Tuesday, October 28, 2008

OS 127 GENERAIS

  
Crónicas Locais Ferraz da silva

OS 127 GENERAIS

“ Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas ;

Trinta anos depois, agora com netos, então com filhos, meti-me no carro rumo ao All Garbe e á praia dos Olhos d’Água, freguesia da novíssima cidade de All Bufeira (?). O mesmo Garb Andaluz muçulmano, depois do reino de Portugal e que é agora uma pró colónia britânica, daí talvez o All que os experts nacionais pagaram a um idiota qualquer para fazer a promoção, só o que nos faltava para aquilo se assemelhar a um apêndice de Gibraltar e mandar mais o sopro da Scotland Yard que a boca inteira da judiciária portuguesa, quando esta, parece, ter sido chão que deu uvas. Parei na área de serviço de Pombal para beber um café e comprar o jornale fiquei sumamente espantado com um destaque da primeira página sobre a quantidade de generais existentes neste país. Era o dia 10 de Setembro de uma quarta-feira de manhã e nem o café me caiu bem no estômago ante tanto general de reserva, coisa que de todo grassava na minha ignorância eu que, de generais, poderia supor afinal meia dúzia. Uma, já julgaria de mais para consumo da nação! Devo esclarecer que nunca gostei de fardas, fossem de generais, marechais, de bombeiros, policias ou filarmónicas, apesar de na dúzia de anos ter usado nas tardes de quarta feira e sábado a velha farda da mocidade portuguesa que aliás trocava gostosamente por uns pontapés na bola no campo de Santa Cruz em Coimbra, para além de ter assistido desde garoto á parada militar do 27 de Setembro no Buçaco, que metia fardas de granadeiros, lanceiros e ás vezes saias xadrez das bandas escocesas enfiadas em pernas tortas e peludas. Ainda não havia mulheres nas forças militarizadas! De Santa Cruz, que era palco dos feriados do liceu, lembro-me que um dia fiz uma camisola do Benfica com uma espécie de top da minha mãe, na qual cosi, a coberto dos olhos da família, um número sete, recortado duns restos velhos de lençol da minha tia Arménia. Nunca fui grande futebolista, porém a brincadeira valeu-me mais tarde quatro ou cinco bofetões quando se veio a descobrir o equipamento clandestino escondido na bagagem dos cadernos. Foi assim que cheguei aos Olhos D’Água a pisar e a repisar a história dos generais e do país dos generais. E a perguntar-me quantos terá a França, a Alemanha, o Reino Unido ou uma república de bananas da África Equatorial!!! E conclui que afinal, pode haver quase um general em cada esquina! Ou, feitas bem as contas, pelo menos um general por cada município lusitano, deve existir! É obra! Claro que isso não tem nada de mal, bem pelo contrário, estamos descansados, seguros, defesos! É uma garantia absoluta em caso de guerra, quer clássica, quer química, atómica, até cirúrgica e o cidadão, como é evidente, deve ganhar pouco que a crise é grande, mas deve estar seguro para dormir bem. Calotes não causam insónias! Depois, ganhar pouco e pouco comer dá saúde e faz crescer! Ganhar pouco para administradores ricos e ladrões, dá para comprar uns penicos! Empregos precários e ronaldetas milionários! A defesa do cidadão, em época de rapinagem como a que se vive, acima de tudo! Vivam pois os generais mais umas revistas cor-de-rosa, o jet set piroso da capital do reino e a televisão da desgraça para entreter a populaça! Ah …e umas santinhas de ladeira entendidas em milagres…! Quanto a políticos, continuem exactamente como três ex-ministros (disse o mesmo jornal uns dias depois) a discutir concessões da Lusoponte da qual são administradores á posteriori! Acrescente-se um Fernão Mandes Pinto para descrever as façanhas e aventuras mirabolantes de nova gesta e estamos salvos. Seguramente!     Só que esta dos generais, como outras que vem á luz do dia de vez em quando, também nos saiem do bolso. Sai do cofre duma caixa geral de Aposentações anualmente sustentada pelo orçamento. E o orçamento, tanto quanto se saiba, ainda é pago por todos nós. Paga o que ganha uns míseros quinhentos euros mensais, fruto do seu trabalho muitas vezes penoso e precário, para cobrir aposentações de seis mil euros!??? Será isto??? Mas, não devia ser exactamente o contrário? E para quê, é de perguntar??? Os cento e vinte e sete generais, mais os do activo, brincam ás guerras, jogam ás cartas ou aprendem música? Ou crocham, de crochet????    Então um dia as pessoas, isto é, o cidadão, talvez se dê ao trabalho de pensar e perguntar para que são tantos generais. A guerra do ultramar não acabou? E mesmo assim, havia por lá tantos? Para o Kosovo também vão generais? Ah, e a Bósnia, pois, a Bósnia, pois é …. Quantos são, quantos são, como dizia o outro??? Se a guerra colonial e fazia com uma dúzia deles, para que servem hoje tantos??? Para quê e porquê esta inflação de generais num país que não tem onde cair morto nem ninguém que o ameace?    Entre discursos da tanga e da crise que sempre há-de existir só para alguns portugueses, os mesmos, cheguei aos Olhos D’Água a fazer contas da portagem da auto-estrada e do imposto do combustível, e do imposto sobre os veículos, parte do nosso contributo para glória da pátria e carestia de tudo. Porra para tal pátria e vivam os generais!!!!    Ao outro dia na praia, de peitos nus botados á torradeira do sol, já me não lembrava de nada, até que encontrei os pequenos olhos de água a brotar da areia da praia como há trinta anos atrás quando lá fui pela primeira vez. Salva guardadas as dimensões, são parecidos com os da nascente do Luso, com a diferença daqueles nascerem água doce na água salgada e estes, água doce no sal.    Uns maiores outros mais pequenos, nascem a borbulhar como se fossem lágrimas e correm para o mar na vazante da maré com a rapidez dum riacho. Doces, num centro dum All  Garb de bifes, escrito para bifes, feito para bifes num país de cento e vinte e sete generais na reserva que tem dois submarinos encomendados para ensaiar tiro á sardinha em lata e umas novas panhards luso-austricas que já não são precisas para a guerra colonial onde deixamos  milhares de vidas e estropiados que hoje  estão esquecidos e recebem uma esmola de reforma pelos serviços prestados. Duvido que muito deste generalato tenha alguma vez escutado as kalachnikoves nas bolanhas da Guiné, nas curvas de Nambuangong ou na Mueda , mas são estes, (paradoxos de Einstein?) os beneficiários da pátria!   O mundo, como dizem hoje os quânticos, é realmente um sítio imprevisível!!!

