Wednesday, October 17, 2007

CONVERSA DA TRETA

Crónicas locais-40
Ferraz da silva
 CONVERSA DA TRETA

       Hoje gostava de ter uma conversa politica com o senhor presidente da Câmara da Mealhada acerca da minha terra, o Luso. Peço desculpa aos leitores por esta deambulação particular mas hoje acordei com esta pregada na massa encefálica depois de ter passado os olhos por uma planta de arranjos no Largo do Casino que tem a coordenação do arquitecto Sidónio Pardal. É uma coisa doméstica. Perdoem-me.

    Não é um arquitecto qualquer, o Professor Sidónio Pardal, desenhou o Jardim da Cidade do Porto, é um arquitecto que admiro, duma educação esmerada e duma competência inquestionável e mexe nesta questão da remodelação da zona central do Luso há dois ou três pares de anos com um cuidado extremo e desejo de fazer bem.

    Porém, a questão que quero relembrar ao presidente da Câmara da Mealhada, se não tem nada a ver com a competência do arquitecto em questão, tem a ver com a obra em si, pois esta não é, nunca foi, nem nunca será a remodelação central de que o Luso precisa, nem aquela que há quatro anos, não posso precisar o mês, a Câmara combinou e encomendou ao Professor Sidónio Pardal. Tanto não é, senhor presidente da Câmara da Mealhada, que o primeiro estudo prévio do qual tenho uma fotocópia na minha mão, tirada do que foi apresentado na Câmara, englobava não só a fonte e a avenida, como o morro da Quinta do Alberto, e cá está, no estudo, uma estrada e um prédio em plena Quinta como propunha e explicou na altura o dito competente Professor.

   Então, lembro-me bem, surgiu o representante do dono do terreno (é um apenas) e ali também, por si, senhor Presidente da Câmara da Mealhada, foi-lhe dito que se entendessem em Lisboa de forma a encontrar um compromisso e uma solução, uma vez que estavam ambos na capital, onde o Professor Sidónio Pardal tem o seu gabinete. Deu-lhes praticamente luz verde para descascarem a batata da Quinta do Alberto.

   Posteriormente ao longo dos meses, fui-me apercebendo que algo não corria bem, pois o proprietário entrava em contacto comigo para tentar resolver o caso e apesar de toda a sua disponibilidade e abertura, nada se resolvia entre a lentidão e a burocracia camarárias e o gabinete referido. Por isso, além de várias reuniões que tive com ele, provoquei três ou quatro situações em que o senhor Presidente da Câmara esteve presente, a última também com a Junta de Turismo, no salão nobre, manifestando o senhor presidente da Câmara da Mealhada o seu aparente acordo e disponibilidade para resolver a situação, sempre na perspectiva da envolvência do morro.

     Afinal, politica da treta, pois hoje, face ao projecto que vi pregado num placard na Avenida Navarro numa manifestação de pouco civismo para com a população do Luso, pois devia ser explicado e não propagandeado como cartazes de cinema, só posso concluir que afinal o senhor presidente da Câmara da Mealhada deu ordem ao arquitecto Sidónio Pardal para reduzir o projecto àquilo que ali está, não resolvendo o crónico problema do Luso que é o morro da Quinta do Alberto e a zona central onde tudo está inserido, como no inicio estava perspectivado.

  O que levou o senhor presidente da Câmara da Mealhada a mudar de opinião? Falta de dinheiro? Falta de diálogo? Incompatibilidades? Mau comportamento do dono?

Politicamente o senhor presidente da Câmara da Mealhada devia responder, explicar ao Luso o que terá acontecido. Deveria dizer porque se prejudica mais uma vez a vila na sua vertente vital que é o turismo!

Não discuto a legitimidade que tem para o fazer em termos de Câmara, mas digo-lhe que fez mal, muito mal, digo-lhe frontalmente (fui sempre frontal, não sou pessoa de duas palavras) que a sua politica é péssima para o Luso. Nisto e noutras coisas essenciais, como o caso das Termas. E isto porque o senhor presidente da Câmara não tem vontade, nem ambição, nem visão politicas, para entender o hoje e o amanhã do nosso município. Muito menos do Luso e das termas. Se nem sequer a tem para um simples carnaval..! Se não quer fazer as coisas , o que está a fazer aí ?

