Friday, May 25, 2007

UM ESTADIO E UMA BANCADA

     CRÓNICAS LOCAIS-27

 

 

      Ferraz da Silva

 

 

      UM  ESTÁDIO  E  UMA  BANCADA    

 

 

 Tenho na minha frente um semanário do município da Mealhada que relata de algum modo a última reunião de Câmara onde um vereador pergunta pelo novo Estádio Municipal da Pampilhosa prometido há alguns anos “ diz, depois da doação dum terreno feita em tempos pelo benemérito CS e cuja finalidade era o melhoramento do campo principal do clube. Porém, diz a mesma noticia logo a seguir pela voz do mesmo orador, recordando que a doação foi feita há dois anos tendo por objectivo a construção do Estádio Municipal da Pampilhosa …obra que está prometida há vários anos … Segundo a mesma fonte o presidente da edilidade não negou que o propósito central (?) passa pela construção dum estádio… e que o respectivo projecto está a ser elaborado.

 

  Ficamos sem saber para é que foi feita a doação, se para melhoramento do campo existente, se para a construção dum estádio ou até para esperar por melhores dias e melhor oportunidade. De qualquer modo foi feita para beneficiar o velho ou construir um novo estádio, como transparece do texto. Tomamos porém conhecimento, como munícipes, que se quisermos que a nossa Câmara nos faça qualquer coisa, teremos que começar por doar o terreno, ouvir uma promessa e aguardar. Teremos grandes probabilidades de vir a obter o pretendido se o critério for idêntico, como deve ser, para todo o município.

 

  Ora eu que não sou adepto do futebol e até julgava que ali já havia um belo campo para a sua prática, fiquei admirado e intrigado com as “antigas promessas” que originaram esta singular doação feita por um benemérito bem como com o projecto já em fase de elaboração para o referido estádio.

 

  Em primeiro lugar passei a saber que nos dias que correm também existem “beneméritos da bola”, ao contrário de outros tempos em se tinham por beneméritos aqueles que contribuíam para instituições de apoio aos mais necessitados, pela ajuda filantrópica desinteressada a conterrâneos frágeis, etc, etc, etc , o que lhes dava a eles, doadores, um estatuto de altruísmo exemplar que os distinguia precisamente pelas suas virtudes e sãos princípios humanitários. Havia até a figura do comendador “oficial” que enaltecia essas virtudes humanas e permitia aos mais persistentes o assumir duma posição distinta e evidente na sociedade.

 

  Isto era o que eu pensava de facto dum benemérito, e não me passava sequer pela cabeça que no mafioso mundo da bola existissem Madres Teresas! Não passava, nem passa, pois tirando os Britos do Benfica que eram de S. Pedro de Alva, directores e filantropos ao mesmo tempo, não me lembro de mais ninguém que tenha obtido esse grau da comenda via bola!!! E mesmo os Britos, há quanto tempo foi…??? 

 

 Se imaginarmos hoje os valentins, pintos, madaís e outros que andam por aí a aproveitar a mama da tanga, alguém acredita que tenham preocupações com a má sorte dos vizinhos?

 

  Em segundo lugar, uma coisa que me deixa, não sei se preocupado, se descrente, se causticamente indiferente, é a sequência da notícia que atribui á Pampilhosa um novo estádio municipal e á Mealhada uma bancada no estádio municipal. Julgo que li bem.

 

   Depreende-se que, no caso da Mealhada, se algum dia chegar a estádio, vai ser feito de remendos. Remenda aqui, remenda acolá, bancada além, chuveiro ali, telha nova de vez em quando, isto é, quando chegar ao fim já o começo está podre. Será????

 

   No caso da Pampilhosa, o projecto é de raiz, não sabemos com que dimensão, mas segundo o jornal que relata a reunião de Câmara, está a ser elaborado.

 

   É lógico! Terreno novo, doado, grátis, quer estádio novo, está visto…!

