Thursday, December 27, 2007

NOZES E VOZES

 

CRÓNICAS LOCAIS-46

Ferraz da Silva

AS VOZES E AS NOZES

  As vozes e as nozes sim, mas em primeiro lugar é necessário falar do número de prestidigitação politica que é o novo apoio da Câmara ao Carnaval da Mealhada.

   Afinal, depois de meses e meses de diálogo de surdos durante os quais a autarquia conseguiu mostrar toda a sua excelente capacidade para gerar conflitos, atritos e mal entendidos e ao mesmo tempo a sua total incapacidade para gerir bom senso, equilíbrio, diálogo e interesses municipais da sociedade civil, como por magia assistimos á intervenção dum velho Abraão, uma figura bíblica de bordão e autoridade celeste que, descendo do monte arenoso que é a Assembleia Municipal ao mundo dos mortais, apelou á paz, á oração, á prece e á concórdia entre o rebanho.

   Num instante caíram birras, amuos e o milagre deu-se. A vara divina espalhou, com a maior das simplicidades, o entendimento, a fé, a esperança e a vontade. A comunidade uniu-se. Em poucos minutos o bom senso patriarcal soprado da Assembleia resolveu, ainda bem, aquilo que o mau senso da Câmara não conseguiu resolver em meses e, para contentamento de muita gente do município, lá vai haver Carnaval.

   O que se podia ter evitado antes destas quixotescas figuras…!!!

   Mas assim, livra-se o executivo da autarquia do peso do Entrudo que já lhe vergava costas e consciência mas não se livra de, em termos políticos, sair com o rabo entalado e muito maltratado na sua imagem de autoridade, sabedoria ou de gestor. Em comunicação interpessoal, simplesmente arrasado!

    É que, ao grande puxão de orelhas que lhe deu o próprio partido não há muito tempo através da comissão politica concelhia, junta-se agora, com muito maior peso e gravidade, a Assembleia Municipal em uníssono, descontente com o rumo e actuação da edilidade nesta matéria dos festejos carnavalescos, mas também sobre a legalidade da unidade de Execução da Av. 25 de Abril, uma causa polémica.

   Um circo politico de incongruências e desnorte de difícil explicação que talvez esteja igualmente na origem duma recente entrevista no boletim municipal feita ou dada pelo seu presidente, entrevista encomendada, assinada para enganar papalvos, mas que bem se pode dizer, feita pelo autor a ele próprio, utilizando os dinheiros públicos do município para se auto promover politicamente numa espécie de conversas em família, contraponto oficializado às críticas e são muitas, de que o executivo é alvo.

    A história do poder repete-se em todas as épocas e em todos os lados, quer seja em pequenos espaços como um município, quer em grandes espaços como nações, repete-se e não raro vemos antigos acusadores a cometer os mesmos erros com que acusaram os outros. Fraquezas da alma ou da memória curta, coisas da condição humana.

   Apesar de não ser caso único em publicações municipais onde se gastam milhões de euros fazendo crescer o deficit, não é uma atitude que me pareça correcta nem reveladora de grande seriedade politica. Gestão da Câmara é gestão da Câmara, gestão pessoal é gestão pessoal, é preciso distinguir as coisas e agir consequentemente não misturando alhos com bugalhos, nem fazendo de juiz em causa própria.

      Depois disto, vamos ás vozes e ás nozes, coisa que tem a ver com as maravilhas do município e com as iniciativas levadas a efeito nesse sentido, de que queria falar hoje. È que, em vez das palavras de auto promoção publicadas na entrevista do presidente, julgo que ficaria bem melhor á imagem do município a publicação das contas em prol dessas maravilhas do município e informar, preto no branco, quanto já gastou a Câmara com a iniciativa destinada á promoção e dinamização turística.

      Enfim, é dinheiro da nossa autarquia, onde está o porquê de não se saber??? O pelouro respectivo conhece a resposta, tenho a certeza que não gere alegremente a despesa mas que se esforça por obter o feed back que o assunto exige e espera no que respeita aos resultados e receitas. É o elementar.

