Tuesday, March 4, 2008

SANTO ANTÓNIO DE LISBOA

  


   

CRÓNICAS LOCAIS-52

Ferraz da Silva

 

 - Desculpe , sorella,  onde nasceu Santo António ?
A irmã , que caminhava de olhos pregados no chão em passo leve e miúdo,
fixou-me hesitante e ante a postura respeitosa á qual tinha subtraído  um clássico chapéu de coelho curtido que me havia custado uma fortuna na praça de S. Marcos, respondeu duvidosa:
- Suponho que em Lisboa, mas é melhor perguntar no centro de estudos antonianos ao lado da sacristia.
-Grazzie mille ,sorella e buona giornata…
Atrás de nós o santo , por pura intercepção da sua imagem mais de quantas estátuas, orações e amuletos que se espalham em volta do seu altar que por si só faz das nossas igrejinhas mini templos, testemunhou este pequeno diálogo e calou-se. Ao fim e ao cabo eu pretendia apenas testar a sabedoria da sorella e provar se entre tanta gente nem uma freira , devota a coisas dos altos céus, conheceria a identidade do nosso casamenteiro Fernando de Bulhões. É que também Antonella Giuspinni, por exemplo, a minha anfitriã na rua de S.Polo, que é como eu  amante da Lualdi ,  Felinni,  de Sicca e de Sofhia, pessoa esclarecida em termos religiosos, desconhecia a origem do grande milagreiro lusitano e muito admirada ficou quando lhe disse, pouco confiante em que me acreditasse aliás, que se tratava do grande Santo António de Lisboa. 
 Mesmo a mulherzinha que me vendeu á sombra da estátua equestre de  Gattamelata, de Donatello, um Santo António de plástico emoldurado em lata  martelada me fez saber, quando lho perguntei, que o santo era de Padova e bateu-me o pé quando lhe disse que não, apesar dos quinze euros  que paguei pela fraca lembrança do orador.  A obra, de inspiração popular, é   igual a uns santinhos  de papel que existiam noutros tempos em Coimbra representando a imagem  da Rainha Santa encaixilhada sob o vidro, na mesma lata martelada, com um comprido   manto roxo donde sobressaía por volta do pescoço um vestido amarelo e depois , na cabeça, a coroa.
 Lembro-me muito bem. Do colo caiam-lhe meia dúzia de rosas encarnadas e daí o meu ingénuo crédito ao milagre de então, na idêntica proporção em que hoje o dou  á caridade dos avaros. Ainda há-de andar lá por casa em qualquer canto escondido essa velha relíquia da iniciação cristã familiar que era então um dos cultos mais seguidos do centro de Portugal ,  todos eles destruídos pelos interesses político conjunturais duma senhora de Fátima, agora  em adaptação acelerada ao low cost  das almas.
  Certo é que os Paduanos que lhe chamam ‘il santo’, ( o santo) lhe ergueram um descomunal monumento a partir de 1232 , um santuário que mistura materiais e estilos, do românico ao bizantino e ao gótico, em torres,   abóbadas, minaretes, agulhas, ângulos e recantos que lhe dão uma heterogeneidade epistolar. Em tudo oposto á vida e espírito do pregador que terá sido um  seguidor fiel da doutrina franciscana que enfim, na sua essência  primitiva, pouco ou nada tinha a ver com a opulência mundana !!
 Apesar de tudo , acho que os Paduanos deram a Santo António a dimensão e a magnificência que os seus compatriotas  apesar de se alimentarem de mitos, nunca  lhe poderiam dar e juntaram na cidade duas figuras que fazem parte da história universal. Uma da igreja, Il Santo, outra da arte, Giotto.
  Giotto era florentino, não paduano , mas ir hoje á cidade  e não ver a pintura de Giotto na Capela Scrovegni  é como ir a Roma , passe a expressão, e não ver o papa. Construída em 1303 por Enrico Scrovegni, com  a intenção de salvar seu pai ,acabado de falecer, do inferno de Dante descrito na Divina Comédia, a capela tem no seu  interior aquilo que poderá ser  uma pequena  proto-capela Sistina  da autoria de Giotto, onde o artista desenvolve em frescos admiráveis  a vida de Cristo considerados hoje a  sua principal obra prima. De  1303 a 1335, dedicou-se a este trabalho em honra da Madonna desenvolvendo-o em temas relacionados com a vida familiar  e a vida pública de Cristo , socorrendo-se da narrativa não só dos evangelhos oficiais, como dos evangelhos apócrifos.
  São duas figuras importantes com duas obras associadas que fazem de Pádua um lugar de paragem obrigatório para quem anda por perto .
Por mim, perdido pelas ruas desde as nove da manhã, resta-me voltar á estação ferroviária e retirar um bilhete para Santa Lúcia nas máquinas automáticas, curiosamente, com uma opção em língua portuguesa, coisa nem sempre vista por esse mundo fora .É já noite quando troco o comboio pelo vaporeto da linha um e balançando ao sabor das águas calmas do grande canal, vou relembrando aquela poesia de Augusto Gil , dita de maneira soberba pelo grande João Vilaret  nos velhos tempos da televisão portuguesa:
        Saíra Santo António do Convento
        A dar o seu passeio costumado
        E a decorar num tom rezado e lento
        Um cândido sermão sobre o pecado….
E já na entrada do Cá Arco Antico, dizia ainda para comigo num exercício de memória difícil .
        …o luar , um luar claríssimo nasceu
        num raio dessa linda claridade
        o Menino Jesus baixou do céu
        e pôs-se a  brincar com o capuz do frade…

