Thursday, December 28, 2006

A PROPÓSITO DUMA EXPOSIÇÃO

 TEMAS LOCAIS-12 

 

 

Ferraz da Silva
 

 

A PROPÓSITO DUMA EXPOSIÇÃO

 

 

 

 

       Quase setecentas pessoas visitaram no último domingo a exposição patente nos antigos escritórios da água do Luso que tem por tema , ‘Luzo Bussaco, Memória e História’. No livro destinado a esses mesmos visitantes , muitos deles deixaram mensagem de apreço e de estimulo , até de agradecimento pelo reavivar dum  tempo de prazo médio que correspondeu a um fluxo  de desenvolvimento e  engrandecimento da estância termal do Luso que  levou o concelho da Mealhada ao topo do conhecimento e fez confundir o Luso , concelho que não existe , com o seu  concelho próprio.    Porque isto  de não ser concelho seu  e depender de guerras intestinas  pensadas em casa alheia, tem que se lhe diga. Olhemos para Sintra , sede do concelho, e para o Luso. Olhemos para Òbidos, sede do concelho , e para o Luso . Olhemos para Marvão, sede do concelho, e para o Luso. Olhemos para Castelo de Vide , sede do concelho , e para o Luso. Olhemos para as Termas de S. Pedro do Sul, sede do concelho , e para o Luso. São alguns exemplos para concluir que muito tem perdido  , no caso concreto,  a Vila termal e turística do Luso , com o facto de ser um apêndice administrativo doutra localidade e consequentemente, não deter em si próprio o poder de gerir , decidir  e dispor do seu património próprio e de vias autónomas de desenvolvimento .   Esta excelente exposição sobre a memória duma vila , sua gente e actividade,  atesta  a riqueza da terra , realça a força  intrínseca que teve  o Luso  para se transformar , saltando duma pacata aldeia de água e de moinhos para uma estância termal  de primeira qualidade transformando o simples lugarejo de moleiros numa pequena cidade cosmopolita , simpática e acolhedora.  Ali se podem ver dezenas de postais   sobre o Luso e o Buçaco , primeiras edições do postal em Portugal em desenho e em fotografia , mas também objectos ligados á hotelaria, ás termas , á vida desportiva e cultural da vila , á propaganda turística , da primeira que se fez em Portugal , á água e sua venda , á guerra  peninsular .  Projectos  executados, como o Palace Hotel do Buçaco ou do Grande Hotel do Luso , estão a par de obras não levadas a cabo, como o  cine teatro do Luso ou o primeiro  estudo para o lago.Trata-se dum repositório valioso reunido com a colaboração efectiva de pessoas e de empresas , um espólio a pedir classificação e um museu , o museu do turismo e da hotelaria  , uma obra , como exemplifiquei atras, dependente de terceiros , pois o Luso não tem a autonomia nem o poder financeiro para decidir por si próprio escolhendo os seus próprios caminhos e sabe-se que infelizmente neste município ,  o conhecimento das coisas de turismo não passa por muitos responsáveis , sobretudo pelos autarcas eleitos na parte que lhes diz respeito.    Porém , o património , o now out, o saber fazer, estão bem patentes em todo o percurso desta mostra, rara no espaço do município e capaz de fazer pensar, refletir e procurar respostas e soluções para muitas perguntas que afligem hoje os homens do turismo. Porque essas soluções , essas vias , esses caminhos para prosseguir em frente, na hotelaria e turismo, como em tudo nos dias de hoje, têm que ser frutos da ambição, da criatividade e das apostas das gentes do sector , onde o público, quer estado, quer autarquias locais, tem uma responsabilidade acrescentada .   Quando  constatamos que uma autarquia é incapaz de  colocar a funcionar umas simples ‘barraquinhas’ para vender artesanato e actualizar de forma provisória um espaço  há muito degradado , barraquinhas que estão há quase um ano montadas no seu lugar, ficamos de facto  preocupados. O caso , para o sector do turismo, não é para menos.  Se a esta incapacidade  se juntar a promessa de recuperar o  espaço a desimpedir,  requalificar a zona central das termas  e fazer cumprir o projecto Luso 2007 , o caso passa  a ser dramático . E catastrófico  se a política turística deste município prosseguir com o gastar de largas somas de dinheiro em campos de golf para  freguesias sem aptidões para o turismo , projectos construídos á medida dos interesses dos políticos eleitos,  sem qualquer razoabilidade , sem qualquer estudo económico e sem qualquer perspectiva de futuro.     Percebe-se um campo de golf na Figueira da Foz, em Mira ,
em Monte Real , no Buçaco ou na Curia . Em  Barcouço , na Antes , na Pampilhosa , apenas por loucura política  ou por  brincadeira que ficará bem  cara  ao futuro do município.
    É preciso ter o sentido do interesse  regional dentro do sector especifico que é o turismo , um potencial  gerador de riqueza , não um tranpolim para satisfações pessoais.  Para isso, bastam as plataformas ferroviárias que, mesmo sem aprovação de ninguém, se podem justificar para levar mais  adiante. Mas aí, ficam pelo menos os terrenos para governo dos vindouros.   Para os munícipes interessados, uma visita á exposição atrás citada , é um momento bem passado , uma memória bem lembrada , um culto de município . Numa escala de vinte, face aos meios , dezoito valores. Excelente.   PS-Um conselho , de preferência façam a visita com tempo e  aos dias de semana , que ao sábado e domingo pode-se encalhar na confusão do trânsito .                                                             Agosto,2006
   

