Thursday, August 21, 2008

BENS QUE SE DELAPIDAM

 

 CRÓNICAS LOCAIS-59

 

OS BENS QUE SE DELAPIDAM

Ferraz da Silva

No contexto europeu do negócio das águas, a água do Luso tem uma pequena dimensão e ocupa um lugar insignificante no ranking das ofertas correspondendo a um mini circuito de distribuição em termos de continente, praticamente inexistente. Isto, que equivale ao nosso pequeno tamanho como país e á nossa fraca capacidade como penetradores de mercados, não deixa de ser um negócio aliciante em termos de rendimento auferido e exportado para os detentores do bem, tanto ou tão pouco que as sucessivas mãos por onde tem passado o tem mantido e desenvolvido, explorando e exportando os lucros duma riqueza que, como sabemos, lhes caiu nas mãos mais ou menos por engano, distracção ou desconhecimento. Como consequência o negócio das águas que começou pelo negócio das termas acabou por ser desvirtuado e o negócio original acabou por ser esmagado pelo segundo e pelo apoderar das matérias-primas e dos meios de produção por parte do capital. Em tempos antigos, apenas cobiçados e distribuídos pela especulação nacional, hoje, á mercê dos grandes grupos continentais e mundiais que se apoderam da riqueza esteja lá onde estiver através dum capital especulativo que não tem rosto nem grei.

É assim que se assiste á simples gestão de expectativas continuamente geradoras de mais valias que são de imediato e sucessivamente aproveitadas para realizar capital num frenético ciclo do mão em mão.

É assim que uma riqueza nacional, a água, que poderia ser um motor de desenvolvimento dum pobre lugar e dum pobre município contribuindo para o bem estar e melhoria das condições de vida dos seus naturais, acaba por ser um veículo de enriquecimento de uns poucos travestidos, mercenários sem rosto nem identificação.

            Para além da atávica incapacidade política caseira de colocar o património ou os bens nacionais ao serviço das pessoas está a postura de subserviência tradicional, conivente ou não e a pequenez do nosso território ao qual se alia, talvez como em nenhum outro lugar da Europa, a pequenez da nossa mentalidade.

O resto, é a estranha realidade do mundo de hoje, o domínio do mais forte, do menos escrupuloso ou do mais esperto, um ciclo de irracionalidade ou mesmo da bestialidade que atravessa o globo, onde o absurdo e a negação de valores essenciais da humanidade são pisados, esquecidos e substituídos pelo egoísmo duma cultura individual dirigida pelo engodo, pela cegueira, pela mentira, pela apropriação indevida das riquezas e pela imposição do low cost como resposta a uma nova massificação do homem. Uma regressão ética e moral na civilização do mundo ocidental e uma Europa burocrata e incapaz a desafiar o impossível estão a provocar uma rotura e uma derrocada ao nivelar o mundo pelas suas piores referências deitando fora uma aprendizagem e um saber que séculos de luta e experiência custaram a adquirir e conduziram esse mesmo mundo ocidental a níveis de bem estar e de equitatividade nunca atingidos.

Estou a rabiscar estas linhas que hei-de mandar logo que possa ao jornal,
em plena Praça Navona , em Roma , diante de três monumentais fontes de Bernini,  no dia 2 de junho , feriado nacional , dia da implantação da republica italiana , o nosso  cinco de outubro  e depois de assistir ao tradicional desfile militar , desta vez com a inédita curiosidade de o norte   do país se fazer representar  por um embaixador,  sinal dos tempos conturbados que aí temos e seguro na minha mão um grosso volume dum livro da livraria feltranelli cujo título é , mil locais  do mundo que  obrigatoriamente deve  visitar na sua vida. E cá está, em três ou quatro páginas seguidas, o nosso Portugal que, ao contrário do que se possa pensar, também tem lugares eternos a visitar. Vou citá-los: o Museu Gulbenkian, em Lisboa, a vila de Óbidos, a cidade património da humanidade, Évora, a Pousada de Stª Isabel, em Estremoz, a Vila de Sintra e a Mata e Palace do Buçaco.

Não mais. São os nossos sete lugares entre mil em todo o mundo, que merecem figurar neste compêndio turístico de primeira qualidade. Podemos aceitar que este não é único critério, mas é, face aos mil recursos apresentados em todo o conjunto da obra, um critério de alta qualidade e que para nós, oriundos dum pequeno local dum pobre município , ainda mais pobre de gente que de bens patrimoniais , satisfaz plenamente pela justiça da escolha apresentada  confirmando  de algum modo aquilo que com insistência  temos defendido.

