Friday, May 16, 2008

HISTÓRIA BURRIQUEIRA

  
   
  

HISTÓRIA BURRIQUEIRA

 

 

    Em 1950 ainda existiam burros no Luso e no Buçaco em plena actividade empresarial, isto é, fazendo o transporte de clientes para a serra, do Buçaco para as Almas, para a Cruz Alta ou para qualquer outro percurso combinado entre ofertante e utilizador.

   Cavaleiro sentado na macieza dumas gastas albardas, o burro conhecedor instintivo do caminho e o burriqueiro atrás, de vergasta na mão, tocando a azémola ou sacudindo as moscas procurando transmitir ao ocasional ocupante o prazer de sentir as rédeas sobre as orelhas do asno imaginando-se veloz na garupa dum puro sangue ou a com a leveza dum Aladino sobre crinas enfeitiçadas cavalgando para um etéreo harém. O marketing não é descoberta de espertos dos nossos dias que apenas o elevaram á condição da cátedra para sacar uns cobres, pois como se vê, um simples e modesto burriqueiro do século passado pode testemunhar a necessidade, a que agora chamam ciência, de vender ilusões. Pelo melhor preço.

   Ir ao Palace Hotel custava cinco escudos, á Cruz Alta sete e quinhentos e á fonte do Castanheiro com paragem no garoto para beber um copo de água fresca e volta pelo Lusitano, ficava por vinte e cinco tostões. Para famílias, a viagem podia ter um desconto consoante as burras requeridas e as burricadas, brincadeiras mais abrangentes sujeitas a imprevistos e demoras, tinham uma taxa fixa um pouco mais elevada, mas tudo dependia da habilidade em fazer, para um e outro lado, um bom negócio.

  À noite, o Zé Posta recolhia as burras no Luso d’Além numas arcadas antigas debaixo da casa própria e fazia contas aos ganhos, á despesa dos animais, ao sustento, ás doenças e era depois da refeição comida á pressa noite dentro que as sacudia, limpava e deixava ficar prontas para na manhã seguinte reiniciar o negócio com a barriga cheia, estacionadas na avenida, acima das onze bicas.

    Coexistiam com um fotógrafo á la minuta na mesma fonte de S. João que fazia os sábados e domingos no Buçaco, por isso não é raro encontrarmos fotografias de burricadas, gratas recordações dos nossos avós, bisavós e veraneantes.

   No monte de Santa Luzia, em Viana do Castelo, ainda hoje existem estes velhos fotógrafos que são museus vivos dum passado não muito longínquo que nada tinha a ver com a rapidez dos nossos dias nem com a proliferação de aparelhos que surgiram depois desde os kodakes às câmaras digitais, aos próprios telemóveis e ás filmadoras de mão. Não há muito tempo ali me fiz fotografar com elegante companhia ao estilo antigo a quem dei fotos e chapas em preto e branco que hoje, por curiosidade, gostaria de ter.

   Coexistiam ainda no negócio dos transportes uma dezena de táxis (quem se lembra dum fiat balilla?) e não consta que existissem desavenças entre a competitividade duns e doutros, sinal de que os tempos corriam melhor nas termas e de que a mata do Buçaco era também um lugar de passagem, mas também motivo para estadia prolongada.

  Não precisei na exactidão da data em que nascem estas burricadas, mas não será difícil imagina-las em paralelo com o desenvolvimento termal e parecem ser um produto pioneiro do nosso turismo, o que significa, traduzindo para linguagem actual, um dos primeiros recursos entre a diversidade que faz hoje a oferta do pacote da actividade. Podemos rir destes primórdios recentes mas de facto em toda a primeira metade do século passado há noticias do recurso um pouco por todo o lado e ainda hoje restam nalguns lugares, por reactivação em experiências interessantes, algumas delas catalogadas como turismo de aventura, se bem que tenha sido sempre uma aventura andar de burro. Para além da teimosia, nos dias que correm o burro burro é uma raridade, embora o burro metafórico seja mais comum que a legitima e nos puxe, teimoso, para trás. Há ainda muitos.

