VENEZA GIULIA
Ferraz da Silva
VENEZA GIULIA
Desembarquei em Santa Lúcia ao fim da tarde com duas horas de atraso sobre o meu horário previsto e digo meu horário porque face ás disponibilidades existentes sou eu que os escolho e faço como as malas, sem a companhia de Júlia que deixou de me transportar sentimentos e palavras e âmago delas próprias, mudou-se como quem muda de camisa, por promessas de empirismo financeiro. Apenas uma questão de verbo, pois também não quis aprender a língua de Dante ou fazer fisioterapia para agilizar as pernas quando se começou a queixar às sextas-feiras á noite depois de meia dúzia de danças pendurada no meu pescoço a murmurar meu amor, íamos já no tango e no bolero e a orquestra arrastava-se na languidez da música e dos corpos enlaçados. Uma safa!
Tomei um regional barato com paragem em Bréscia, Peschiera do Lago Garda, Verona, Pádua e Vicenza . O comboio, ao contrário do automóvel que nos prende a instrumentos egoístas e totalitários, permite-nos continuar a usufruir duma vida normal em movimento, como se fossemos sentados na mesa do café ou no jardim da cidade e cada carruagem desenvolve a sua própria sociabilidade, cria o seu próprio ambiente e sustenta por si própria a vida de quantos vão numa emergente comunicação entre a vivência interior que passa e a de fora, que está. Parece um paradoxo de Einstein mas a verdade é que nos deixa pensar segura e tranquilamente, sonhar, ou ligar á ficha da corrente o blog pessoal. Continuo a dizer que o comboio é um excelente meio de viajar, o perfeito, no próximo futuro.
Na paragem de Verona, a cidade onde William Shakespeare ficcionou Romeu na sua trágica paixão, encontrei restos da publicidade da época lírica anterior cheia de figurantes da Aida de Verdi, a ópera mais famosa que se representa na Arena da urbe com toda a circunstância e foi aí que me veio em sugestão nos gestos e olhares pictóricos do enorme painel, a figura de Júlia, mas não lhe consegui fixar o engelhar do rosto nem o buraco negro dos silêncios tal a distância se apoderou de nós.
As paixões não são bens duradouros, umas porque se apagam, outras porque se esquecem, outras não se alimentam, outras porque se traem e outras ainda consomem-se em mortes e tragédias como as shakespearianas e são o encanto e o entretenimento de gerações sucessivas presas á realidade que a ilusão mistifica. Só estas, lendárias, sobrevivem.
Depois veio a outra Júlia, a criminóloga e apanho-a sempre, quer desembarque em Malpensa ou no Galileo Galilei, apanho-a e seguimos viagem juntos, ás vezes por poucos dias, outras, por mútuo consentimento, até ao derradeiro minuto. A bem dizer depende do seu trabalho. Pelo caminho, vou-lhe lembrando que está cada vez mais magra, mais pequena, qualquer dia anoréctica e ela responde que não, que gosta de ser assim pequena, a caber-me no bolso do casaco, ligeira e leve como uma folha de papel, que és, digo eu e ela ri-se enquanto se agarra á minha mão e atravessamos a passadeira a correr.
Exactamente no verão passado, numa mini corrida, fomos propositadamente a Verona para ver as Bodas de Fígaro. Era noite de estreia e como nos tinha dito a nossa companheira de viagem a caminho da pousada da juventude, a lotação da Arena estava totalmente esgotada há um mês, mas acrescentou que se arranjava sempre bilhete de última hora. Seguindo o seu raciocínio e a lógica portuguesa, da estátua de Dante na Piazza dei Signori, à Casa di Giulietta, ao Castelvechio ou ás margens do rio Adige, tudo foi pouco para procurar na candonga. Nada. Porém á hora, os bilhetes saltaram como por magia de qualquer lugar e não ficou de fora quem tivesse dinheiro contado para dar pelo mágico papel. Talvez porque a Arena de Verona, o velho coliseu romano da cidade, tenha lugares mais que suficientes no seu perfil elíptico para satisfazer tanto as exigências da oferta como as da procura e mesmo os próprios excessos.
