Thursday, June 28, 2007

DA FONTE DA MEALHADA À BARRAGEM DA APARTADURA

  CRÓNICAS LOCAIS-30

  Ferraz da Silva

     DA FONTE DA MEALHADA 

Á BARRAGEM DA APARTADURA

 

    Quem vai a Castelo de Vide não deve deixar de ir á fonte da Mealhada. Numa vila bonita, uma bela fonte, branca, airosa, enquadrada pela serra de S. Paulo no Parque Natural de S. Mamede. Como o nosso Luso, terra de nascentes, de águas, de fontes e paisagem. As termas que já teve é que morreram, coisa que bem pode acontecer ao Luso se a desenfreada exploração da água fizer esquecer, por compra ou distracção, os interesses locais. Já esteve mais longe, enquanto na vila alentejana já retiraram as placas de informação termais que há pouco ainda existiam* mas que foram definitivamente postas de lado para não ludibriar, como é hábito nosso, os desprevenidos, que afinal, não é só com diplomas que se enganam os incautos, há muito mais maneiras de o fazer e uma delas é o mundo informativo das tabuletas de trânsito, além da terceira versão dos Piratas das Caraíbas, um engodo a letras de ouro na colonização de “Óliude”. Pobres lorpas!!!!!                       Ora pois, tem Castelo de Vide uma fonte peculiar chamada Fonte da Mealhada que também nos é familiar pelo nome e pelo produto. Construída no ano de 1699 segundo a data que tem inscrita no mármore, a fonte da Mealhada que nada tem a ver com a nossa Mealhada nem com a Mealhada de Loures, é formada por cinco pilares encimados por uma cimalha a todo o comprimento, um brasão circular ao centro com as armas da vila, e sobre o mesmo uma cruz de Cristo, sob a qual está gravada a data da construção. Quatro bicas lhe dão vida caindo da boca aberta de quatro cabeças de leões a água fresca que, dando oportunidade á satisfação dos sedentos, se deposita num tanque rectangular ao comprimento da obra.                                                                                              E quanta não era a sede quando, em pleno verão há seis anos, durante as comemorações dumas estranhas e misteriosas núpcias no então hotel Garcia da Orta, no centro da vila, o calor se lançava em raios pela planície, galgava Portalegre, a serra, os corpos!!!!                                                    Foi na manhã alta do dia seguinte que nos levou o sol, em par, á famosa judiaria e sinagoga da época de D. João III, o rei que escancarou as portas aos horrores da santa inquisição e aos guetos do judaísmo. Lá está ainda hoje o bairro dos judeus igual e preservado no labirinto escondido das suas ruas estreitas. E florido em todos os seus recantos. Dali á Fonte da Mealhada é a descer e no aparato da sua monumentalidade damos com quatro bicas abertas nas tais bocas de leão, a dar água, mansas como cordeiros, pela torridez do estio.                                                                             Diz a lenda que quem visitar a fonte da Mealhada e da sua água provar, há-de por força voltar e em Castelo de Vide casar. Mas isto não passa dos floreados populares da adoração da água e é comum a muitas outras nascentes e fontes, tal como a de beber água na terceira bica de S. João. De facto, se todos os casadoiros que ali bebessem água viessem casar ao Luso, ainda que mais não fosse, longa ia a fila dos casamentos na igreja paroquial marcados com meses e meses de antecedência. Era bom que assim fosse, como era bom a Senhora de Fátima ter nascido na Serra do Buçaco, nas Carvalheiras, como esteve prometido, não lhe teria custado grande coisa e ter-nos-ia dado grande jeito!                                                                                                                       Pela via desta lua-de-mel serôdia e doce, há alguma que o não seja, se continuou para o município de Marvão onde se entra pela magnífica ala de freixos que limita e guarda a estrada por entre o campo de golfe de dezoito buracos que se alonga até ao rio Sever e á Portagem. Serve a vila raiana e arredores, pois é o único local do parque natural onde se pratica, quando pratica, a rica modalidade, regada pelo lençol de água da vizinha barragem da Apartadura.                                                        Situada na freguesia de São Salvador de Aramenha, ribeira de Reveladas, que corre para o Tejo, a barragem surge de surpresa e é com surpresa que se depara com a sua dimensão no parque alentejano. Aprazível e silenciosa, permite, além da rega e do abastecimento de água, a prática de desportos náuticos sem motor. Ambiente. E permite o golfe, ali junto ao lugar da Portagem nos fundos da falésia de Marvão, onde se come em qualquer época do ano uma sela de porco com castanhas de se lhe tirar o chapéu…Foi o que fizemos.                                                                Sem uma barragem deste tamanho que permita a armazenagem da água que há-de alimentar o golfe, adeus golfe, não há lençol freático que lhe acuda nem tanques no céu que nas horas apertadas o salvem da mirração! Apesar de quem abre furos no solo acabar sempre, por dever de ofício, a encontrar infinitos lençóis do indispensável líquido !                                                                     Só alguns anos mais tarde após a refeição de sela de porco preto com castanhas derivado da viagem, associei que haviam passado mais de trinta anos sobre a minha primeira visita á Fonte da Mealhada, onde havia bebido de facto, um copioso copo de água fresca duma qualquer boca aberta leonina.

