NOZES E VOZES
CRÓNICAS LOCAIS-46
Ferraz da Silva
AS VOZES E AS NOZES
As vozes e as nozes sim, mas em primeiro lugar é necessário falar do número de prestidigitação politica que é o novo apoio da Câmara ao Carnaval da Mealhada.
Afinal, depois de meses e meses de diálogo de surdos durante os quais a autarquia conseguiu mostrar toda a sua excelente capacidade para gerar conflitos, atritos e mal entendidos e ao mesmo tempo a sua total incapacidade para gerir bom senso, equilíbrio, diálogo e interesses municipais da sociedade civil, como por magia assistimos á intervenção dum velho Abraão, uma figura bíblica de bordão e autoridade celeste que, descendo do monte arenoso que é a Assembleia Municipal ao mundo dos mortais, apelou á paz, á oração, á prece e á concórdia entre o rebanho.
Num instante caíram birras, amuos e o milagre deu-se. A vara divina espalhou, com a maior das simplicidades, o entendimento, a fé, a esperança e a vontade. A comunidade uniu-se. Em poucos minutos o bom senso patriarcal soprado da Assembleia resolveu, ainda bem, aquilo que o mau senso da Câmara não conseguiu resolver em meses e, para contentamento de muita gente do município, lá vai haver Carnaval.
O que se podia ter evitado antes destas quixotescas figuras…!!!
Mas assim, livra-se o executivo da autarquia do peso do Entrudo que já lhe vergava costas e consciência mas não se livra de, em termos políticos, sair com o rabo entalado e muito maltratado na sua imagem de autoridade, sabedoria ou de gestor. Em comunicação interpessoal, simplesmente arrasado!
É que, ao grande puxão de orelhas que lhe deu o próprio partido não há muito tempo através da comissão politica concelhia, junta-se agora, com muito maior peso e gravidade, a Assembleia Municipal em uníssono, descontente com o rumo e actuação da edilidade nesta matéria dos festejos carnavalescos, mas também sobre a legalidade da unidade de Execução da Av. 25 de Abril, uma causa polémica.
Um circo politico de incongruências e desnorte de difícil explicação que talvez esteja igualmente na origem duma recente entrevista no boletim municipal feita ou dada pelo seu presidente, entrevista encomendada, assinada para enganar papalvos, mas que bem se pode dizer, feita pelo autor a ele próprio, utilizando os dinheiros públicos do município para se auto promover politicamente numa espécie de conversas em família, contraponto oficializado às críticas e são muitas, de que o executivo é alvo.
A história do poder repete-se em todas as épocas e em todos os lados, quer seja em pequenos espaços como um município, quer em grandes espaços como nações, repete-se e não raro vemos antigos acusadores a cometer os mesmos erros com que acusaram os outros. Fraquezas da alma ou da memória curta, coisas da condição humana.
Apesar de não ser caso único em publicações municipais onde se gastam milhões de euros fazendo crescer o deficit, não é uma atitude que me pareça correcta nem reveladora de grande seriedade politica. Gestão da Câmara é gestão da Câmara, gestão pessoal é gestão pessoal, é preciso distinguir as coisas e agir consequentemente não misturando alhos com bugalhos, nem fazendo de juiz em causa própria.
Depois disto, vamos ás vozes e ás nozes, coisa que tem a ver com as maravilhas do município e com as iniciativas levadas a efeito nesse sentido, de que queria falar hoje. È que, em vez das palavras de auto promoção publicadas na entrevista do presidente, julgo que ficaria bem melhor á imagem do município a publicação das contas em prol dessas maravilhas do município e informar, preto no branco, quanto já gastou a Câmara com a iniciativa destinada á promoção e dinamização turística.
Enfim, é dinheiro da nossa autarquia, onde está o porquê de não se saber??? O pelouro respectivo conhece a resposta, tenho a certeza que não gere alegremente a despesa mas que se esforça por obter o feed back que o assunto exige e espera no que respeita aos resultados e receitas. É o elementar.
Ainda por cima, quando o município vai prosseguir no investimento e num regulamento próprio, seria oportuno informar se os frutos da primeira experiência reclamam continuação, ou que outras razões o aconselham. O boletim municipal, aí estaremos de acordo, é óptimo para o efeito e todo o cidadão deste concelho gostaria de ser informado de coisas comos estas. Como por exemplo quanto recebeu o município da concessionária das águas do Luso o ano passado, cujas contas estão feitas. Eu sei que está no relatório de contas, mas quem o lê? Quem tem acesso a ele? E mesmo assim, quem o sabe ler? Porque não informar no boletim municipal em linguagem compreensível? É segredo?
Aliás, quando a Câmara dá alguma coisa a alguém, como ás associações, não lhes manda o relatório e contas para que os directores procurem na contabilidade anexa as verbas recebidas. Não, não faz isso, escreve sim, rápida e destacadamente no boletim municipal a prodigalidade que teve, se possível, logo na primeira página. Porque não usa o mesmo critério quando recebe alguma coisa?
Voltando ás maravilhas, é necessário que as coisas sejam claras e transparentes para que ninguém duvide da eficácia desses mesmos investimentos e para que o cidadão possa ser envolvido e motivado para os problemas comuns.
Não venha o gigantismo das vozes a parir nozes bichosas e raquíticas!
Luso, Novembro, 2007 mealhadatemas.blog.com