A Mata Nacional do Buçaco, recurso turístico de primeira grandeza, a riqueza patrimonial água, motor de desenvolvimento duma área termal e não só e o recurso gastronómico de qualidade que é o leitão poderiam fazer do pobre município que somos, um município forte e rico, capaz de proporcionar aos seus residentes uma qualidade de vida e de bem estar invejável e auto-suficiente.

O património, por mais valioso que seja, não se auto transforma, se não existirem pessoas minimamente capazes de entender os fenómenos que se desenvolvem á sua volta. Essa massa critica para questões tão reais e pertinentes como estas, não existe e isso, paga no seu todo, o município. E paga bem!!!

Roma, Junho, 2008 mealhadatemas@blog.com

          

 

 

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NA PENSÃO BRITES

                  

CRÓNICAS LOCAIS-58

 

Ferraz da Silva


 NA PENSÃO BRITES

 

    Se bem te lembras Júlia, dormimos na pensão Brites á entrada de Chaves, vínhamos de Vila Verde da Raia pela auto-estrada de Ourense. Deixáramos Bragança ás nove da manhã Parque de Montezinho adentro até França, Portelo e próprio Montezinho, uma aldeia esquecida no beijar da raia antiga em serras redondas como ovos de avestruz, lisas, quentes e tresandando a urzes, anavalhadas aqui e ali por afloramentos de rochas á flor da terra numa procura da vida que se ensaia da parte de fora, ao sol, para muitos animais de sangue frio.

   Em Julho o calor sufoca e mistura-se com moléculas do estradão da montanha que as rodas do laguna levantam e logo repartem até entrar na pequena aldeia por uma rua apertada a pedir licença, por onde se sentam escondidas, debaixo de sobrados e alpendres, mulheres á sombra a perscutar em silêncio a chegada de quem raramente vem. Há um esperar recíproco, intemporal, incógnito, elas, sentadas no banco de madeira, num rebate a rocar num tempo que parou, nós, velozes a chegar, olhos abertos ávidos de deserto, dum precipício de natureza pura para nos inebriar os sentidos mal despertos na velocidade duma existência diferente. E fugaz.

  Sardões gigantes de cauda comprida e coluna verde-escura sarapintam a preguiça estendidos ao sol e olham atentos os inimigos comuns, todos da mesma raça. Fogem bruscos, apressados como gato perante a aproximação repentina dos humanos. A explosão, seja do que for, atormenta-os. Param, rearmam as defesas e de gola inchada em volta do pescoço esticado, levantam a cabeça nos olhos do intruso e observam de patas alargadas. Como ás mulheres do Minho em dia de romaria em Ponte de Lima, enrola-se-lhes o cordão grosso em voltas no pescoço e brilha como ornamento não doirado mas polido pelas cores difíceis das penedias.

   É um brasido a rocha nua onde poisam as peles e desaparecem como o disparar dum clic fotográfico se com arma basilar recolhida do chão lhe atiramos a pedrada da repugnância e da repulsa que trazemos atávica no interior esquecido. Restos da primitiva geração e da inimizade endémica entre o homem e répteis? Não estamos ali para saber, só para observar estes antepassados de extintos dinossauros de grandeza liliputiana.

  Como fogem regressam instantaneamente em movimentos bruscos, primeiro dos buracos e pedras e dos muros em espreitadelas cautelosas, cabeça a reassumir na vaga do calor sinalizando a lura ou toca esburacada, um corte dum carvalho, a falha dum calhau ou um montão de lenha donde vão sugerindo o corpo na proporção dos preparos. Devagar, devagar, recolhem confiança e retornam ao sol brilhante, o deus supremo dos altos transmontanos onde se estende o verão.

   Um freixo velho deita os braços sobre o pequeno terreiro do centro cívico rudimentar, convidativo, confortável. O mesmo deus sentou ali a natureza própria e deixou-se pasmar embevecido no olhar em seu redor para adormecer definitivamente. Parámos. Tudo parece em pó, em ruína, um acervo acabado.

  - Não há uma loja onde se beba um refresco?

