SENHORA DE GUADALUPE
Crónicas locais-39
Ferraz da Silva
Senhora de Guadalupe e a Moura Salúquia
Faltava muito para o meio-dia quando chegamos a Serpa e depois duma paragem breve continuamos para Pias, freguesia daquele concelho do interior alentejano. Mais uma vez de regresso do Algarve, o apartamento emprestado, o sol, esse sol maravilhoso até ao chegar da noite, sardinhas assadas com D. João II, o Infante e o voltar sempre difícil mas desta vez havia uma vontade, um manifesto desejo de ir a Pias por uma razão qualquer do filho, suponho, por isso encostei-me á via fronteiriça por Castro Marim e Mértola para alcançar a vila e bastião comunista antes da hora do almoço deixando de lado as ruínas das minas de S. Domingos, fantasmas e mais fantasmas em ferros retorcidos, vermelhos, enferrujados e cheios de memória de vidas acabadas e recomeçadas com dor e sofrimento.
Pias é uma pequena vila branca, branca e morena de trabalho e de cantores e mesmo no fim do verão passa-se como quem passa num forno de cozer pão a lenha de sobreiro. È célebre o pão alentejano, de Pias em particular, ao qual se junta o vinho, branco e tinto de bom perfume e boa graduação. Antes, S. Gens e o santuário da Senhora de Guadalupe, muito antigo e da devoção de Colombo, dizem os defensores do Cristóvão português, de Cuba, ou Vila Ruiva, percursor da senhora de Guadalupe mexicana, essa cheia de cores, de lendas, de conquista. Mas dizem que começou aqui, em mais um número acrescentado á nossa peregrinação, ao catálogo do cimo dos montes que andamos a compilar. Vem a seguir á santa do mês passado num outro extremo da nação, a Senhora da Peneda perto de Castro Laboreiro, entre o serpentear de Arcos de Valdevez e as curvas de Melgaço de Laboreiro ao rio, á loja do vinho verde região demarcada com presunto ou carapaus de escabeche, se os houver, um verde tinto da pipa, muito bom.
Portugal é um país por onde apetece divagar geograficamente e hoje não há lugar com um mínimo de interesse que não tenha o seu quarto de dormir com alguma comodidade e a preços variados ou uma refeição razoável a custos controlados adaptada á nossa bolsa para quem quer ter clientes que não sejam os da classe alta, esses têm os seus próprios canais inseridos no génese no adn e mais alguns que os conseguiram a roubo de esticão já nesta vida, dura, dura como granito da Senhora da Lapa, mais um dos santuários pátrios enfiado na rocha, o mais belo de todos para muitos dos crentes e não crentes e Fátima, logo seguido de S. Bento da Porta Aberta e do Sameiro , no canudo.
Mas a estrada segue até Maura, Moura pelo amor de Salúquia , alcaide da cidade. Eram os tempos conturbados da reconquista, diz a lenda, e a alcaidessa, filha de Abu–Assane , vivia ansiosa a véspera do seu casamento com o príncipe Brafma , senhor de Aroche que galopava com a sua escolta a caminho da cidade para as celebrações da boda. Eis senão quando os cristãos lhe saiem ao caminho numa brutal emboscada trespassando-os ao ferro das suas espadas. Ardilosamente, os vencedores despem os trajes cristãos e usurpando roupas muçulmanas, surgem ás portas de Maura como séquito nupcial. É cheia de felicidade que Salúquia manda levantar a ponte levadiça e entrega a cidade ao inimigo. Quando se apercebe do erro, toma as chaves do castelo, sobe à Torre altaneira e precipita-se no vazio. Hoje Maura chama-se Moura e a Torre, Torre Salúquia . É assim, Moura encantada.
Foi aqui que nasceu a primeira casa da Ordem dos Carmelitas. Fundada no Monte Carmelo, Palestina, por volta de 1200 inspirada no profeta Elias, os Carmelitas viriam a estabelecer-se em Portugal em 1251 em Moura, pela mão dos capelões militares da Ordem de São João de Jerusalém, vindos da Terra Santa. Ora é nesta Ordem dos Carmelitas seculares, ditos também calçados, que nascem os Carmelitas Descalços do Bussaco , estes na primeira metade do século XVII. Variante dos Calçados, os descalços escolheram a virtude e a pobreza para seguirem Elias e a reforma da ordem levada a cabo pelos espanhóis Teresa de Ávila e João da Cruz que, entre os anos de 1562/1568 a procuraram reconduzir ás fontes.
Além do Carmo, do Castelo, da Torre Salúquia , da bela igreja manuelina de S. João Evangelista é digna de visita a Roda dos Expostos, ou a Casa da Roda, junto ao Convento Dominicano, que funcionou até 1834, quando da extinção das ordens religiosas por José António de Aguiar. Testemunho civilizacional em bom estado que não se vê muito em Portugal, para pensar, reflectir.
Moura e a qualidade do seu azeite irão ultrapassar o Alqueva ali ao lado? Polémica, cara, a obra está cheia de água e de projectos. Resorts de luxo? Caça, pesca? Golfes, cinco, seis, dez? Sonhos? Futuro, panaceia? A estrada passa, corre, o verde e o azul emergem da bacia gigante e adiante Reguengos e adiante Évora património da Unesco. Para traz S. Gens , allgarve e Guadalupe e um santuário em branco, Nossa Senhora do Leite de Josefa de Óbidos é um óleo , no Bussaco. Um convento, um mosteiro, um carmelo, uma cidade. São carmelitas, são todos carmelitas. Ouvi:
-Gostaste da cidade?
-Gostei, havemos de voltar, voltar para dormir não ali em Évora mas ali, ali naquele hotel apalaçado, mourisco, amesquitado e perto de Salúquia… e de Pias pote?
-De Pias quê?
-Gostaste?…
E a fita negra da estrada corria a bom correr á nossa frente.
Setembro, allgarve,2007 (? ) http://mealhadatemas.blog.com/
Mt Boa tarde!!
Gostaria mt de o rectificar já que Moura nunca foi Maura nem a Torre de chama Saluquia.