Friday, March 23, 2007

SUBSÍDIOS A JOGAR EM CASA ???

TEMAS LOCAIS-21
 

 

 

 

SUBSIDIOS A JOGAR EM   CASA ???

  

 

 

 

 

    Entendendo o desporto como parte integrante do desenvolvimento humano, nunca entendi bem o futebol espectáculo e muito menos trampolim para realizações pessoais. Talvez por isso, nunca fui amante da modalidade na sua vertente profissional, sobretudo desde o tempo em que li a famosa cartilha do professor José Esteves, que incomodava então o desporto de Salazar e incomodaria não menos o desporto de hoje se levada honestamente á risca nos fins que o desporto tem em vista, sublimando a máxima da antiguidade “alma sã em corpo são. “

     Hoje, os objectivos são outros e nem os jogos olímpicos, procurando sustentar o velho lema, respeitam as regras simples do desporto pelo desporto. O desporto espectáculo proliferou com todas as suas consequências e o futebol, que continua a gerar mais desportistas de bancada que outra coisa, serve a alguns, mas não ás populações defendidas nas doutrinas “ingénuas” do honestíssimo livro do professor José Esteves que nem sonhava com alguns lobies ou máfias dos nossos dias.

    Ora a estes “alguns” a que me refiro atrás, não escapa a classe politica que, degrau a degrau, desce dos organismos superiores do Estado ás simples autarquias, muitas apostadas em incentivar, não o desporto, mas o espectáculo no território dos seus votos.

Tenho na minha frente o chamado boletim do município da Mealhada. Não se lhe pode chamar exactamente um órgão de informação municipal mas mais um folheto de propaganda politica de quem está no “poleiro”. Será sempre a mesma coisa independentemente de quem lá estiver e será sempre feito com o dinheiro de todos nós. As coisas são assim mesmo porque nos havemos de enganar uns aos outros?

   Ora neste boletim que é controlado politicamente pela Câmara e onde ela diz aquilo que lhe apetece, nesta e em muitas outras Câmaras também será sempre assim, vem, além das noticias que convém á própria (nunca a oposição ali meteu o bico a dizer fosse o que fosse), uma lista de subsídios atribuídos a clubes de futebol, a associações culturais e a outras associações. Ao espectáculo e ao não espectáculo.

    É logo ali na página três que qualquer munícipe que recebe em casa esta propaganda paga por nós, pode ler as listas que me deixam, não perplexo, mas confuso.

   A Câmara tinha um critério mau, sempre o entendi, em que as associações culturais eram os parentes pobres desta distribuição de bónus, se bem que todas elas respeitem perfeitamente a doutrina do professor José Esteves da “alma sã em corpo são”, feita que seja a transposição devida dessa doutrina do desporto para a cultura.

    Mas parece que foi feito novo regulamento, que esta Câmara também parece especialista em regulamentos, muitos deles para complicar a vida ás pessoas e se não são regulamentos, são lombas na estrada para espatifar os carros dos munícipes, ou outra coisa qualquer. Eu já não digo que quem não tem que fazer inventa, mas de facto numa Câmara tão pequena com três vereadores a tempo inteiro e mais um a meio tempo, dá que pensar …custam-nos mais de dez mil euros por mês…!

  Adiante, voltando ao novo regulamento e ao boletim municipal, página três que tenho em cima da mesa, cá está, a emenda foi pior que o soneto…!!!! Ou seja, as instituições culturais “de alma sã em corpo são” levaram em 2006, trinta e quatro mil euros, são 31. As associações desportivas levam cento e vinte e quatro mil euros, são 16, com algum espectáculo pelo meio.

 Do total, são 78%  para desporto , 22% para cultura …Mais claro????

    Depois, torna-se ainda pertinente perguntar porque é que um clube de futebol onde os atletas são profissionais, e não quero empregar o termo mercenários, tem um subsídio de 31.515 euros (Pampilhosa), e aqueles clubes onde os atletas são amadores e na sua grande maioria naturais do concelho ou até da freguesia, tem um subsídio de apenas 3.800 euros (Luso) 4.100 euros (Casal Comba) 4.000 euros (Silvã) 8.000 euros (Carqueijo) 4.100 euros (Arinhos). 27.000 (Mealhada). Porquê?