     A face tisnada, queimada e enrugada limita as franjas pretas do lenço grande que cai blusa abaixo por sobre os restos de seios secos e lisos.

    -A loja a esta hora está fechada, senhora, só em França ….

   Não te lembras Júlia das rápidas indagações? Do som cavado das vozes ou do eco surdo a propagar-se em ondas na rapidez dos átomos? Mosquitos zumbiam á volta das interrogações á procura da nossa pele e cigarras cantavam em melopeia surda. O calor assomava em ondas magnéticas ao ritmo de fissura atómica no núcleo do astro rei.

    - Fica longe, a França? Perguntaste.

    - Fica donde vieram, não há outro caminho.

   Retomamos viagem pelos mesmos trilhos do sol da beira bosque por onde tínhamos vindo e no Portelo onde a antiga fronteira se escancara sem traves nem policias, cortamos á esquerda para Sanabria, Verin e depois Chaves.

  Foi ao entardecer que encontramos um quarto, no rés-do-chão escuro, fresco e vulgar ao entrar na cidade, na pensão Brites. Regressamos após um jantar para lá do rio, o Tâmega, pela velha ponte de Trajano, tal como o panteão de Roma ainda ao serviço das civilizações, mais de dois mil anos de idade e de labor. São obras-primas da arquitectura e da cultura humana.

   Depois dum banho atiraste-te á cama olhos postos no teto no  seu estuque amarelado a pensar alto se isto vale a pena.

   -Valer a pena o quê, perguntei….

   -Se viver vale a pena!

   -Ah! Tenho a certeza que sim, que tudo vale a pena, como dizia o poeta.

    É estranho duvidarmos de nós próprios. Talvez a vida seja apenas o momento que passa. Se fluírem, transformam-se num riacho, num ribeiro, num rio, vida própria. E num lago, se houver continuação. Caso contrário tudo não passou do momento vivido. Feliz ou infeliz, é indiferente, há-os de toda a qualidade mas vivê-los bem sempre é melhor!

  -Viver é o presente sim, o agora, o momento, continuas. Talvez nem haja passado quando o passado morre, há apenas presente, o passado, passou…não faz sentido.

   A serra do Larouco aproxima-se enquanto percorremos a fita estreita do alcatrão na direcção de Vilar de Perdizes para cumprir a promessa de recolher as ervas dum padre Fontes qualquer, lavadas, esconjuradas e livres de belzebu, purificadas na última feira das bruxas de Montalegre também chamada, eufemisticamente, Congresso de Medicina Popular.

  Não te percebo as crenças, para lá das interrogações e dúvidas constantes. Não percebo as ervas e mezinhas, as bruxas, os videntes, os espíritas e Cristo nisto tudo. Talvez por não ser homem de fé, por não ser homem de dogmas, não tenha necessidade desse maravilhoso para entender o mundo. A Terra onde nascemos basta-me. A vida é já de si algo de belo para nos entreter no prazo curto duma inteira existência. E acabamos sem a perceber. Parafraseando Sócrates, só sei que nada sei. É verdade.

Pela intranquilidade chegamos a Vilar de Perdizes, não por busca. Pelo desequilíbrio, não pelas ervas. Pelos bons e pelos maus caminhos, o homem faz-se a si próprio, depois, tudo não passa duma questão de tempo, como quem encaixa paciências nos buracos do labirinto. Pode viver-se em vão, sem sair do mesmo sítio, ainda que se caminhe todos os dias. E pode acontecer o contrário. O arbítrio, o acaso, o momento são pautas consideráveis.

    De qualquer forma eu tinha razão, há sempre um futuro qualquer, por isso seguimos a viagem e desta vez, na Adelaide, no Gerês, fizemos o poiso que se seguiu. Um degrau.

  Manhãzinha, prosseguindo a peregrinação, subimos a São Bento da Porta Aberta e foi de porta aberta, ajoelhada, que te prostraste nas rezas do consumo corrente. Nem para o desajuste há rezas feitas. Unguentos, ervanária, terras daqui e dali ou mesmo água do mar.

O homem faz-se, nós construímos tudo, a água benta também.  

 No Canal Caveira, não se tinha tomado um chá de lampião depois dumas saborosas sardinhas em molho de escabeche??? Quem foi que receitou o estranho chá numa vinda do vau, Júlia ?

 

                                                                      mealhadatemas@blog.com

 

 

 

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