Thursday, December 28, 2006

Fonte do Castanheiro

TEMAS LOCAIS

 

Ferraz da Silva
 
  

A FONTE DO CASTANHEIRO-8

 

 

 

                                                                        

    De fonte já pouco tem. Um boneco de pedra vandalizado do tamanho  do manneken-pis de Bruxelas donde cai , dum cântaro rachado,   um pequeno fio de água trazido da rede pública por favor, alimenta-lhe a recordação duma fonte que já foi. Fonte do Castanheiro , dizia-se  e a dar também nome a uma avenida turística , se assim se pode dizer, chamada também do Castanheiro ou dos Castanheiros, singular ou plural isso não tem importância nenhuma para o caso  e estende-se  cerca de duzentos metros entre a 234 e a estrada para o lugar do Monte Novo e Salgueiral da freguesia do Luso. É um lugar escavado na encosta da serra do Buçaco  sobranceiro a um vale profundo onde antigamente habitava o pinheiro marítimo  , hoje quase completamente substituído pelo eucalipto australiano. Questão de rendimento para os povos da região que optam , face ao desordenamento agrícola crónico do país , por tirar a maior vantagem possível dos terrenos ásperos e íngremes para obter rendimentos que doutra maneira seriam impossíveis de obter. Seja como for um ambiente limpo, aprazível , uma respiração a sugerir pureza por quanto abrangem os olhos numa volta em redor.  Não foi  para  a agricultura que esta rua ou avenida , que é quase a mesma coisa, foi aberta em duas faixas laterais  para passeio  ou ‘promenade’ de peões e uma faixa central para veículos , mas sim para servir no principio do século os interesses turísticos locais. Obra que se deve a Emídio Navarro, esse político do Luso, muitas vezes odiado em termos de concelho  por, entre outras razões,  querer trazer ao rincão que aprendeu a amar  as mais recentes conquistas do  urbanismo e um espólio construído de habitações tipo ‘chalets’ que, até hoje,  não tiveram a sorte de sobre elas  e sobre o seu valor arquitectónico recair qualquer estudo aprofundado.     De facto, o espólio do Luso é ainda hoje a prova  clara  do avanço do ministro em termos de termalismo e  urbanismo, virados particularmente para o desenvolvimento turístico da zona e da sua avançada visão  em muitas outras matérias tão contestadas na época. Doutro tanto se poderia queixar  Costa Simões , avançado no seu tempo e também um homem  incontornável na história concelhia.  Situada pois em plena encosta a rua ou avenida como lhe queiramos chamar, ladeada por plátanos maltratados, goza duma paisagem  em plena natureza, na pureza do ar e horizontes que,  seguindo depois a estrada que nos leva ao lugar do Monte Novo e Salgueiral, não deixam de nos surpreender.  Por ali perto funcionaram noutros tempos os hotéis  Serra e Lusitano, este último recuperado e transformado em  centro de férias do Inatel. E esta Avenida ou rua ,já gozou de melhores dias  quando era  acompanhada e tratada pelas autarquias locais com  o cuidado e desvelo que aquele pequeno paraíso merecia.  Tudo isto para dizer  em poucas palavras que ali, actualmente, é um pedaço do terceiro mundo. Em termos administrativos pertença da Câmara da Mealhada , nada se pode esperar do município pois turismo , para quem lá está, parece chinês e o Luso,  maltratado pelo executivo, não tem no orçamento municipal senão uns magros cem mil euros para comprar uns terrenos não se sabe bem para quê nem para daqui a quantos anos , tal é a importância que o executivo dá a estas coisas que trazem para o concelho uns milhares de turistas com as respectivas contrapartidas em  riqueza de contado.  Enfim…Se alguns políticos tivessem  que prestar contas  e pagar os prejuízos causados pela sua distracção e inoperância, ,  talvez este país não fosse a permanente  feira  da ladra onde os portugueses vendem os dedos e anéis  para alimentar  a ganância de clientelas partidárias   onde , nos piores momentos dum  bigbrather  publico, se comem uns aos outros  pela repartição dos tachos. Propostas e programas, foi chão que deu uvas !Também a malfadada Quinta do Alberto em pleno centro urbano do mesmo Luso, constitui um problema que não está resolvido há meia dúzia de anos porque o presidente da edilidade nunca mostrou interesse , ante as constantes solicitações dos proprietários, em resolver o assunto. Diria mais, que nunca quis resolver o assunto.  Mas são assim os políticos que se colam á mesa pública durante  muitos anos e  passam a dar ordens pela barriga e não pela cabeça.Também a  autarquia local freguesia , nada tem feito para dar aquele local a dignidade e a importância que merece, apesar de nos últimos dez anos ter recebido da água do Luso cerca de cem mil contos, repito , cem mil contos  em tranches de dez mil por ano, resultado dum contrato assinado entre aquela entidade e Rui Marqueiro, enquanto presidente  da edilidade. Quanto á Junta de Turismo, maltratada por todos os poderes, mal o dinheiro lhe chega para pagar aos funcionários e manter alguns jardins mais ou menos apresentáveis na zona central da vila. Apenas a  Rui Marqueiro, se deve toda a estratégia que  dotou o Luso de estruturas desportivas e turísticas que não tinha,  desde o parque de campismo, ao pavilhão, á piscina e mesmo ao centro de estágios . Aliás se deve a Marqueiro toda a estratégia que modernizou o concelho acompanhando de forma eficiente um pouco do que se passou nos melhores  municípios do país. Terminada  a estratégia Marqueiro , deixou de haver estratégia municipal e hoje a gestão não passa da ‘precaridade’ corrente da coisa pública. Em termos de turismo, como já disse algures, com responsabilidades enormes para quem dirige o município ,  não há estratégia, não há vontade, não há conhecimento.   Juntemos ainda a este terceiro mundismo da Avenida do Castanheiro, e Quinta do Alberto, esta escondida  pela beleza sempre viva do arvoredo, também o acesso ao parque de campismo da Orbitur que alojou no ano passado oito mil  nacionais e estrangeiros.  Uma estrada digna  de acesso, nunca foi feita  e a que existe, sem  passeios para peões, estreita e com uma iluminação deficiente , é bem a imagem do conceito que a Câmara  da Mealhada tem  do turismo e do inexistente respeito  para com a vila termal do Luso. O mesmo é dizer, para com o turismo do concelho que traz riqueza e emprega, portas adentro , centenas de famílias e vende , contabilizados a baixos preços, mais de meia dúzia de milhões de euros anualmente, só
em quartos.  Comentários para quê ?
No coments , como na euronews !                                                                                                              Luso Maio,2006
   

