ACIDADE DAS CEREJAS
CRÓNICAS LOCAIS -29
Ferraz da Silva
A CIDADE DAS CEREJAS
Mês de Junho, mês das cerejas, quem não gosta delas e das festas e feiras que lhe dão visibilidade e venda???
São imagens dos nossos dias e da garantia dum fruto que se vem afirmando no mercado português pela sua qualidade e sustentação. E é no tempo efémero da sua produção que se define a “capital”, subentenda-se, deste fruto apetecido, dividida entre a pequena aldeia de Alcangosta, no Fundão, e a vila ou cidade (?) de Resende, no Douro. Para quem costuma deambular entre as rotas deste fruto na altura própria, isto é, quando se pode provar ao natural á “descida” da árvore, procura-se entre as encostas da Gardunha e as faldas de Montemuro, curiosamente nas encostas norte das respectivas cadeias montanhosas.
Este ano saí da Régua pelo cais do Douro sul na margem esquerda do rio onde o homem da “capa negra”, espetado nas escarpas dum penhasco ataviado para vinho, anuncia que ali é o reino do Porto, porém, poucos quilómetros adiante, ultrapassadas as últimas grandiosas ladeiras do generoso e a adega de Penajoia, é á cerejeira que devemos a paisagem, á cerejeira e ás encostas abruptas das Meadas e Montemuro por onde se rasga o Douro do Carrapatelo ao Pinhão. Igualmente se rasga a estrada que depressa sobe do nível do rio para a meia encosta onde vai encontrar sob as sentinelas eólicas dos cumes, o município de Resende.
Aqui, é dia de festa, de feira e de romaria, um louvor anual que se vai fazendo aos deuses cerejeiros, aos deuses da abundância e como não podia deixar de ser a S. Pedro, que se pode considerar o pai supremo de tudo isto quando, numa manhã ensolarada, consegue abrir as portas da divindade á multidão que se desloca ás celebrações frutícolas. É no centro da vila, entre o casario antigo e novos arruamentos inclinados na montanha que decorre a prova e a compra da cereja, com mais de cem produtores a exporem em “tasquinhas” ambientais a “sublimidade” da safra. Em redor estoiram foguetes enquanto bombos e ranchos alegram praça e ruas com as suas alegres manifestações.
Compramos um cestinho artesanal de verga com duas tampas e pega por quatro euros regateados e com cinco quilos de peso fazemos o conteúdo que nos há-de matar o desejo anual do fruto da cerejeira.
Ah!!!… A dois euros o quilo na feira, três euros a pegar ou largar no outro lado do rio numa curva estreita da estrada, freguesia de S. Cristina, Mesão Frio, á D. Rosa Perpétua, produtora amadora, pesadas numa velha balança de Roverval sobre uma tábua de rabelo, com selo “oral” das melhores da região. E eram…!!!
Estávamos em terras de Eça de Queiroz, da casa museu de Tormes, do cineasta Manuel Oliveira, de Camilo, de Agustina. Respira-se a A Cidade e as Serras, o Vale Abraão, o perfuma de Fanny Owen. O comboio circula na linha do Douro com a mesma ronceirice de há cem anos e deve-se sublinhar que a CP mantém em funcionamento muitas estações ferroviárias aninhadas na beira-rio, verdadeiras peçam dum museu vivo e humano, um museu em funcionamento permanente.
É majestosa a paisagem duriense e ir mais além é subir a serra do Marão até aos seus 1415 metros. É a sexta, em altitude, aprendia-se antigamente nos livros da instrução primária. Hoje, nem se sabe onde é ou sequer se existe, fruto de sucessivas reformas de sucessivos ministros!!! No alto, como em quase todos os cabeços, montes e outeiros deste país “beatificado”, há um guardião das penedias, das rochas, dos precipícios ou das giestas, das urzes, das carqueijas …. No Marão, a Senhora da Serra, também chamada do Marão, na Aboboreira, um dos seus contrafortes, a Senhora da Guia, S. Gonçalo, em Amarante, Lassalete, no Velão e mais além a Senhora da Graça, em Mondim. Marão e Alvão, que distinção?
É assim que, na sombra das duas capelas, datada uma delas de 1876, e ambas dedicadas á Senhora do Marão, preferimos este nome, se abre o apetite com cerejas e depois, já na praça Carvalho Araújo em Vila Real , paredes meias com a igreja gótica de S. Domingos, um cozido á portuguesa tipicamente transmontano, é capaz de deliciar o estômago mais exigente. No Lopes, por pouco dinheiro!!!!!
O Peso, por Penaguião fica a dois passos e voltamos ao Douro Vinhateiro na monumentalidade do trabalho humano que lhe deu justamente a titularidade de Património da Humanidade, por isso também um mundo aberto ao mundo com muito mais acutilância e visibilidade. Pela via férrea, pelo rio ou por estrada, da Régua ao Pinhão ou Barca de Alva o espaço sendo o mesmo é bem diferente, na medida em que é procurado pela universalidade do seu interesse num despertar do mundo global para o que tem valor em termos de humanidade. E nem há outra razão, senão a espécie, para continuar. E voltar para o ano ás cerejas, se as houver!!!!
Baião, Junho, 2007 ( mealhadatemas.blog.com)
Penajóia, uma aldeia encravada entre as faldas do Marão e aninhda nas abas do monte das Meadas, sobranceiro a Lamego,sede de concelho da mesma, é,desde há muitos anos, famosa pelas boas cerejas que produz.Tal era a sua fama, que Aquilino Ribeiro e Torga, nalgumas das suas obras deixaram dito: “vou ao relógio do sol, em Lamego, ver quando pintam as cerejas na Penajóia”. E, a este propósito, até há uma história muito interessante que soa lá pela aldeia e arredores.O melro e a cereja. Diz-se que um penajoiense foi atrás de um melro até ao Marão, porque este levava no bico um caroço de cereja.Era tão cioso das suas cerejas, que não consentia que o melro lhas roubasse, nem que fosse o próprio caroço.Relacionada com a produção da cereja ainda há uma outra história que se conta, mas não quero ser cansativo. Isto para dizer quão importantes eram, e continuam a ser, para os penajoienses as suas cerejas.