  Ainda por cima, quando o município vai prosseguir no investimento e num regulamento próprio, seria oportuno informar se os frutos da primeira experiência reclamam continuação, ou que outras razões o aconselham. O boletim municipal, aí estaremos de acordo, é óptimo para o efeito e todo o cidadão deste concelho gostaria de ser informado de coisas comos estas. Como por exemplo quanto recebeu o município da concessionária das águas do Luso o ano passado, cujas contas estão feitas. Eu sei que está no relatório de contas, mas quem o lê? Quem tem acesso a ele? E mesmo assim, quem o sabe ler? Porque não informar no boletim municipal em linguagem compreensível? É segredo?

  Aliás, quando a Câmara dá alguma coisa a alguém, como ás associações, não lhes manda o relatório e contas para que os directores procurem na contabilidade anexa as verbas recebidas. Não, não faz isso, escreve sim, rápida e destacadamente no boletim municipal a prodigalidade que teve, se possível, logo na primeira página. Porque não usa o mesmo critério quando recebe alguma coisa?

  Voltando ás maravilhas, é necessário que as coisas sejam claras e transparentes para que ninguém duvide da eficácia desses mesmos investimentos e para que o cidadão possa ser envolvido e motivado para os problemas comuns.

   Não venha o gigantismo das vozes a parir nozes bichosas e raquíticas!

  Luso, Novembro, 2007                                 mealhadatemas.blog.com

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NOVOS PAÇOS DO CONCELHO

  CRÓNICAS LOCAIS-45
                                   
Ferraz da Silva
NOVOS PAÇOS DO CONCELHO,
UMA HISTÓRIA DE TODOS NÓS
 
Se queremos narrar uma história é preciso antes de tudo que a história interesse ás pessoas; mas não esperemos sucesso dessa história, se não tivermos um ponto de vista sobre ela .( Enzo Biagi-jornalista)

   È difícil parar para pensar quando anos a mais de poder dá aos homens a sobranceria e o autismo dum ditador, mas acredito que há ocasiões em que seria benéfico para todos superar esse estado místico, parar, reflectir, repensar e voltar a decidir o futuro das nossas coisas e vidas. Sobretudo quando se trata dum projecto comum, num país democrático, numa sociedade livre.

Um exemplo deste raciocínio simples é o projecto do aeroporto da Ota. Não sei se por razões que tem a ver com a verdade dos custos, com eficiência técnica, segurança, ou com os interesses dos lobies certo é que, depois dum ministro ter g                 arantido várias vezes a pés juntos que o aeroporto ia para a Ota, acabou por consentir um retorno a novo estudo de preços e locais, depois da pressão sufocante duma parte da sociedade. Pessoalmente, apesar de ter simpatia pelo ministro, sou de opinião que por uma questão de seriedade politica se deveria ter demitido, não pelo novo estudo, claro, mas pelas declarações peremptórias que proferiu antes e que o desacreditaram depois.

   A Câmara da Mealhada, a seu tempo, entendendo que o velho edifício dos paços do concelho já não serve nem chega para satisfazer as necessidades dos dias de hoje, decidiu também fazer um novo edifício capaz de responder a essas exigências e naturalmente prolonga-las até um futuro compatível com o dinheiro que vai gastar. Sobre a localização desse edifício, é certo que não tinha que colher informação sobre as preferências dos munícipes mas, por uma questão de dignidade para com o cidadão fora da hora do voto, porque isso lhes diz respeito e até pelo são exercício do poder democrático, poderia tê-lo feito. Não fez, adiante…

   Resolveu então projectar o novo edifício para cima do velho, prolonga-lo até ás instalações da corporativa agrícola, dos bombeiros e ligar tudo isto por um túnel subterrâneo, estacionamento, gabinetes e luz artificial.

 Está calculado, a preços constantes, em doze milhões e meio de euros, e a preços correntes, é custo que não vai ficar abaixo dos quinze milhões de euros. Em moeda antiga para melhor se perceber, são três milhões de contos. É muito dinheiro. Muito dinheiro para um município tão pequeno e parco de recursos como o nosso o que pode significar o atrofiar do investimento municipal por vários anos. A verdade, é que não há conteúdo para tanta roupa e por isso, não há justificação para tamanho gasto.

Hipotecar hoje o futuro dos nossos filhos, foi coisa que sempre me preocupou e neste caso, como no da Ota ou da concessão de auto-estradas, o que se está a fazer é hipotecar o futuro dos vindouros.