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A SEDUÇÃO SATÂNICA

Temas locais-7

 

 

Ferraz da Silva

 

 

 

A SEDUÇÃO SATÂNICA

 

 

 

 

 


    Por que é que o  Enrico Giovanni Garofano veio ter comigo ao bar do segundo andar da sala de embarques quando me preparava para tomar descansadamente o pequeno almoço , um croissent , brioche confirmou a menina da caixa duvidosa da diversidade linguistica de tanta raça que ali passa, não sei. Ensaiou  o diálogo em castelhano correcto , respondi-lhe em italiano arrevesado e acabamos por concluir a minha lusitaneidade e a procedência lombarda  do meu interlocutor.   Entabulou uma  divertida conversa , atestando da jovialidade dos portugueses  que , no seu entender de versátil passageiro pelos quatro cantos do globo são, juntamente com checos  e chilenos, os mais simpáticos do mundo.   Eram  oito e meia da manhã   e eu tinha acabado de chegar no autocarro de Savonna depois de cento e noventa quilómetros a dormir, mais propriamente desde os Apeninos Ligures. Era simpático ouvir um elogio á minha estirpe. O voo levantava depois do meio dia e haveria de passar ainda ao terminal do low cost donde levanta a easy e por onde se viaja hoje a buon marché para quem não tem horas de chegada e de partida , e gosta de andar de Londres para Milão ,Munique, Roma ou Bruxellas como se viajasse pacatamente numa camioneta de carreira.   Lá fora soprava um vento  cortante ,  fazia um frio de rachar e no horizonte norte de Malpensa  a cadeia dos Alpes era um recortado manto de neve reflectida nos primeiros raios  de sol dum dia frio e limpo.

   Enrico Giovanni Garofano , milanês , sessenta e quatro anos de idade , é que me informou  no seu castelhano de Valhadolid , fez questão de sublinhar ,que a  duzentos quilómetros para oeste e apontava, estava o Monte Branco , mais para leste o Cervino, depois o Monte Rosa,  numa panorâmica em formato do ar condicionado da superfície vidrada da parede principal do edifício . A linha quebrada da montanha , uma cadeia contínua a traço irregular no horizonte visível era um citirama estendido a todo o comprimento-

   Nas horas de espera, ambos misturamos as façanhas duvidosas  de Américo Vespúcio, navegador florentino que deu o nome á América , às de Cristovão Colombo , um Genovês de Quinto , às de Fernão de Magalhães , de   Vasco da Gama , ele puxando galões italianos , eu lutando pelas minhas figuras da lustrosa porcelana lusa que ajudaram a erguer este pobre país onde nascemos.  E dizia-me  o entretanto meu amigo Garofano, que nós, portugueses , somos de facto simpáticos . Simpáticos , aventureiros , trabalhadores, mas pobres. E não chegou ao burro por uma questão de delicadeza. Pouco fazem, pouco produzem, pouco vendem, pouco exportam e compram tudo o que lhes põem na frente do nariz venha donde vier. Vocês não criam  riqueza , não tem arte, nem engenho, nem trabalho, para garantir uma vida europeia e um orçamento equilibrado ao mesmo tempo… não passamos da cepa torta é isso ?  perguntei eu , que é como se diz em português e acrescentei que, bem pelo contrário,  produzimos discursos, inventamos pedófilos, aturamos políticos,  engordamos a ganância empresarial, sustentamos administradores saltitantes, aperfeiçoamos a fuga ao fisco , o comércio ilegal, aturamos juizes em processos sem fim e sem culpados, alimentamos  a camorra do futebol ,  pagamos o déficit, para além da invenção das cirurgias a prazo e da cassete pirata imortalizada em música e vendida  nas feiras de norte a sul . Há muitos anos.  O Garofano olhou , riu-se e sentenciou que apenas tínhamos uma coisa boa, os emigrantes, dos melhores que há no mundo . De resto , éramos mais ou menos uma cambada de energúmenos a viver há uma dúzia de anos das esmolas da CEE sem sair da cepa torta. Mais ou menos, também  não tive argumentos contraditórios, ainda que tentasse sublinhar  a excelência das cirurgias a prazo , e das cassetes piratas uma versão melhorada da própria cassete italiana fabricada na china com dinheiro americano depois da globalização.  Para o meu já amigo Garofano, bom bom era a América central, o Panamá, o Equador, a Republica Dominicana, a Colombia , a Argentina, o Chile….Era aliás o seu destino com uma primeira paragem no canal do Panamá donde ficou de me enviar para o endereço que lhe dei ,um postal ilustrado. O problema do meu amigo Enrico, eram sete quilos a mais numa das malas que transportava consigo    Eu, legitimamente , não o podia  ajudar, não viajava via Madrid , isso de súbito tranquilizava-me permitindo-me apoia-lo nas suas interrogações e seguir viagem na tranquilidade do senhor.    Do Panamá , pensava Enrico seguir para a Venezuela, Equador , Chile e Argentina , as jóias caras da sua coroa de viajante . Sessenta e quatro anos de solteiro a contrariar um pai comerciante  face ás despesas do filho. Herdado,  vendeu-lhe o negócio e fez-se ao mundo de cidade
em cidade. Um bilhete de identidade sucinto, rápido, voluntário dum milanês global? Talvez, não fiz  tanta questão de averiguar essas espontaneidades de sala de espera dum viajante de low cost que me deixou a pensar na nova forma de viajar a preços módicos, como dizia ele, em aviões tão falíveis como qualquer dos outros , tal qual como o efeito duma oração balbuciada na catedral do Duomo ou em Santa Maria Delle Grazie. Tudo questões de fé.
   De facto, anda por aí a teoria do low cost aplicada a tudo , inclusive ás pessoas  ou, de forma trágica, cada vez aplicada  a um maior número de pessoas num movimento exponencialmente acelerado do qual se começam a distinguir os primeiros contornos dum futuro pouco promissor.     Em termos de sociedade, exterminadas as classes médias pelo triunfo da nova economia , subtraídos os ricos donos do capital , das riquezas e dos meios de produção,que restará senão uma classe de low cost a quem está destinada  a alimentação transgénica, os armanis de feira , as colmeias de apartamentos, a cultura ‘porreira’ e a hipoteca da vida ? A sedução satânica da guerra das estrelas mais o novo pecado de se saber demais pela leitura dos jornais?  Tudo junto . Quinze dias depois recebi uma fotografia do Enrico na margem sul do canal do Panamá e meia dúzia de letras dirigidas ao seu simpático amigo português , convidando-me a visita-lo em Milão , na via XX de Setembro , paredes meias com o Castello Sforzesco, no centro da cidade. Lá irei, pensei comigo, lá irei…                                                                                      Nervi,Abril,2006    .
  