 

Veneza, Fevereiro,2008                            mealhadatemas.blog.com   

       
 

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TERMAS DO LUSO

    CRÓNICAS LOCAIS-51
    Ferraz da Silva
   Quatro hotéis, várias clínicas de estética, spa’s, ginásios, dezenas de estabelecimentos comerciais, centros de investigação, parque industrial, mil empregos, saúde, beleza, bem estar, enfim cinquenta milhões para investir, se aparecer por aí um rei Minos, lembram-se do rei Minos… ???
  A propósito, ainda este ano me mascarei pelo natal e o meu neto comeu-a quando debaixo da barba branca, seguro da mística figura arremedei a voz grossa dum fadista de Lisboa e disparei, entrando de rompante  na sala de jantar :
   -Ah!… Ah!… Ah!… chegou o pai natal !!!!!!
 Olhou silencioso, depois admirado, espantado e finalmente encantado! Entre respeito e medo, não me reconheceu! Tem três anos …!  Não me desmanchei, mas  perante um sapatito pequeno,  piccolo, piccolo, que nem se via debaixo das bugigangas, relembrei os meus  magros tempos de criança e murmurei para comigo:
   -Não há fome, que não dê em fartura!!!!
    O Luso está na mesma.
   -Não há fome que não dê em fartura!!! Diz-se…
    E dei comigo a pensar:

  - …se até aqui era a concessionária das águas a enganar o Luso e o Concelho com as suas  promessas, agora é um executivo da Câmara politicamente alucinado que se junta ao coro, tentando vender aos eleitores a mesma cartilha que há vinte anos lhe vem sendo impingida pela concessionária , isto é,  sonhos, mentiras e  incumprimentos!

  Numas termas que, de degradação em degradação, caíram em agonia permanente, a fartura é tanta que o pobre não só desconfia, não acredita…!  Nem concessionária nem câmara têm crédito para oferecer seja o que for porque a verdade é que já não se pode acreditar   em quem não nutre o mínimo  respeito pelo factor humano dirigindo-lhes  sucessivas e  insultuosas lérias.

