Saturday, March 17, 2007

EMIGRANTES SEM REGRESSO

CRÓNICAS AVULSAS-2

 

 Ferraz da Silva

   

EMIGRANTES SEM REGRESSO

  

 

Este ano a primavera nasceu  a meio do inverno e a neve nos altos cumes marítimos dos Alpes da Riviera  é pouca. Na praia, ao contrário, há dias em que se pode vestir o fato de banho e ensaiar um mergulho sem tremeliques de pele como se fosse verão no seu pleno.

  O Mónaco , que se debruça abruptamente dos Alpes  sobre o mar, é um principado para os afortunados deste  mundo, não feito pela história dos seus heróis e dos seus santos , mas pelo interesse mais mesquinho da humanidade , o dinheiro e a sua protecção ,algo tão frágil e volátil  como o tempo e  como a própria vida, tão sedenta de egoísmo como de morte.

O homem, não entendendo assim as coisas empíricas do mundo, aguarda enquanto neste  que o outro nunca chegue e acomoda-se então á solidão da esperança emborcado de bruços no pântano dum ídolo que não é  deus cristão,  hindu ou muçulmano, mas que a todos abarca desde os confins da vida e do bezerro d’oiro ,o dinheiro.

   Talvez por isso, para residir ali , em Monte Carlo ,  é necessário atestar ao mundo e ás autoridades que se tem mais que o suficiente,  coisa que aos portugueses que ali  trabalham não se pode pedir ,obrigados que são a procurar sustento neste como noutros  lugares do planeta enquanto no seu país  vegetam os  ministros da república com a mesma incapacidade com vegetaram os ministros da monarquia até 1910.

  Não moram na cidade, pois, os portugueses no Mónaco , mas sustentam uma agência da banco do estado e, como o Zé Batista , a maioria mora nas vilas e aldeias dos arredores franceses  ou italianos onde  se  pode respirar um pouco mais de ar limpo e sorrir e chorar com a espontaneidade dos órgãos dos sentidos.

   O Baptista, barman no Savoy, aproveita até o festival de S. Remo que decorre  ao lado, para fazer uma caroca e arrecadar mais quatro ou cinco centenas de euros , tal   qual como se estivesse em Portugal e fosse aos três pinheiros fazer uns casamentos nas horas de lazer. Mora no agregado histórico de Escalone, na França, em plena  rota do raly numa casa que lhe pertence , que paga ainda ao banco português e aos filhos, dois natos ali, nem passa pela cabeça voltar a ser portugueses. E tem razões de sobra.

  É que enquanto estes  lusitanos excluídos da pátria  dão o litro por onde passam para andar de cabeça erguida, na própria pátria o poder económico entretém-se a repartir os bens da nação entre famílias e os políticos esforçam-se por gastar aos seus  compatriotas aquilo que não têm para pagar o déficit.

   Por outro lado, a justiça premeia os progenitores que abandonam os  filhos e mete na cadeia os que os substituíram com teto e com sustento, um paradoxo da irracionalidade da justiça e das escolinhas de julgar onde se aprende a cegueira da técnica mas não o bom senso dum juizo que um profissional de carreira, noutros tempos, adquiria com idade e com tarimba.

 Na educação  há uma espécie de triunfo dos porcos com o advento da escola dos alunos e os professores reduzidos á administração do saber e não da educação , uma aposta dos novos pedagogos onde grassa a incompetência e a indisciplina.

Com a discriminação a todos os graus presente no  dia a dia, com os afortunados a dividirem o espólio comum perante portugueses cada vez mais pobres , é difícil esperar que uma nova geração de emigrantes regressem a um país que caminha alegremente para  o vigésimo quinto lugar da escala da nova europa. 

  O espirito de Abril, no sentido moderado que sempre teve foi há muito tempo apagado da sociedade portuguesa e não me parece estarmos assim tão  longe do modelo salazarista, ainda que alguns, quando ouvem falar no político que foi, levantem as bandeiras da repulsa e da desgraça  com inaudita violência.