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D.CAMILO E O SEU PEQUENO MUNDO


 
TEMAS LOCAIS - 11

 

Ferraz da Silva  

 

DON CAMILO E O SEU PEQUENO MUNDO        

 

 Numa poltrona, em casa  do meu amigo Vicente , acabei de ver , naquilo a que chamam hoje o ‘home’ cinema ou cinema em casa, a deliciosa comédia  Don Camilo e o Seu Pequeno Mundo .       Lembrei-me  claramente da minha juventude e da magia que era então  ver este e outros filmes , passados ao domingo á noite  nos cine teatros locais onde, para se ter lugar ,  era muitas vezes necessário ‘tirar’ um  papelinho de cor, o bilhete , na véspera , se não se queria falhar uma fita   , donde , mesmo de barriga pouco cheia, se saía com franca disposição e um sorriso aberto nos lábios.      A bilheteira era um buraco redondo, ovalizado e da nossa dimensão etária , víamos apenas as mãos duma fantasmagórica  figura  que,  do lado de dentro, manuseava os dedos e nos  trocava  moedas dificilmente amealhadas  pelo feitiço da entrada , um papelinho apenas amarelo, azul ou cor de rosa, que nos abria a porta ao sonho e á diferença. Talvez diferença  de estar só , na escuridão,  num mundo irreal , na fantasia ,  no desconhecido e no futuro.    Os cinemas eram incómodos , a climatização inexistente  e o inicio do filme era , regra geral,  anunciado pelo retinir persistente e irritante duma campainha eléctrica que, naquele tempo, eram trompas do céu que enchiam rapidamente as cadeiras de espectadores  interessados e ávidos. Na região, as salas  eram todas  parecidas , não havia grande coisa que as distinguisse nem histórias que não dissessem respeito a qualquer uma delas , daí o seu valor histórico e patrimonial , ser semelhante. A ênfase que hoje se dá por aí a esta ou aquela  sala mais que a outras, não passa de verborreia vazia  e oportunista   e tudo o que se possa dizer sobre o assunto está  soberbamente  retratado  no ‘Cinema Paraíso’do realizador Giuseppe Tornatore .   Na série de  fitas iniciadas por  Duvivier , Fernandel e Gino Cervi, nas figuras de Don Camilo, o pároco de Brescello e Pepone, o administrador do concelho, faziam a diferença  e o incomodo das salas , onde a geral ou galinheiro era já um lugar de privilégio, não impedia a frequência semanal  aos muitos amantes desses passos heróicos do cinema.    As histórias de  Don Camilo, soberbamente interpretadas  pelo cómico francês Fernandel e pelo  actor italiano Gino  Cervi  começaram a ser rodadas em 1951 sob a direcção do francês Julien Duvivier e com argumento dum escritor desconhecido , um italiano de nome  Giovannino Guareshi , conterrâneo do grande Giusepe Verdi , ambos naturais  do município de Busseto, na província de Parma , em Itália.   Brescello , a paróquia cenário onde se rodaram os filmes , é hoje uma pequena cidade de cinco mil habitantes que vive da agricultura e beneficia dum considerável fluxo turístico  derivado dos filmes que lhe propagaram o nome. Dista vinte quilómetros  de Parma e perto, corre-lhe o rio Pó em direcção ao Adriático e  que na altura , com as suas cheias anuais, era um constante pesadelo para  os moradores da planura padana.   Lá está o museu Don Camilo , o restaurante Don   Camilo , o Bar  Don Camilo , o Hotel Don Camilo , quase tudo  na praça principal, a praça Matteoti, entre a  igreja de Santa  Maria Nascente  e a Câmara Municipal  ,  traduzidos em  fins de semana apinhados de turistas chamados pela curiosidade  das antigas filmagens .   Junto á igreja , a figura  do pároco , trabalhada em bronze , saúda a  do autarca  na diagonal oposta, nos paços do concelho , uma saudação mais sugerida que aberta , entre dois adversários teimosos mas leais. Coisas de então !!!!  No museu , que ocupa todo o primeiro andar duma modesta construção,  um rol de adereços , filmes, cartazes, máquinas de  filmar e projectar , revistas, comentários e notícias de jornais, entre muitas outras, fazem a delicia dos amantes da sétima arte.  Do lado de  fora  , uma locomotiva , um tanque de guerra e  utensílios agrícolas , utilizados nas rodagens, além da própria  povoação, palco de toda a trama dos vários filmes rodados.  No interior da  igreja , culto obrigatório para qualquer visitante , a imagem do Cristo que amiúde  falava com Don Camilo , o aconselhava e repreendia  nos momentos de  desespero ou casmurrice exagerada  em  imagens  profundamente gravadas   pelo cinema  na memória numa geração inteira.    Fitas que hoje são autênticas peças de museu  para  rever em casa e rir, rir de satisfação num tempo em que o cinema  se transformou em agente da agressividade , da violência, do ódio  e da guerra e quando as imagens televisivas transmitem as próprias lutas
em directo. Tempo em que os homens mudaram e o mundo mudou com eles.
  Relíquias como  O Regresso de Don Camilo , Don Camilo e o Nobre Peppone, Don  Camilo Monsenhor ou o  Camarada Don Camilo, entre outros , são testemunhos claros duma época de boas intenções herdadas do digerir da bomba atómica e do inicio da guerra fria ,onde o humanismo e uma ingenuidade infantil e angelical estão presentes.   A cidade de Brescello fez um museu a tudo isto e vende hoje o seu produto aos milhares de turistas que a visitam. Pouco mais tem para mostrar  mas este  pouco que tem, foi construído com o trabalho , a teimosia e a perseverança  dos seus  habitantes  mais a ajuda  incontornável dos seus eleitos locais.   Um pequeno mundo feito á medida da obra cinematográfica que lhe está subjacente num grande mundo feito de  coisas pequenas , que vale pelo seu conjunto e pelas diferenças de cada construção.   Entre as coisas pequenas de cada um , nós próprios faremos sempre o esforço necessário para as fazer diferentes ? É que o mundo não se faz ao tamanho do cenário , faz-se sim muito mais, ao tamanho das obras. Tudo  afinal como no Don Camilo e o Seu Pequeno Mundo.                                                                  Brescello , Julho, 2006
 