  O administrador sal que esteve na apresentação privada da estratégia encomendada pelo município para o Luso , pediu com todo o á vontade a paciência das pessoas para o seu próprio plano do Luso 2007 que já devia estar executado e nem sequer projecto tem. Segundo relata a imprensa que esteve presente, metendo as mãos pelos pés pediu ao Luso que se tranquilizasse, dando conta que a empresa não perdeu de vista a restruturação do Luso-cujo projecto previa o inicio das obras em 2007-pedindo paciência á população e tranquilizando-a ao dizer que brevemente o projecto começará a ser desenvolvido.
  É curioso que se tenha esquecido de que o plano apontava para 2007 como ano de inauguração e não do começo de obras, e é tanto mais sintomática esta afirmação na medida em que não se acredita que o administrador não saiba a calendarização dos compromissos da sua empresa . Também não se sabe se aquele administrador sabia ou não sabia, ele não o disse, se naquele momento a empresa ainda era propriedade da Newcastle , ou se já era   da Heineken, pois acabara de ser transaccionada mais uma vez, por tal motivo não chegaremos a saber em nome de qual empresa falava e prometia e não acreditamos que a  distraída Câmara da Mealhada o não soubesse. Soubesse ou não, calou.  É preciso dizer basta a políticas de branqueamento quer de incapacidades , quer de incompetências ou de preparativos de futuros actos eleitorais.
   Numa leitura transversal a vinte anos de promessas feitas, é legitimo concluir que se tratou de mais uma mistificação desta vez com a conivência e apoio duma autarquia que não entende nem defende os interesses do município. Não é que o plano estratégico não seja necessário , neste capitulo a câmara anda atrasada quatro anos, desde que lhe foi sugerida a urgência dum  plano e duma nova empresa para as termas, porém não é dum plano irrealista e megalómano que se precisa ,mas dum plano exequível, razoável, com alicerces, sustentação e credibilidade.
   É mais que oportuno saber até onde vai o apoio da concessionária á construção de quatro novos hotéis, se há bem pouco tempo vendeu o Grande Hotel que era um dos marcos da hotelaria do centro do país  e lhe pertencia ! Para quê mais quatro hóteis se a capacidade hoteleira instalada está longe de ser ocupada a cinquenta por cento ? Quem  delineou a estratégia conhece  a  realidade das termas do Luso ? Parece tratar-se duma brincadeira , não das brincadeiras de carnaval a que estamos habituados, mas  coisa mais séria e responsável !
   A Câmara da Mealhada, em termos políticos absolutamente ignorante e desnorteada em relação ao Luso e a uma politica termal, tenta lavar as mãos que tem completamente sujas por incapacidade na obrigação de fazer cumprir o plano Luso 2007, comprando ela própria uma estratégia para a qual não tem competência suficiente enquanto a concessionária da água de mesa for a mesma concessionária das termas e não definir ela própria até onde vai a sua intervenção, com quem, com que abertura , com que estrutura ou com que parceiros ,já que por ela própria também é há muito tempo evidente que não quer , não sabe, não lhe interessa nem   pretende intervir nas termas  .  Isto, que é tão claro como a água, para a Câmara da Mealhada é chinês, e tanto mais chinês desde  que em termos políticos se vendeu em definitivo pelos tostões litros.
  Se a concessionária queria intervir nas termas, não tinha vendido os terrenos para onde  projectava a modernização. Não tinha cedido o hotel nem deslocado o seu apoio administrativo para Vila Franca de Xira. A concessionária quer apenas vender água e levar os lucros  para fora do município, não quer mais nada.
  Para os sucessivos proprietários, umas modestas termas perdidas num cubículo da europa, internacionalmente desconhecidas, penduradas em negócios do liberalismo selvagem em que a desregulamentação e a impunidade dominam, servem para alguma coisa? Não pondo sequer a hipótese da sua sobrevivência, concluem que se isso não dá uns milhões, fechem-se. Depois, acabam por saber que é nestas termas que está pendurada a concessão da venda da água de mesa e aí, travam, mandam remendar o telhado, substituir três ou quatro banheiras partidas e não fecham a porta. Porque não podem. Têm medo. Pelo que se vê, sem razão, mas têm mêdo !
 E nós, nós autarquias, nós ministérios, nós governos, não temos uma concessão para discutir ? Ou nem aquilo que é nosso sabemos defender ??? Quem lucra ?????
  Na minha opinião, de positiva, apenas a presença da CCRC, disposta, com o quadro de apoio existente, a colaborar. Mais claro que a presença  não vejo como, mas será que os projectos , como se ouviu, aparecem ? Ou será sempre e só o escandaloso golf ao lado dos carris  e do barulhento nó ????
   Também como mera opinião, os autarcas  deviam ter a honestidade política suficiente para reconhecer os seus condicionamentos, demitindo-se, dando assim lugar a eleições antecipadas capazes de gerar, no menor espaço de tempo, um executivo capaz de perceber o sítio onde vive e aproveitar as oportunidades que surgem..
  Quanto ás termas, não há ninguém que as viva que não saiba, até empiricamente, dizer como começar. SAL e Câmara é que não querem entender.  Estranha cegueira !
Nervi,Fev.2oo8                                                                       lusotemas.blog.com

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O BI DO REI AFONSO

        CRÓNICAS LOCAIS-50

      Ferraz da Silva

     (…em politica, o resultado é tudo. Uma imbecilidade que casualmente alcança êxito é um rasgo de génio. O plano mais admirável, se fortuitamente se gorou, não passa duma imbecilidade.)
 Amélia, Rainha de Portugal

     Para mim, o melhor português foi Dom Afonso Henriques, ainda que não tivesse bilhete de identidade nem consciência sequer de o ter sido. Uma coisa porém é certa, foi o primeiro dos que depois vieram, após lutas recontros e batalhas, pela conquista dum território cobiçado, discutido palmo a palmo com o suor do seu rosto, num tempo medievo em que o povo não ia a votos mas a nobreza, que conduzia os destinos políticos do embrionário reino, pagava com a vida os riscos assumidos.

