DA FONTE DA MEALHADA À BARRAGEM DA APARTADURA
Ferraz da Silva
DA FONTE DA MEALHADA
Á BARRAGEM DA APARTADURA
Quem vai a Castelo de Vide não deve deixar de ir á fonte da Mealhada. Numa vila bonita, uma bela fonte, branca, airosa, enquadrada pela serra de S. Paulo no Parque Natural de S. Mamede. Como o nosso Luso, terra de nascentes, de águas, de fontes e paisagem. As termas que já teve é que morreram, coisa que bem pode acontecer ao Luso se a desenfreada exploração da água fizer esquecer, por compra ou distracção, os interesses locais. Já esteve mais longe, enquanto na vila alentejana já retiraram as placas de informação termais que há pouco ainda existiam* mas que foram definitivamente postas de lado para não ludibriar, como é hábito nosso, os desprevenidos, que afinal, não é só com diplomas que se enganam os incautos, há muito mais maneiras de o fazer e uma delas é o mundo informativo das tabuletas de trânsito, além da terceira versão dos Piratas das Caraíbas, um engodo a letras de ouro na colonização de “Óliude”. Pobres lorpas!!!!! Ora pois, tem Castelo de Vide uma fonte peculiar chamada Fonte da Mealhada que também nos é familiar pelo nome e pelo produto. Construída no ano de 1699 segundo a data que tem inscrita no mármore, a fonte da Mealhada que nada tem a ver com a nossa Mealhada nem com a Mealhada de Loures, é formada por cinco pilares encimados por uma cimalha a todo o comprimento, um brasão circular ao centro com as armas da vila, e sobre o mesmo uma cruz de Cristo, sob a qual está gravada a data da construção. Quatro bicas lhe dão vida caindo da boca aberta de quatro cabeças de leões a água fresca que, dando oportunidade á satisfação dos sedentos, se deposita num tanque rectangular ao comprimento da obra. E quanta não era a sede quando, em pleno verão há seis anos, durante as comemorações dumas estranhas e misteriosas núpcias no então hotel Garcia da Orta, no centro da vila, o calor se lançava em raios pela planície, galgava Portalegre, a serra, os corpos!!!! Foi na manhã alta do dia seguinte que nos levou o sol, em par, á famosa judiaria e sinagoga da época de D. João III, o rei que escancarou as portas aos horrores da santa inquisição e aos guetos do judaísmo. Lá está ainda hoje o bairro dos judeus igual e preservado no labirinto escondido das suas ruas estreitas. E florido em todos os seus recantos. Dali á Fonte da Mealhada é a descer e no aparato da sua monumentalidade damos com quatro bicas abertas nas tais bocas de leão, a dar água, mansas como cordeiros, pela torridez do estio. Diz a lenda que quem visitar a fonte da Mealhada e da sua água provar, há-de por força voltar e em Castelo de Vide casar. Mas isto não passa dos floreados populares da adoração da água e é comum a muitas outras nascentes e fontes, tal como a de beber água na terceira bica de S. João. De facto, se todos os casadoiros que ali bebessem água viessem casar ao Luso, ainda que mais não fosse, longa ia a fila dos casamentos na igreja paroquial marcados com meses e meses de antecedência. Era bom que assim fosse, como era bom a Senhora de Fátima ter nascido na Serra do Buçaco, nas Carvalheiras, como esteve prometido, não lhe teria custado grande coisa e ter-nos-ia dado grande jeito! Pela via desta lua-de-mel serôdia e doce, há alguma que o não seja, se continuou para o município de Marvão onde se entra pela magnífica ala de freixos que limita e guarda a estrada por entre o campo de golfe de dezoito buracos que se alonga até ao rio Sever e á Portagem. Serve a vila raiana e arredores, pois é o único local do parque natural onde se pratica, quando pratica, a rica modalidade, regada pelo lençol de água da vizinha barragem da Apartadura. Situada na freguesia de São Salvador de Aramenha, ribeira de Reveladas, que corre para o Tejo, a barragem surge de surpresa e é com surpresa que se depara com a sua dimensão no parque alentejano. Aprazível e silenciosa, permite, além da rega e do abastecimento de água, a prática de desportos náuticos sem motor. Ambiente. E permite o golfe, ali junto ao lugar da Portagem nos fundos da falésia de Marvão, onde se come em qualquer época do ano uma sela de porco com castanhas de se lhe tirar o chapéu…Foi o que fizemos. Sem uma barragem deste tamanho que permita a armazenagem da água que há-de alimentar o golfe, adeus golfe, não há lençol freático que lhe acuda nem tanques no céu que nas horas apertadas o salvem da mirração! Apesar de quem abre furos no solo acabar sempre, por dever de ofício, a encontrar infinitos lençóis do indispensável líquido ! Só alguns anos mais tarde após a refeição de sela de porco preto com castanhas derivado da viagem, associei que haviam passado mais de trinta anos sobre a minha primeira visita á Fonte da Mealhada, onde havia bebido de facto, um copioso copo de água fresca duma qualquer boca aberta leonina.
E pensei cá para comigo: e ainda dizem por aí que não há bruxas!!!!!!!!!
á 10 anos) Junho 2007 mealhadatemas.blog.com lusotemas.blog.com