    É simples de ver se colocarmos na nossa vida familiar uma situação semelhante, ou seja, vamo-nos endividar até esgotar o crédito que temos e que não temos e amanhã, em vez de deixarmos aos filhos uma herança positiva, deixamo-los cheios de dívidas por pagar. A diferença entre a nossa casa e a casa pública é que em nossa casa o dinheiro é nosso, temos que o ganhar e responder pelas dividas durante a vida inteira e no caso da autarquia ou dos organismos que estão a cargo dos políticos, o dinheiro não é deles, é também nosso, dos nossos impostos e cai todos os meses nos cofres municipais quer chova quer faça sol. Amanhã, acabados os mandatos, vão-se embora com reformas milionárias e estão-se nas tintas para as dificuldades de quem vier a seguir.

    Ao invés, os nossos filhos e netos que são os vindouros na coisa pública, continuarão a sofrer com as dívidas que hipoteticamente lhes deixarmos.

   Não sou nenhum João de Castro empenhador de barbas, por isso em minha opinião, eticamente está longe de ser correcto e também não foi assim que recebemos como herança dos nossos pais o país onde vivemos.

   Isto vem na sequência e a propósito da obra e da localização dos tais paços do município, já que entretanto, com a oferta da zona da floresta á Câmara mudam dados e surge, a meu ver, uma localização extremamente central e importante para repensar, como disse no inicio, o assunto.

   Que me perdoem os mealhadenses da Mealhada, mas era ali, atrás do velho chafariz, que eu via erguer, com vantagens, o novo edifício municipal. Em termos de custos, e começando pelas infra-estruturas é evidente que seria substancialmente mais barato, em termos de ordenamento urbano aumentaria a área da cidade e criaria um novo pólo de desenvolvimento á sua volta, em termos de centralidade, e note-se que a Mealhada não tem soco antigo, está no centro, em termos de localização, uma situação soberba numa margem privilegiada da número um que amanhã será desclassificada e fará parte do tecido urbano da urbe. E depois, fugia do espartilho dum caminho-de-ferro que há-de sempre condicionar e limitar o coração do centro cívico actual embora não se tratasse de o apagar totalmente, apenas de o aumentar de forma substancial, dado o cordão umbilical que são as ruas existentes entre os dois locais.

  Com espaço para fazer dos hectares sobrantes o parque verde da cidade com acesso auto e pedonal facilitado para o cidadão. Com largueza para projectar em termos urbanos desempoeirados e começar a configurar uma cidade actual e atraente com uma centralidade, não digo nova, mas aumentada, abrangente, de maior dimensão, rasgada pela número um e suas intercepções desde o monumento ao leitão até á escola secundária. 

   Ao invés, levando para a frente o projecto existente, afunila-se a urbe num espaço reduzido, acanhado, velho, fechado sobre si mesmo, sem perspectivas nem hipóteses para alterações ou aumentos. Está desenhado um cubículo, um recanto, um beco espartilhado prisioneiro da via-férrea e de áreas residenciais.

  Gasta-se uma fortuna, hipoteca-se o futuro, numa obra que vai ficar coxa, quando se podia desenhar uma estratégia com cabeça, tronco e membros. Sucintamente, deixo a pergunta: é melhor perseguir uma solução cinzenta, fechada, pobre, sem dimensão, sem rasgo, sem perspectiva e sem inteligência ou antecipar o amanhã com uma concepção estratégica aberta, inovadora, dinâmica, aberta á Mealhada e ao município e motivadora de desafios novos e aliciantes?

  Sabemos como isto é feito na Câmara, como são mal aceites soluções que não sejam aquelas que a rotina propõe. Anos a mais nas autarquias esmagam as ideias da mesma maneira que esmagam o diálogo, a humildade e a democracia.

   Apesar de tudo, deixo ao cidadão esta reflexão modesta e simples. Por várias razões, entre elas porque quem vai utilizar esta estrutura somos nós e quem a vai pagar somos também nós, munícipes. Aqueles que, por nunca serem ouvidos nem achados, acabam por ser as vítimas principais da sobranceria, para não dizer abuso, do poder! Parar para pensar, num exercício pedagógico inteligente ,  não seria possível ???

Mealhadatemas.blog.com

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