   Por isso também o nosso primeiro rei foi sepultado em Santa Cruz de Coimbra cheio de espadeiradas ressequidas e uma perna partida herança de Badajoz quando o atrevimento lhe foi além da chinela e ficou, como diz a história, com a lata da armadura entalada numa porta. Pagou caro o arrojo, sofreu com a mazela até á hora da morte!

    Teve o seu querer que era maior que ele próprio, vontade hercúlea, um sonho de grandeza, trabalho permanente e dádiva total. A vida por um condado, um reino por recompensa. Não sendo bruxo nem adivinhador, duvido que lhe tenha passado pela cabeça consciência dum futuro!

    Mais coisa menos coisa foi o que ouvi da professora Laurinda na minha pré-história no ensino primário e apesar da inúmera historiografia que li depois sobre o primeiro rei é ainda hoje, duma maneira sucinta, o que me fascina e encanta na sua rude figura de criador do reino. Um gigante.

  O reino prosseguiu a sua luta e instalou-se progressivamente no território e no tempo, fez uma história de feitos, de guerras e virtudes, sucessos e desgraças, de erros e omissões corporizado em três massas distintas, os que mandam, os que rezam, os que obedecem e que raramente, salvo por questões relacionadas com fundamentalismos, revoluções, alarmismo de poderosos ou ditaduras impostas, se uniram.

   Mas sempre que o fizeram criando oportunidades únicas para alterar e aperfeiçoar toda a comunidade, ou não souberam fazê-lo ou fizeram-no de modo a voltar sempre ao mesmo, adiando á massa dos que obedecem a chegada da cultura e da civilização, mantendo-os ordeiramente na miséria atávica e no limiar da pobreza que acompanhou reino e nação.

    Larga percentagem desta massa indistinta espezinhada, optou pelo silêncio e pela emigração e outra percentagem desta massa habituou-se ao engodo, á escravatura, á punição, ás correntes, ao horror das galés, ao perigo dos franceses, ao apetite comunista, á bancarrota, á precariedade. Uma China!

  Mas há outra coisa pior que é a sustentada debilidade económica em que vive esta massa, ainda hoje num Portugal CEE, orgulhoso de dez estádios de futebol, de inócuos tratados de Lisboa, de mentecaptas discussões sobre aeroportos e alheio ao interesse e bem estar da sua população.Com a bênção da superstição da massa que ora, a democracia é isto, mais a cómoda esponja sobre o oportunismo que em todas as eras tem acompanhado a massa do mais forte e mais essa subserviência económica dum povo oculto pela gesta dos heróis, ás vezes sábios.

   Esta dependência económica que mantêm mais de um milhão de portugueses com trezentos e trinta euros mensais e a maior parte dos restantes entre isto e o que vai até mil é que dá origem ao silêncio, á renuncia, á tristeza ou á desilusão, ao vazio instalado e á descrença que se multiplica. E se multiplicou sempre. É esta mesma dependência promovida por sucessivos poderes que os mantém há muitos séculos na ignorância, no esquecimento dos seus direitos, afastados do conhecimento, da redistribuição da riqueza ou da condição humana, em proveito de elites presunçosas que nunca conseguiram, em oito séculos de história, construir um estado de honestidade e de justiça, mas sim um condado de papeis, burocracia, hierarquias, exploração e subserviências, a seu favor e prazer. A monarquia primeiro a república depois.

  O triunfo dos porcos de George Orweell numa versão animals, Pink Floyd, uma caldeirada á portuguesa como não podia deixar de ser!

  Como diz o cantor Rui Veloso em entrevista recente, o português é cobardola, vive num clima de medo, é fatalista e conformado. Ninguém protesta nem exige nada
   Porquê?????