   De que espécie de regulamento democrático vem este resultado? Duvida-se !

  Compete á Câmara subsidiar os profissionais de fora do concelho com o nosso dinheiro e distribuir algumas migalhas pelos nativos para nos calar a boca quando precisa dos votos? Era até bom que a Câmara dissesse aos seus munícipes quanto se paga a um “profissional “ da bola neste município antes de nos anunciar os subsídios que lhes deu. Tem obrigação de o saber como gestores. E era honesto, corajoso, esclarecedor.

     A mesma discriminação verifica-se depois na distribuição pelas actividades da cultura. Senão vejamos: 3.421 euros (Rancho Gedepa- Pampilhosa); 2.853euros  D.Cantares - Pampilhosa); 5.000euros (Filarmónica - Pampilhosa);

   E depois:

 1.200 euros (Flores deS. Romão-Mealhada); 1.600 euros (Tricanas/Luso); 2.800 (Rancho/Vimieira); 400euros (Teatro Cértima-Mealhada); 700euros (Coral Magister-Mealhada); etc., etc.,

    Critério ou regulamento caseiro?

    Fazendo contas, a Mealhada com 5 associações, levou 3.191 euros, o Luso, com 4, levou 2.878 euros, Casal Comba, com seis, associações levou 6.873 euros, Barcouço, com outras 6 levou 6.544 euros e Pampilhosa, também com seis associações, levou 12.418 euros, (doze mil quatrocentos e dezoito euros) ou seja, 36% do total distribuído. Tudo preto no branco no boletim do município.

  Porque carga de água, perdoem a expressão, recebem os ranchos da Pampilhosa cerca de três mil euros cada e os do Luso e da Mealhada mil e poucos euros? Não serão na mesma ranchos, não fazem a mesma coisa, não promovem a mesma cultura? Um rancho não é um rancho em todo o lado? Compete agora á Câmara avaliar o que são ranchos, controlar o que fazem e ajuizar do seu valor? Será? Ou serão melhores por serem da Pampilhosa? E porque recebem os Corais da Mealhada e de Casal Comba apenas 700 euros? Será preciso descobrir um coral na Pampilhosa para rever em alta o subsídio? Porque leva aquela freguesia 36% do dinheiro dos subsídios da Câmara?  As outras são de 2ª categoria ?

    Trata-se dum engano pacóvio e tosco ou isto é sério e o município está dividido em brancos, pretos, amarelos ou arianos? Tudo sob a capa dum partido democrático que tem valores a defender??? São de facto leituras que o boletim proporciona e quem promoveu este novo regulamento, claro que não teve a intenção de o fazer por medida mas que a jaqueta parece feita para assentar em alguém, disso não há dúvida.

   È óbvio que nada me move contra aquela ou outra freguesia qualquer, julgo até que as associações culturais estão cada vez mais prejudicadas, mas na minha perspectiva de cidadão e munícipe julgo também esta distribuição discriminatória, injusta e intolerável.

   Essa de partir do principio de que somos todos broncos e tapadinhos já lá vai…!

    *mealhadatemas.blog.com* Fevereiro, 20,2007

 

 

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Saturday, March 17, 2007

EMIGRANTES SEM REGRESSO

CRÓNICAS AVULSAS-2

 

 Ferraz da Silva

   

EMIGRANTES SEM REGRESSO

  

 

Este ano a primavera nasceu  a meio do inverno e a neve nos altos cumes marítimos dos Alpes da Riviera  é pouca. Na praia, ao contrário, há dias em que se pode vestir o fato de banho e ensaiar um mergulho sem tremeliques de pele como se fosse verão no seu pleno.

  O Mónaco , que se debruça abruptamente dos Alpes  sobre o mar, é um principado para os afortunados deste  mundo, não feito pela história dos seus heróis e dos seus santos , mas pelo interesse mais mesquinho da humanidade , o dinheiro e a sua protecção ,algo tão frágil e volátil  como o tempo e  como a própria vida, tão sedenta de egoísmo como de morte.