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A JUSTIÇA DO ESTADO

TEMAS LOCAIS-6

 


 
 Ferraz da Silva

 

 

  A JUSTIÇA DO ESTADO

OU  O ESTADO DA JUSTIÇA?

 

 

 

  Eu tenho uma filha, isto é, eu tenho três filhas, mas uma delas, a mais nova, dá aulas. É professora do ensino secundário, licenciou-se em Coimbra, saiu a tempo e horas, trabalhou, não deu prejuízo ao país que lhe proporcionou a universidade e facilitou a bolsa aos pais no que diz respeito ás propinas, aos quartos, ás comidas , aos livros , ás sebentas, aos autocarros, a toda uma panóplia de despesas , pois que estamos a voltar aos velhos tempos de ser rico para tirar um curso superior que na maior parte dos casos não serve para coisa nenhuma  já que o melhor curso dos nossos dias são a cunha e o compadrio o resto é desemprego.

 Volta não volta vamos comer  uma quatro estações, elas vão na capricciosa , na primavera ou no peperonne,  na pisaria Caravela, em Cantanhede, um modesto e escondido reduto onde se comem, saídas de forno a lenha, as mais finas, mais saborosas e deliciosas pisas de toda a zona centro.   Tiveste, ou tiveram para dizer melhor, mais sorte que o pai, digo eu de vez em quando nos azedumes  do fim da tarde , para chorar sobre  a  preguiça  e a guerra colonial que me travou os instintos universitários depois  do pobre erário do meu pai não poder ir mais além que o magistério primário, eu mais vinte homens e mais quatrocentas mulheres,  hoje por sinal um curso superior , para muitos completado no tempo do Guterres com rios de dinheiro gastos pela CEE e pelo Estado, que somos  nós,  para oferecer um canudo  a gente que seguiu directamente para a reforma…    Coisas de Portugal que nunca se perceberam nem hão-de tão pouco alguma vez perceber-se !  Ora a minha filha mais nova , no pedregoso calvário que leva todos os anos ao ensino através duns concursos arrevesados onde o respeito do Estado  e do Ministério da Educação pelo cidadão-professor não  é nenhum , tratando-os , como se diz, abaixo de cão, num desses  anos em que foi colocada numa terra serrana do marão, já no sexto ou no sétimo  de peregrinação , tomou posse do lugar , cheia de sorte apesar de tudo, conformada como todos os fins do verão com o feliz contorno do  famigerado concurso, uma tarefa  mais difícil que a  descoberta do estreito da Patagónia por Fernão de Magalhães.   Lá foi para o marão onde já mandam os que lá estão e como  é  hábito, juntou-se a umas colegas do mesmo ofício , tudo gente perita na transumância do ensino, a fim de alugarem uns quartos numa casa para passar o ano, dar as suas aulas e receber ao fim do mesmo o mesmo dinheiro de sempre, que neste nomadismo curricular não se passa da cepa torta , as lecas são sempre as mesmas  do inicio de carreira pois na verdade, apesar de já levar oito ou nove anos de bons serviços prestados ao estado e ao ensino, não tem carreira nenhuma. A bem dizer não chega a  mil euros , para uma profissional do ensino com todos os estágios e currículos exigidos pela comunidade europeia. Há muita gente na mesma situação, para além dos que nem se podem queixar porque não tem emprego.  Trinta contos por cabeça, um quarto compartilhado, cozinha a meias. Não é do pior. Foi o comentário fugaz que me deixou pesarosa no fim de semana seguinte.  Acontece que  pelos mesmos dias chegou á povoação juíza nova. De cortar á faca para tanta respeitabilidade. Rapariguinha, jeans enfiadas nas canetas, sapatilhas  nos tornozelos, ares de esperta, cenário teatral e  talvez umas ideias metidas na cabeça á pressa e á martelada e vá de julgar os outros, enfim,  tinha perante o mesmo Estado as qualificações profissionais para exercer a profissão. Não fossem as aparências enganar, como diz o ditado, não parecia.    Assentava praça.Só que, com  ordenado três vezes superior á minha “stora” e casa posta com renda paga pelo próprio Estado, o mesmo é dizer, por nós,  fala-se que vitalícia,  e não sabemos se mais mordomias a juntar aos rendimentos , que estas coisas muitas vezes mantém-se secretas por não convir a muitos e muito menos á justiça  falar das injustiças e não venha um dia a  dizer-se que em casa de ferreiro, espeto de pau.    Certa ocasião tive a oportunidade de colocar a questão desta gente  ao secretário de estado do ensino respectivo, o actual, por sinal sentados á mesa do erário público nas voltas dum leitão assado á bairrada. Não se fazem rogados !   Como é possível  alguém trabalhar para o estado, para o ministério da educação ( a letra pequena é de propósito) durante oito, nove, dez, e mais e mais anos , não passar da cepa torta, não ter carreira nenhuma, manter uma situação cada vez mais precária, ser ultrapassado por gente que sai das universidades que nunca trabalhou ,mães separadas dos filhos  , casais separados , salários eternamente congelados, etc, etc, etc  para além da promoção do trabalho precário pelo próprio Estado, precário e a preços de saldo…?   Como é possível uns serem portugueses de primeira classe com ordenados , talvez justos, acredito no caso da juíza e outros sejam descriminados duma forma  violenta  a atentatória da dignidade das pessoas , no caso dos professores ?    Pois  que estava muito bem, respondeu-me o douto governante, era assim mesmo, que nada havia a mudar , leis e regulamentos para aqui , regras a cumprir para acolá, sindicatos para além, a conversa não lhe agradou, puxou dos galões e calou-se continuando a devorar prazenteiramente o leitão que o erário público lhe ofereceu, sem fazer reclamações ….Como os deputados faltosos, vão de férias pela páscoa para fora dum país cheio de dívidas que também só alguns têm que pagar !    É por estas e por outras, ainda muito piores , que estamos sempre na cauda da Europa.    Em minha opinião, e isto é apenas um artigo de opinião, a culpa não é de quem obedece, foi e é sempre de quem manda ! Têm por lei a justiça do chicote e usam a pedagogia das suas próprias barrigas. Mais propriamente, panças…                                                                                            S.Rocco,  Abril 2006

