Friday, April 27, 2007

O AIRBUS DA EASY

CRONICAS LOCAIS-23

 

 

O AIRBUS  DA  EASY

 

 

  

A doze mil metros de altitude o airbus da easy voa suave como se tratasse duma pena em movimento constante e até o ligeiro ruído das turbinas amolece a rigidez do corpo, atado ainda aos cintos de segurança convidando a dormir. Ao meu lado com uma edição de sonetos de Camões estendida no colo, Brunela adormece na saudade duma Lisboa que a repõe em Bérgamo talvez quem sabe, de coração partido e desejo momentâneo de regressar em breve, nada que o tempo não cale em pouco tempo e a faculdade não esqueça no trabalho diário dum curriculum em letras como objectivo final.

 Em Milão, já na estação central, Julieta levou a minha mala de porão e deixou-me ficar a dela de igual tamanho e cor. Julieta Anunziata Sant’Angelo, piazetta S. Valentino, Catânia, Sicília, foi assim que me deixou com a leitura da etiqueta numa mão frente ás escadas largas da estação, sem saber o que fazer nem como nem quando seguir a normalidade da minha viagem tão já perto do fim.

  Isto, ás cinco da tarde, era já noite cerrada, o autocarro seguiu para outra viagem de ida e volta enquanto me sentei, iluminado pelo néon dos mil anúncios da praça, nas escadas de acesso á gare, procurando encontrar uma solução que me resolvesse o problema resolvendo automaticamente o problema dela pois que um sem outro não tinham qualquer resolução possível.

   Presumindo que Julieta fosse apanhar o ferry a Génova ou Savona para seguir viagem rápida para a Sicília, levantei-me num ápice, subi os degraus em direcção á gare, segui apressadamente todo o sexo feminino que encontrei de mala preta de porão que se pudesse confundir na balbúrdia da descarga com a minha mala preta, percorri ao comprido os cais de embarque da estação central cheia de gente rotineira, na esperança dum encontro feliz, mas nada. Espreitei por dentro o inter cidades de Vintemiglia e o mesmo, niente, quero dizer, o mesmo nada. Até que, cansado de olhares tão furtivos como infrutíferos a saias, meias, calças e sapatos de salto alto, resolvi mudar de táctica e regressar á paragem do autocarro, voltar a sentar-me nas escadas da estação e aguardar que Julieta regressasse ao lugar do crime, ou seja, do erro, antes de apanhar o comboio fosse lá para que lado fosse. Talvez não fosse sem mala se desse por isso a tempo…!

  É angustiante aguardar em desespero por uma mala de viagem trocada com o recheio dos nossos parcos haveres, cuidadosamente escolhidos entre necessidade e peso ou, pela primeira vez na vida, por uma Julieta qualquer, inesperadamente Julieta, á noite e nos degraus frios e húmidos duma estação de comboio, perdida que foi a esperança de continuar viagem e acabar nos lençóis duma cama prometida e quente, já feita á dias a contar com a chegada dum visitante estimado.

   Mas como nada é imutável nesta vida e tudo se transforma tão rápido quanto é preciso, deixando para trás a gangrena da mala, uma mala a mais ou a menos, que importância tem afinal ou umas calças, uma camisa, um par de meias, a espuma de barbear, serão coisas suficientes para tirar a paz duma noite a um viajante ensonado com três mil quilómetros no corpo desde as seis horas da manhã? Optei pelo primeiro hotel que encontrei no círculo em redor e sucumbi sem mais lérias entre o recordar saudoso de expressões do meu pai, de Carvalhais, Penacova, que dizia de vez em quando, adormeci como um cepo ou almocei como um padre!

   Na manhã seguinte, ás sete e meia, acordei fresco e bem disposto, o problema da mala, praticamente esquecido e foi então que, ao entrar na sala do pequeno almoço do hotel reparei, com alguma admiração, na minha mala preta de etiqueta avermelhada logo na primeira mesa, á esquerda, encostada á toalha e á saia azul escuro, de Julieta Anunziata Sant´Angelo, de Catânia, Sicília, piazetta São Valentino, 39, terzo piano.