   Sem dizer tanto, pobre e acanhado, assiste de facto ao espectáculo indigno, indecoroso, indecente, que lhe dá dia a dia a massa do poder na disputa dos poucos lugares de distribuição da riqueza comum. A sopa dos pobres dos espertos, o dote do privilégio! Nas administrações privadas ou públicas, nas empresas, nas assessorias, na CEE, donde recolhem, não sabemos porquê, boas fortunas. Administradores, políticos, corporações e oportunistas, como monarcas, fidalgotes, morgados e caciques doutras eras, gerem entre si este nebuloso mundo onde os segredos são muitos e os escrúpulos parecem ser nenhuns mas a vida, pelos vistos, uma libertação e um paraíso, aberto aos  sobredotados  que nasceram de cu virado para o sol.

  É inaceitável que num país da nossa dimensão, um banqueiro, público ou privado, se reforme com somas astronómicas como as que tem sido anunciadas na imprensa diária ou que políticos se banqueteiem entre a administração e empresas muitas vezes peritas em especulação e despedimentos, donde auferem não poucas vezes rendimentos escandalosos. Cenários que o bastonário da ordem dos advogados teve a coragem de abordar mas que, por ninguém saber deles para além da vox populi , causam espanto e admiração entre os ungidos. Tal qual como na morte do rei D. Carlos, já que estamos no centenário do regicídio, fora o Costa e o Buiça, mortos, ninguém soube de nada! Vergonhoso!!!

   Para mim, que sou do tempo das magrezas salazaristas e seu inimigo natural, que redigi uma declaração anticomunista para ter trabalho que havia, trata-se de ostentação, de despotismo e de abuso de poder sem escrúpulos e da constatação que em Portugal, deste as primeiras benesses distribuídas pelo mestre de Avis, entre as quais as do santo Condestável que por pouco não recebeu Portugal inteiro, nada mudou.

Heróis baratos, só o povo anónimo!!!

 Sem querer legitimar seja o que for, um pateta salteador de bancos por conta própria, põe uma meia na cabeça, empunha uma arma de fogo, a sério ou a fingir e arrisca a vida para hipoteticamente trazer do caixa uns trocados que lhe dão jeito mas que não deixam de ser trocados para as administrações. Está como o Rei Afonso, arrisca-se a morrer com um tiro, a ficar sem uma perna, um braço, ou malhar com os costados na cadeia toda a vida. Outros contudo, nada arriscam!

 Pergunto-me sobre a rejeição dum Salazar no campo de valores, ainda que alguns me não dissessem nada. Mas a revogabilidade de coisas tão simples como a educação, a disciplina, o equilíbrio e a justiça, valores insensatamente delapidados desde a abrilada, deixam-nos suspensos e frustrados sobre a liberdade adquirida.

   Sobre os valores se impôs um novo rei, o dinheiro e a sociedade globalizante deitou por terra as humanizações e caminha cada vez mais para a bestialidade. É o preço da riqueza concentrada perante a pobreza geral. Filhos da mãe e filhos da outra!

  E o povo, não reage? No caso do povo português, que nunca foi educado no apuro da sua capacidade critica, mãe de todo o desenvolvimento, baixa a cerviz, tira o chapéu ao rei engolindo uma obscenidade e, como diz Rui Veloso, não protesta nem exige nada, emigra, aguenta no silêncio as injustiças da vida, vai a Fátima a pé por promessa de melhores dias, vê o Benfica ao domingo a coxear e agoniza as suas dificuldades na ancestral nostalgia que originou o fado, enquanto lhe entra em casa via televisão, a pindérica riqueza dos show boys e as mamas, em silicone, do jet set rafeiro que não tem onde cair morto nem instrução, cultura , conhecimento, civismo ou  educação. Macarrónico!!!!

  Não afirmo que falte um Salazar, não afirmo isso, mas que falta um herói como o nosso Afonso Henriques, isso acho que sim. É o melhor! Em meia dúzia de fossados, era bem capaz de correr tudo á espadeirada e dar a todos, como bom português, o mesmo bilhete de identidade.

  Já agora, electrónico!

   Luso, Janeiro, 2008                                                         mealhadatemas.blog.com

     

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A JUNTA TURISMO E TERMAS CARTAXO