  Ora um dia, nesses conturbados anos de cinquenta do século passado, regressava do Buçaco o Zé Posta com um par de burros no fim de mais um dia de jornada. Encarrapitava-se em cima da beltrana uma burra mansa, serena, tão habituada aos mimos do freguês como á chibata do dono ou ás ferradas das moscas e segurava pela trela o várzeas, um burro nascido debaixo da ponte, o que se pode dizer um burro burro de todo, de nascença e de ensinanças, á maneira da azémola do prodigioso Sancho Pança e de seu amo o senhor D. Quixote para sermos mais verdadeiros. Anoitecia. Na sineta do Convento deram sete badaladas finas, arremessadas em bruto como Frei Thomas das Mazelas gostava de fazer durante as guerras liberais, costume depois continuado por sucessivos guardas do mosteiro ciosos da tradição, desde que houve a confiscação dos bens em 1834 salvo erro.

   A mata estava em silêncio total como naqueles fins de tarde aprazíveis, quase divinos em que podemos escutar o nada que nos envolve como se não existíssemos. Nem o próprio mundo tem existência real nesses solenes momentos em que se ouve apenas o silêncio em toda a redondeza e as árvores são sentinelas mudas dos espectros soturnos duma tarde em queda lenta. Apenas o arre burro do Zé cortava de vez em quando a solenidade divina e o enxoto era empurrado pela aragem com a suavidade dum sonho. Foi neste marear sereno e cálido que se precipitou o acontecimento, pois dá-se que á mansidão da beltrana se opõe a brusquidão lazarenta do outro e quando desciam ao campo da bola para atalhar o caminho não é que o várzeas dá de zurrar e escoicinhar a beltrana num pinoteio de palco com cagatório de birra!!!!??? De imediato, o Zé, apertando nos calos a rédea que se soltava, foi no desequilíbrio, tombou no chão e por pouco não foi arrastado estrada abaixo a morder o pó nas tamancas. A custo, sozinho, puxou a burricada para casa com a vergasta em sarilho num badanal dos infernos.

  Tão maltratado que nem lhe apeteceu comer e ao outro dia, não de burra, mas de táxi, foi, por insistência da mulher, á endireita de Paraimo para lhe pôr duas costelas no sítio, tanto quanto o manso asno, por simpatia do outro, lhe pôs abaixo.

 -E se não vinha tão depressa, disse a curandeira depois duma massagem e de o entrapar em panos e aguardente, amanhã não se podia levantar.

   Deitado por alguns dias sobre uma arca de broa antiga, esticou-se quanto pode para endireitar a ossatura, descanso que a dureza da vida cedo atirou para a necessidade do trabalho que o verão não se podia perder ao sabor dos luxos da doença, sobretudo de quedas de burras , o pão nosso de todos os dias !

   Mas foi porém quando se queixou á santinha da aspereza e das dificuldades, da numerosa família e do azar que lhe batia á porta que a mulher, condoída de tanta mazela e chorosa lamuria o mandou em paz sem lhe cobrar um tostão.

  E o Zé, reconhecido, puxando da humildade e da gratidão que lhe perpassou pela alma, sinceramente, disparou:

  -Quando for ao Luso, pergunte pelo Zé da Posta, que lhe dou uma barrigada de burro como nunca levou na sua vida!!!!!

  Maio,2008                                    mealhadatemas@blog.com/lusotemas@blog.com

 

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Friday, May 2, 2008

TERMAS DO LUSO

                   CRÓNICAS LOCAIS-56

    Ferraz da Silva

  

    DE VOLTA ÁS TERMAS DO LUSO -56

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    Passou-se há quarenta anos talvez, quando não havia febre pela televisão e as tertúlias de jovens se juntavam todos os dias á noite para fazer teatro. Eram peças clássicas, sobretudo comédias ou farsas e um dia, por acidente, uma revista. Entre Salve-se Quem Puder ou Alto lá com Isso, ficou com o segundo nome e por empréstimo chamou-se oficialmente Costa do Sol em Festa, uma revista de Cascais que já tinha passado pelo crivo da censura e estava portanto ao abrigo do lápis vermelho do santo oficio salazarento que tinha tanto de engano como de ser enganado.