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CHEGOU O VERÃO

TEMAS LOCAIS –10

 

Ferraz da

 

CHEGOU O VERÃO

 

 

 

 


 
    Chegou o verão , viva, com o que tem de mais esperado, o calor.   Nas termas do Luso, já não se inspira e enche o peito para dizer bem alto sou do Luso como a anedota referia, doutros tempos . Agora, tudo gira num movimento mais uniformizado consoante as regras e as leis  do poderio económico e do próprio mercado, infelizmente, curto.    Há dias , li nos jornais, que  o mercado dos partos em Portugal valia não sei quantos milhões. Até o nascimento e a vida afinal, se medem hoje pelo dinheiro que  se paga para por um filho no mundo , quer seja o Estado a suportar o custo, quer sejam os pais a pagar a conta da nascença. Há sempre alguém á espreita para investir uns cobres se as perspectivas forem boas, isto é, sobejamente lucrativas.    Não admira que também as termas se meçam pelo preço dos seus custos e pelo valor dos seus resultados . E, apesar de toda  a envolvente que as próprias termas recriam como espécie de ‘holding’ geracional, poucos investidores, tendo em conta a  depreciação do sector e a  recusa da modernização dos parques termais degradados doutros tempos, apostam nesta área. Que curiosamente podem dar  dinheiro e constituiem um potencial de grande desenvolvimento se conveniente tratado e dimensionado .   O caso do Luso, talvez mais que qualquer outro, não foge á regra e de facto é só olhar para o exterior do edifício das termas para verificar  a pouca ou nenhuma sensibilidade para  com o ramo balnear que tendo tudo a ver com o sector das águas  anda bem longe dessas outras águas do engarrafamento. Esta singularidade da ‘emboutillage’, como soletrávamos com os amigos de Contrexeville  nos tempos recentes duma Europa cheia de romantismo e boas intenções , fez do Luso , dois Lusos, o das garrafas e o das termas,  hoje separados nos respectivos objectivos.    Os ingénuos motivos das visitas reciprocas da geminação onde  se apontavam a amizade, a igualdade ou a fraternidade terminaram. Nada que não tivesse de acabar quando o processo económico se esgotou e os desafios competitivos  se alargaram a quase todas as parcelas do mundo  abafando o dourado humanismo do pós guerra  forjado na morte, na dor e na solidariedade. O homem voltou mais ou menos á  selecção natural a que talvez  só as catástrofes retirem alguma substância. E voltou a um mundo de promessas vãs , de interesses individuais, de perspectivas futuras apenas realizáveis se , e nestes ses e mais ses, se diluíram os valores da palavra, dos compromissos , dos acordos. É o que se passa na opel da Azambuja a caminho de Saragoça , é o que se passa na água do Luso , deslizando para a Vacariça vai um ano , dois ou três.     Antes  da implantação dos pepelines , não sei se é este o termo que se aplica na condução da água pelas vias municipais , havia um mundo de promessas para um hipotético Luso 2007, um grandioso complexo que incluía  a panaceia do SPA , nova orgia  dos termalistas e justificação do capital para fazer alguma coisa ou não fazer coisa nenhuma ,uma espécie de publicidade enganosa capaz de convencer os incautos a assinar as licenças, os protocolos , até as acções judiciais que coloquem tudo em paz e harmonia com a exploração que se pretende. E o crente município , purgatório de boas intenções e angélica ingenuidade e também de nenhumas cautelas perante a responsabilidade que é representar a cidadania municipalista, apõe o que for preciso nos ditames e nas  promessas  seladas em sorrisos  dos homens de mão de investidores ocasionais,  normalmente representados por portugueses a soldo do capital sem rosto, sem o sentido da pátria ou dos interesses nacionais. Se vivêssemos no tempo do nosso primeiro rei, não eram terroristas que não havia o termo , mas não sobreviveriam á lamina reluzente e fio duma espada.  Podemos dizer agora que o Luso 2007 foi uma dessas promessas por cumprir mas não podemos ignorar que os pepelines, não sei se é este o termo correcto e utilizado para a passagem das águas, repito, continuam a passar pelas vias municipais  por meia dúzia de tostões o metro linear , ou seja, o mesmo dinheiro que  paga um cidadão comum se quiser atravessar a estrada com um cano de água para regar uns feijões na horta que lhe fica em frente, do outro lado da rua.      Singular e elucidativo!!!!!!!!!    E aqui, nesta monstruosidade política, começa  a péssima gestão dos homens que governam , por delegação dos eleitores que lhe deram o voto, o espaço municipal. Aqui tem inicio uma série de incompetências , de desinteresse, de alheamento , de prejuízos para todos esses, os munícipes , que votaram nos gestores, cuja inoperância política, está á vista .   Outro exemplo ,em menor grau , pois a gravidade do caso não é comparável seja de que maneira for, àquela outra, , estão aquelas barraquinhas da Avenida Navarro , destinadas a substituir  a absurda feira  de artesanato bugigante ( de bugigangas)  que prolifera todos os dias  quinta do alberto acima , numa amostragem clara do interesse da autarquia no turismo  de pé descalço que  protege eficazmente.     O cenário, pelo menos,   exemplifica o terceiro mundismo da Câmara da Mealhada  na matéria,  coisa que já não se vê em nenhuma parte deste país e é também a demonstração evidente da incapacidade duma equipa municipal  em colocar em funcionamento dúzia e meia de barraquinhas do outro lado da rua que, não sendo uma solução nem perfeita nem definitiva, são no entanto um avanço em termos de aparências, quanto muito, ambientais.      Estão desde Novembro montadas no local, sete ou oito meses  portanto e não conseguiram ainda pô-las em funcionamento. É obra !!!! Como é que conseguirão pôr de pé um campo de golf na terra do presidente da câmara e com que dinheiro , num país que não tem dinheiro para pagar as dívidas ?      Depois, aquelas barraquinhas, que não custaram um décimo das feiras que a autarquia faz e patrocina na sede do concelho, trazem , ao contrário de algumas afirmações demagógicas, mais gente ao município da Mealhada  que todos os eventos concelhios juntos.   Há quem o não julgue nem saiba , por isso prestam tão maus serviços nos lugares que ás vezes ocupam.                                                                                       Julho,2006
   

