Tuesday, March 4, 2008

VISEU,CASA DOS QUEIJOS

 

CRÓNICAS LOCAIS-48

Ferraz da Silva

 

      Almoço em Viseu, Escadinhas da Sé, Casa dos Queijos. Para quem não sabe, uma viela estreita da rua direita ás traseiras do templo, um primeiro andar de escadas íngremes, apertadas entre paredes de granito beirão, sobe um de cada vez, duas mini salas de jantar em socalcos estreitos, a de cima a dar entrada directa na cozinha paralela, donde, entre fogões e tachos e lumes e panelas, sobressai um cheiro assustador.

     Se digo assustador, é por não me temperar da gula e da tentação, por me iludir no odor em primeiro lugar, nas papilas depois, e cair que nem um pato nos acenos diabólicos dum deus pantagruélico que nos dá cabo do colesterol, da tensão ou do ácido úrico. A cozinheira é beirã e é de facto daquele aroma penetrante que  vem, entre outros, o angélico perfume dum rancho com grão-de-bico feito pela dona da casa, a sair, qualquer coisa de irresistível face á sensaboria duns grelhados sem sal ou dumas saladas sem gosto que fazem parte das dietas. O ser humano acossado com fome, débil e vulnerável, acaba por cair na fraqueza carnal com uma facilidade e ligeireza que desafiam o equilíbrio e o bom senso, enlameando-se na argamassa da gula e na simplicidade do pecado. Uma celestialidade de duas faces como a maçã da Eva, tão dura de roer no trato digestivo!

   No tempo das bulas papais, tudo isso se limpava com cobres dados ao templo numa folha de papel por mor da ira divina, mas a dádiva nada adiantava em termos de regra, à elegância, à sobriedade ou á saúde e hoje, nem o travão do médico, com todos os melhoramentos tecnológicos desobriga alguém do pecado.

   Este intróito adjectivado, apimentado, nada tem a ver com a humildade do restaurante onde os comensais se apinham á hora do almoço numa azáfama de três ou quatro mesas compridas em refeição comum, mas tem sim com o artesanato da coisa, isto é, o dedo, a verdade da tasca á portuguesa, a limpeza, a boa comida, num ambiente genuíno. De povo português, quero dizer, numa promiscuidade geral no meio dum parlatório comum. E de boa cozinha tradicional a marcar pontos.

    De resto, as paredes são, como disse, de granito á vista, o teto, forrado a madeira rústica, é travado por dois troncos de carvalho de Moimenta, um varandim envernizado entre as salas, garrafas e estandartes de Vildemoinhos, Repeses e Ranhados enfeitam, e para beber, vinho da casa, de Nelas, Mangualde ou Loureiro de Silgueiros , como tenho bebido  e bom !  Tudo beirão qualificado sem a certificação dos burocratas e fundamentalismos da asae , melhor é dizer azar que nos cai em cima como  cumpridores exemplares das regras estabelecidas , fundamento primeiro dos arrotos do poder.

   Entre gente de trabalho e pouco dinheiro, não há lugar para repastos prolongados, quem dispõe de mais tempo e mais riqueza vai logo acima ao Cortiço e come pouco mais que a mesma coisa com um requinte diferente. E fica-se por lá a tarde, se quiser, a empapar gorduras.

  Porém gosto da Casa dos Queijos, é mais humano, é mais acolhedor e em sabor, nada fica a dever ás melhores casas, e depois, aquele quartilho de aguardente ao cimo da escada donde o cliente tira o cheiro pró café no fim do próprio repasto, dá-lhe um ar de amizade e de família. Como a comida, caseira e desapaparicada , digamos que carinhosa  de preço, afável á carteira tanto como ao palato distraída.  Lembra-me a casa da minha avó materna quando eu era menino e existia a gaveta da cozinha onde nós, netos, ao entrar, caíamos subitamente na boroa do Silvino para matar o vício ou a fome num ritual que a memória me traz ás vezes com saudade.

  Na minha primeira viagem a Génova fui almoçar á zona portuária, Porto Antico, ao restaurante Ti Maria. É no emaranhado das velhas ruas da cidade, coração da idade média, onde se respiram ainda os Dórias, os Pallavicini ou o cruzado Barbarroxa  , que fica situado, num primeiro andar, este particular negócio de comidas. Também uma escada, uma cozinha, bons cheiros, dois salottos, apetites, vinhos, garrafas, presuntos de Parma, mesas corridas, tudo assim tão naturalmente como na casa dos Queijos de Viseu. Marinheiros, estivas, trolhas, funcionários e gente fina, constituem os comensais da famosa Ti Maria a preços razoáveis. Qualidade preço que lhe permite figurar, entre as centenas de locandas da cidade, no famosíssimo guia Michellin, como seu único representante. Uma condição rara a cardápios europeus!

   Por isso digo que nem só a pompa e os salamaleques valem o que valem neste mundo, se é que alguma coisa o vale, e depois, para bem se conhecer uma cidade, um povo, os seus costumes ou o interior da sua alma, só andando à sorte no formigar distraído das pessoas, quer sejam individuo ou multidões, no seu habitat próprio. E a fugir ao pacote dos resorts, antes que sejamos propriamente empacotados no lugar comum, nos clichés, nos clones ou na multiplicação dos pães, dos fatos ou dos gestos.

   Fazer turismo de qualidade ou de consciência, se considerarmos os nossos actos de lazer puro turismo, passa cada vez mais pela nossa escolha activa e pelo conhecimento da nossa própria procura, sob pena de amanhã ser-mos peças dum puzzle global alugados aos nossos próprios exploradores. O inverso do que ainda hoje, ás vezes ilusoriamente, se pensa.

  Esta filosofia, aliada ao facto do meu mais ilustre conterrâneo Emídio Navarro, um dos maiores vultos do município da Mealhada, ser natural de Viseu, bela cidade, leva-me de vez em quando á urbe de Viriato numa espécie de peregrinação emocional que, tanto quanto tenha consciência, não tem explicação, como muitas outras coisas. Vai-se por aí acima sem rumo, vai-se por ir e no vazio mental subjacente, acaba-se em Viseu.

  E depois lá está, Rua Direita, a mais torta da cidade, Casa dos Queijos e o melhor repasto, rancho á moda da tropa, cozido á portuguesa, o bacalhau com grão. Depende dos dias.

  E está tudo explicado, sem complicações freudianas!

  Luso, Janeiro, 2008                                                       mealhadatemas.blog.com

                                                            

Posted by peter in 14:20:25
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