 

   E o que é que vão fazer ao que já têm? Nada se diz. Vão dá-lo, vendê-lo, fazer casas? Não se sabe. Omite-se.

 

 Como aquele célebre filme que correu por aí há uns anos, ou os deuses devem estar loucos ou não se percebe que critérios presidem a estas conversas de reunião de Câmara que por mal dos nossos pecados vão de tropeço em tropeço e até podem chegar dum dia para o outro á politica do facto consumado.

 

   Embora em certa medida comungue da opinião expressa pela autarquia em relação  ao assumir de compromissos póstumos de instituições privadas, devo sublinhar por outro lado que, como no caso dos beneméritos e dos comendadores, há instituições que se regem por fins sociais e humanitários que merecem muito mais respeito, se as compararmos com esta abertura cega para estádios de futebol. E talvez mais apoio!

 

  Quais são os critérios que regem as prioridades? Serão os mesmos critérios inexplicáveis e discriminatórios que presidiram á distribuição de subsídios ás associações desportivas e culturais?

 

   Fica o comentário. Para refletir. Não vá o dinheiro faltar para os megas projectos como os paços do município, feito com remendos a preço de oiro mas que apesar de tudo, não tem rodas…

 

 Cuidemo-nos, enquanto esperamos pelo novo estádio…

 

 E já agora, pelo remendo da nova bancada !!!!

 

 Mealhadatemas.blog.com                                                     Maio/ 2007

 

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Thursday, May 17, 2007

UM AMBIENTE RANÇOSO

 LOCAIS-26

 Ferraz da Silva

 UM AMBIENTE RANÇOSO

 

       Eram sete da tarde quando me sentei no muro sobranceiro ás antigas estufas e á antiga estação dos correios do Buçaco, mesmo em frente á velhinha oliveira de Wellington onde, diz a lenda, o general prendeu a cavalgadura para descansar umas horas na melhor cela dos frades. O sol preparava o fim da tarde com um crepúsculo vermelho escondido atrás das copas e só aquele agressivo cheiro a ranço incomodava a límpida atmosfera que emanava harmonia e adivinhava bom tempo. 

 O casal de suecos perguntou-me ingenuamente se aquele cheiro horroroso provinha de alguma espécie vegetal existente na mata ou de alguma lixeira próxima.                                                        –Não, respondi macarronicamente, é o cheiro do azeite duma fabriqueta de ranço ali no sopé da serra.                                                                                                                                        Perguntaram-me o caminho para Coimbra, entraram num carrão volvo estacionado ali mesmo e foram-se com um aceno. 

 Três cães excitados, daqueles que passam o verão ás sopas do hotel incomodando os hóspedes, passaram de nariz no ar a farejar o cheiro a molho estragado que se expandia, na esperança de algum osso para lhe fazer companhia. Foram-se abanando o rabo e de pescoço esticado lambendo no vazio sem saberem o quê.  O resto era silêncio como no tempo dos frades em hora de orações mas não se ouviu o sino do mosteiro nem a sineta esganiçada das ermidas da floresta na chamada geral crepuscular.

Desci ao Luso com o objectivo de analisar o ranço junto ás termas e sentei-me num banco de madeira debruçado no lago. O ranço era ainda mais agressivo e forte. Na realidade o ar que se respirava estava saturado de gordura, não daquele aroma delicioso que acompanha o azeite nas batatas com bacalhau, mas dum pestilento odor, não sei se atentatório da saúde de cada um, mas algo insuportável, nauseabundo, enjoativo e doentio. E faltam-me adjectivos para continuar!            Era pois uma questão tridimensional e não apenas coisa de altitude!                                                 O cheiro , ao contrário da gravidade, espalhava-se e subia… 

 Neste mini clima que ora avança e recua ao sabor dos ventos vegeta o Luso e o Buçaco, a Vacariça, ás vezes a Mealhada e não sei se mais localidades deste mini município. Podia ser mini no território e grande nas ideias. Mas não é, é mini nas duas dimensões. Se assim não fosse, este rançoso ranço que corre com as pessoas como o diabo foge da cruz, teria terminado. Mas não, não há autoridade municipal, nem distrital, nem ministerial, nem governamental que consiga acabar com estes cheiros dos restos dos azeites ou obrigue a fabriqueta que lhe dá origem a respeitar o ambiente. É que o incumprimento das leis tem muita força e o laxismo nacional, ainda muito mais.