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S. Rocco

Temas Locais-9

 

Ferraz da Silva


 

S.ROCCO

 

 

     A montanha precipita-se subitamente sobre a superfície serena do mar mediterrânico , nesta altura do ano uma lâmina de água a perder-se de vista na linha  horizontal da distância onde se cruzam cargueiros e pequenos botes de pescadores locais com o  Moby dos turistas ou excursões das ‘cinque terre’ .

 No monte, a meia encosta, ergue-se o campanário rosa da igreja de S.Rocco, multiplicado além por S. Giacomo, Santo Hilário ou outra  qualquer divindade que dá sombra ás gentes das margens empinadas nos penhascos cobertos de vegetação. São como veleiros a sobressair do arvoredo ou sentinelas no seu lugar de posto de vigia a observar estáticas o dorso dos navios. Um átrio dá o  acesso á sombra dos pinheiros mansos  que ornam por sua vez as altas portadas da entrada  dos templos  num lagedo a descoberto onde se senta o sol em dias bons.

 Quem é fiel ou não poderá sempre entrar na penumbra da igreja , rezar ou descansar dos íngremes caminhos que de S. Frutuoso, á beira mar , conduzem de socalco em socalco aos cumes da neve do inverno que, em dias rigorosos, se mistura com mar na bruma branca que se estende entre os dois elementos numa junção comungada.

 Ali conduzo os passos lentamente  por  horas e mais horas de buscar o cair duma tarde que a pouco e pouco de mim  vai. Busco também na face de S.Rocco, porque não sou fiel  nem devoto de santos, o esforço de me encontrar na paz interior que me fugiu, aquela paz  feita apenas de tempo, que  tranquiliza e adormece  o cordame do nervo, a matriz eufórica de cada movimento que vem desde a nascença e que ás vezes se perde e se tresmalha nas  adversidades .