    Voltando á zona central, senhor presidente da Câmara da Mealhada, devo lembrar-lhe que para executar arranjos tendencialmente pedonais no centro da vila do Luso, deve procurar uma solução para retirar o trânsito de pesados desse mesmo centro, senão sujeita-se a que os pesados carregados de toros de madeira ou outras mercadorias, lhe arrombem em pouco tempo as melhorias! Talvez dois ou três quilómetros de via entre a estrada de Penacova e o Pego mas isso, não consta que vá fazer. Nem noutro lado! Mas pode ser por ali, ia dizendo, pelas imediações da barragem da Direcção Regional da Agricultura da Beira Litoral que o senhor presidente esqueceu quando tudo mudou do laranja santaneiro para o seu desbotado cor-de-rosa, que se pode encontrar uma solução. Depois sim, todos os arranjos senhor presidente da Câmara da Mealhada! Estes e mais. Mas é precisa a estrada, um desvio. Esqueceu-se?

   Por sorte ou infortúnio o Luso acaba por pagar os investimentos que a Câmara faz. Quando acabou de pagar o Centro de Estágios já tinha dinheiro suficiente para pagar os arranjos da zona central. Também já recebeu dinheiro suficiente para ter uma iluminação condigna em toda a freguesia. (lembra-se da rua dos moinhos que ficou sem iluminação, não lembra … que labirintos freudianos levaram a Câmara da Mealhada àquela escuridão, senhor presidente, em contradição com outras terras, como a sua, por exemplo???) Também já recebeu o suficiente para fazer a piscina do parque de campismo que herdou do seu antecessor. E para mandar limpar o lago e comprar uns barcos novos? E para uma sala de Internet? E para comprar o cinema? E para um acesso digno ao campismo? E para requalificar a fonte do castanheiro?

   Deve reconhecer senhor presidente da Câmara da Mealhada, que a sua estratégia politica, neste caso particular do Luso, é no mínimo estranha, fruto de insondáveis complexos que levam a Câmara, mais uma, ao extremo de planear um campo de golf para um ruidoso entroncamento de comboios e quem sabe, um museu de locomotivas para a serra do Buçaco. Um mimo !!!!

   Ao contrário do seu antecessor que teve estratégia, abriu perspectivas, modernizou o concelho e lançou desafios, o senhor presidente da Câmara da Mealhada leva a sua acção politica ao paradoxo de amealhar dinheiro para fazer muita coisa e quem sabe se não vai acabar a fazer coisa nenhuma!!!!

   Com a amizade que lhe tenho, preferia o contrário.  

  Luso,Outubro,2007

  

   

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SENHORA DE GUADALUPE

Crónicas locais-39  

 

Ferraz da Silva

 

Senhora de Guadalupe e a Moura  Salúquia

 

 Faltava muito para o meio-dia quando chegamos a Serpa e depois duma paragem breve continuamos para Pias, freguesia daquele concelho do interior alentejano. Mais uma vez de regresso do Algarve, o apartamento emprestado, o sol, esse sol maravilhoso até ao chegar da noite, sardinhas assadas com D. João II, o Infante e o voltar sempre difícil mas desta vez havia uma vontade, um manifesto desejo de ir a Pias por uma razão qualquer do filho, suponho, por isso encostei-me á via fronteiriça por Castro Marim e Mértola para alcançar a vila e bastião comunista antes da hora do almoço deixando de lado as ruínas das minas de S. Domingos, fantasmas e mais fantasmas em ferros retorcidos, vermelhos, enferrujados e cheios de memória de vidas acabadas e recomeçadas com dor e sofrimento.