Contrariamente, como é que um tribunal condena uma velhota de setenta anos por roubar ao lidl três euros e noventa e nove cêntimos em cremes de beleza? Risolândia, brincolândia …??? Paradoxos ! 

 Todos os dias se fala pois na defesa do ambiente, mas na prática prevalece o laxismo onde tudo navega sem cartas e sem leme e, neste laxismo dos nossos brandos costumes se cozem coisas como o deficit, as reformas principescas, os apitos doirados, as universidades independentes, os albertojoões,   etc., etc., etc.… Será preciso um diploma dum primeiro-ministro para saber que as universidades privadas são o que são? É preciso conhecimento de cátedra para saber que apitos doirados, casas pias e outros megas processos vão acabar sem resposta? Será preciso ser ingénuo para crer que os políticos vão deixar de saltitar entre administrações e cargos?

   Uma coisa é o espectáculo politico levado ás raias absurdas dos objectivos pessoais, outra coisa é o país real que assiste impotente e resignado á tragédia dos seus dias. Desiludido, sem crença, eternamente a caminho dos últimos índices da Europa.                                                                Esta semana, todas as semanas… O primeiro no deficit, o último em crescimento, como é ????

Voltando ao ranço, chamava-se assim noutros tempos, li algures que o ranço tinha acabado ou ia acabar. Já devo até ter lido várias vezes. Numa delas, era a autarquia câmara que o dizia num jornal ou num boletim. Parece que o responsável político teria “caído” sobre a empresa tipo ‘golpe de mão’ no bom sentido tudo leva a crer e tinha verificado que o cheiro acabara ou estava em vias de acabar com a instalação duma nova maquinaria de filtragem.                                                             -Está á vista!                                                                                                                              Quanta ingenuidade anda por aí, ou parece que anda, á sombra da gamela politica!

Será este o ambiente de qualidade que nos está destinado. Macabro!!!

E será assim que se atraiem as pessoas para visitar o concelho?

Mealhadatemas.blog.com                                      Luso,Maio,07

 

   

 

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Sunday, May 6, 2007

O DINHEIRO DAS ÀGUAS

CRÓNICAS LOCAIS-25

 

 

 

 Ferraz da Silva

 

 

O DINHEIRO DAS ÁGUAS-25

 

 

     Durante muitos anos abordamos na imprensa e nos órgãos municipais o caso dos seiscentos escudos anuais pagos pela água do Luso como custo da exploração das nascentes. Até gostávamos de sublinhar jocosamente que o acto solene do pagamento mais que simbólico era feito pontualmente em duas prestações semestrais de trezentos escudos cada uma.

   Nesse tempo, vão oito, dez, doze anos, levantava-se a questão, dialogava-se com quem de direito, pressionava-se, auxiliava-se onde era possível e necessário até que no último mandato do anterior presidente da Câmara se conseguiu, muito pelo seu próprio mérito e teimosia, uma plataforma julgada benéfica para ambas as partes que contemplava a desistência por parte da Câmara do processo que vinha mantendo contra a concessionária havia mais de dez anos e estipulava ainda o pagamento á Câmara, dos famosos três tostões por litro, suponho que seja esta a quantia e que agora se mantém, se bem que contemplasse uma actualização anual através duma formulacontabilista adequada.