  A igreja edifício, templo ou monumento, está-nos a cada passo a abrir as portas da  poeira do tempo da nossa tradição judaica e de cristãos em arte , em história, em interrogações   que só a perfeição dum David em Firense ou o deslumbrante erotismo da  Capela Sistina , em Roma, se pode eficazmente contrapor, na medida em que absorve como por encantamento a nossa absoluta distracção.  Mas Roma fica longe  e neste derradeiro marinhar de pescadores ligures, onde o iate tomou lugar á vela, estou só e sentado no adro de S.Rocco. Pouco a pouco soletro-me na gravação em gótico da porta principal e pouco a pouco transponho a porta de madeira  até mirar o santo cujo altar, de porta aberta, olha vertente abaixo ao encontro do mar. Sento-me e verifico que me esqueci de orar. Procuro pois  a primeira ou a última figura da nossa romaria , da nossa procissão, da nossa expedição,  como qualquer mortal não dado á religião. E procuro
em S. Roco, S.Siro ou S.Donato ou santo Apolinário do Levante, todos erguidos nas suas torres rosas ou de grês , umas pintadas a tinta stucomat, outras restos de pedra. As mais antigas , esboroadas, rotas ,ogivas aramadas ao peso das sineiras em tijolo romano ou pedras de carrara, paralelas, a preto e branco ou rosso clarinho.
 Por dentro, são mais ou menos iguais na obscuridade dos altares ,na textura de imagens e de quadros e no silêncio e frescura que em qualquer dos casos são o verdadeiro tesouro destas casas a par das cores e da luminosidade em cada ícone.   Então, na marginalidade livre da nossa relação, nasce uma cumplicidade toda feita de interesse e desafio que nos atrai mutuamente na empírica busca de sermos qualquer coisa , ou gente ou espécie humana que aprendeu a procura nas primeiras pinturas das grutas naturais logo após as caçadas e a defesa comum.   E é na pesquisa dessa paz interior que nos sentamos enfim, olhando o santo numa figura ingénua de protector total com a graça do pai e toda a sua corte , e deixamos-nos ir pelos abismos de dentro tal qual como nos de fora, com seus próprios receios, seus sorrisos e lágrimas , suas estreitas veredas , numa reza pagã firme e ousada , igual a uma outra que outro dia encetei na serra da Peneda ,única vez que fui ao santuário para deixar promessas não cumpridas depositadas na caixa das esmolas.   S. Rocco, na Itália, a Senhora Del Rocio ,em Huelva , Espanha, ou a Senhora da  Peneda , em Portugal, são uma devota trilogia de  quanta santidade por aí há , acreditemos ou não, ás vezes um lugar de repouso e confissão dos nossos próprios medos. Mas também a memória de muito sonho perdido enredado nas teias dos silêncios que se albergam em nós.                                                                      S. Rocco, Maio, 2006

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Fonte do Castanheiro

TEMAS LOCAIS

 

Ferraz da Silva
 
  

A FONTE DO CASTANHEIRO-8

 

 

 

                                                                        

