MARAVILHAS DO MUNICIPIO DA MEALHADA
Crónicas Locais-34
Das Maravilhas do município da Mealhada
á queda anunciada das suas Termas
Ferraz da Silva
Depois do património classificado que é a Mata do Buçaco ter sido completamente esquecido no controverso concurso das sete (?) maravilhas de Portugal sem um lamento ou um protesto da autarquia Câmara, eis que esta, inexplicavelmente, decide homenagear os espargidos a nível nacional, dando conta, na prática, da nula consideração e respeito que tem por aquilo que lhe pertence, neste caso, o Buçaco que, por direito próprio, poderia e deveria fazer parte do rol dos concorrentes. Não se mexeu uma palha para que isso acontecesse, como se viu, mas por que razão profunda se vem depois a fazer festas em prol dos que lá estiveram, é coisa surreal que muito menos se entende ou se justifica.
Apesar das maravilhas desenterradas á posteriori pelo município para maravilhar em conjunto não se sabe quem nem o quê, serem de indiscutível valor, elas fazem parte do património gastronómico e não do património construído, são por isso efémeras, passageiras, consumíveis, únicas em cada momento da sua degustação e nada tem a ver com o Mosteiro de Alcobaça, Óbidos, Batalha ou Torre de Belém que são ou estão na calha, como deveria estar o Buçaco, para património da humanidade.
Nesta matéria, outros municípios muito mais avisados, têm os processos da Unesco instruídos ou em fase de instrução e até em páginas da Internet se podem consultar e apreciar. Ou copiar. Na Mealhada, nada disso acontece, parou, morreu, não há ideias, não há diálogo, não há o jogo da democracia e a politica agoniza num cristalizar em sessões de Câmara estéreis, que a rotina de anos a mais na cadeira do poder tempera com os piores ingredientes.
Entretanto os autarcas dos outros municípios, homenageados sem saberem porquê, agradeceram, claro, provaram o leitão que nós munícipes pagamos por intermédio dos eleitos e todos se banquetearam a contento com grande satisfação e alegria, presumo!
Benefícios? Nenhuns, além da promessa dum regulamento e duma classificação ao velho estilo totalitário para impor o leitão camarário e medalhas atribuídas por uma comissão de honra de fácil adivinhação, perante as apostas continuadas das dezenas de empresas do leitão a retalho que já o produzem com muito boa qualidade, ou seja, com uma qualidade que o mercado reconhece e compra. Porque esta é a verdadeira bitola e a única medalha do leitão. Sem retórica nem aproveitamento politico…!
Quanto á única maravilha capaz de se bater por alguma coisa no azarado concurso nacional, a Mata Nacional, nada. E de património da humanidade, nem sombra! É assim que se promove o turismo no município. Matando-o , já o tenho dito.
Assim e com o silêncio comprometido ante o naufrágio anunciado das Termas do Luso; assim e com sobranceria da omissão, perante o fecho duma unidade hoteleira no acesso á auto-estrada que foi um investimento de centenas de milhares de contos no concelho; assim e com a inércia e incapacidade perante os cheiros pestilentos e atentatórios da saúde pública com que continua a ser molestado parte do território municipal.
São actuações políticas sem ideias, sem criatividade, sem ambições e sem uma estratégia definida que parece comprometer e embaraçar o próprio partido que lhe serve de suporte.
Porque também em relação a outros assuntos, como a zona industrial da Pedrulha, por exemplo, não se percebe como é que a Câmara de Cantanhede já instalou dezenas de empresas, enquanto durante os mesmos anos a Mealhada não conseguiu fazer o parque, ou a parte que lhe compete! Será que em Cantanhede é tudo mal feito, ilegal??? Esta doutrina, que fez fé durante algum tempo, já não pega, hão-de existir outros motivos que seria saudável e útil para o concelho investigar, discutir e conhecer. Além disso, os parques de Barrô e Barcouço? Para quando são????
Como se propõe gastar milhões de contos em golf numa freguesia sem apetência turística, subtraindo a outras as razões e o dinheiro que podem justificar o investimento? Também aqui os munícipes deviam conhecer em pormenor a história dos interesses envolvidos, e como se chegou a esta aberrante solução e quem beneficia com ela.
Por outro lado, como é que uma autarquia insensível e incapaz de lidar com questões como o Hospital da Misericórdia, o Carnaval da Mealhada ou a Agua do Luso, saindo sempre a público numa posição antipática, de alheamento, negativa, é prodigamente aberta a Câmaras alheias para promoções e festas???
Aos políticos seria lógica e oportuna a aplicação do futuro estatuto do funcionário público, ou seja, sem produção não há sustento garantido. Nem reforma!!! Não sendo assim, que eles não querem, aos eleitores cabe o papel de sustentar os ossários de dinossauros extintos que teimam em medir o mundo por duas ou mais bitolas assente na deriva temperamental. Mas os dinossauros extinguiram-se e levaram com eles o pequeno mundo que era o seu. Não singrou….
Por este andar, se o município não se sacode e não acorda do estado adormecido em que se encontra a tempo de retomar a via da clareza e do trabalho, bem pode encomendar aos seus gatos pingados a mesma urna com que se preparou irresponsavelmente a queda anunciada das suas famosas termas com, paradoxo, o gáudio de alguns!
http://lusotemas.blog.com/ Luso, Agosto, 2006