   Pias é uma pequena vila branca, branca e morena de trabalho e de cantores e mesmo no fim do verão passa-se como quem passa num forno de cozer pão a lenha de sobreiro. È célebre o pão alentejano, de Pias em particular, ao qual se junta o vinho, branco e tinto de bom perfume e boa graduação. Antes, S. Gens e o santuário da Senhora de Guadalupe, muito antigo e da devoção de Colombo, dizem os defensores do Cristóvão português, de Cuba, ou Vila Ruiva, percursor da senhora de Guadalupe mexicana, essa cheia de cores, de lendas, de conquista. Mas dizem que começou aqui, em mais um número acrescentado á nossa peregrinação, ao catálogo do cimo dos montes que andamos a compilar. Vem a seguir á santa do mês passado num outro extremo da nação, a Senhora da Peneda perto de Castro Laboreiro, entre o serpentear de Arcos de Valdevez e as curvas de Melgaço de Laboreiro ao rio, á loja do vinho verde região demarcada com presunto ou carapaus de escabeche, se os houver, um verde tinto da pipa, muito bom.

  Portugal é um país por onde apetece divagar geograficamente e hoje não há lugar com um mínimo de interesse que não tenha o seu quarto de dormir com alguma comodidade e a preços variados ou uma refeição razoável a custos controlados adaptada á nossa bolsa para quem quer ter clientes que não sejam os da classe alta, esses têm os seus próprios canais inseridos no génese no adn e mais alguns que os conseguiram a roubo de esticão já nesta vida, dura, dura como granito da Senhora da Lapa, mais um dos santuários pátrios enfiado na rocha, o mais belo de todos para muitos dos crentes e não crentes e Fátima, logo seguido de S. Bento da Porta Aberta e do Sameiro , no canudo.

  Mas a estrada segue até Maura, Moura pelo amor de Salúquia , alcaide da cidade. Eram os tempos conturbados da reconquista, diz a lenda, e a alcaidessa, filha de Abu–Assane , vivia ansiosa a véspera do seu casamento com o príncipe Brafma , senhor de Aroche que galopava com a sua escolta a caminho da cidade para as celebrações da boda. Eis senão quando os cristãos lhe saiem ao caminho numa brutal emboscada trespassando-os ao ferro das suas espadas. Ardilosamente, os vencedores despem os trajes cristãos e usurpando roupas muçulmanas, surgem ás portas de Maura como séquito nupcial. É cheia de felicidade que Salúquia manda levantar a ponte levadiça e entrega a cidade ao inimigo. Quando se apercebe do erro, toma as chaves do castelo, sobe à Torre altaneira e precipita-se no vazio. Hoje Maura chama-se Moura e a Torre, Torre Salúquia . É assim, Moura encantada.

  Foi aqui que nasceu a primeira casa da Ordem dos Carmelitas. Fundada no Monte Carmelo, Palestina, por volta de 1200 inspirada no profeta Elias, os Carmelitas viriam a estabelecer-se em Portugal em 1251 em Moura, pela mão dos capelões militares da Ordem de São João de Jerusalém, vindos da Terra Santa. Ora é nesta Ordem dos Carmelitas seculares, ditos também calçados, que nascem os Carmelitas Descalços do Bussaco , estes  na primeira metade do século XVII. Variante dos Calçados, os descalços escolheram a virtude e a pobreza para seguirem Elias e a reforma da ordem levada a cabo pelos espanhóis Teresa de Ávila e João da Cruz que, entre os anos de 1562/1568 a procuraram reconduzir ás fontes.

  Além do Carmo, do Castelo, da Torre Salúquia , da bela igreja manuelina  de S. João Evangelista é digna de visita a Roda dos Expostos, ou a Casa da Roda, junto ao Convento Dominicano, que funcionou até 1834, quando da extinção das ordens religiosas por José António de Aguiar. Testemunho civilizacional em bom estado que não se vê muito em Portugal, para pensar, reflectir.