    De fonte já pouco tem. Um boneco de pedra vandalizado do tamanho  do manneken-pis de Bruxelas donde cai , dum cântaro rachado,   um pequeno fio de água trazido da rede pública por favor, alimenta-lhe a recordação duma fonte que já foi. Fonte do Castanheiro , dizia-se  e a dar também nome a uma avenida turística , se assim se pode dizer, chamada também do Castanheiro ou dos Castanheiros, singular ou plural isso não tem importância nenhuma para o caso  e estende-se  cerca de duzentos metros entre a 234 e a estrada para o lugar do Monte Novo e Salgueiral da freguesia do Luso. É um lugar escavado na encosta da serra do Buçaco  sobranceiro a um vale profundo onde antigamente habitava o pinheiro marítimo  , hoje quase completamente substituído pelo eucalipto australiano. Questão de rendimento para os povos da região que optam , face ao desordenamento agrícola crónico do país , por tirar a maior vantagem possível dos terrenos ásperos e íngremes para obter rendimentos que doutra maneira seriam impossíveis de obter. Seja como for um ambiente limpo, aprazível , uma respiração a sugerir pureza por quanto abrangem os olhos numa volta em redor.  Não foi  para  a agricultura que esta rua ou avenida , que é quase a mesma coisa, foi aberta em duas faixas laterais  para passeio  ou ‘promenade’ de peões e uma faixa central para veículos , mas sim para servir no principio do século os interesses turísticos locais. Obra que se deve a Emídio Navarro, esse político do Luso, muitas vezes odiado em termos de concelho  por, entre outras razões,  querer trazer ao rincão que aprendeu a amar  as mais recentes conquistas do  urbanismo e um espólio construído de habitações tipo ‘chalets’ que, até hoje,  não tiveram a sorte de sobre elas  e sobre o seu valor arquitectónico recair qualquer estudo aprofundado.     De facto, o espólio do Luso é ainda hoje a prova  clara  do avanço do ministro em termos de termalismo e  urbanismo, virados particularmente para o desenvolvimento turístico da zona e da sua avançada visão  em muitas outras matérias tão contestadas na época. Doutro tanto se poderia queixar  Costa Simões , avançado no seu tempo e também um homem  incontornável na história concelhia.  Situada pois em plena encosta a rua ou avenida como lhe queiramos chamar, ladeada por plátanos maltratados, goza duma paisagem  em plena natureza, na pureza do ar e horizontes que,  seguindo depois a estrada que nos leva ao lugar do Monte Novo e Salgueiral, não deixam de nos surpreender.  Por ali perto funcionaram noutros tempos os hotéis  Serra e Lusitano, este último recuperado e transformado em  centro de férias do Inatel. E esta Avenida ou rua ,já gozou de melhores dias  quando era  acompanhada e tratada pelas autarquias locais com  o cuidado e desvelo que aquele pequeno paraíso merecia.  Tudo isto para dizer  em poucas palavras que ali, actualmente, é um pedaço do terceiro mundo. Em termos administrativos pertença da Câmara da Mealhada , nada se pode esperar do município pois turismo , para quem lá está, parece chinês e o Luso,  maltratado pelo executivo, não tem no orçamento municipal senão uns magros cem mil euros para comprar uns terrenos não se sabe bem para quê nem para daqui a quantos anos , tal é a importância que o executivo dá a estas coisas que trazem para o concelho uns milhares de turistas com as respectivas contrapartidas em  riqueza de contado.  Enfim…Se alguns políticos tivessem  que prestar contas  e pagar os prejuízos causados pela sua distracção e inoperância, ,  talvez este país não fosse a permanente  feira  da ladra onde os portugueses vendem os dedos e anéis  para alimentar  a ganância de clientelas partidárias   onde , nos piores momentos dum  bigbrather  publico, se comem uns aos outros  pela repartição dos tachos. Propostas e programas, foi chão que deu uvas !Também a malfadada Quinta do Alberto em pleno centro urbano do mesmo Luso, constitui um problema que não está resolvido há meia dúzia de anos porque o presidente da edilidade nunca mostrou interesse , ante as constantes solicitações dos proprietários, em resolver o assunto. Diria mais, que nunca quis resolver o assunto.  Mas são assim os políticos que se colam á mesa pública durante  muitos anos e  passam a dar ordens pela barriga e não pela cabeça.Também a  autarquia local freguesia , nada tem feito para dar aquele local a dignidade e a importância que merece, apesar de nos últimos dez anos ter recebido da água do Luso cerca de cem mil contos, repito , cem mil contos  em tranches de dez mil por ano, resultado dum contrato assinado entre aquela entidade e Rui Marqueiro, enquanto presidente  da edilidade. Quanto á Junta de Turismo, maltratada por todos os poderes, mal o dinheiro lhe chega para pagar aos funcionários e manter alguns jardins mais ou menos apresentáveis na zona central da vila. Apenas a  Rui Marqueiro, se deve toda a estratégia que  dotou o Luso de estruturas desportivas e turísticas que não tinha,  desde o parque de campismo, ao pavilhão, á piscina e mesmo ao centro de estágios . Aliás se deve a Marqueiro toda a estratégia que modernizou o concelho acompanhando de forma eficiente um pouco do que se passou nos melhores  municípios do país. Terminada  a estratégia Marqueiro , deixou de haver estratégia municipal e hoje a gestão não passa da ‘precaridade’ corrente da coisa pública. Em termos de turismo, como já disse algures, com responsabilidades enormes para quem dirige o município ,  não há estratégia, não há vontade, não há conhecimento.   Juntemos ainda a este terceiro mundismo da Avenida do Castanheiro, e Quinta do Alberto, esta escondida  pela beleza sempre viva do arvoredo, também o acesso ao parque de campismo da Orbitur que alojou no ano passado oito mil  nacionais e estrangeiros.  Uma estrada digna  de acesso, nunca foi feita  e a que existe, sem  passeios para peões, estreita e com uma iluminação deficiente , é bem a imagem do conceito que a Câmara  da Mealhada tem  do turismo e do inexistente respeito  para com a vila termal do Luso. O mesmo é dizer, para com o turismo do concelho que traz riqueza e emprega, portas adentro , centenas de famílias e vende , contabilizados a baixos preços, mais de meia dúzia de milhões de euros anualmente, só
em quartos.  Comentários para quê ?
No coments , como na euronews !                                                                                                              Luso Maio,2006
   

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A SEDUÇÃO SATÂNICA

Temas locais-7

 

 

Ferraz da Silva

 

 

 

A SEDUÇÃO SATÂNICA

 

 

 

 

 


    Por que é que o  Enrico Giovanni Garofano veio ter comigo ao bar do segundo andar da sala de embarques quando me preparava para tomar descansadamente o pequeno almoço , um croissent , brioche confirmou a menina da caixa duvidosa da diversidade linguistica de tanta raça que ali passa, não sei. Ensaiou  o diálogo em castelhano correcto , respondi-lhe em italiano arrevesado e acabamos por concluir a minha lusitaneidade e a procedência lombarda  do meu interlocutor.   Entabulou uma  divertida conversa , atestando da jovialidade dos portugueses  que , no seu entender de versátil passageiro pelos quatro cantos do globo são, juntamente com checos  e chilenos, os mais simpáticos do mundo.   Eram  oito e meia da manhã   e eu tinha acabado de chegar no autocarro de Savonna depois de cento e noventa quilómetros a dormir, mais propriamente desde os Apeninos Ligures. Era simpático ouvir um elogio á minha estirpe. O voo levantava depois do meio dia e haveria de passar ainda ao terminal do low cost donde levanta a easy e por onde se viaja hoje a buon marché para quem não tem horas de chegada e de partida , e gosta de andar de Londres para Milão ,Munique, Roma ou Bruxellas como se viajasse pacatamente numa camioneta de carreira.   Lá fora soprava um vento  cortante ,  fazia um frio de rachar e no horizonte norte de Malpensa  a cadeia dos Alpes era um recortado manto de neve reflectida nos primeiros raios  de sol dum dia frio e limpo.