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A ÉPOCA DOS FOGOS

TEMAS LOCAIS -5

Ferraz da Silva

 

A ÈPOCA DOS FOGOS
   

 

  No verão passado, quando o fogo ameaçou a Mata do Buçaco fê-lo  pela freguesia de Carvalho, por lugares como Vale da  Formiga, Gondolim, Vale de Ana Justa, S. Paulo, Caldures, Mansores e outras pequenas aldeias escondidas na vegetação  cerrada das florestas por limpar.    Foram dias de angústia e de tragédia que se abateram sobre  populações quase indefesas num ano de escassez de água como poucos e, como mudou o governo, foram cada vez mais serôdios  os meios postos á disposição de quem os apaga.    Noutros tempos , no principio do verão , iniciava-se sempre a época balnear , não a dos fogos. O Luso, para quem mora nas encostas do Buçaco , limpava as suas ruas , os seus jardins, as suas casas, os  seus hotéis, as suas pensões, tudo se asseava  para dar inicio á época, com aquistas certinhos na chegada do rápido do meio dia vindo da estação do Rossio, mais tarde de Santa Apolónia e agora de parte nenhuma.  Tempos difíceis e de azáfama para toda a gente do lugar, um tempo  de dar resposta a um sustento anual rude,  magro, servil, chicoteado na palavra , ás vezes com assomos de piedosa simpatia e controlada piedade.   As termas, ao contrário dos campos de golf, dos centros de estágios, dos congressos temáticos , da cultura gastronómica popularizada  ou doutros desafios que hoje  preenchem a oferta da industria do turismo, geram uma permanência sustentada, pelo menos dos quinze dias de repouso e tratamento, numa unidade qualquer do parque de alojamentos. E  isso cria e mantém empregos , gere impostos para o Estado e para o Município , movimenta o comércio ou os divertimentos. É um dado adquirido, certo, regular e potenciavel.      O meu amigo Aurélio tem razão quando me diz isto , quando quer convencer um convencido da importância das termas e aponta  Mondariz e
La Toja e eu a  Caldea, no principado de Andorra , exemplos acabados do quanto podia ser o Luso se aproveitado nas suas potencialidades em termos de SPA com letras grandes , um verdadeiro motor de desenvolvimento capaz de preencher   por si só o parque de restauração e de alojamento para além da revitalização e aumento de todo o negócio subjacente a uma estância termal.
    Porém, as Termas  do Luso, graças á abundância da água , regressam  ás origens, isto é, percorrem o caminho contrário e, de atrofio em atrofio , não admira que cheguem ao fecho total num verão qualquer. É assim o capital sem rosto que  tem comprado e vendido o Luso  com o único objectivo de lhe acrescentar mais valias passando-o de mão em mão , após o amealhar  do lucro das sucessivas transacções.  Ontem de penas sul americanas, hoje de saias nórdicas, amanhã não se sabe de que  grotesco serrobeco, mas sempre sobre a capa dum português qualquer , um vasconcelos dos tempos hodiernos cujos valores já não assentam como dantes no honesto patriotismo das barbas empenhadas, mas na ‘heroicidade’ do dinheiro sacado  de qualquer maneira , a troco da venda, do pai , da mãe, dos próprios concidadãos, quanto mais da pátria antiga , um nome distante e sem significado, nada como o dinheiro , todo da mesma cor , do mesmo peso , do mesmo jeito.   Com avais de organismos, de autarquias, de Governos!!!  Hoje, a água do Luso  é propriedade das mesmas saias  que muitos escoceses traziam por aí nos anos sessenta durante as comemorações do 27 de Setembro, com um adido também de  “gona” axadrezada e um pelotão  ensaiado para um tatuo militar ou para um desfile aprimorado com cavalgaduras bem tratadas , à volta do Monumento. Era um mundo idílico, ingénuo, romântico ao ponto de se acreditar na moralidade , na justiça social e numa era melhor às portas de chegar. Enganos .O tempo vai  fechando as janelas do delírio  e a mistificação que é esse paraíso terreal que  o  coração pedia, acaba por ser impossível no espaço das nossas vidas. E de todas as vidas.     Nesta cavaquice de palavras dispersas foi-se o fio da meada inicial, da época dos fogos que veio substituir a época balnear . Tem agora data  sempre marcada para aparecer e aparece  todos os anos com a regularidade pendular que dantes tinha a época  termal. Com a desvantagem de não criar sustento , de não criar riqueza, de  tudo consumir e desbaratar na velocidade da sua passagem cega.    Conta a história que no tempo de  Sancho primeiro, O Povoador , calores abrasadores  provocaram num verão temperaturas altas e os incêndios alastraram por grande parte do reino. Dentre  os causadores do  mal, surgiram acusados uns madeireiros menos escrupulosos e uns carvoeiros   de pouca ética aos quais , apurados os factos, bem ou mal, mandou  o rei cortar a cabeça, considerando o crime de extrema gravidade.  Hoje , o que é que é grave neste país de salva vidas ?  Quem pôs o fogo, não se sabe e até os pinheiros ardidos empeçaram o corte nas vias burocratas…!Ano após ano, alguém é responsável pelo património comum ???? Ninguém… Buçaco,  2006
          