 

  Em conjunto saboreamos umas fatias de panetone, uns brioches adocicados e o café com leite matinal enquanto lamentávamos a pouca sorte pelos encontros e desencontros das nossas malas pretas que afinal por motivos tão inocentes e óbvios dormiram lado a lado em quartos contíguos do hotel Excelsior na praça da estação.

    A meio da manhã, esquecido o contratempo da mala com um café do Brasil no pequeno bar da gare, fizemos a viagem no eurostar das dez e quando a deixei no cais, no ferry da Moby Line, desejei-lhe boa sorte, boa viagem e até um dia casual, noutro cais qualquer lá do sul.

O mediterrâneo era um lago como nunca o faz o atlântico.

   Apanhei o dezassete traçado até Quinto e fui alegremente para casa.

 

Mealhadatemas.blog.com                                                Nervi, Abril, 2007

 

 

                                             

                                                     

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Thursday, April 12, 2007

COMUNA DE PORTOFINO

CRÓNICAS AVULSAS-3

 

 

 

 

COMUNA DE PORTOFINO

 

 

Ferraz da Silva

 

 

 

 

      O monte de Portofino faz lembrar o Buçaco na dimensão da sua morfologia e na imensidade da sua vegetação cuja variedade e riqueza vegetal são porém de muito menor quantidade e qualidade.

 

     O seu ponto mais elevado situa-se a seiscentos e quarenta metros de altitude, cerca de cem metros acima da Cruz Alta e a estrada que o alcança desdobra-se igualmente em curvas e contracurvas até dois terços da altitude total, lugar onde, como no Buçaco, surge um hotel de primeira categoria construído na primeira década de novecentos num estilo semelhante a espaços balneares cujas estruturas subsistem ainda um pouco por toda a Europa dos nossos dias.

 

   Portofino é uma pequena península, uma espécie de nave gigante atirada sobre o mar tirreno de proa altiva e vertentes escarpadas que se debruçam em abismos sobre as águas.

 

  Do seu cume avistam-se para um e outro lado da alta quilha que tanto pode ser o convés como os mastros da mezena, as largas enseadas de Camogli , a poente e as de Santa Margaritha para nascente como se fossem uma Nazaré em ponto grande e a perder-se de vista em recortes de verdes , ocres e terras ,contra a calmaria azul do mar que tudo circunda numa  afirmação serena da sua constante presença.

 

   Enquanto na comuna sede de Portofino a sua enseada forma a marina natural que alberga os ricos iates de recreio que são o expoente máximo do turismo náutico do planeta, o monte de Portofino é um parque natural da região, um parque botânico ao alcance do cidadão comum onde se não paga para entrar mas onde existem regras que disciplinam o acesso e a utilização. O visitante que não vai para o hotel, por exemplo, é informado de que não pode parar ou estacionar nas bermas da estrada e apenas pode permanecer no parque se, chegado ao parqueamento, meia dúzia de quilómetros acima, encontrar lugar vago. Uma forma simples de ter o espaço controlado e de conter a pressão demográfica sobre o mesmo?

 

E não estamos a falar de dezenas de turistas mas de multidões que ao sábado e domingo de qualquer dia de sol entopem por completo as estradas por onde se pode chegar ou sair em direcção a Milão, Turim, Parma, Pavia ou Alessandria.

 

  Tal como no Buçaco, quem entra a pé tem carta livre com a vantagem de por todo o monte, de Portofino a S. Rocco, a S. Frutuoso ao cume ou a Camogli, existirem deslumbrantes percursos pedestres de diversas durações e dificuldades, por caminhos ou sentieiros acessíveis e assinalados segundo a sinalética internacional de forma que é impossível ao mais curioso dos principiantes não chegar tranquilo e seguro ao fim da sua própria jornada. E por ali ninguém vende nada a ninguém, ninguém pede nada a ninguém, ninguém cobra um bilhete ou nos alerta para outra coisa que não seja respeitar o local, a natureza, o planeta. A  anos-luz!!!!!