  27 de Setembro de 2008  mealhadatemas.blog.com

 

 

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Monday, October 20, 2008

O COLAPSO DUM VERÃO

CRÓNICA 60 
 

O COLAPSO DE UM VERÃO

 

Ferraz da Silva

 

Este ano termal é para esquecer. Concessionária, Câmara e Freguesia deixaram o Luso ao abandono e a época balnear arrasta-se dolente e fraca. Vai acabar a contento dos autarcas que tudo fizeram para que isto acontecesse por não possuírem capacidade nem vontade e muito menos respeito pelas pessoas que, tal como eles, não recebem o dinheiro ao fim de todos os meses quer faça chuva ou sol mas, pelo contrário, tem que lutar arduamente pelo seu ganho e pelo satisfazer dos seus compromissos.

Um amigo meu aconselhou-me há dias a não escrever, não me meter mais nisto, a não criticar mais, a calar-me e deixar correr o marfim. Para não me chatear! Escutei-o mas não concordei. Pelo contrário, julgo que ao cidadão cabe um papel importante no contributo que possa dar no sentido de questionar, criticar ou participar numa democratização da democracia que neste momento não existe, já que o momento eleitoral se transformou num momento de enganos que tem por fim a tomada do poder e não o serviço a prestar á sociedade que dizem pretender servir.

Faço-o com os meios que melhor sei utilizar e faço-o porque aqui nasci, aqui vivo, aqui, quem sabe, hei-de ficar. Mas também pelo município, que me merece preocupação e respeito. Julgo que é exactamente por estar demasiado calado que o Luso e outras freguesias, não obtêm benefícios como deviam da Câmara, no caso concreto em apreço, o turismo que está em colapso.

Porque faz parte administrativa dum concelho que não entende, não quer entender o que é a freguesia do Luso em termos de potencialidades na sua actividade principal e quase única, que é essa, a turística, a hotelaria, a restauração. Nem a autarquia Junta de Freguesia, constituída pelos maiores idiotas (políticos entenda-se) do concelho, que não possui capacidade nem conhecimento para forçar uma estratégia de melhoramentos constantes, no sentido de trazer alguma coisa para a actividade e consequentemente para as pessoas que ainda vão sobrevivendo na terra a lutar contra a corrente por uma causa que se está praticamente a perder.