  Moura e a qualidade do seu azeite irão ultrapassar o Alqueva ali ao lado? Polémica, cara, a obra está cheia de água e de projectos. Resorts de luxo? Caça, pesca? Golfes, cinco, seis, dez? Sonhos? Futuro, panaceia? A estrada passa, corre, o verde e o azul emergem da bacia gigante e adiante Reguengos e adiante Évora património da Unesco. Para traz S. Gens , allgarve e Guadalupe e um santuário em branco, Nossa Senhora do Leite de Josefa de Óbidos é um óleo , no Bussaco. Um convento, um mosteiro, um carmelo, uma cidade. São carmelitas, são todos carmelitas. Ouvi:

 -Gostaste da cidade?

 -Gostei, havemos de voltar, voltar para dormir não ali em Évora mas ali, ali naquele hotel apalaçado, mourisco, amesquitado e perto de Salúquia… e de Pias pote?

-De Pias quê?

-Gostaste?…

E a fita negra da estrada corria a bom correr á nossa frente.

Setembro, allgarve,2007  (? )                         http://mealhadatemas.blog.com/

 

  

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Friday, October 5, 2007

QUE É FEITO DA BARRAGEM DO BUÇACO????

CRÓNICAS LOCAIS-37

 

Ferraz da Silva

 

 

QUE È FEITO DA MINI BARRAGEM DO BUÇACO ???

 

 

  Que é feito da mini barragem do Buçaco, cujo projecto e cadastro de terrenos está feito há mais de dois anos e cujo objectivo era levar água ao Vale da Vacariça e constituir ao mesmo tempo um ponto de apoio para eventuais fogos na Mata e zonas adjacentes?

  Para quem não sabe, a parte superior do vale da Vacariça é nem mais quem menos que o vale dos Fetos, no Buçaco, para onde correm as águas das nascentes de S. Silvestre, Carregal, Fonte Fria e onde estão inseridos os dois pequenos lagos da Mata.

   De grande caudal durante o Inverno, o vale não seca na sua totalidade durante o Verão e constitui um recurso considerável para o aproveitamento e armazenamento de águas que, conforme o projecto da Direcção Regional da Agricultura, se propunha resolver de forma eficaz e definitiva o problema do regadio estival de largos hectares entre a serra e a Mealhada. Simultaneamente, seria mais um ponto de recolha de água para meios operacionais em caso de incêndios. Para tanto, foi mesmo toda a zona do vale objecto dum programa de regadio onde foram investidos largos milhares de euros na construção de canais que hoje estão a aguardar a chegada da água com a construção da represa.

   Chamava-se Barragem de Vale da Ribeira, do Buçaco, ou da Vacariça e seria construída um pouco abaixo da Porta das Lapas após o muro da cerca num local estrategicamente situado a montante da ribeira, um patamar excelente para a gestão das águas por queda livre.

 Como muitas das coisas estranhas que acontecem neste país, também este projecto parece uma brincadeira de crianças com utilização de dinheiros públicos, pois logo que mudou a cor do governo da nação, assim parece ter mudado a intenção de o construir. Coisa que não mudou, foi de facto o Vale da Vacariça mais o seu regadio e no Vale dos Fetos continua a correr a água para encher a barragem logo que esteja feita se ainda subsistirem os ramais onde se plantou o cimento, aí sim, com dinheiro de todos nós, dinheiro que não nasce, não dá nada, apenas se degrada. Deitou-se fora?

  Ora se está muito mal a situação criada pela Direcção Regional da Agricultura, que chegou a contactar muitos proprietários de terrenos a inundar pela represa, não anda melhor a Câmara da Mealhada, ainda que me pese voltar a carregar no órgão autárquico que nos governa, coisa que pode parecer um exagero ou fobia, mas que o não é de facto, pois a quem, senão á Câmara, cabe zelar pelos interesses do concelho e pela resolução dos seus problemas? Não é para isso que são eleitos e lhes pagamos largas centenas de contos todos os meses???  

Julgo, e é sempre numa perspectiva de intervenção cívica a minha opinião, que não se podem admitir distracções destas em assuntos do fórum público, tanto mais que a autarquia, no tempo do governo anterior, que era laranja, não se esquecia do assunto criticando a demora e a eventual inoperância da Direcção Regional bem como as reuniões entre agricultores e engenheiros envolvidos, levadas a cabo no local, aproveitando depois para zurzir forte e feio na oposição que enfrentava no executivo! E com razão!

