O AIRBUS DA EASY
O AIRBUS DA EASY
A doze mil metros de altitude o airbus da easy voa suave como se tratasse duma pena em movimento constante e até o ligeiro ruído das turbinas amolece a rigidez do corpo, atado ainda aos cintos de segurança convidando a dormir. Ao meu lado com uma edição de sonetos de Camões estendida no colo, Brunela adormece na saudade duma Lisboa que a repõe em Bérgamo talvez quem sabe, de coração partido e desejo momentâneo de regressar em breve, nada que o tempo não cale em pouco tempo e a faculdade não esqueça no trabalho diário dum curriculum em letras como objectivo final.
Em Milão, já na estação central, Julieta levou a minha mala de porão e deixou-me ficar a dela de igual tamanho e cor. Julieta Anunziata Sant’Angelo, piazetta S. Valentino, Catânia, Sicília, foi assim que me deixou com a leitura da etiqueta numa mão frente ás escadas largas da estação, sem saber o que fazer nem como nem quando seguir a normalidade da minha viagem tão já perto do fim.
Isto, ás cinco da tarde, era já noite cerrada, o autocarro seguiu para outra viagem de ida e volta enquanto me sentei, iluminado pelo néon dos mil anúncios da praça, nas escadas de acesso á gare, procurando encontrar uma solução que me resolvesse o problema resolvendo automaticamente o problema dela pois que um sem outro não tinham qualquer resolução possível.
Presumindo que Julieta fosse apanhar o ferry a Génova ou Savona para seguir viagem rápida para a Sicília, levantei-me num ápice, subi os degraus em direcção á gare, segui apressadamente todo o sexo feminino que encontrei de mala preta de porão que se pudesse confundir na balbúrdia da descarga com a minha mala preta, percorri ao comprido os cais de embarque da estação central cheia de gente rotineira, na esperança dum encontro feliz, mas nada. Espreitei por dentro o inter cidades de Vintemiglia e o mesmo, niente, quero dizer, o mesmo nada. Até que, cansado de olhares tão furtivos como infrutíferos a saias, meias, calças e sapatos de salto alto, resolvi mudar de táctica e regressar á paragem do autocarro, voltar a sentar-me nas escadas da estação e aguardar que Julieta regressasse ao lugar do crime, ou seja, do erro, antes de apanhar o comboio fosse lá para que lado fosse. Talvez não fosse sem mala se desse por isso a tempo…!
É angustiante aguardar em desespero por uma mala de viagem trocada com o recheio dos nossos parcos haveres, cuidadosamente escolhidos entre necessidade e peso ou, pela primeira vez na vida, por uma Julieta qualquer, inesperadamente Julieta, á noite e nos degraus frios e húmidos duma estação de comboio, perdida que foi a esperança de continuar viagem e acabar nos lençóis duma cama prometida e quente, já feita á dias a contar com a chegada dum visitante estimado.
Mas como nada é imutável nesta vida e tudo se transforma tão rápido quanto é preciso, deixando para trás a gangrena da mala, uma mala a mais ou a menos, que importância tem afinal ou umas calças, uma camisa, um par de meias, a espuma de barbear, serão coisas suficientes para tirar a paz duma noite a um viajante ensonado com três mil quilómetros no corpo desde as seis horas da manhã? Optei pelo primeiro hotel que encontrei no círculo em redor e sucumbi sem mais lérias entre o recordar saudoso de expressões do meu pai, de Carvalhais, Penacova, que dizia de vez em quando, adormeci como um cepo ou almocei como um padre!
Na manhã seguinte, ás sete e meia, acordei fresco e bem disposto, o problema da mala, praticamente esquecido e foi então que, ao entrar na sala do pequeno almoço do hotel reparei, com alguma admiração, na minha mala preta de etiqueta avermelhada logo na primeira mesa, á esquerda, encostada á toalha e á saia azul escuro, de Julieta Anunziata Sant´Angelo, de Catânia, Sicília, piazetta São Valentino, 39, terzo piano.
Em conjunto saboreamos umas fatias de panetone, uns brioches adocicados e o café com leite matinal enquanto lamentávamos a pouca sorte pelos encontros e desencontros das nossas malas pretas que afinal por motivos tão inocentes e óbvios dormiram lado a lado em quartos contíguos do hotel Excelsior na praça da estação.
A meio da manhã, esquecido o contratempo da mala com um café do Brasil no pequeno bar da gare, fizemos a viagem no eurostar das dez e quando a deixei no cais, no ferry da Moby Line, desejei-lhe boa sorte, boa viagem e até um dia casual, noutro cais qualquer lá do sul.
O mediterrâneo era um lago como nunca o faz o atlântico.
Apanhei o dezassete traçado até Quinto e fui alegremente para casa.
Mealhadatemas.blog.com Nervi, Abril, 2007