SANTO ANTÓNIO DE LISBOA
CRÓNICAS LOCAIS-52
Ferraz da Silva
- Desculpe , sorella, onde nasceu Santo António ?
A irmã , que caminhava de olhos pregados no chão em passo leve e miúdo,
fixou-me hesitante e ante a postura respeitosa á qual tinha subtraído um clássico chapéu de coelho curtido que me havia custado uma fortuna na praça de S. Marcos, respondeu duvidosa:
- Suponho que em Lisboa, mas é melhor perguntar no centro de estudos antonianos ao lado da sacristia.
-Grazzie mille ,sorella e buona giornata…
Atrás de nós o santo , por pura intercepção da sua imagem mais de quantas estátuas, orações e amuletos que se espalham em volta do seu altar que por si só faz das nossas igrejinhas mini templos, testemunhou este pequeno diálogo e calou-se. Ao fim e ao cabo eu pretendia apenas testar a sabedoria da sorella e provar se entre tanta gente nem uma freira , devota a coisas dos altos céus, conheceria a identidade do nosso casamenteiro Fernando de Bulhões. É que também Antonella Giuspinni, por exemplo, a minha anfitriã na rua de S.Polo, que é como eu amante da Lualdi , Felinni, de Sicca e de Sofhia, pessoa esclarecida em termos religiosos, desconhecia a origem do grande milagreiro lusitano e muito admirada ficou quando lhe disse, pouco confiante em que me acreditasse aliás, que se tratava do grande Santo António de Lisboa.
Mesmo a mulherzinha que me vendeu á sombra da estátua equestre de Gattamelata, de Donatello, um Santo António de plástico emoldurado em lata martelada me fez saber, quando lho perguntei, que o santo era de Padova e bateu-me o pé quando lhe disse que não, apesar dos quinze euros que paguei pela fraca lembrança do orador. A obra, de inspiração popular, é igual a uns santinhos de papel que existiam noutros tempos em Coimbra representando a imagem da Rainha Santa encaixilhada sob o vidro, na mesma lata martelada, com um comprido manto roxo donde sobressaía por volta do pescoço um vestido amarelo e depois , na cabeça, a coroa.
Lembro-me muito bem. Do colo caiam-lhe meia dúzia de rosas encarnadas e daí o meu ingénuo crédito ao milagre de então, na idêntica proporção em que hoje o dou á caridade dos avaros. Ainda há-de andar lá por casa em qualquer canto escondido essa velha relíquia da iniciação cristã familiar que era então um dos cultos mais seguidos do centro de Portugal , todos eles destruídos pelos interesses político conjunturais duma senhora de Fátima, agora em adaptação acelerada ao low cost das almas.
Certo é que os Paduanos que lhe chamam ‘il santo’, ( o santo) lhe ergueram um descomunal monumento a partir de 1232 , um santuário que mistura materiais e estilos, do românico ao bizantino e ao gótico, em torres, abóbadas, minaretes, agulhas, ângulos e recantos que lhe dão uma heterogeneidade epistolar. Em tudo oposto á vida e espírito do pregador que terá sido um seguidor fiel da doutrina franciscana que enfim, na sua essência primitiva, pouco ou nada tinha a ver com a opulência mundana !!
Apesar de tudo , acho que os Paduanos deram a Santo António a dimensão e a magnificência que os seus compatriotas apesar de se alimentarem de mitos, nunca lhe poderiam dar e juntaram na cidade duas figuras que fazem parte da história universal. Uma da igreja, Il Santo, outra da arte, Giotto.
Giotto era florentino, não paduano , mas ir hoje á cidade e não ver a pintura de Giotto na Capela Scrovegni é como ir a Roma , passe a expressão, e não ver o papa. Construída em 1303 por Enrico Scrovegni, com a intenção de salvar seu pai ,acabado de falecer, do inferno de Dante descrito na Divina Comédia, a capela tem no seu interior aquilo que poderá ser uma pequena proto-capela Sistina da autoria de Giotto, onde o artista desenvolve em frescos admiráveis a vida de Cristo considerados hoje a sua principal obra prima. De 1303 a 1335, dedicou-se a este trabalho em honra da Madonna desenvolvendo-o em temas relacionados com a vida familiar e a vida pública de Cristo , socorrendo-se da narrativa não só dos evangelhos oficiais, como dos evangelhos apócrifos.
São duas figuras importantes com duas obras associadas que fazem de Pádua um lugar de paragem obrigatório para quem anda por perto .
Por mim, perdido pelas ruas desde as nove da manhã, resta-me voltar á estação ferroviária e retirar um bilhete para Santa Lúcia nas máquinas automáticas, curiosamente, com uma opção em língua portuguesa, coisa nem sempre vista por esse mundo fora .É já noite quando troco o comboio pelo vaporeto da linha um e balançando ao sabor das águas calmas do grande canal, vou relembrando aquela poesia de Augusto Gil , dita de maneira soberba pelo grande João Vilaret nos velhos tempos da televisão portuguesa:
Saíra Santo António do Convento
A dar o seu passeio costumado
E a decorar num tom rezado e lento
Um cândido sermão sobre o pecado….
E já na entrada do Cá Arco Antico, dizia ainda para comigo num exercício de memória difícil .
…o luar , um luar claríssimo nasceu
num raio dessa linda claridade
o Menino Jesus baixou do céu
e pôs-se a brincar com o capuz do frade…
Veneza, Fevereiro,2008 mealhadatemas.blog.com