 

   Portofino é apenas sede de comuna, o mesmo é dizer, sede do concelho.

 

   Comanda-se e dirige-se a si própria, gere o seu património cultural e turístico, tem dele conhecimento e dele obtém a reciprocidade que lhe traz a vantagem de quem sabe o que faz e como o deve fazer. Tem a sua massa critica própria para ser mais claro. E faz turismo de qualidade, cria estruturas de qualidade, investe em equipamentos de qualidade. E a comuna ou o município, não está preocupado, nem muito nem pouco com os lucros que os agentes, os empresários ou os investidores possam ganhar, coisa que preocupa na mesquinhez da nossa terra alguns autarcas.

 

  Preocupam-se antes com a eficácia da gestão municipal para que o ano seja bom, para que tudo esteja em ordem para receber os milhares de turistas forasteiros e para que a contabilização final dos resultados seja boa e lucrativa.  Todos têm a ganhar e ao invés, todos têm a perder. Por isso investem sem regatear e sem hesitações !

 

  Quando, por exemplo, se tenta comparar este turismo sério da europa com aquilo a que na nossa pequenez apelidamos de turismo e onde metemos, alegres e convencidos, qualquer coisa como o enchimento de garrafões na nascente de S. João, no Luso , o carnaval da Mealhada ou o museu do porco pomos na praça pública a nossa pobreza de ideias e de conhecimentos  e atestamos a inexistência de massa critica capaz  sequer de nos permitir identificar os interesses mais primários  do município.  

 

   E acredito que Portugal até é um país bonito, acolhedor, tranquilo, capaz de ganhar dinheiro com a indústria do lazer.

 

 

 

                                                 S.Rocco,Março 2007

 

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Tuesday, April 10, 2007

A VOZ DO DONO

CRÓNICAS LOCAIS-22

 

A VOZ DO DONO  ???

 

    Um dos meus artigos de opinião que versava o Plano e Orçamento da Câmara da Mealhada para 2007, mereceu uma resposta subscrita por um vereador da Câmara. Não percebo o porquê duma resposta oficial a uma opinião dum simples cidadão e nem responderia se ela viesse, como julgo que deveria vir, em nome pessoal, porém, já que o subscritor o faz como vereador eu vou tecer duas ou três considerações sobre a mesma.

  Em primeiro lugar para dizer a este autarca, que há pouco tempo descobriu o ovo de Colombo com o desenvolvimento do município através dos jardins, que ainda nem trazia cueiros quando existia uma ditadura, um regime, uma assembleia nacional, uma pide. E mandavam-nos calar, a todos nós. E prendiam-nos e enviavam-nos para as prisões da pide Peniche e Tarrafal se insistíssemos na nossa critica. E calávamos o bico. E os que não calavam, sujeitavam-se. Não sabia? Pois era. Era assim.

  E se precisávamos dum favor, dum emprego, dum lugar, até do simples lugar de vereador, ia-mos, ou iam os portugueses lamber as botas do dono, do deputado da lista única, do governador civil, do director da Pide (até se entrava na Universidade com cunhas da pide, dos seus agentes e directores, sabia?) …

  E por acaso também não sabia que existia um ministério da propaganda que fazia mais ou menos aquilo que o senhor fez com a sua resposta á minha carta, pois não? Pois existia. Era a voz do dono, na maior parte dos casos, através dos instalados devotos, qualquer coisa parecida com o sol da URSS nos bons tempos!!! O que não é o seu caso, admito perfeitamente…!