   Claro que o texto era o nosso, escrito em noitadas de arrebatadas ceias tiradas em casa deste e daquele mas sobretudo do ensaiador, discípulo da Corina Freire. Um bloco de papel numa das mãos, um naco de chouriça, uma bebida alcoólica e a boa disposição donde disparavam quase instantaneamente as piadas, os quadros, os intérpretes.

   No seu desenvolvimento, entre danças e cenas, a coisa tinha um compere á maneira do Salvador no Parque, um bife, o Santos e era numa destas mudanças de número quando eu cruzava rapidamente o palco com um balde de cal na mão direita e um pincel de cerdas na outra, que a Maria Aurora me perguntava com cara de admirada:

   -Olha lá Manel, onde é que vais com tanta pressa?

   E respondia eu com a solícita prontidão dum trolha enfarinhado:

   -Olha, para cumprir as leis da Câmara pintei as casas todas do Luso, agora vou pintar a Câmara, que bem precisa!!!!

   Perante o texto simples desta passagem de urgência, espécie de 115, desabava a rir, da plateia á geral, o Teatro Avenida e semanas depois o Teatro Messias, sem que nós próprios descortinássemos o motivo da pilhéria, a não ser no inesperado desconcerto da sumaríssima acção.

 E só no fim do gargalheio é que o senhor Silva, sentado no banco do piano de cauda, levantava a cabeça, dava o dó e prosseguia a dedilhar a música…

  Quarenta anos depois, comparativamente, a Câmara voltou a assumir esta figura pateta do olha para o que digo não para o que eu faço, ditado antigo destinado a tipificar o desenfreado apetite de alguns monjes e abades, passe o exagero, quando se refere permanentemente ao Luso e ao Buçaco como a sala de visitas do concelho turístico para ter a sala abandonada, em termos práticos, quanto toca a trabalhar pela defesa e desenvolvimento dessa riqueza e património. Podemos desculpar aos autarcas a distracção, a ignorância, a incompetência, mas, reconhecendo embora o nervosismo e a desorientação por que passam, de hipocrisia politica já chega!!! Estamos fartos!!!!

   Não vou pormenorizar o caso da obra na fonte de S. João que podia ser requalificada em trinta dias e não em duzentos e setenta se a autarquia soubesse o que anda a fazer e tivesse algum respeito pela actividade de quem vive disto, mas sim desse outro caso que foi o assentar da administração da concessionária das águas no banco do diálogo, não pela acção da Câmara da Mealhada, mas pela acção dum grupo de pessoas das termas que vêm a sua vida a andar para traz, precisam de viver e por isso de lutar pela reanimação das mesmas e da terra, quando os eleitos, quer os locais quer os municipais, o não sabem fazer.

    Estes pontos nos ii são essenciais para se perceber mais uma vez a qualidade de quem comanda os destinos políticos do município, (e da freguesia!) de novo numa postura negligente e absolutamente nula no que toca á defesa dos interesses vitais do mesmo. Claro que não me movem as pessoas enquanto pessoas, apenas como actores e intérpretes da farsa politica que representam á qual nós, cidadãos, assistimos e a qual devemos, pela cidadania que nos cabe, analisar e criticar.

  Na minha perspectiva, os novos factos traduzem-se assim:

  Depois de no mês passado sermos brindados com o plano estratégico dum Luso Inova camarário de 50 milhões de euros para satisfazer contínuos vazios políticos de consciências angustiadas, eis que é anunciado um mês depois, por força da pressão activa do mesmo grupo de pessoas junto do Ministério da Economia, o falado Luso 2007, desta vez pela mão apressada da SAL numa parceria com uma empresa de clínicas dentárias, donde nascerá, eventualmente, uma hipotética empresa termal onde a autarquia Câmara, curiosamente, não tem assento nem voz, colocando-se mais uma vez de lado, silenciosa, muda, a ver passar os comboios…Com este executivo podia ser de outra maneira? Dramaticamente, não!