Por isso, e não só, muito mais sentido faria hoje, se existisse coerência e seriedade politica, para exigir á nova equipa do Ministério, gente também cor-de-rosa, a continuação da obra. Mas não. Esqueceu-se? Ignorou-se? Ou optou-se por uma atitude de acomodação á família?

È melhor admitirmos que foi questão de esquecimento apenas por distracção e não por desinteresse, incompetência ou acomodação, se bem que, seja lá por que for, a Direcção Regional de Agricultura fique ali a dois passos, em Coimbra, a vinte minutos de distância. Custa alguma coisa a alguém, que até tem carros e motoristas á disposição, passar por lá de vez em quando e perguntar pela barragem àquela gente que até é do mesmo clube político?

Pode-se argumentar que por uma barragem não se pergunta, mas eu acho que sim, que se deve perguntar. Por uma barragem, por um lago, um cinema, ou umas luzes eléctricas. Pelo novo edifício da Câmara, pelo golfe, pela esplanada, ou até porque é que a rua dos Moinhos não foi electrificada e a terra do presidente parece um arraial minhoto. Tudo se deve perguntar e de tudo se deveria exigir uma resposta. Porque a democracia politica é isso, e não o alimentar de segredos para aparentar importância quando se não tem importância nenhuma, ou quando não tem sumo o dentro das respostas.

  Palavra de honra, pelo respeito e pelo amor que tenho pelo Buçaco, se não ia eu próprio á Direcção Regional sem ganhar nada, viagem por minha conta e tudo, para empurrar a questão !!!

Não me custava nada!!! Aproveitava até para almoçar no Zé Manel dos Ossos e voltava satisfeito. E tenho a certeza, não era o único a oferecer-se com prazer!!!

É que há esquecimentos que nem parecem sê-lo… São esquecimentos do caraças , que até passam despercebidos ás Assembleias do município !!!!

 

Luso, Agosto 2007                                  

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VENENO OU ASPIRINAS ?????

CRÓNICAS LOCAIS- 39

 

Ferraz da Silva

VENENO OU ASPIRINAS NUM PUXÃO DE ORELHAS Á CÂMARA?

 

      Puxão de orelhas ou tiro no porta aviões foi na prática o desfecho do aviso que o Partido Socialista concelhio, através da Comissão Política, desferiu em comunicado á Câmara, reconhecendo implicitamente a incapacidade da mesma para resolver assuntos delicados como são os casos do Hospital, Carnaval, Ambiente, Termas do Luso. 

      De facto, o que não tem sido feito na Assembleia Municipal por incapacidade dos eleitos (nem sempre os melhores são escolhidos) ou por acomodação ao status, foi agora levantado pelo órgão local da estrutura partidária mostrando ao mesmo tempo que nem tudo vai bem no partido do poder no município.

    É o resultado da partidocracia que se instalou no aparelho que leva á cegueira precoce, á falta de diálogo, ao egocentrismo, á ambiguidade, ao silenciar da opinião interna, ao culto da sombra? No partido, como na pobreza democrática das reuniões camarárias do executivo ou da assembleia municipal onde a maior parte das vezes os diálogos são de surdos, muitos eleitos entram mudos no inicio da legislatura e saem calados no seu fim e vivem a leste do conhecimento real das questões municipais ou da própria agenda de trabalhos, trocando-se o debate dos problemas pela exploração da trica politica como o melhor meio de justificar o poder e fazer aprovar as decisões pretendidas por uma maioria que dá delegação de poderes a mais a um único eleito, o presidente.

    Nos partidos, há muito tempo que se trocou a discussão aberta e a transparência pelo silêncio e pela contagem dos votos e o resultado são partidos fechados, sem ideias, sem discussão, sem abertura, que transformam cada votação que se faz em sede partidária em corrida aos cadernos eleitorais e ao arregimentar de votos pelo umbigo das figuras e não por ideias ou soluções consensuais. Uma restrita pseudo democracia de eleitos que Beppe Grillo* satiriza nos seus famosos dias do Vão-se Embora, um movimento que está a tomar proporções consideráveis no mundo dos blogues da Europa.