   Mas julguei que fosse do urbanismo, não da propaganda …não o conhecia como porta-voz! E pelos vistos não lhe chega o boletim municipal, que não é seu, é nosso, pago com o nosso dinheiro, para propagandear em nome da autarquia… Porque a Câmara também não é sua, é nossa. Nem do executivo restrito que não tem capacidade para tratar a oposição senão com a sobranceria das ditaduras! Continua a ser nossa.

E o dinheiro que o senhor lá ganha, bem ou mal, não está em discussão, também sai do nosso bolso! Pois é!!! Sabe que eu já fui mestre-escola e sei este bê-á-bá…

   Como é que pretende ter a ousadia de sugerir que um cidadão se cale em órgãos de imprensa livres dum país livre, sejam do município, do país, do mundo ou da galáxia??? Devolvo-lhe imediatamente a senilidade! Com votos de melhoras! Cure-se …!

  Fique-se com a sua opinião, tem todo o direito a tê-la, mas deixe aos outros o espaço que por direito também lhes é devido. Respeite-os.

   Quanto a mudanças de opinião, só os burros não pensam, só os burros portanto, amuam na sua teimosia. Digo teimosia porque ideias seria um insulto para um asino que por principio as não tem. Mas ainda assim, a propósito de mudanças, que exemplo melhor do que esse que tem á sua frente na Câmara? Devia estar calado para não comprometer ninguém. Em cerca de trinta anos que passei pela política, (não tenho nenhuma reforma da actividade, esteja descansado) encontrei muitas vezes o seu actual presidente na oposição. Não passava do crónico eleito do partido comunista! Para ascender ao poder teve que virar a casaca! Deveria saber como vereador da propaganda! Se quer falar em vira casacas, está portanto enganado, isso não é comigo, nunca foi!!! Bata mais perto! Não significa que seja um pecado mortal, mas na sua acepção, parece sê-lo!

  Como vê, é preciso pensar antes de dizer alguma coisa! Senão, corre-se sempre o risco de sair grossa asneira!!!

  Para terminar, que já vai longa a resposta e o assunto não merece tanto, quero esclarecer, mais ao leitor do que a si diga-se em abono da verdade, que enquanto administrador delegado da Junta de Turismo Luso Buçaco durante dez anos, o fui com o presidente que me convidou para o acompanhar, um militante partidário politicamente correcto e empenhado e com ele e com Marqueiro, em termos de turismo, fez-se entre outras coisas, o seguinte: Piscina e Cafetaria, Luso; Pavilhão Municipal, Luso, Parque de Campismo, Luso; Piscina Municipal, Mealhada; Remodelação Hotel dos Banhos, Luso.

   Isto é tudo do concelho da Mealhada, senhor vereador!

   Foi muito, pouco, ou não serve para a propaganda politica que lhe convém?

   E avançou-se ainda com o Jardim da Pampilhosa e com a ideia do Centro de Estágios. Tudo, com grande empenhamento, participação e pressão por parte da Junta de Turismo. Para que saiba e anote na sua incompleta agenda e para repor a verdade do trabalho a quem também o merece. Não que a mim pessoalmente isso importe, mas pela memória e respeito dos que já não se podem defender e para que outros ainda, por falta de informação, possam vir a regatear como seu.

  Fica mal a um vereador, ainda por cima com ovos de Colombo na manga, fazer comparações sobre coisas que ignora ou pretende ignorar. Pelo respeito por pessoas insuspeitas que lutaram pelas coisas, deram o seu empenho e trabalho de forma absolutamente gratuita pelo concelho e acabam, pela boca irresponsável dum político mal informado, por ser levianamente atingidas.

  Finalmente, quando avalio os dois executivos onde estive durante dois mandatos, sei o que digo. Acabada a estratégia Marqueiro, na minha opinião, veio o deserto. A falta de estratégia, de iniciativa, de ambição.

  E veio, sem qualquer significado para o município, a paróquia! Mais nada!

  E se a minha opinião o enerva, garanto-lhe, não há ovo de Colombo que lhe valha!!! 

                              Luso, Março,2007      Mealhadatemas.blog.com

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