  Não faço ideia se o parceiro apresentado pela SAL é bom ou mau, se tem experiência em termas e Spa’s ou não, mas tem-no, isso é líquido, em clínicas dentárias luxuosas. Vamos esperar  mais três meses pelos projectos prometidos!

    Registe-se no entanto que o investimento anunciado de três milhões de euros (investimento total confirmado em entrevista ao MM pelo nº 2 da concessionária de seiscentos mil contos antigos) numa área de mil e quatrocentos metros quadrados, para fazer e meter um novo centro de bem estar ou spa e uma clínica, onde já estão umas termas e um bloco de fisioterapia á espera da modernidade que a concessionária lhe não tem dado, será suficiente? (Para que melhor se possa comparar a dimensão dos números, lembremos que a Câmara se propõe fazer uns novos paços municipais por dez milhões de euros, o edifício, a preços actuais))

 Será que a nova empresa termal a constituir (?) vai abrir-se a novos investidores?

 Será que depois da concessionária ter vendido o hotel e os terrenos que destinava ao SPA, irá readquirir os mesmos e recriar o seu ex- parque hoteleiro?

 Será que as novas (?) estruturas darão acesso pela via económica a toda a gente?

 Será que a autarquia Câmara aproveitou para exigir garantias escritas?

 Neste item, claro que não. Mais uma vez politicamente apalermada, pôs-se de lado, riu-se, bateu palmas e continuou a não obter nenhum compromisso escrito de mais estas promessas, bem pelo contrário, no dia imediato apressou-se a desembargar umas obras que tinha mandado embargar á concessionária, não se sabe se por cautela se para propaganda politica e juntou ao acto a ignorância de declarar que este projecto, que ainda nem sequer existe e que prevê um investimento de três milhões de euros, é melhor que o seu plano estratégico do Luso Inova que previa, disseram-no há poucos dias publicamente com claras intenções propagandísticas, um investimento de cinquenta milhões de euros!!!

  Saberão do que falam??? Saberão para quem falam? Com investimentos da concessionária das termas, para lá dos três milhões, não se podem contar. Faltam quarenta e sete milhões para o Inova. Quem vai continuar ou completar o pomposo plano estratégico do Luso? A Câmara e o seu executivo, tão falho de estratégias como de ideias, já encontrou algum parceiro?????   

 PS- Parabéns sim ao grupo de cidadãos. Sem o poder negocial nem o poder de dissuasão da autarquia, não só os obrigou a correr aflitivamente até ao Ministério da Economia como os obrigou a abrir um canal para o diálogo. Porque afinal, eles têm medo como se demonstrou facilmente! Um medo directamente proporcional á inaptidão política da maioria da Câmara!

 

Luso, Maio, 2008                        mealhadatemas@.com      lusotemas@.com

 

  