   Ferraz da Silva 


    
Mal acabara de festejar a entrada do novo ano com um bízaro Lucky Look do meu amigo Soares, o melhor entre os melhores, atrevia-me a dizer, quando me entra casa dentro a noticia do fim de mais um organismo do concelho, curiosamente mais uma instituição da freguesia do Luso, a Junta de Turismo. Era coisa que estava prometida, mas a situação de ter passado em tempos por administrador delegado deste órgão, mais o facto de ser oriundo do pequeno pólo turístico do concelho, acarreta-me um sentimento de perda duma referência difícil de substituir no imediato.
Apesar da instituição estar prestes a atingir cem anos de longevidade, nasceu em 1922, não quero no entanto derramar lágrimas de saudade sobre um órgão que cumpriu literalmente as suas funções enquanto funcionou e que, alteradas que foram as premissas, as necessidades e as dimensões do presente terá que ser naturalmente modificado e ajustado ás condições dum século novo que entra de pés para a frente, mais ou menos ás cegas, numa globalização em busca de ordem e regulamentação.
   È aqui apenas que nos podemos chocar com as certidões de óbito, isto é, com a morte prematura de alguma coisa que não foi substituída por nada equivalente e fica órfã por tempo indeterminado. Ou para sempre. E é também aqui que voltamos a chocar-nos com a displicência dos responsáveis políticos uns, da administração central por começarem as obras pelo telhado, outros, os da administração local por não saberem, nem terem, face á destruição dum órgão importante para o município como é o órgão do turismo, uma ideia, um projecto, uma solução, uma alternativa, coisa que se discuta, se proponha e se exija ao novo poder de forma séria e categórica como a tradição, a experiência e o pioneirismo do turismo no concelho exigem. Tal como no SPA 2007, lá vai a Câmara da Mealhada a reboque do facto consumado, sem ideias nem projectos, desarmada e muda, metaforicamente aligeirada para se representar no préstito alegre e desportiva, como já fez com as termas. De casaca e de fiacre.
   Porque ao fim e ao cabo nos parece que é indispensável a continuação de algo que substitua, seja com que nome for, a Junta de Turismo, é penoso verificar que nem ideias há, quanto mais esperança de ver alguém lutar por elas.
   Curiosamente, isto passa-se no mesmo Luso e Buçaco que a autarquia município faz questão de sistematicamente abandonar em todas as suas dificuldades como dum jogo de futebol se tratasse á mercê dum apito doirado do cata-vento camarário a brincar levianamente com o núcleo fundamental do turismo concelhio! É que elas são, infelizmente para a autarquia, tantas as coincidências, que dá para pensar e duvidar das boas ou más intenções de quem ocupa os lugares.
    Senão vejamos:
    Pelo dito SPA 2007, a Câmara calou-se numa atitude politica covarde, nada fez; pela barragem do Vale da Ribeira, idem aspas; pela recuperação da zona central do Luso ainda que venha a fazer não resolve o problema; pela chamada Quinta do Alberto, nada vai fazer, é questão que continua; pelos maus cheiros da baganha, idem; pela deficiente iluminação da vila, nada; pela Mata Nacional, é o Estado; pelo Centro de Saúde, é o Estado; pelo campo de golf, aproveita o Luso-Buçaco para o fazer na Pampilhosa; Junta de Turismo acaba, não tem qualquer ideia (renascerá na Pampilhosa?).
 Convenhamos que são muitas coincidências para a freguesia do Luso e área do turismo em particular das quais a autarquia se alheou completamente. Face á incapacidade constante sobre questões tão importantes para o município, pode-se mesmo presumir haver políticos na Câmara que desejam e se satisfazem com a destruição a que vimos assistindo, sobretudo quando essa destruição recai, como tem acontecido e disse, sobre a freguesia do Luso. A sua actuação recheada de secretismo, de incapacidade de diálogo, de incompetência, perante questões cruciais para a vida publica são disso testemunho, enquanto se põe politicamente de joelhos ante a concessionária das águas, ou promotores turísticos privados, caso do golfe, cujo investimento que se propõem fazer é zero. Àqueles que tem investido centenas de milhares de contos, a esses, não consta que a câmara tenha ajudado, bem pelo contrário!
   Esta autarquia está politicamente podre, doente, morta e não serve os interesses dum município cada vez mais fechado e pacoviamente isolado no contexto da Bairrada e do centro. Não interessa esta maneira de trabalhar, de fazer as coisas, de tratar o cidadão.
  Que pensar da passividade dum executivo moribundo, ante a força e vivacidade demonstradas pelo vizinho concelho de Anadia a lutar, de autarquia á cabeça, pela defesa das suas urgências? Ou do seu plano director? Ou do leitão á Bairrada, que é de todos, não venham uns burocratas da CEE degolar, á nossa frente, a galinha dos ovos d’oiro enquanto aqui se discute se é da Mealhada ou da Bairrada!  
  Que pensar do trabalho profícuo do município vizinho de Cantanhede que iniciou á dez anos o mesmo parque intermunicipal de Murtede Pedrulha em conjunto com a Mealhada, que já o tem feito com boas estruturas e algumas boas empresas enquanto o imobilismo da Mealhada gerou, no mesmo tempo, o pouco ou nada que lá está? A competência tem que se medir e parece-me, não há melhor maneira de o fazer, do que esta, neste caso, tempo e espaço em completa evidência.
  Já no caso da concessionária das Termas do Luso, na situação de incumprimento do  Spa 2007 (era um spa , para que não restem dúvidas) fica-se sem saber se a Câmara da Mealhada tem optado por defender os interesses da população do concelho se os interesses da Scottish and Newcastle, parece-me que é assim que se escreve,  pois continua a pactuar com  os adiamentos crónicos das promessas , sem pulso para exigir o cumprimento da palavra dada ou  seja continua a ser levada  pelos experts da Newcastle que assim vão levando a água ao seu moinho  num engano permanente aos  provincianos locais.
  Á fogosidade de Anadia, contrapõe o fracasso, a desilusão, a desistência, ao trabalho de Cantanhede a burocracia e o imobilismo, porque a verdade é que não há políticos á altura para resolver os desafios que se colocam ao município.
  Na continuação do excelente bísaro, do meu amigo Soares, vim a saber também, pelos jornais do concelho, que afinal a propaganda das quatro maravilhas já tinha chegado ao Cartaxo e á Arruda dos Vinhos. Parabéns!
   Em relação às termas do Cartaxo, o Vasco Santana foi pioneiro com o Pai Tirano do saudoso Lopes Ribeiro ou com a Canção de Lisboa, se me não falha a memória, mas foi coisa que sinceramente, nunca vendeu quartos, se vendeu foram quartilhos!
   De qualquer modo já se fica com uma ideia das maravilhosas ideias da Câmara da Mealhada para a promoção turística. De espantar! Continuem que vão longe !
  Vejam só, a Junta de Turismo Luso-Buçaco , há dezenas de anos  a gastar um dinheirão na  BTL  e nunca se lembrou do Cartaxo! E esta?????
  Perante mais este ovo de Colombo saído da cartola do executivo municipal, só nos resta calar a voz e rendermo-nos á iluminação evidente dos seus catedráticos políticos!
  Como dizia o Marques da Silva, no tempo do Bairradina, Bom ano!
Mealhadatemas.blog.com                                                                  Janeiro,2008