Mas comparativamente, o país de Salazar pertencia a meia dúzia de famílias como o país de hoje. As grandes questões do país resolviam-se entre essa meia dúzia de famílias mais o Estado, como se resolvem hoje.  Politicamente o país estava esvaziado ,desinteressado,  como o está hoje.

Salazar endireitou as finanças á custa da canga dos impostos e dos salários baixos, ou de miséria, como acontece hoje . Os políticos eram os mesmos mas as clientelas menores e mais baratas para a nação ,tal qual como o Eusébio o era para o futebol .

Não existia a liberdade de falar, isso é verdade , nem a liberdade económica que é o verdadeiro coração duma democracia. Hoje porém onde está essa liberdade económica  que é o alicerce da outra se nem sequer existe liberdade de trabalho !!!!

  Havia cunhas ?  Hoje não há uma teia de pedidos , clientes, amigos e parentela, além dos clientes dos partidos onde a qualidade e honestidade intelectual deixam muito a desejar ? Um emprego depende de quê? Tal como então , quando a rede de influências ia também da assembleia nacional a figuras do regime ou a directores da pide ? Na altura claramente com  conhecimento público, hoje, de forma encapotada a coberto da hipocrisia da seriedade !!!

 Se nada se perdoa aos anos da ditadura que são de qualquer modo história da nossa história  haverá razões para perdoar seja o que for á democracia de terceiro mundo por onde vegetamos?

 

                                                                                   Nervi, Março 2007

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Direcção de Estradas Mata, Camara esfola????

 CRÓNICAS AVULSAS-1

 

 

FERRAZ DA SILVA

 

DIRECÇÃO DE ESTRADA MATA, CÂMARA  ESFOLA ?????

 

  

  A estalagem da saída da auto-estrada, nasceu num dia cinzento ou talvez o proprietário, um português comum, não se saiba mover muito á vontade nos corredores do mando e assim suporta estóica e ingloriamente a importância dos sucessivos poderes, uma peregrinação vulgar a muitos investidores deste país que vêm ir por água abaixo a vontade de fazer alguma coisa pela terra que os acolhe.

   Esta terra que nos acolhe não é de facto muito grande mas foi sempre nas suas ditas vanguardas que o português criativo encontrou o caminho da retaguarda, quer através de leis e de costumes paralisantes, quer com atitudes e exageros conservadores e retrógrados onde o inchaço individual que brilha no sapato da burocracia, apaga instantaneamente o interesse colectivo dum país de hesitações e desequilíbrios. E as coisas morrem á nascença, perdidas na importância das secretárias dos importantes ou depois de se fazerem, contra ventos e marés, estão ainda sujeitas a obstáculos desanimadores, ás vezes intransponíveis.

     É neste cenário de meter medo a investidores (alguns “políticos”sem espelhos, dizem que são ricos, ganham muito dinheiro e portanto que se amanhem!) que mesmo assim alguns, mais teimosos e timoratos arriscam o seu dinheiro e o dinheiro que pedem á banca, por um sonho e por um juro. Foi assim, creio, que nasceu a estalagem da saída da auto estrada e o respectivo restaurante e que nasceu, para falar apenas em turismo, uma remodelada pensão nas termas do Luso ou é assim que se actualizam, quando o mercado o exige para além do pesado rigor da lei, os restaurantes da fileira do leitão. Para a Mealhada são apostas, desafios, riscos e grandes investimentos. E expectativas de sucesso e de lucro são absolutamente legítimas.

 Quem está no meio, sabe que é assim e sabe que os investimentos ao gerarem o seu justo retorno, criam riqueza para os territórios onde estão e criam os postos de trabalho tão necessários para o tecido humano do país.