O homem, não entendendo assim as coisas empíricas do mundo, aguarda enquanto neste  que o outro nunca chegue e acomoda-se então á solidão da esperança emborcado de bruços no pântano dum ídolo que não é  deus cristão,  hindu ou muçulmano, mas que a todos abarca desde os confins da vida e do bezerro d’oiro ,o dinheiro.

   Talvez por isso, para residir ali , em Monte Carlo ,  é necessário atestar ao mundo e ás autoridades que se tem mais que o suficiente,  coisa que aos portugueses que ali  trabalham não se pode pedir ,obrigados que são a procurar sustento neste como noutros  lugares do planeta enquanto no seu país  vegetam os  ministros da república com a mesma incapacidade com vegetaram os ministros da monarquia até 1910.

  Não moram na cidade, pois, os portugueses no Mónaco , mas sustentam uma agência da banco do estado e, como o Zé Batista , a maioria mora nas vilas e aldeias dos arredores franceses  ou italianos onde  se  pode respirar um pouco mais de ar limpo e sorrir e chorar com a espontaneidade dos órgãos dos sentidos.

   O Baptista, barman no Savoy, aproveita até o festival de S. Remo que decorre  ao lado, para fazer uma caroca e arrecadar mais quatro ou cinco centenas de euros , tal   qual como se estivesse em Portugal e fosse aos três pinheiros fazer uns casamentos nas horas de lazer. Mora no agregado histórico de Escalone, na França, em plena  rota do raly numa casa que lhe pertence , que paga ainda ao banco português e aos filhos, dois natos ali, nem passa pela cabeça voltar a ser portugueses. E tem razões de sobra.

  É que enquanto estes  lusitanos excluídos da pátria  dão o litro por onde passam para andar de cabeça erguida, na própria pátria o poder económico entretém-se a repartir os bens da nação entre famílias e os políticos esforçam-se por gastar aos seus  compatriotas aquilo que não têm para pagar o déficit.

   Por outro lado, a justiça premeia os progenitores que abandonam os  filhos e mete na cadeia os que os substituíram com teto e com sustento, um paradoxo da irracionalidade da justiça e das escolinhas de julgar onde se aprende a cegueira da técnica mas não o bom senso dum juizo que um profissional de carreira, noutros tempos, adquiria com idade e com tarimba.

 Na educação  há uma espécie de triunfo dos porcos com o advento da escola dos alunos e os professores reduzidos á administração do saber e não da educação , uma aposta dos novos pedagogos onde grassa a incompetência e a indisciplina.

Com a discriminação a todos os graus presente no  dia a dia, com os afortunados a dividirem o espólio comum perante portugueses cada vez mais pobres , é difícil esperar que uma nova geração de emigrantes regressem a um país que caminha alegremente para  o vigésimo quinto lugar da escala da nova europa. 

  O espirito de Abril, no sentido moderado que sempre teve foi há muito tempo apagado da sociedade portuguesa e não me parece estarmos assim tão  longe do modelo salazarista, ainda que alguns, quando ouvem falar no político que foi, levantem as bandeiras da repulsa e da desgraça  com inaudita violência.

Mas comparativamente, o país de Salazar pertencia a meia dúzia de famílias como o país de hoje. As grandes questões do país resolviam-se entre essa meia dúzia de famílias mais o Estado, como se resolvem hoje.  Politicamente o país estava esvaziado ,desinteressado,  como o está hoje.

Salazar endireitou as finanças á custa da canga dos impostos e dos salários baixos, ou de miséria, como acontece hoje . Os políticos eram os mesmos mas as clientelas menores e mais baratas para a nação ,tal qual como o Eusébio o era para o futebol .

Não existia a liberdade de falar, isso é verdade , nem a liberdade económica que é o verdadeiro coração duma democracia. Hoje porém onde está essa liberdade económica  que é o alicerce da outra se nem sequer existe liberdade de trabalho !!!!

  Havia cunhas ?  Hoje não há uma teia de pedidos , clientes, amigos e parentela, além dos clientes dos partidos onde a qualidade e honestidade intelectual deixam muito a desejar ? Um emprego depende de quê? Tal como então , quando a rede de influências ia também da assembleia nacional a figuras do regime ou a directores da pide ? Na altura claramente com  conhecimento público, hoje, de forma encapotada a coberto da hipocrisia da seriedade !!!