No cais de S. Silvestro, nós vivemos numa Europa de santos, terminei a viagem deixando finalmente o canal para entrar meio minuto depois no refúgio de Antonella Giuspinni, a minha anfitriã no centro da cidade, dois passos de S. Marcos e bem perto dum bar tunisino aberto sobre a rua onde costumamos saborear crepes recheados de chocolate quente, feitos ali á nossa frente ante o cheiro que se apodera do ar e faz juntar os clientes num arraial de espera. O chocolate escorre quase tão delicioso como o de Bionaz, nos Alpes, na estufa divina do bar Sàssone ao fim da tarde, durante o silêncio dum nevão. São clientes de todas as nações pelas ruas estreitas, articuladas, frias e escuras, lembram a baixa medieva de Coimbra numa maior dimensão e entrecortada por pontes e canais que o fim do dia esconde na penumbra. À noite, só no grande canal o trânsito continua, targhetos e vapores, gondoleiros e taxistas numa azáfama ao sabor da época do ano, neste caso, do pós carnavalesco.
Depois de tomar banho e sair, desceu um nevoeiro cerrado sobre a urbe e a fraca iluminação reflecte-se em múltiplas tonalidades sobre o contorno das águas. Telefonei a Júlia, estava pronta, agora aguardo na Ponte de Rialto com duas máscaras na mão conforme o prometido. Com elas nas faces, disfarçados ou escondidos, fomos á Academia em Dorsoduro saborear na velha trattoria de Cantinone um magnifico risotto terra mar, uma espécie de arroz de marisco com legumes e cogumelos á mistura, por um preço razoável, um ambiente acolhedor e duas horas de divertimento acompanhados por máscaras brilhantes que aparecem de todo o lado.
Veneza, que começou a cavar o seu desastre desde a viagem de Vasco da Gama, trocou a sua antiga opulência por um coração divertido e colou em definitivo o Carnaval da cidade ao calendário do turismo. Hoje, sobrevive dos vidros de Murano, da produção industrial de máscaras e da visita dos turistas, milhões, que se acolhem na cidade com o gigantismo de um exército de formigas. E Veneza recebe-os com a magnitude da sua opulenta história mais a magia dos seus canais, a torre das suas igrejas e São Marcos, o santo que conseguiu roubar aos bizantinos para sepultar na laguna e ao qual ergueu um monumento da cristandade com projectos do Islão. Resultou numa obra de arte de incomparável beleza que todos os dias apetece revisitar, se as filas, durante o ano, o não impedissem de fazer.
Sentados na vasta praça perto do Campanile, meia noite na Torre dell’Orológio, tirei de mim a colorida máscara de dama quinhentista e leve, tão leve como uma esponja pode ser ao balançar-se nas águas dum oceano sereno, encostei os lábios aos lábios do cavalheiro, a Júlia, criminóloga e quinhentista, que agradeceu com afecto o derradeiro mimo num sonho duma noite de Inverno, em S. Marcos , Palácio dos Doges, Fevereiro, ano da graça de 2008.
Quando o airbus me despejou na Portela quinze dias depois, já a criminóloga se encontrava em Londres ao serviço de sua majestade num papel de emigrante honesto e simples e mais que isso, inteligente, tanto ou mais que se conseguiu encaixar com êxito nos serviços secretos. Sei que não é o SherloK Holmes mas para lá caminha!
Prova provada de que alguns portugueses por esse mundo fora são bem capazes de passar a fasquia da tacada do golfe e da reforma choruda reservada a parasitas comunitários, através do trabalho e do saber, como o caso de Augusto Esquetim Pardal, alentejano de Cuba, que se especializou em sparghetti, macarrão e raviolis, em tagliatelles, tortellini , cannellini ou farfalloni , sem esquecer a saborosa focaccia da Liguria.
Gere por sua conta e da mulher Fiordaliso, a Trattoria Santo António, em Marghera.
- Piano, piano, se va lontano ! Diz…
- É vero. Arriverderci, Augustus !!!!
Veneza Giulia, Fevereiro, 2008 Mealhadatemas.blog.com