 Por isso os políticos, descendentes directos dos empecilhos antigos, devem agilizar as leis, facilitar os empreendimentos e entender duma vez por todas que estamos no século XXI e quem investe o que tem, tem que o reaver com juros pois não estão na situação cómoda deles mesmo, políticos, cujo rendimento mensal é certo e cai metrónicamente na sua conta bancária quer chova quer faça sol. E não digam que ganham mal, face ás inúmeras cambalhotas que dão e ás casacas que viram para se eternizarem no poder. Até nos municípios pois então! Alguns têm já tantas teias de aranha como os dinossauros donde colhem apelido! Mortos.

  Pois ao nosso amigo do restaurante referido, a quem peço desculpa pelo envolvimento nesta crónica, proibiu a Direcção  de Estradas de Aveiro, o acesso directo ao restaurante, justificado por ser aquela uma via rápida de acesso á A1. Mesmo depois da rocambolesca operação encetada pelo dono e empregados do dito, foi-lhe cortado drástica e policialmente o acesso. Como nos bons velhos tempos com aparato policial…

  Porém, poucos metros á frente, mantêm a mesma Direcção de Estradas o mais perigoso cruzamento deste município que até faz parte dos pontos negros do trânsito distrital. Dum e doutro lado da via, surgem estradas e caminhos aqui e ali. E outro quilómetro á frente, autorizou o estabelecimento dum posto de abastecimento de combustíveis e, mais recentemente ainda, autorizou à Câmara Municipal da Mealhada a plantação duma estranha vinha no eixo da via, de autor desconhecido (?) que, quando crescer, vai sem dúvida tirar a maior parte da boa visibilidade que a nova rotunda tem.

  Depois, saindo ou entrando na mesma A1 em Aveiras de Cima, o que encontramos na via de acesso, senão restaurantes, floristas, sucatas e vendedores de melão? Saindo de Portimão para a via do infante, o que encontramos no acesso urbanizado á auto-estrada, não serão até casas de habitação? E saindo em Viana do Castelo, o acesso á cidade é ou não é uma via urbana? E quem sai em Leiria vindo da nova auto-estrada do oeste, não sai para cima duma entrada no continente local? Outros exemplos há por aí que poderíamos pescar, são muitos.

  Porquê então a Mealhada e particularmente a estalagem da saída da auto-estrada, há-de servir de rigoroso exemplo para aquilo que deveria ser mas que não é? Estamos num tubo de ensaio? Cobaias? Vitimas?

  Em muitos municípios, a politica dos seus eleitos aponta para a defesa dos seus munícipes, industriais e sobretudo dos seus investidores. Alguns esfolam-se para os levar para os respectivos concelhos.

  E neste município? Se eles matarem somos nós a esfola-los a eles, investidores? Esses investidores não mereceriam todo o apoio que a autarquia pudesse dar? Não será esse o interesse do município? Ou será que a pousada e o restaurante não tem interesse para o município?

   Ou será que, tal como os dinossauros, já não dá para pensar? Senão para filmes, ou fitas…

   Ou será que as politicas de apoio económico ao concelho passam apenas por umas inocentes e ingénuas festinhas de natal e pela venda de alvéolos inacabados a preços exorbitantes? Tal e qual como os apoios ao turismo que não constam do orçamento? Ou por uns foguetes de lágrimas para os jornais da região?

  Tivesse este concelho tão perdulário de ideias, uma oposição atenta e de olhos abertos e as coisas talvez mudassem de figura, e de patrões… Se bem, como diz o ditado, quem muda de moleiro…

  Entretanto, quem tece a vida difícil nas teias dos regulamentos, do poder, do livre arbítrio, continua a ser, como no caso, quem trabalha, quem investe, quem arrisca. Não admira que não sejam muitos a fazê-lo….

*mealhadatemas.blog.com*

                                               Fevereiro, 2007

 

 

 

 

Posted by peter in 00:05:04 | Permalink | Comments (1) »