       Por isso vencem coisas como o fossar silencioso, o comadrismo ,a adulação, o dizque de gabinete, o controleirismo  ,as rotinas, a cegueira, o compartilhar dos lugares e dos empregos , o telemóvel , etc,etc…  Fenómenos cuja incidência negativa apenas tem contribuído para o oportunismo político , para a estagnação e vazio das ideias e a desacreditação do sistema.

    No caso da Mealhada, para além dos meninos das escolas, com toda a importância que lhes reconhecemos e uma carta escolar objecto permanente de auto elogios oficiais, o que é que mais se vislumbra de útil dentro duma Câmara cujo quotidiano parece penoso e agonizante???

  E como pode ser entendida esta ingerência anormal da comissão politica na actividade camarária? Como galo despertador matinal? Detonador humano para as tarefas que não vêm cumprindo como lhes competia, entre elas, não me canso de o repetir, a atitude complacente, acomodaticia e lesiva dos interesses municipais perante o problema Termas do Luso? Ponto de discordância e de ruptura com a gestão da coisa pública por parte da estrutura partidária? Uma coisa não é em absoluto, louvor.

   É que o circo onde o executivo se vem cega e inconscientemente atolando pode ter um fim á vista com o afogar do próprio partido que o sustém.

   De facto, custa a entender como é que em relação a assuntos politicamente delicados como alguns que se vem arrastando, a nossa Câmara, ora diz não, ora diz sim, talvez, talvez sim, talvez não, vamos ver, vamos estudar, á frente, atrás, sim não, não sim, mas não sei, porém, se, todavia… depois chumbou-se um supermercado porque já havia um, agora autoriza-se porque há o mesmo um … um empreiteiro não é convidado para os concursos de obras … não se sabe quem foi que deu as ordens, (… é difícil saber!!!) um inquérito…dois inquéritos….três?????

    Uma coisa é certa, ou governa-se a Câmara coerentemente ou não se governa, que este mandar de dúvidas, incoerências e hesitações politicas não foi a marca do Partido Socialista no concelho nem é coisa que se tolere como gestão corrente a ninguém.

    Daí á falta de credibilidade é um pulo e a inoperância que já se vai manifestando em relação á zona industrial, ao mau cheiro ambiental e a outras promessas imaginadas como o estruturante nó ferroviário, passa a fazer-nos duvidar da sanidade dos projectos. Porque de facto o município ou é assolado com um boom de promessas concretizadas no futuro imediato ou o partido socialista põe em causa a reputação de 17 anos de governo municipal e põe em risco as próximas eleições autárquicas.

  Dos disparates sobre o aumento da população concelhia (houve censos?) ou a saída dos nossos meninos para escolas doutros concelhos, estamos cheios. É mau de mais para se continuar a ouvir da boca de responsáveis e sinal evidente de que não têm outras preocupações nem ideias de maior importância para explicar ao todo municipal. Tão evidente como o mau estar do partido traduzido no comunicado da comissão politica não satisfeita com o desempenho referido.

   Puxão de orelhas ou empurrão pelas costas como no caso da Mata do Buçaco que deu origem á requisição socrática, são ingerências que não se tinham visto ainda e que irão contribuir mais para fazer mossa do que para ajudar. Pode tratar-se duma inofensiva aspirina mas pode ser veneno de morte anunciada! E disto tudo, pode até nascer um messias salvador antes que o porta-aviões vá ao fundo!

   De qualquer modo, fica a virtude de mostrar que o partido não está morto e tem outras vias e outras alternativas capazes de gerarem a prazo soluções firmes para questões que preocupam o cidadão. Ao mesmo tempo, parece ter entendido que nas próximas autárquicas a oposição, apesar de não ser melhor, tem armas, se as souber esgrimir, capazes de colocar em risco a série de vitórias cor-de-rosa conseguidas no município. Que se cuidem..!

  *www.beppegrillo.it                                    Mealhada,Out.2007

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