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MARATONA SE LISBOA

                CRÓNICAS LOCAIS-55

                 Ferraz da Silva

               A MEIA MARATONA 
              
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    Eram dez e meia da manhã já a praça da portagem em Almada era pequena para acolher tanta gente. A maior parte, como eu, vestindo uma camisola verde alface á qual procurava pregar o dorsal número vinte e oito mil setecentos e vinte e quatro com o kit de alfinetes que me foi dado para o efeito, mais uma mala edp com uma garrafa de água, umas bugigangas e juntamente uma medalha comemorativa, tudo pela quantia de dezassete euros, fui dos atrasados, mais um bilhete de ida e volta da CP para atravessar o Tejo pela ponte Salazar e 25 de Abril, estranha coincidência!
  Da Avenida de Roma ao Pragal, já a enchente era grande no comboio urbano, para mim e para todos os não amigos, por isso não convidados, do senhor Sócrates que foram colocados na portagem por carros de altíssima cilindrada, daqueles que nós pagamos. Nós, cidadãos, fomos alegremente no comboio e já é sorte ter um bilhete de borla, não tanto pelo dinheiro mas pela simpatia ou pelo engodo, nunca se sabe se isto é feito ou não com segundas intenções, mas que o estacionamento dos pasteis de Belém onde ás vezes ponho o carro ao domingo de manhã para comprar o jornal quando me encontro em Lisboa estava reservado por uma dúzia de policias para o senhor Sócrates e mais os seus convidados, isso via-se pelas bombas que lá não costumam estar.
   Trinta mil a passar a ponte a pé, é muita coisa e não sendo dos primeiros, já estava meio estafado de subir as barreiras da estação para a portagem, alinhei mais perto da retaguarda que do topo, de modo que enquanto os primeiros a partir já corriam a bom correr, ainda nós, dos últimos, conversamos animadamente sobre o percurso do sol entre as nuvens que apareciam, sobre a viagem do benfica ao marítimo da madeira ou sobre a marcha dos professores, mais setenta mil do que nós, mesmo assim a ocupar dum lado ao outro a ponte sobre o Tejo.
  O Sócrates mais a Rosa Mota e uma chusma de seguranças mais um pelotão de paraquedistas em formação de corrida a correr não sei porquê, acabaram por partir primeiro, entre palmas e assobios, enquanto a minha vizinha do lado dava a chupeta ao bebé sentado no carrinho, para o silenciar pelo seu precoce protesto.
   Foi mais ou menos a partir desta altura que a minha mole, como um todo, meteu os pés a caminho dando seguimento á permanente partida que se estendia já por meia hora e a horda de novos infiéis deixou a margem sul a caminho da meta, do outro lado, no norte.
  A verdade, é que nesta corrida da meia maratona de Lisboa que já vai no seu décimo oitavo ano de edição, a minha segunda, não há só uma corrida mas várias corridas em conjunto.
   Uma para os profissionais, aquela que mostra a televisão. É a dos campeões, dos craques, dos conhecidos, negros etíopes os primeiros a chegar, por isso são também os primeiros a partir. Vai depois a corrida dos europeus mais os que tem a mania que correm, partem a explodir força como um carro a gasogénio ou a máquina a vapor, mas a meio expulsam gazes, levam a língua de fora e chegam alagados em suor juntamente com os amadores verdadeiros que correm por correr para manterem a forma, são a maior fatia em competição e chegam no primeiro lote.
  Os da mini maratona vêm depois. Ministros, secretários de estado , chefes de gabinete e convidados, os que dão lustro, correm depressa para os carros de cilindrada, para os almoços, pavoneiam-se para a televisão, saúdam com a mão o povo anónimo, correm o que não correm nas suas várias funções, mas chegam atrasados, anos que não perdoam, excessos, barrigas, poltronas. São montras ambulantes, não correm para ganhar correm para aparecer.
  Surgem então os mini amadores, corredores de bocados de domingos, farrapos de percursos, jovens, casais, terceira idade, correm e andam, andam e correm, não tem horário nem regam ilusões, levam os seus lulus as senhoras, vestem uma camisola do sporting os garotos, carrinhos de bebés as mães, um trompetista , o homem dos sete ofícios, o burro alentejano e finalmente para apanhar algum distraído, o carro vassoura.
  Nos Jerónimos, entre o fim da corrida e o domingo de ramos, é uma festa protagonizada pela multidão dos participantes de boa vontade. Desapareceram os campeões, os políticos, a televisão e na grandeza da praça e dos jardins espalham-se milhares de portugueses um pouco de todo o lado. Alguns, dos que trouxeram o farnel, não perdem tempo, outros, que também são de fora, chegam-se ao restaurante mais próximo para recuperar as forças.
  Subi a Calçada da Ajuda e no Serrano, um conhecido antigo, encomendei uma dose de cozido á portuguesa á moda de Lisboa que, por pouco dinheiro, foi mais que suficiente para acompanhar uma picheira de tinto alandroal de óptima qualidade.
  Um dia á portuguesa onde só destoaram os ministros em carros de grande cilindrada!
  No próximo ano, leitor, se puder, não perca esta oportunidade única de participar num evento impar aberto a toda a gente e cheio de vivacidade e alegria. Não vai arrepender-se, garanto!!!
  Lisboa, Março,2008                                           mealhadatemas.blog,com

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