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DA TOCA DO BOÇAL


 

TEMAS LOCAIS-4 

 

Ferraz da Silva

 

DA TOCA DO BOÇAL

 

 

 

 

                    Conta a lenda , ela própria  com barbas até aos pés,  que  um negro ou um escravo fugido das galés se refugiou nas encostas do Buçaco,  ali por uns  penhascos íngremes onde ora  estão instaladas as ermidas do Sepulcro . Por ali terá carpido as  suas mágoas no arvoredo gentílico das serras abandonadas e quando , de vez em quando, por necessidades  primárias descia  aos tugúrios pobres dos gentílicos  pastores  roubando-lhes  rudemente algum pão para a própria boca, espalhou o medo , criou o mito e  deixou a lenda , apenas lenda, para a posteridade.            Desta toca ou cova que ainda existe, adveio o nome de boçal, da rudeza e boçalidade do onírico habitante e desta lenda que persiste na pouca literatura sobre o assunto , teria surgido o nome de Buçaco , um acesso ingénuo e inócuo á etimologia do lugar. Seja.          Presume-se que o Buçaco pré florestação fradesca ,  fosse uma mata original de carvalhos e castanheiros e onde o pilriteiro , ainda hoje abundante, tivesse um lugar destacado.  Presumo ainda,   na minha prosa livre de ignorância botânica, que    fosse igualmente lugar de abandono a devesa esquecida de D. João de Melo , e assim se compreende que a igreja, tão sedenta de bens celestes como terrenos, cedesse tão facilmente á ordem de santo Elias umas serras no lugar do Luso , também ditas de Carvalho e algumas vezes por insuficiência geográfica , de Alcova , este último baptismo por ignorância suprema dos meios de comunicação  do tempo. O que não justifica de modo nenhum o abandono a que chegou a Mata, que , com a saída dos monges , esteve para ser vendida em hasta pública. Valeu-lhe o amor e o  espirito cientifico de  Morais Soares  que a recuperou a valorizou substancialmente, até chegar ao pasto comum  do interesse  turístico e histórico ,  dos nossos dias.     De administração em administração, no tempo em que aos administradores estava reservado o papel de guardiões  da coisa pública , passou para o tempo de não ter administração nenhuma, apenas um horário de trabalho para os guardas florestais que  no último verão , em noites de fogos intensos , largavam regra geral o serviço á hora regimental  e a Mata ficava á mercê de meia dúzia  de observadores voluntários e mais alguns mantidos por autarquias  com os meios rudimentares ao seu alcance.

  Foi assim que a entidade a que chamamos Estado  geriu o património do Buçaco , um dos mais variados parques dendrológicos, nome  esquisito, dos parques da Europa.  Porém o Estado, por ser Estado, não tem culpa nenhuma , fossem os homens que gerem o estado, doutro estado, e o Estado poderia comportar-se , como devia ser, doutra maneira.

    De tal sorte, que uns amigos castelhanos da região de Cervantes que assistiam acidentalmente ao desenrolar dos incêndios, enquanto ao longe as chamas quase devoravam a cidade de Coimbra,  deitavam as mãos á cabeça sem compreender  onde   tem os portugueses a sua  massa cinzenta , nem que fossem cinzas comuns já consumidas no velho fogo peninsular , diziam, para , no mínimo, salvaguardar um bem que, afirmavam, lhes pertence igualmente por parte da Ibéria e mais isto e mais aquilo, foram a resmungar para Palanquita del   Duero nos arredores de Valladolid , onde vivem numa pequena quinta de agricultura biológica e fazem vinho da ribeira do Douro de se lhe tirar o chapéu. Também biológico. E pensam que o Buçaco é um bem demasiado caro para ser devorado em qualquer noite de qualquer  verão pelo apetite tresloucado dum maníaco qualquer a tocar citara ou pelo menor descuido duma simples falta de vigilância num lugar de tal jaez.

 Factos são factos , soletrei  com voz ténue   após a sua partida e, agarrando no meu próprio  toyota de dois lugares , virei á Cruz Alta algumas noites, sentei-me nos degraus  do pétreo palanque virado á negrura do  horizonte marítimo e convenci-me que estava de vigilância aos fogos ,como qualquer bombeiro, procurando, por descargo de consciência , uma justificação para aquilo que a não tem. E  por lá encontrei outra gente do mesmo trato a contornar a noite   olhando os cantos da serra na busca de alguma chama perdida que um dia há-de chegar  e consumir a mata, se a inconsciência dos homens persistir  na cegueira surda e absurda de não tratar correctamente aquilo que receberam de herança, de cultura e de valor.

   Recentemente, o Buçaco recebeu mais um contributo para o seu entendimento  e compreensão , a edição do livro de Paulo Varela Gomes ,” Buçaco, O Deserto dos Carmelitas Descalços.” É um livro que vale a pena ler . Para entender e meditar.Para perceber a responsabilidade que pesa sobre cada um de nós e sobre quem tem poder sobre o património botânico, arquitectónico e paisagístico que ali está , para que não se deixe perder pela constante incúria o conjunto monumental que ainda resiste. Por milagre ? Sabe-se lá !   Gostaria de transcrever, com a devida vénia , a própria definição que o autor encontrou , para apresentar a sua obra. Diz ;”…De facto , o leitor não tem entre mãos mais um ‘guia’ do Buçaco mas um trabalho de história da arte e da arquitectura que se ocupa do significado artístico e religioso dos extraordinários edifícios e da mata criados pelos Carmelitas no Buçaco. Este significado ultrapassa em muito as fronteiras tanto da arquitectura como da cultura portuguesas , interessando a história e a cultura ocidentais como um todo. O Buçaco é património mundial –que não precisa desta designação ou da chancela da UNESCO para ser uma obra absolutamente extraordinária que pode e deve atrair visitantes cultos de todo o mundo.”