E pensei cá para comigo: e ainda dizem por aí que não há bruxas!!!!!!!!!

á 10 anos) Junho 2007 mealhadatemas.blog.com lusotemas.blog.com

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Thursday, June 14, 2007

ACIDADE DAS CEREJAS

      
 CRÓNICAS LOCAIS -29
 Ferraz da Silva
A CIDADE DAS CEREJAS
Mês de Junho, mês das cerejas, quem não gosta delas e das festas e feiras que lhe dão visibilidade e venda???
São imagens dos nossos dias e da garantia dum fruto que se vem afirmando no mercado português pela sua qualidade e sustentação. E é no tempo efémero da sua produção que se define a “capital”, subentenda-se, deste fruto apetecido, dividida entre a pequena aldeia de Alcangosta, no Fundão, e a vila ou cidade (?) de Resende, no Douro. Para quem costuma deambular entre as rotas deste fruto na altura própria, isto é, quando se pode provar ao natural á “descida” da árvore, procura-se entre as encostas da Gardunha e as faldas de Montemuro, curiosamente nas encostas norte das respectivas cadeias montanhosas. 
 Este ano saí da Régua pelo cais do Douro sul na margem esquerda do rio onde o homem da “capa negra”, espetado nas escarpas dum penhasco ataviado para vinho, anuncia que ali é o reino do Porto, porém, poucos quilómetros adiante, ultrapassadas as últimas grandiosas ladeiras do generoso e a adega de Penajoia, é á cerejeira que devemos a paisagem, á cerejeira e ás encostas abruptas das Meadas e Montemuro por onde se rasga o Douro do Carrapatelo ao Pinhão. Igualmente se rasga a estrada que depressa sobe do nível do rio para a meia encosta onde vai encontrar sob as sentinelas eólicas dos cumes, o município de Resende. 
 Aqui, é dia de festa, de feira e de romaria, um louvor anual que se vai fazendo aos deuses cerejeiros, aos deuses da abundância e como não podia deixar de ser a S. Pedro, que se pode considerar o pai supremo de tudo isto quando, numa manhã ensolarada, consegue abrir as portas da divindade á multidão que se desloca ás celebrações frutícolas.  É no centro da vila, entre o casario antigo e novos arruamentos inclinados na montanha que decorre a prova e a compra da cereja, com mais de cem produtores a exporem em “tasquinhas” ambientais a “sublimidade” da safra. Em redor estoiram foguetes enquanto bombos e ranchos alegram praça e ruas com as suas alegres manifestações. 
 Compramos um cestinho artesanal de verga com duas tampas e pega por quatro euros regateados e com cinco quilos de peso fazemos o conteúdo que nos há-de matar o desejo anual do fruto da cerejeira.

