Ganhar pouco para administradores ricos e ladrões, dá para comprar uns penicos! Empregos precários e ronaldetas milionários! A defesa do cidadão, em época de rapinagem como a que se vive, acima de tudo! Vivam pois os generais mais umas revistas cor-de-rosa, o jet set piroso da capital do reino e a televisão da desgraça para entreter a populaça! Ah …e umas santinhas de ladeira entendidas em milagres…! Quanto a políticos, continuem exactamente como três ex-ministros (disse o mesmo jornal uns dias depois) a discutir concessões da Lusoponte da qual são administradores á posteriori! Acrescente-se um Fernão Mandes Pinto para descrever as façanhas e aventuras mirabolantes de nova gesta e estamos salvos. Seguramente! Só que esta dos generais, como outras que vem á luz do dia de vez em quando, também nos saiem do bolso. Sai do cofre duma caixa geral de Aposentações anualmente sustentada pelo orçamento. E o orçamento, tanto quanto se saiba, ainda é pago por todos nós. Paga o que ganha uns míseros quinhentos euros mensais, fruto do seu trabalho muitas vezes penoso e precário, para cobrir aposentações de seis mil euros!??? Será isto??? Mas, não devia ser exactamente o contrário? E para quê, é de perguntar??? Os cento e vinte e sete generais, mais os do activo, brincam ás guerras, jogam ás cartas ou aprendem música? Ou crocham, de crochet???? Então um dia as pessoas, isto é, o cidadão, talvez se dê ao trabalho de pensar e perguntar para que são tantos generais. A guerra do ultramar não acabou? E mesmo assim, havia por lá tantos? Para o Kosovo também vão generais? Ah, e a Bósnia, pois, a Bósnia, pois é …. Quantos são, quantos são, como dizia o outro??? Se a guerra colonial e fazia com uma dúzia deles, para que servem hoje tantos??? Para quê e porquê esta inflação de generais num país que não tem onde cair morto nem ninguém que o ameace? Entre discursos da tanga e da crise que sempre há-de existir só para alguns portugueses, os mesmos, cheguei aos Olhos D’Água a fazer contas da portagem da auto-estrada e do imposto do combustível, e do imposto sobre os veículos, parte do nosso contributo para glória da pátria e carestia de tudo. Porra para tal pátria e vivam os generais!!!! Ao outro dia na praia, de peitos nus botados á torradeira do sol, já me não lembrava de nada, até que encontrei os pequenos olhos de água a brotar da areia da praia como há trinta anos atrás quando lá fui pela primeira vez. Salva guardadas as dimensões, são parecidos com os da nascente do Luso, com a diferença daqueles nascerem água doce na água salgada e estes, água doce no sal. Uns maiores outros mais pequenos, nascem a borbulhar como se fossem lágrimas e correm para o mar na vazante da maré com a rapidez dum riacho. Doces, num centro dum All Garb de bifes, escrito para bifes, feito para bifes num país de cento e vinte e sete generais na reserva que tem dois submarinos encomendados para ensaiar tiro á sardinha em lata e umas novas panhards luso-austricas que já não são precisas para a guerra colonial onde deixamos milhares de vidas e estropiados que hoje estão esquecidos e recebem uma esmola de reforma pelos serviços prestados. Duvido que muito deste generalato tenha alguma vez escutado as kalachnikoves nas bolanhas da Guiné, nas curvas de Nambuangong ou na Mueda , mas são estes, (paradoxos de Einstein?) os beneficiários da pátria! O mundo, como dizem hoje os quânticos, é realmente um sítio imprevisível!!!
27 de Setembro de 2008 mealhadatemas.blog.com