   Enrico Giovanni Garofano , milanês , sessenta e quatro anos de idade , é que me informou  no seu castelhano de Valhadolid , fez questão de sublinhar ,que a  duzentos quilómetros para oeste e apontava, estava o Monte Branco , mais para leste o Cervino, depois o Monte Rosa,  numa panorâmica em formato do ar condicionado da superfície vidrada da parede principal do edifício . A linha quebrada da montanha , uma cadeia contínua a traço irregular no horizonte visível era um citirama estendido a todo o comprimento-

   Nas horas de espera, ambos misturamos as façanhas duvidosas  de Américo Vespúcio, navegador florentino que deu o nome á América , às de Cristovão Colombo , um Genovês de Quinto , às de Fernão de Magalhães , de   Vasco da Gama , ele puxando galões italianos , eu lutando pelas minhas figuras da lustrosa porcelana lusa que ajudaram a erguer este pobre país onde nascemos.  E dizia-me  o entretanto meu amigo Garofano, que nós, portugueses , somos de facto simpáticos . Simpáticos , aventureiros , trabalhadores, mas pobres. E não chegou ao burro por uma questão de delicadeza. Pouco fazem, pouco produzem, pouco vendem, pouco exportam e compram tudo o que lhes põem na frente do nariz venha donde vier. Vocês não criam  riqueza , não tem arte, nem engenho, nem trabalho, para garantir uma vida europeia e um orçamento equilibrado ao mesmo tempo… não passamos da cepa torta é isso ?  perguntei eu , que é como se diz em português e acrescentei que, bem pelo contrário,  produzimos discursos, inventamos pedófilos, aturamos políticos,  engordamos a ganância empresarial, sustentamos administradores saltitantes, aperfeiçoamos a fuga ao fisco , o comércio ilegal, aturamos juizes em processos sem fim e sem culpados, alimentamos  a camorra do futebol ,  pagamos o déficit, para além da invenção das cirurgias a prazo e da cassete pirata imortalizada em música e vendida  nas feiras de norte a sul . Há muitos anos.  O Garofano olhou , riu-se e sentenciou que apenas tínhamos uma coisa boa, os emigrantes, dos melhores que há no mundo . De resto , éramos mais ou menos uma cambada de energúmenos a viver há uma dúzia de anos das esmolas da CEE sem sair da cepa torta. Mais ou menos, também  não tive argumentos contraditórios, ainda que tentasse sublinhar  a excelência das cirurgias a prazo , e das cassetes piratas uma versão melhorada da própria cassete italiana fabricada na china com dinheiro americano depois da globalização.  Para o meu já amigo Garofano, bom bom era a América central, o Panamá, o Equador, a Republica Dominicana, a Colombia , a Argentina, o Chile….Era aliás o seu destino com uma primeira paragem no canal do Panamá donde ficou de me enviar para o endereço que lhe dei ,um postal ilustrado. O problema do meu amigo Enrico, eram sete quilos a mais numa das malas que transportava consigo    Eu, legitimamente , não o podia  ajudar, não viajava via Madrid , isso de súbito tranquilizava-me permitindo-me apoia-lo nas suas interrogações e seguir viagem na tranquilidade do senhor.    Do Panamá , pensava Enrico seguir para a Venezuela, Equador , Chile e Argentina , as jóias caras da sua coroa de viajante . Sessenta e quatro anos de solteiro a contrariar um pai comerciante  face ás despesas do filho. Herdado,  vendeu-lhe o negócio e fez-se ao mundo de cidade
em cidade. Um bilhete de identidade sucinto, rápido, voluntário dum milanês global? Talvez, não fiz  tanta questão de averiguar essas espontaneidades de sala de espera dum viajante de low cost que me deixou a pensar na nova forma de viajar a preços módicos, como dizia ele, em aviões tão falíveis como qualquer dos outros , tal qual como o efeito duma oração balbuciada na catedral do Duomo ou em Santa Maria Delle Grazie. Tudo questões de fé.
   De facto, anda por aí a teoria do low cost aplicada a tudo , inclusive ás pessoas  ou, de forma trágica, cada vez aplicada  a um maior número de pessoas num movimento exponencialmente acelerado do qual se começam a distinguir os primeiros contornos dum futuro pouco promissor.     Em termos de sociedade, exterminadas as classes médias pelo triunfo da nova economia , subtraídos os ricos donos do capital , das riquezas e dos meios de produção,que restará senão uma classe de low cost a quem está destinada  a alimentação transgénica, os armanis de feira , as colmeias de apartamentos, a cultura ‘porreira’ e a hipoteca da vida ? A sedução satânica da guerra das estrelas mais o novo pecado de se saber demais pela leitura dos jornais?  Tudo junto . Quinze dias depois recebi uma fotografia do Enrico na margem sul do canal do Panamá e meia dúzia de letras dirigidas ao seu simpático amigo português , convidando-me a visita-lo em Milão , na via XX de Setembro , paredes meias com o Castello Sforzesco, no centro da cidade. Lá irei, pensei comigo, lá irei…                                                                                      Nervi,Abril,2006    .
  

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A JUSTIÇA DO ESTADO

TEMAS LOCAIS-6

 


 
 Ferraz da Silva

 

 

  A JUSTIÇA DO ESTADO

OU  O ESTADO DA JUSTIÇA?