 Se nada se perdoa aos anos da ditadura que são de qualquer modo história da nossa história  haverá razões para perdoar seja o que for á democracia de terceiro mundo por onde vegetamos?

 

                                                                                   Nervi, Março 2007

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Direcção de Estradas Mata, Camara esfola????

 CRÓNICAS AVULSAS-1

 

 

FERRAZ DA SILVA

 

DIRECÇÃO DE ESTRADA MATA, CÂMARA  ESFOLA ?????

 

  

  A estalagem da saída da auto-estrada, nasceu num dia cinzento ou talvez o proprietário, um português comum, não se saiba mover muito á vontade nos corredores do mando e assim suporta estóica e ingloriamente a importância dos sucessivos poderes, uma peregrinação vulgar a muitos investidores deste país que vêm ir por água abaixo a vontade de fazer alguma coisa pela terra que os acolhe.

   Esta terra que nos acolhe não é de facto muito grande mas foi sempre nas suas ditas vanguardas que o português criativo encontrou o caminho da retaguarda, quer através de leis e de costumes paralisantes, quer com atitudes e exageros conservadores e retrógrados onde o inchaço individual que brilha no sapato da burocracia, apaga instantaneamente o interesse colectivo dum país de hesitações e desequilíbrios. E as coisas morrem á nascença, perdidas na importância das secretárias dos importantes ou depois de se fazerem, contra ventos e marés, estão ainda sujeitas a obstáculos desanimadores, ás vezes intransponíveis.

     É neste cenário de meter medo a investidores (alguns “políticos”sem espelhos, dizem que são ricos, ganham muito dinheiro e portanto que se amanhem!) que mesmo assim alguns, mais teimosos e timoratos arriscam o seu dinheiro e o dinheiro que pedem á banca, por um sonho e por um juro. Foi assim, creio, que nasceu a estalagem da saída da auto estrada e o respectivo restaurante e que nasceu, para falar apenas em turismo, uma remodelada pensão nas termas do Luso ou é assim que se actualizam, quando o mercado o exige para além do pesado rigor da lei, os restaurantes da fileira do leitão. Para a Mealhada são apostas, desafios, riscos e grandes investimentos. E expectativas de sucesso e de lucro são absolutamente legítimas.

 Quem está no meio, sabe que é assim e sabe que os investimentos ao gerarem o seu justo retorno, criam riqueza para os territórios onde estão e criam os postos de trabalho tão necessários para o tecido humano do país.

 Por isso os políticos, descendentes directos dos empecilhos antigos, devem agilizar as leis, facilitar os empreendimentos e entender duma vez por todas que estamos no século XXI e quem investe o que tem, tem que o reaver com juros pois não estão na situação cómoda deles mesmo, políticos, cujo rendimento mensal é certo e cai metrónicamente na sua conta bancária quer chova quer faça sol. E não digam que ganham mal, face ás inúmeras cambalhotas que dão e ás casacas que viram para se eternizarem no poder. Até nos municípios pois então! Alguns têm já tantas teias de aranha como os dinossauros donde colhem apelido! Mortos.

  Pois ao nosso amigo do restaurante referido, a quem peço desculpa pelo envolvimento nesta crónica, proibiu a Direcção  de Estradas de Aveiro, o acesso directo ao restaurante, justificado por ser aquela uma via rápida de acesso á A1. Mesmo depois da rocambolesca operação encetada pelo dono e empregados do dito, foi-lhe cortado drástica e policialmente o acesso. Como nos bons velhos tempos com aparato policial…

  Porém, poucos metros á frente, mantêm a mesma Direcção de Estradas o mais perigoso cruzamento deste município que até faz parte dos pontos negros do trânsito distrital. Dum e doutro lado da via, surgem estradas e caminhos aqui e ali. E outro quilómetro á frente, autorizou o estabelecimento dum posto de abastecimento de combustíveis e, mais recentemente ainda, autorizou à Câmara Municipal da Mealhada a plantação duma estranha vinha no eixo da via, de autor desconhecido (?) que, quando crescer, vai sem dúvida tirar a maior parte da boa visibilidade que a nova rotunda tem.

