EMIGRANTES SEM REGRESSO
CRÓNICAS AVULSAS-2
Ferraz da Silva
EMIGRANTES SEM REGRESSO
Este ano a primavera nasceu a meio do inverno e a neve nos altos cumes marítimos dos Alpes da Riviera é pouca. Na praia, ao contrário, há dias em que se pode vestir o fato de banho e ensaiar um mergulho sem tremeliques de pele como se fosse verão no seu pleno.
O Mónaco , que se debruça abruptamente dos Alpes sobre o mar, é um principado para os afortunados deste mundo, não feito pela história dos seus heróis e dos seus santos , mas pelo interesse mais mesquinho da humanidade , o dinheiro e a sua protecção ,algo tão frágil e volátil como o tempo e como a própria vida, tão sedenta de egoísmo como de morte.
O homem, não entendendo assim as coisas empíricas do mundo, aguarda enquanto neste que o outro nunca chegue e acomoda-se então á solidão da esperança emborcado de bruços no pântano dum ídolo que não é deus cristão, hindu ou muçulmano, mas que a todos abarca desde os confins da vida e do bezerro d’oiro ,o dinheiro.
Talvez por isso, para residir ali , em Monte Carlo , é necessário atestar ao mundo e ás autoridades que se tem mais que o suficiente, coisa que aos portugueses que ali trabalham não se pode pedir ,obrigados que são a procurar sustento neste como noutros lugares do planeta enquanto no seu país vegetam os ministros da república com a mesma incapacidade com vegetaram os ministros da monarquia até 1910.
Não moram na cidade, pois, os portugueses no Mónaco , mas sustentam uma agência da banco do estado e, como o Zé Batista , a maioria mora nas vilas e aldeias dos arredores franceses ou italianos onde se pode respirar um pouco mais de ar limpo e sorrir e chorar com a espontaneidade dos órgãos dos sentidos.
O Baptista, barman no Savoy, aproveita até o festival de S. Remo que decorre ao lado, para fazer uma caroca e arrecadar mais quatro ou cinco centenas de euros , tal qual como se estivesse em Portugal e fosse aos três pinheiros fazer uns casamentos nas horas de lazer. Mora no agregado histórico de Escalone, na França, em plena rota do raly numa casa que lhe pertence , que paga ainda ao banco português e aos filhos, dois natos ali, nem passa pela cabeça voltar a ser portugueses. E tem razões de sobra.
É que enquanto estes lusitanos excluídos da pátria dão o litro por onde passam para andar de cabeça erguida, na própria pátria o poder económico entretém-se a repartir os bens da nação entre famílias e os políticos esforçam-se por gastar aos seus compatriotas aquilo que não têm para pagar o déficit.
Por outro lado, a justiça premeia os progenitores que abandonam os filhos e mete na cadeia os que os substituíram com teto e com sustento, um paradoxo da irracionalidade da justiça e das escolinhas de julgar onde se aprende a cegueira da técnica mas não o bom senso dum juizo que um profissional de carreira, noutros tempos, adquiria com idade e com tarimba.
Na educação há uma espécie de triunfo dos porcos com o advento da escola dos alunos e os professores reduzidos á administração do saber e não da educação , uma aposta dos novos pedagogos onde grassa a incompetência e a indisciplina.
Com a discriminação a todos os graus presente no dia a dia, com os afortunados a dividirem o espólio comum perante portugueses cada vez mais pobres , é difícil esperar que uma nova geração de emigrantes regressem a um país que caminha alegremente para o vigésimo quinto lugar da escala da nova europa.
O espirito de Abril, no sentido moderado que sempre teve foi há muito tempo apagado da sociedade portuguesa e não me parece estarmos assim tão longe do modelo salazarista, ainda que alguns, quando ouvem falar no político que foi, levantem as bandeiras da repulsa e da desgraça com inaudita violência.
Mas comparativamente, o país de Salazar pertencia a meia dúzia de famílias como o país de hoje. As grandes questões do país resolviam-se entre essa meia dúzia de famílias mais o Estado, como se resolvem hoje. Politicamente o país estava esvaziado ,desinteressado, como o está hoje.
Salazar endireitou as finanças á custa da canga dos impostos e dos salários baixos, ou de miséria, como acontece hoje . Os políticos eram os mesmos mas as clientelas menores e mais baratas para a nação ,tal qual como o Eusébio o era para o futebol .
Não existia a liberdade de falar, isso é verdade , nem a liberdade económica que é o verdadeiro coração duma democracia. Hoje porém onde está essa liberdade económica que é o alicerce da outra se nem sequer existe liberdade de trabalho !!!!
Havia cunhas ? Hoje não há uma teia de pedidos , clientes, amigos e parentela, além dos clientes dos partidos onde a qualidade e honestidade intelectual deixam muito a desejar ? Um emprego depende de quê? Tal como então , quando a rede de influências ia também da assembleia nacional a figuras do regime ou a directores da pide ? Na altura claramente com conhecimento público, hoje, de forma encapotada a coberto da hipocrisia da seriedade !!!
Se nada se perdoa aos anos da ditadura que são de qualquer modo história da nossa história haverá razões para perdoar seja o que for á democracia de terceiro mundo por onde vegetamos?
Nervi, Março 2007