Ah!!!… A dois euros o quilo na feira, três euros a pegar ou largar no outro lado do rio numa curva estreita da estrada, freguesia de S. Cristina, Mesão Frio, á D. Rosa Perpétua, produtora amadora, pesadas numa velha balança de Roverval sobre uma tábua de rabelo, com selo “oral” das melhores da região. E eram…!!!

Estávamos em terras de Eça de Queiroz, da casa museu de Tormes, do cineasta Manuel Oliveira, de Camilo, de Agustina. Respira-se a A Cidade e as Serras, o Vale Abraão, o perfuma de Fanny Owen. O comboio circula na linha do Douro com a mesma ronceirice de há cem anos e deve-se sublinhar que a CP mantém em funcionamento muitas estações ferroviárias aninhadas na beira-rio, verdadeiras peçam dum museu vivo e humano, um museu em funcionamento permanente. 
 É majestosa a paisagem duriense e ir mais além é subir a serra do Marão até aos seus 1415 metros. É a sexta, em altitude, aprendia-se antigamente nos livros da instrução primária. Hoje, nem se sabe onde é ou sequer se existe, fruto de sucessivas reformas de sucessivos ministros!!! No alto, como em quase todos os cabeços, montes e outeiros deste país “beatificado”, há um guardião das penedias, das rochas, dos precipícios ou das giestas, das urzes, das carqueijas …. No Marão, a Senhora da Serra, também chamada do Marão, na Aboboreira, um dos seus contrafortes, a Senhora da Guia, S. Gonçalo, em Amarante, Lassalete, no Velão e mais além a Senhora da Graça, em Mondim. Marão e Alvão, que distinção?

É assim que, na sombra das duas capelas, datada uma delas de 1876, e ambas dedicadas á Senhora do Marão, preferimos este nome, se abre o apetite com cerejas e depois, já na praça Carvalho Araújo em Vila Real , paredes meias com a igreja gótica de S. Domingos, um cozido á portuguesa tipicamente transmontano, é capaz de deliciar o estômago mais exigente. No Lopes, por pouco dinheiro!!!!!

O Peso, por Penaguião fica a dois passos e voltamos ao Douro Vinhateiro na monumentalidade do trabalho humano que lhe deu justamente a titularidade de Património da Humanidade, por isso também um mundo aberto ao mundo com muito mais acutilância e visibilidade.  Pela via férrea, pelo rio ou por estrada, da Régua ao Pinhão ou Barca de Alva o espaço sendo o mesmo é bem diferente, na medida em que é procurado pela universalidade do seu interesse num despertar do mundo global para o que tem valor em termos de humanidade. E nem há outra razão, senão a espécie, para continuar. E voltar para o ano ás cerejas, se as houver!!!!

 Baião, Junho, 2007                                           ( mealhadatemas.blog.com)

 

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Tuesday, June 5, 2007

ROMA CIDADE ABERTA

 CRÓNICAS LOCAIAS-28

 

 Ferraz da Silva

 

 ROMA CIDADE ABERTA 

 

 Quando o eurostar da trenitalia chega a Roma á estação termini, entramos de súbito numa babilónia do século XXI e perdemo-nos entre línguas, gentes e credos de todos os cantos do mundo unidos na memória mediterrânica da civilização ocidental, berço comum do largo espaço que o mare nostrum criou e espalhou pelas suas margens.

 

 Não é a primeira vez que sinto este pedaço de história ao apear-me na segunda das vinte e nove linhas que se perdem de vista abaixo da cobertura ovalizada da gigantesca estrutura da estação central, para desaparecer de seguida no subsolo dum metro de quatro destinos finais ligados entre si por muitos outros que, mesmo sem conhecer, abrem sempre para estações com nomes que já nos são comuns de memória e de história. É por isso que o meu primeiro contacto com a autenticidade das ruas se faz á saída do buraco octaviano do subsolo da urbe já perto de S. Pedro e do bad&break da minha amiga Ágata uma polaca que aluga quartos na rua Sebastião Veniere encostada á muralha do Vaticano a um preço convidativo em relação aos hotéis da cidade, muitos, velhos e caros. E com um pátio interior de soberba arquitectura tipicamente romana, aliado á oportunidade dum simples e-mail a marcar de um dia para o outro o aconchego dum aposento central.