Na altura, feitas as contas, a Câmara passaria a receber á volta de quarenta e cinco, cinquenta mil contos anuais com retroactivos a meia dúzia de anos traduzidos numas centenas de milhares de contos.  O contrato foi assinado já no mandato seguinte, um trabalho que o anterior autarca deixou feito, é bom recordar para que cada um fique com os méritos ou deméritos que lhe pertencem e por outro lado será sempre bom lembrar estes negócios porque afinal são negócios de todo o município que devem interessar a todos os munícipes e neste caso particularmente aos munícipes do Luso onde a empresa em questão tinha a sua sede e onde continua a nascer abundantemente a matéria prima, única riqueza aliás, da freguesia. Sede é que na prática já não existe com evidentes consequências.

Recordado este processo que foi moroso, complexo e envolveu muita luta política, porém nenhuma que envolvesse a Câmara actual, podemos então ensaiar a leitura critica da acção camarária em relação á freguesia do Luso desde que o concessionário paga alguma coisa que se veja e desde que põe em dia as contas atrasadas. 

 Essa acção passou pela construção do Centro de Estágios o qual seria uma obra incomportável para os cofres municipais se os sucessivos pagamentos da divida da Água não fosse quase simultâneos com o andamento da obra. Como a obra coincidiu com essa injecção de capitais conforme o acordo firmado, ficou a Câmara livre de encargos em relação às suas receitas normais. O resto foi apenas uma questão de tesouraria e talvez a falta de apoio comunitário tenha também passado por essa abundância de meios !!! 

 Dito duma maneira simples, a Câmara recebeu o dinheiro do Luso e gastou-o na freguesia numa obra emblemática, necessária e oportuna para o turismo do concelho. Fez bem.

Não pode pois argumentar que agora nada faz pelas termas por já ter gasto muito na freguesia. Mas também por que o desenvolvimento do sector do turismo devia fazer parte das apostas estratégicas da Câmara e não do dividir o dinheiro por esta e aquela freguesia conforme o valor dos investimentos feitos, facto que só uma visão retrógrada, mesquinha e negativa para o concelho pode acompanhar.

Torna-se pois difícil entender o facto da Câmara nada fazer, como lhe competiria, pela reabilitação das termas no timing apropriado dando, com o seu silêncio e omissão,  oportunidade á venda de património que em principio estaria afecto ao projecto Luso 2007 como bem sabia a Câmara, depois do mesmo lhe ter sido prometido no mandato anterior. Hoje sabe-se que existe apenas um estudo preliminar cujo investimento previsto para a remodelação termal é insignificante e portanto na linha do engodo a que vimos assistindo há muitos anos. 

 E no entanto, há um contrato de concessão das Termas a discutir e a fazer cumprir! E no entanto brinca-se com o dinheiro de todos com elefantes de golfe para satisfazer caprichos de nascenças num erro que o futuro demonstrará que se delapidou erário inutilmente. E é igualmente difícil entender as razões porque a Câmara, que já teve na mão a oportunidade de negociar o espaço da chamada Quinta do Alberto no centro do Luso, o não quis fazer, deixando passar a oportunidade de desatar esse nó e a hipótese de dar ao centro degradado das Termas, um impulso decisivo para a sua transformação.

Nos dois casos, o fracasso é evidente pela falta de muitas coisas, sobretudo pela falta de discernimento político e de capacidade de abranger e conjugar no imediato e no futuro o interesse do município. Interesses que, em discurso de ocasião, passam pela substância turística mas que, naquilo a que se pode chamar a ‘comadrice politica’ dos gabinetes não tem lugar.

Os orçamentos provam-no e a situação agónica do Luso actual onde, por exemplo, não há nem se cria um posto de trabalho para ninguém, indicia que nem tudo tem sido bem feito a vários níveis, onde a actuação da Câmara da Mealhada não está isenta de erros políticos com influência no evoluir negativo da situação presente. E de estratégia e coerência, ainda que a propaganda seja muita, não se vê de facto coisa de importância ou de substancial. Lusotemas.blog.com                                                Luso  2007

 

 

 

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