  Depois, saindo ou entrando na mesma A1 em Aveiras de Cima, o que encontramos na via de acesso, senão restaurantes, floristas, sucatas e vendedores de melão? Saindo de Portimão para a via do infante, o que encontramos no acesso urbanizado á auto-estrada, não serão até casas de habitação? E saindo em Viana do Castelo, o acesso á cidade é ou não é uma via urbana? E quem sai em Leiria vindo da nova auto-estrada do oeste, não sai para cima duma entrada no continente local? Outros exemplos há por aí que poderíamos pescar, são muitos.

  Porquê então a Mealhada e particularmente a estalagem da saída da auto-estrada, há-de servir de rigoroso exemplo para aquilo que deveria ser mas que não é? Estamos num tubo de ensaio? Cobaias? Vitimas?

  Em muitos municípios, a politica dos seus eleitos aponta para a defesa dos seus munícipes, industriais e sobretudo dos seus investidores. Alguns esfolam-se para os levar para os respectivos concelhos.

  E neste município? Se eles matarem somos nós a esfola-los a eles, investidores? Esses investidores não mereceriam todo o apoio que a autarquia pudesse dar? Não será esse o interesse do município? Ou será que a pousada e o restaurante não tem interesse para o município?

   Ou será que, tal como os dinossauros, já não dá para pensar? Senão para filmes, ou fitas…

   Ou será que as politicas de apoio económico ao concelho passam apenas por umas inocentes e ingénuas festinhas de natal e pela venda de alvéolos inacabados a preços exorbitantes? Tal e qual como os apoios ao turismo que não constam do orçamento? Ou por uns foguetes de lágrimas para os jornais da região?

  Tivesse este concelho tão perdulário de ideias, uma oposição atenta e de olhos abertos e as coisas talvez mudassem de figura, e de patrões… Se bem, como diz o ditado, quem muda de moleiro…

  Entretanto, quem tece a vida difícil nas teias dos regulamentos, do poder, do livre arbítrio, continua a ser, como no caso, quem trabalha, quem investe, quem arrisca. Não admira que não sejam muitos a fazê-lo….

*mealhadatemas.blog.com*

                                               Fevereiro, 2007

 

 

 

 

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Friday, March 16, 2007

POMPEI DE NAPOLES

TEMAS LOCAIS-20

POMPEI de NÁPOLES
            

 

 

 