    Buçaco , Fevereiro,2006

 

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EM VIAGEM

TEMAS LOCAIS –3

 

 Ferraz da Silva

 

 

EM VIAGEM
   

 

    Diz Adriano Sofri numa das suas últimas crónicas  que, entre as coisas boas da vida, viajar de comboio é uma delas. Concordo. Tenho também comigo esse jeito gostoso de saborear uma boa viagem no conforto duma carruagem colectiva correndo animada e célere sobre a velocidade com que se percorrem  hoje os  perfis dos caminhos de ferro por essa Europa fora.       No mês passado , aguardava  na gare de Matabiau, em Toulouse, o comboio para Nice e Vintemiglia e tinha comigo as intermitências da morte , do saramago, que me entretinha a ler sentado num  banco corrido da linha dois , onde havia de surgir minuto menos minuto a locomotiva , quase silenciosa , a puxar  quase sem esforço , uma  dúzia bem contada  de carruagens nem muito nem pouco apinhadas de gente.      Entretido na leitura dos abismos  do nosso prémio nobel, fui-me apercebendo, inconsciente,  de uns pés que se deslocavam para um lado e para outro  na frente  do meu banco, apêndices a que  pouco liguei tão pouco me passava pela cabeça alguém me procurasse ou conhecesse naqueles confins do midi , entre o garonne e os briques avermelhados da cidade , para mais em trânsito para o leste, em plena gare , ao principio da manhã.      Porém, a sucessão dos passos , entremeados de pequenas paragens não longe da minha alheia figura, acabaram por fazer-me levantar os olhos para a estranha personagem, não pela curiosidade despertada, mais pela sugestão inconsciente nas arrumações do sótão,  como um raio de luz que passa e bate e nos acorda para um olhar qualquer.      Para espanto meu, de imediato, o homem dirige-me a palavra  em português corrente .Teria visto o saramago, pensei, perguntando-me se eu era português, sim, sou português , e por acaso não é do luso , sim , por acaso sou do luso, donde é que você me conhece , ou é também daquela  região, eu sou o alfredo , o alfredo pintas , andamos na escolas juntos  na professora laurinda…não se lembra…???      Dei meia volta ao miolo já arruinado  em muitas questões da memória mais longínqua e lembrei-me perfeitamente do pintas, então não houvera de lembrar …o pintas, as réguadas, o leite e o abreu, os jogadores da bola, o exame da 4ª classe, a distinção … bota para cá um abraço , então que é que fazes aqui ?     Palavra puxa palavra , rapidamente pusemos no dia possível as nossas andanças pelos caminhos do mundo e vim a saber, satisfeito , que o meu velho, no bom sentido, colega de escola dos tempos em que se levavam umas bofetadas do professor , se aprendia alguma coisa e havia disciplina , embora não seja cultor destes predicados pela simples retórica, era um senhor empresário do ramo do mobiliário no centro da cidade. Importador e exportador, ora essa!!! “Ganda” pintas, apeteceu-me dizer…    Bem sucedido, fiquei a saber depois , enquanto em simultâneo com as suas palavras serenas, convictas e humildes, me nascia interiormente uma satisfação   espontânea  sem limites e sem explicação. E de repente tudo se misturou , a escola e o mundo , o ontem e o agora , a mágica aparição dum amigo pregado na infância e um  senhor de sucesso , francês por fora , por dentro a alma lusa a recordar com saudade o tempo e a distância que nos uniu e une em qualquer ponto do globo, ao chão nativo.    Não tardou que a chegada do comboio, interrompendo estes minutos sem tempo á maneira duma qualquer teoria da relatividade, não permitiu levar mais longe que  a anotação de uns simples números de telemóveis, o nosso encontro .Promessas de voltar e selamos num abraço feito de toda a idade o nosso encontro feliz. E repetimos solenes havemos de regressar, quase jurando.   Já na via de Perpinhão e Nimes , com o comboio a devorar quilómetros na sua marcha certa, fui constatando a pequenez do mundo  a par da força do homem português obrigado a aplicar o seu engenho longe do berço, da escola   ou dos amigos , um esforço suplementar por onde lhe vão abrindo as portas ao trabalho e ao êxito, bem contrastantes com as portas da pátria , quase sempre fechadas pelo oportunismo   demagogo dos príncipes , dos reis, dos fidalgos ou dos eleitos.   Razão tem o Sofri. Viajar de comboio. Das coisas boas da vida ! E dá-nos sempre ahipótese duma libertação desse pequeno mundo onde nascemos , acanhado por si  , feito de nada,  perpetuamente  aberto para quem sai e cerrado na mingua de quem fica.    Nervi, Fevereiro ,2006 PS- Eu cá tinha as minhas razões . Confirma-se. Inatel em ruínas ? Como fazer ? Simples… O próprio boletim municipal  da nossa Câmara ensina o método,á  traulitada.  Cito  ”…a situação que se que se verifica há muitos meses  de portas exteriores arrombadas , janelas abertas e água da chuva a cair no interior do edifício obriga-nos a pensar que estamos num país de loucos, incompetentes e irresponsáveis…”  1)   Será que este país, da mesma cor da Câmara,  se estenderá ao  Inatel, o organismo estatal do turismo do mundo do trabalho ,e este, por sua vez,   estará  entregue a uma cáfila de bandidos que não sabem nada do ofício ?    Será que com este linguajar se vão obter respostas , diálogo e soluções ?   Será que esta  imagem, custando por mês á volta de trezentos contos antigos ,legal e legitimamente pagos mas sempre é bom saber-se , com dinheiro dos contribuintes, nos interessa ?  Será que três meses não  deram para fazer mais nada ? Ou trata-se de livrar a água do capote ?  Sabendo eu da extrema facilidade com que se marcaria uma reunião com o presidente daquela instituição mediante uma simples chamada telefónica, diabos se entendo a caturrice política que se estriba na denúncia albardada das situações fazendo tábua rasa do abc da cidadania ! 1)Boletim Municipal Mealhada  nº 16,Jan.Fev, página 7  

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CEM IGUAL A ZERO ????