Á Câmara da Mealhada assaco, como tenho sempre assacado, a maior responsabilização no que ás termas diz respeito e um novo exemplo dessa total irresponsabilidade está na obra da remodelação da fonte, mas não da zona central da vila como era necessário. Ao ter optado por obras absurdas que não servem a ninguém e ao encaixotar a fonte em granito, pedra que não sendo da região, não tem grande cabimento, a câmara da Mealhada mais não faz que deitar dinheiro ao ar, mantendo o problema da zona central da vila. Pode alguém receber comissões da compra da pedra, pode-se perguntar, mas a verdade é que engranitaram uma fonte que, feita na presidência de Emidio Maranha, talvez fosse a mais conseguida das remodelações por que tem passado.

O conteúdo do projecto inicial apontava concretamente para a chamada quinta do Alberto e isso foi desenhado e apresentado em ante projecto e era de facto aquilo que o Luso precisava e precisa, mas, por questões umbilicais da câmara ou do seu presidente e também porque deixou de existir um vereador do Luso, facto derivado da mesma ignorância politica da junta de freguesia, o projecto foi alterado para a pior solução. Para agravar a situação, com uma total falta de sensibilidade e respeito para com a mesma freguesia, programaram tudo para o verão, época em que as pessoas do Luso têm possibilidade de ganhar o seu dinheiro.

Nada me admira desta Câmara, já que também a própria Mealhada costuma ser objecto dos seus congestionamentos gástricos, quer nos conflitos que não sabe resolver com os festejos carnavalescos, criando-os, quer no caso dessa excelente obra que é o Hospital da Misericórdia que tanta discussão deu por oposição autárquica, quer ainda nos arranjos do campo de futebol pagos com as promessas dum segundo estádio de futebol para a Pampilhosa. Tudo isto é ridículo e em tudo isto impera a falta de sentido do poder público e falta de equilíbrio, discernimento e capacidade.

Já o caso da actuação da Junta de Freguesia do Luso é diferente, não pode agir em directo porque não tem orçamento nem competências para obras de grande porte, mas pode e deve pressionar de forma consciente e constante a Câmara e os próprios organismos do Estado, no sentido de conseguir trazer á localidade algumas mais valias. O que não faz.

Mas foi o que aconteceu com o pavilhão, o parque de campismo, ou o centro de estágios, não por pressões da Junta de Freguesia que em vinte e cinco anos que tive de assembleia municipal nunca ouvi o seu presidente dizer fosse o que fosse, mas por outras vias e outros órgãos que felizmente conseguiram levar a sua avante e fazer dotar o Luso e simultaneamente o turismo, dessas estruturas. E poderíamos falar duma pousada de juventude, dum museu de hotelaria onde se guardassem as antiguidades do Luso e do Buçaco, dum campo de golf (já existiu um na cruz alta) , dum ordenamento da fonte de S. João , capaz de acabar  com a linha de engarrafamento que é vergonhosa para as termas, de pensar numa entrada com dignidade para a  vila , para não repetir a barragem , o spa , ou um arranjo decente da avenida do castanheiro que envergonha os autarcas locais.

A Junta de freguesia, mercê do acordo firmado há cerca de quinze anos entre a Câmara e a concessionária das águas, no mandato de Rui Marqueiro, recebe anualmente uma verba de dez mil contos, hoje suponho que cerca de doze mil. Feitas as contas, terá recebido já cento e cinquenta mil contos. Pergunto: onde está uma obra no Luso que se veja e que corresponda á envergadura daquela verba???

Neste caso particular do Luso, quer Câmara quer Junta tem de mudar de mentalidade.

O Luso não precisa de cantoneiros de excelência, mas sim de gente nova, dinâmica, com responsabilidade e massa critica capaz de pegar de frente os problemas da terra e são muitos, e esforçar-se por os resolver acabando com esta rotina de mediocridade politica de palmadinhas e de brutalidade a que, adormecidos, vamos dando guarida. Sei que posso incomodar alguma gente ao dizer isto, mas nunca fui pessoa de meias palavras para me escusar a dizer duas verdades.

É que assim, por esta via, tenham a certeza, o Luso fica cada vez mais morto! O que é mau para todo o município!

Luso, Setembro, 2008        

Mealhadatemas.blog.com/lusotemas.blog.com             

 

 

 

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