A minha chegada a Nápoles coincidiu com mais um dos muitos atentados que nos últimos tempos tem feito da cidade um vulcão em franca actividade e por isso mesmo as imediações da estação central estavam vedadas a veículos e a peões, um estado de sítio que já é habitual entre os residentes da enorme urbe, onde tudo é grandiosamente belo, antigo, genuíno e ao mesmo tempo capaz de desencadear os medos e temores que o desconhecido sempre nos sugere como se fossemos ás escuras na cegueira dum trilho armadilhado pela guerrilha, a par do encanto, do mistério e também da alegre pobreza retratada no neo realismo por Vittório de Sica, Fellini e interpretados entre outros por Sophia Loren e Marcello Mastroianni.    Foram os gregos que aqui chegaram, fundaram Palepoli, depois Neapoli e Napoli.   Embora a vida citadina passe francamente ao lado de quem corre em visita, há sempre o limite dum risco que atrai o forasteiro, uma prelúdio de camorra, um presumido aceno mafioso, sobretudo para aquele que procura nos emaranhados das ruas do centro histórico e nos acessos mais directos á zona portuária, o cheiro e o encanto para não dizer o âmago e a alma duma cidade milenar.   Se há história pois que conte o começo da própria história conhecida, ela encontra-se sem dúvida nas margens deste mar fenício, grego, cartaginês, romano, numa fabulosa baía onde o azul combina com a tranquilidade das águas, com o calor da fronteira africana, com a mistura das raças, das vestes, do esturro das faces ou com a variedade dos artigos que se podem comprar nas calçadas estreitas das ruas e das praças. Um mundo vivo, activo, variado e actual, numa globalização feita do intercâmbio de interesses nascidos espontaneamente entre pessoas e sociedades e não imposta pelos interesses dos poderosos deste mundo pela boca dos canhões ou pela virtualidade dos nossos dias.    Da estação central de Nápoles a Pompeia ou Pompei, são vinte minutos de comboio urbanizado que se fazem com a boca aberta para o mistério da cidade soterrada em 79 dc pelas lavas violentas do Vesúvio que arrastaram e fizeram sucumbir nesta tragédia os habitantes da urbe, estimados em vinte mil.     À chegada passamos pelo imponente Santuário della Madonna del Rosário, uma construção oitocentista que me fez lembrar a Virgen Del Rocio a meio caminho entre Vila Real de Santo António e Sevilha no município de Almonte, que visitei há cerca de seis anos com a minha companheira no cumprimento duma promessa de reencontro e que apesar da nenhuma fé que tenho para estes rogos produziu efeito nos anos que se seguiram para depois acabar. Não foi portanto milagre mas acaso dum santuário cigano, mas ainda conservo comigo uma pequena imagem da virgem para recordar sobretudo o pó das ruas tipo farwest que eram então e julgo sejam ainda as artérias principais da cidade. De férias no Algarve durante uma semana como era então costume em casa duns familiares da praia do Vau, fizemos uma merenda para a qual contribuí com uma omeleta especial que consegui manter direita e revirada e fomos almoça-la precisamente á entrada da Srª Del Rocio na sombra duns eucaliptos do lado direito da estrada.   Hoje, neste santuário mariano da Virgine Del Rosário no coração de Pompeia a nova, a arquitectura, a imponência e a brancura das paredes recordam-me aquele outro antes de se me abrirem as portas do pó para o pó, os desejos da terra que se cumpre sempre contra a nossa vontade e presumida crença. São para os sacudir e esquecer que existem santuários como foi também para deixar algo da alma peninsular que os espanhóis,  ao governarem Nápoles, deixaram estes traços de arquitectura andaluza.   Voltando a Pompeia, apenas o Vesúvio do alto dos seus mil duzentos e setenta e sete metros e o seu irmão mais pequeno, o monte Somma se mantém inalteráveis, quietos, amansados, digamos assim, no mesmo sítio, o primeiro pouco activo mas ambos esperando a hora, sempre humanamente desconhecida, de vomitar as entranhas. Mantém-nos na auréola misteriosa do desconhecimento e como a camorra da cidade simbolizam a ancestralidade dos medos que nos consomem
em vida. São os testemunhos presentes das mudanças que dois mil anos trouxeram a um pedaço de mundo.
    De resto, nas ruas de Pompeia, os transeuntes são muitos. Gente que espreita aqui e ali cheios de máquinas fotográficas e câmaras de vídeo de lentes apontadas muito mais para o produto que é a sua própria imagem que para o passado da história que ali está, mais para o supérfluo produto da tecnologia que para o valioso testemunho duma sociedade finada numa noite de terror e de drama. Uma catástrofe natural de grande dimensão, pequena se comparada com essa outra catástrofe que extinguiu de forma radical os antecessores dinossauros.    Pompeia, no que diz respeito ás ruínas de 79 é um mundo acabado e dramaticamente fascinante. O homem é pequeno a obra grande e ao lado da velha cidade, do actual museu silencioso mas vivo que são as suas ruínas há uma nova Pompeia e vinte e sete mil habitantes que estenderam por hectares em redor a área povoada até tocarem, bairro a bairro, na urbe napolitana.     É uma lição de história viva que choca brutalmente com a condição humana na medida dos nossos medos e conquistas, das nossas vias e tragédias. Algo de misterioso se abate sobre a nossa pequenez ao percorrer as ruas ensombradas pelos fantasmas dos mortos mumificados nas cinzas. O tempo deixa de correr, de existir, é comum, é de todos, sem anos e sem horas, apenas tempo cósmico enquanto cai a tarde em plena estação do Outono quente, como poucos, neste ano da graça.    Não é a máfia que nos incute o medo, é a história que nos agita e cala.                                                                                                   Nápoles, Outubro, 2006       

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