TEMAS LOCAIS  -2     


 Ferraz da Silva 

 

 

TURISMO , CEM MIL, IGUAL A ZERO ?   

 

  Decorre este mês a Feira de Turismo de Lisboa, o maior certame nacional nesta matéria, onde a Junta de Turismo Luso-Buçaco tem lugar garantido desde que  a feira é feira. Durante anos, mercê dum esforço daquele organismo, às vezes com o apoio da Câmara, esteve também o leitão através dum restaurante local .   A feira é o que é e vale o que vale, não há outra, é quase imperativo estar presente, embora hoje se deve juntar a este certame , a Fitur de Madrid  que faz  parte absoluta do mercado interno. Era um imperativo, se existisse estratégia, colocar ali o município com todas as suas ofertas turísticas.   Porém, é com  ligeireza , senão leviandade que muita gente responsável trata o turismo, sem conhecimento e sem sensibilidade para o que seja a importância desta actividade  que hoje é a primeira na economia  mundial.   A Mealhada  possui recursos de singular importância em matéria de turismo e através deles , vendeu 100.000 camas a nacionais e estrangeiros no ano de 2005 . São, num calculo  rápido e simples  considerando apenas as dormidas, seis milhões de euros.   É  espantoso que , abrindo um documento oficial como o plano de actividades e orçamento do órgão municipal para o ano corrente, não se veja um tostão inscrito para a área do turismo. Mais , é  inaceitável e vergonhoso  que tal aconteça  e se dê  a duas festa  da sede do concelho, o dobro do que se dá a uma Junta de Turismo , que abrange  a gestão do turismo na área do município. Mais, quando se dá à Junta, dá-se ainda por cima , de má vontade, uma verba para pagar a limpeza que faz no Luso, e que caberia á Câmara fazer. Não se dá para investir em turismo !!!     É caso para perguntar se andamos a brincar com os organismos e com os dinheiros públicos…Já temos repetido e continuamos a  dizer, que a Mata Nacional do Buçaco é um  destino turístico de primeira água, o único no concelho de nível europeu , infelizmente mal aproveitado e maltratado , quer pelo poder central, quer pelo poder local.   As Termas , apesar de todas as vicissitudes, continuam a ser um recurso de importância considerável e a gastronomia , assente na especialidade do leitão , constituí por si só um destino excelente do património concelhio.   No caso da Mata Nacional, o poder político central  teima em não fazer nada pela sua recuperação e aproveitamento enquanto o poder local, mais preocupado em dizer mal dos organismos tutores que em propor soluções, não  demonstra capacidade para alterar seja o que for.  Mas as Termas, por outro lado, foram objecto dum compromisso  tácito firmado entre  Àgua do Luso e o poder local , compromisso que considerava a construção dum SPA  no projecto Luso 2007 ,em troca da passagem dos tubos da água pelas vias municipais em direcção à Vacariça .Na hora de assinar, terá contado ainda o acordo dos centavos  , mas a partir daí , uns remediados, outros a receber o dinheiro, tudo foi esquecido no saco do comodismo. A sede  da empresa, na prática,   saiu do concelho , a Câmara  cobra a tempo e horas a taxa da água  que corre nas vias municipais e o resto caiu  no saco roto  da passividade e do comodismo dum poder local sem força para exigir o cumprimento do negócio, ainda que acordado tacitamente entre as partes  como o foi, poder local dum lado, administração do outro,  no tampo duma mesa quadrada. Para a autarquia , parece, não se passou nada ou , numa perspectiva diferente, o problema não é  na freguesia certa e portanto, passa-se uma esponja. .   Ao mesmo tempo, a gastronomia é objecto de guerras esporádicas que não adiantam nem atrasam , visto que, por mérito próprio vive da sua  excelente qualidade  e se apostas há a fazer , não é na qualidade do produto nem numa imagem redutora do leitão da ”Mealhada” como ouvimos defender , mas sim na qualidade dum serviço que, não poucas vezes, deixa muito a desejar.  Para um simples cidadão , é  preocupante verificar que o poder local,  não orçamente  verbas para turismo num concelho que muitos outros invejam  pela excelência dos seus recursos. Para o próprio concelho, é dramático virar um orçamento dum lado para o outro e não encontrar nada,  perante  a realidade dos números de que falamos,  ou seja , perante as cem mil camas vendidas no ano que passou. Cegueira ? Desconhecimento? Ignorância ?    Como se não bastasse, surge-nos , como já referi na crónica anterior, a panaceia dum campo de golf , o milagre talvez dum investimento no turismo imobiliário que  não se descortina de que maneira há-de se-lo , fazer-se , pagar-se , manter-se e fazer-se pagar. Ou apenas a  presunção de procurar numa pileca um cavalo de corrida ?    Como custam caro estes devaneios, apetece voltar  atras, pegar na  experiência da vizinha Curia , onde o golf tem tido tanto sucesso que acabou por fechar as portas e, não nos regozijando com o fenómeno , mas colhendo esta experiência e presumindo a mesma utilização no futuro campo da Pampilhosa, ( porque é que há-se ter outra? ) porque se hão-de gastar rios de dinheiro em vão ? Dois ou três golfistas por dia ? Quantas camas? Quantas refeições ? Quantos cafés ? Quantos jornais ?Quantos leitões ?Ou estaremos enganados na simplicidade do raciocínio ?     Comparemos com as termas  se estivessem reabilitadas ou a caminho disso, conforme o prometido , abertas e a funcionar a uma velocidade de cruzeiro: os termalistas  seriam  muitos mais ; se existisse o SPA, seriam ainda muitos mais ; normalmente estão quinze dias num estabelecimento hoteleiro. Podem estar três semanas, um mês. Comem, dormem , pagam os tratamentos termais , frequentam cafés e restaurantes, mercados e comércio local , compram livros e jornais, alugam táxis , proporcionam emprego a muitos munícipes necessitados. Trazem riqueza, deixam-na ficar, como os clientes do leitão  que  deixam o dinheiro na Mealhada     São parte das  100.000 mil camas vendidas no município. São factos, são a realidade , são o hoje dos nossos dias , são a nossa base de sustentação e trabalho para projectar o futuro. Está á  mão dos autarcas tentar resolver estes problemas e reactivar a frequência termal. Com diálogo, com acordos , com empenhamento. Afinal, aquilo que não há por parte de quem tem a responsabilidade de o poder fazer.  Porque se prefere a fuga ás responsabilidades pela loucura dum sonho em vez de perseguir e optimizar as realidades que temos á nossa mão ?   Venha o diabo que nos responda.                                                                                             Janeiro 2005 