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VISEU,CASA DOS QUEIJOS

 

CRÓNICAS LOCAIS-48

Ferraz da Silva

 

      Almoço em Viseu, Escadinhas da Sé, Casa dos Queijos. Para quem não sabe, uma viela estreita da rua direita ás traseiras do templo, um primeiro andar de escadas íngremes, apertadas entre paredes de granito beirão, sobe um de cada vez, duas mini salas de jantar em socalcos estreitos, a de cima a dar entrada directa na cozinha paralela, donde, entre fogões e tachos e lumes e panelas, sobressai um cheiro assustador.

     Se digo assustador, é por não me temperar da gula e da tentação, por me iludir no odor em primeiro lugar, nas papilas depois, e cair que nem um pato nos acenos diabólicos dum deus pantagruélico que nos dá cabo do colesterol, da tensão ou do ácido úrico. A cozinheira é beirã e é de facto daquele aroma penetrante que  vem, entre outros, o angélico perfume dum rancho com grão-de-bico feito pela dona da casa, a sair, qualquer coisa de irresistível face á sensaboria duns grelhados sem sal ou dumas saladas sem gosto que fazem parte das dietas. O ser humano acossado com fome, débil e vulnerável, acaba por cair na fraqueza carnal com uma facilidade e ligeireza que desafiam o equilíbrio e o bom senso, enlameando-se na argamassa da gula e na simplicidade do pecado. Uma celestialidade de duas faces como a maçã da Eva, tão dura de roer no trato digestivo!

   No tempo das bulas papais, tudo isso se limpava com cobres dados ao templo numa folha de papel por mor da ira divina, mas a dádiva nada adiantava em termos de regra, à elegância, à sobriedade ou á saúde e hoje, nem o travão do médico, com todos os melhoramentos tecnológicos desobriga alguém do pecado.