Em Roma, sê romano, diz o ditado, então, sendo duas da tarde, peguei na chave do apartamento e do portão da rua e embrenhei-me na multidão junto da Basílica para descer ao túmulo do santo chaveiro e subir finalmente a pé á cúpula de Miguel Ângelo nos seus 136 metros de altura.

Os museus do Vaticano ficaram para o dia seguinte pois só por si merecem uma jornada exclusiva tantos são os motivos que nos prendem aos séculos passados dos quais a igreja tem, pela sua ancestralidade, largo espólio. Um repositório aliás que se faz pagar bem caro pois desde a entrada á saída, os museus são um contínuo negócio de lojas tipo barraquinhas avenida navarro, salvaguardada a sofisticação das instalações, numerosas, variadas, atractivas e computorizadas. Na capela Sistina, constantemente apinhada de visitantes, nem sempre é fácil conseguir um lugar sentado nos bancos em redor para, durante uma hora de contemplação, observar a beleza eterna das suas obras-primas. Vale sempre a pena reviver este sítio, pois se há alguma coisa de divindade e de sagrado em todo o santuário, na minha opinião, é aqui. Não admira a proliferação de vendedores, quase tantos como padres e freiras, na sua sede papal. Roma é, primeiro que tudo, uma cidade de turistas e de filas e por consequência, de feiras.

Eu, que gosto mais de andar de rua em rua na miscelânea das gentes que no limpo circuito do turista, encontrei na quinta feira á tarde nas imediações do palácio Viminale, património da humanidade em pleno centro de Roma, uma feira exactamente igual á de Santa Luzia onde comprei por uma dúzia de euros umas sapatilhas fonseca para me aliviar os pés. E junto ao Coliseu, á saída do metro, em barraquinhas sim, como as do Luso, um soldado romano de resina chinesa, igual aos que por ali andam a passear de carne e osso e a tirar fotografias para ganhar a vida. Este, talvez por ser chinês, uma falsificação, partiu-se ao primeiro encontrão, antes de chegar ao quarto. Ficaram restos partidos como recordação do regateio que fiz com o vendedor, um romano de meia idade,  palrador inato que, mesmo com um  aturado treino de marketing,  não me conseguiu impingir camisolas do Figo e do Rui Costa quando eu, não o convencendo da minha condição de romano, acabei por lhe confessar não ser siciliano nem espanhol,como afirmava, mas português. Soltou um grito de bancada, falou da Ronaldeta, dos seus golos ou da sua eminente compra pelos madrilenos do Real, pelo Barça ou pelo Milão de Berlusconi…

Não me admirei muito com a sabedoria deste tiffosi da claque do Lazio, não só pela sugestão desportiva da sua gorda barriga como pelo facto de estar instalado no sopé do magnifico estádio que foi o coliseu de Roma, cujas ruínas testemunham hoje a grandeza dum império que foi a primeira ideia duma Europa unificada e que terá chegado mais longe, em muitas áreas da sua própria gestão, que o embrião de União que hoje temos .

Se existem velhas cidades a justificar a honra de capitais da Europa, Roma será a primeira, não só porque já o foi, como pelo facto de ser um repositório vivo duma imensidade de monumentos que testemunham a par e passo a própria cultura dessa Europa. Noutros tempos, construída na ponta das lanças das legiões romanas, agora, na burocracia, dita democrática, dos tecnocratas que produzem, quando produzem, uma politica comum. De resto nos dias de hoje, na vivacidade e diversidade duma cidade de dimensão latina, seria sempre difícil descortinar a metódica e fria organização duma cidade do norte. Apesar de Roma ser, parafraseando o título de Roberto Rossellini, uma cidade aberta, ainda não se sabe se a globalização, o monstro capitalista dos nossos dias, fecha ou abre as portas da humanidade e da Europa. 

 Os indícios, francamente, não são animadores!

Roma, Março de 2007         ( mealhadatemas.blog.com)

 

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