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DA FONTE DA MEALHADA À BARRAGEM DA APARTADURA

  

  CRÓNICAS LOCAIS-30

 

  Ferraz da Silva

 

     DA FONTE DA MEALHADA 

Á BARRAGEM DA APARTADURA

    vai a Castelo de Vide não deve deixar de ir á fonte da Mealhada. Numa vila bonita, uma bela fonte, branca, airosa, enquadrada pela serra de S. Paulo no Parque Natural de S. Mamede. Como o nosso Luso, terra de nascentes, de águas, de fontes e paisagem. As termas que já teve é que morreram, coisa que bem pode acontecer ao Luso se a desenfreada exploração da água fizer esquecer, por compra ou distracção, os interesses locais. Já esteve mais longe, enquanto na vila alentejana já retiraram as placas de informação termais que há pouco ainda existiam* mas que foram definitivamente postas de lado para não ludibriar, como é hábito nosso, os desprevenidos, que afinal, não é só com diplomas que se enganam os incautos, há muito mais maneiras de o fazer e uma delas é o mundo informativo das tabuletas de trânsito, além da terceira versão dos Piratas das Caraíbas, um engodo a letras de ouro na colonização de “Óliude“. Pobres lorpas!

    Ora pois, tem Castelo de Vide uma fonte peculiar chamada Fonte da Mealhada que também nos é familiar pelo nome e pelo produto. Construída no ano de 1699 segundo a data que tem inscrita no mármore, a fonte da Mealhada que nada tem a ver com a nossa Mealhada nem com a Mealhada de Loures, é formada por cinco pilares encimados por uma cimalha a todo o comprimento, um brasão circular ao centro com as armas da vila, e sobre o mesmo uma cruz de Cristo, sob a qual está gravada a data da construção. Quatro bicas lhe dão vida caindo da boca aberta de quatro cabeças de leões a água fresca que, dando oportunidade á satisfação dos sedentos, se deposita num tanque rectangular ao comprimento da obra.

  E quanta não era a sede quando, em pleno verão há seis anos, durante as comemorações dumas estranhas e misteriosas núpcias no então hotel Garcia da Orta, no centro da vila, o calor se lançava em raios pela planície, galgava Portalegre, a serra, os corpos!!!!

   Foi na manhã alta do dia seguinte que nos levou o sol, em par, á famosa judiaria e sinagoga da época de D. João III, o rei que escancarou as portas aos horrores da santa inquisição e aos guetos do judaísmo. Lá está ainda hoje o bairro dos judeus igual e preservado no labirinto escondido das suas ruas estreitas. E florido em todos os seus recantos. Dali á Fonte da Mealhada é a descer e no aparato da sua monumentalidade damos com quatro bicas abertas nas tais bocas de leão, a dar água, mansas como cordeiros, pela torridez do estio.

   Diz a lenda que quem visitar a fonte da Mealhada e da sua água provar, há-de por força voltar e em Castelo de Vide casar. Mas isto não passa dos floreados populares da adoração da água e é comum a muitas outras nascentes e fontes, tal como a de beber água na terceira bica de S. João. De facto, se todos os casadoiros que ali bebessem água viessem casar ao Luso, ainda que mais não fosse, longa ia a fila dos casamentos na igreja paroquial marcados com meses e meses de antecedência. Era bom que assim fosse, como era bom a Senhora de Fátima ter nascido na Serra do Buçaco, nas Carvalheiras, como esteve prometido, não lhe teria custado grande coisa e ter-nos-ia dado grande jeito!

  Pela via desta lua-de-mel serôdia e doce, há alguma que o não seja, se continuou para o município de Marvão onde se entra pela magnífica ala de freixos que limita e guarda a estrada por entre o campo de golfe de dezoito buracos que se alonga até ao rio Sever e á Portagem. Serve a vila raiana e arredores, pois é o único local do parque natural onde se pratica, quando pratica, a rica modalidade, regada pelo lençol de água da vizinha barragem da Apartadura.

 Situada na freguesia de São Salvador de Aramenha, ribeira de Reveladas, que corre para o Tejo, a barragem surge de surpresa e é com surpresa que se depara com a sua dimensão no parque alentejano. Aprazível e silenciosa, permite, além da rega e do abastecimento de água, a prática de desportos náuticos sem motor. Ambiente. E permite o golfe, ali junto ao lugar da Portagem nos fundos da falésia de Marvão, onde se come em qualquer época do ano uma sela de porco com castanhas de se lhe tirar o chapéu…Foi o que fizemos.

Sem uma barragem deste tamanho que permita a armazenagem da água que há-de alimentar o golfe, adeus golfe, não há lençol freático que lhe acuda nem tanques no céu que nas horas apertadas o salvem da mirração! Apesar de quem abre furos no solo acabar sempre, por dever de ofício, a encontrar infinitos lençóis do indispensável líquido !

 Só alguns anos mais tarde após a refeição de sela de porco preto com castanhas derivado da viagem, associei que haviam passado mais de trinta anos sobre a minha primeira visita á Fonte da Mealhada, onde havia bebido de facto, um copioso copo de água fresca duma qualquer boca aberta leonina.

E pensei cá para comigo: e ainda dizem por aí que não há bruxas!!!!!!!!!

(* há 10 anos)

Junho 2007 mealhadatemas.blog.com lusotemas.blog.com

 

 

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