   Este intróito adjectivado, apimentado, nada tem a ver com a humildade do restaurante onde os comensais se apinham á hora do almoço numa azáfama de três ou quatro mesas compridas em refeição comum, mas tem sim com o artesanato da coisa, isto é, o dedo, a verdade da tasca á portuguesa, a limpeza, a boa comida, num ambiente genuíno. De povo português, quero dizer, numa promiscuidade geral no meio dum parlatório comum. E de boa cozinha tradicional a marcar pontos.

    De resto, as paredes são, como disse, de granito á vista, o teto, forrado a madeira rústica, é travado por dois troncos de carvalho de Moimenta, um varandim envernizado entre as salas, garrafas e estandartes de Vildemoinhos, Repeses e Ranhados enfeitam, e para beber, vinho da casa, de Nelas, Mangualde ou Loureiro de Silgueiros , como tenho bebido  e bom !  Tudo beirão qualificado sem a certificação dos burocratas e fundamentalismos da asae , melhor é dizer azar que nos cai em cima como  cumpridores exemplares das regras estabelecidas , fundamento primeiro dos arrotos do poder.

   Entre gente de trabalho e pouco dinheiro, não há lugar para repastos prolongados, quem dispõe de mais tempo e mais riqueza vai logo acima ao Cortiço e come pouco mais que a mesma coisa com um requinte diferente. E fica-se por lá a tarde, se quiser, a empapar gorduras.

  Porém gosto da Casa dos Queijos, é mais humano, é mais acolhedor e em sabor, nada fica a dever ás melhores casas, e depois, aquele quartilho de aguardente ao cimo da escada donde o cliente tira o cheiro pró café no fim do próprio repasto, dá-lhe um ar de amizade e de família. Como a comida, caseira e desapaparicada , digamos que carinhosa  de preço, afável á carteira tanto como ao palato distraída.  Lembra-me a casa da minha avó materna quando eu era menino e existia a gaveta da cozinha onde nós, netos, ao entrar, caíamos subitamente na boroa do Silvino para matar o vício ou a fome num ritual que a memória me traz ás vezes com saudade.

  Na minha primeira viagem a Génova fui almoçar á zona portuária, Porto Antico, ao restaurante Ti Maria. É no emaranhado das velhas ruas da cidade, coração da idade média, onde se respiram ainda os Dórias, os Pallavicini ou o cruzado Barbarroxa  , que fica situado, num primeiro andar, este particular negócio de comidas. Também uma escada, uma cozinha, bons cheiros, dois salottos, apetites, vinhos, garrafas, presuntos de Parma, mesas corridas, tudo assim tão naturalmente como na casa dos Queijos de Viseu. Marinheiros, estivas, trolhas, funcionários e gente fina, constituem os comensais da famosa Ti Maria a preços razoáveis. Qualidade preço que lhe permite figurar, entre as centenas de locandas da cidade, no famosíssimo guia Michellin, como seu único representante. Uma condição rara a cardápios europeus!

   Por isso digo que nem só a pompa e os salamaleques valem o que valem neste mundo, se é que alguma coisa o vale, e depois, para bem se conhecer uma cidade, um povo, os seus costumes ou o interior da sua alma, só andando à sorte no formigar distraído das pessoas, quer sejam individuo ou multidões, no seu habitat próprio. E a fugir ao pacote dos resorts, antes que sejamos propriamente empacotados no lugar comum, nos clichés, nos clones ou na multiplicação dos pães, dos fatos ou dos gestos.

   Fazer turismo de qualidade ou de consciência, se considerarmos os nossos actos de lazer puro turismo, passa cada vez mais pela nossa escolha activa e pelo conhecimento da nossa própria procura, sob pena de amanhã ser-mos peças dum puzzle global alugados aos nossos próprios exploradores. O inverso do que ainda hoje, ás vezes ilusoriamente, se pensa.

  Esta filosofia, aliada ao facto do meu mais ilustre conterrâneo Emídio Navarro, um dos maiores vultos do município da Mealhada, ser natural de Viseu, bela cidade, leva-me de vez em quando á urbe de Viriato numa espécie de peregrinação emocional que, tanto quanto tenha consciência, não tem explicação, como muitas outras coisas. Vai-se por aí acima sem rumo, vai-se por ir e no vazio mental subjacente, acaba-se em Viseu.

  E depois lá está, Rua Direita, a mais torta da cidade, Casa dos Queijos e o melhor repasto, rancho á moda da tropa, cozido á portuguesa, o bacalhau com grão. Depende dos dias.

  E está tudo explicado, sem complicações freudianas!

  Luso, Janeiro, 2008                                                       mealhadatemas.blog.com

                                                            

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