 

 

 

  Eu tenho uma filha, isto é, eu tenho três filhas, mas uma delas, a mais nova, dá aulas. É professora do ensino secundário, licenciou-se em Coimbra, saiu a tempo e horas, trabalhou, não deu prejuízo ao país que lhe proporcionou a universidade e facilitou a bolsa aos pais no que diz respeito ás propinas, aos quartos, ás comidas , aos livros , ás sebentas, aos autocarros, a toda uma panóplia de despesas , pois que estamos a voltar aos velhos tempos de ser rico para tirar um curso superior que na maior parte dos casos não serve para coisa nenhuma  já que o melhor curso dos nossos dias são a cunha e o compadrio o resto é desemprego.

 Volta não volta vamos comer  uma quatro estações, elas vão na capricciosa , na primavera ou no peperonne,  na pisaria Caravela, em Cantanhede, um modesto e escondido reduto onde se comem, saídas de forno a lenha, as mais finas, mais saborosas e deliciosas pisas de toda a zona centro.   Tiveste, ou tiveram para dizer melhor, mais sorte que o pai, digo eu de vez em quando nos azedumes  do fim da tarde , para chorar sobre  a  preguiça  e a guerra colonial que me travou os instintos universitários depois  do pobre erário do meu pai não poder ir mais além que o magistério primário, eu mais vinte homens e mais quatrocentas mulheres,  hoje por sinal um curso superior , para muitos completado no tempo do Guterres com rios de dinheiro gastos pela CEE e pelo Estado, que somos  nós,  para oferecer um canudo  a gente que seguiu directamente para a reforma…    Coisas de Portugal que nunca se perceberam nem hão-de tão pouco alguma vez perceber-se !  Ora a minha filha mais nova , no pedregoso calvário que leva todos os anos ao ensino através duns concursos arrevesados onde o respeito do Estado  e do Ministério da Educação pelo cidadão-professor não  é nenhum , tratando-os , como se diz, abaixo de cão, num desses  anos em que foi colocada numa terra serrana do marão, já no sexto ou no sétimo  de peregrinação , tomou posse do lugar , cheia de sorte apesar de tudo, conformada como todos os fins do verão com o feliz contorno do  famigerado concurso, uma tarefa  mais difícil que a  descoberta do estreito da Patagónia por Fernão de Magalhães.   Lá foi para o marão onde já mandam os que lá estão e como  é  hábito, juntou-se a umas colegas do mesmo ofício , tudo gente perita na transumância do ensino, a fim de alugarem uns quartos numa casa para passar o ano, dar as suas aulas e receber ao fim do mesmo o mesmo dinheiro de sempre, que neste nomadismo curricular não se passa da cepa torta , as lecas são sempre as mesmas  do inicio de carreira pois na verdade, apesar de já levar oito ou nove anos de bons serviços prestados ao estado e ao ensino, não tem carreira nenhuma. A bem dizer não chega a  mil euros , para uma profissional do ensino com todos os estágios e currículos exigidos pela comunidade europeia. Há muita gente na mesma situação, para além dos que nem se podem queixar porque não tem emprego.  Trinta contos por cabeça, um quarto compartilhado, cozinha a meias. Não é do pior. Foi o comentário fugaz que me deixou pesarosa no fim de semana seguinte.  Acontece que  pelos mesmos dias chegou á povoação juíza nova. De cortar á faca para tanta respeitabilidade. Rapariguinha, jeans enfiadas nas canetas, sapatilhas  nos tornozelos, ares de esperta, cenário teatral e  talvez umas ideias metidas na cabeça á pressa e á martelada e vá de julgar os outros, enfim,  tinha perante o mesmo Estado as qualificações profissionais para exercer a profissão. Não fossem as aparências enganar, como diz o ditado, não parecia.    Assentava praça.Só que, com  ordenado três vezes superior á minha “stora” e casa posta com renda paga pelo próprio Estado, o mesmo é dizer, por nós,  fala-se que vitalícia,  e não sabemos se mais mordomias a juntar aos rendimentos , que estas coisas muitas vezes mantém-se secretas por não convir a muitos e muito menos á justiça  falar das injustiças e não venha um dia a  dizer-se que em casa de ferreiro, espeto de pau.    Certa ocasião tive a oportunidade de colocar a questão desta gente  ao secretário de estado do ensino respectivo, o actual, por sinal sentados á mesa do erário público nas voltas dum leitão assado á bairrada. Não se fazem rogados !   Como é possível  alguém trabalhar para o estado, para o ministério da educação ( a letra pequena é de propósito) durante oito, nove, dez, e mais e mais anos , não passar da cepa torta, não ter carreira nenhuma, manter uma situação cada vez mais precária, ser ultrapassado por gente que sai das universidades que nunca trabalhou ,mães separadas dos filhos  , casais separados , salários eternamente congelados, etc, etc, etc  para além da promoção do trabalho precário pelo próprio Estado, precário e a preços de saldo…?   Como é possível uns serem portugueses de primeira classe com ordenados , talvez justos, acredito no caso da juíza e outros sejam descriminados duma forma  violenta  a atentatória da dignidade das pessoas , no caso dos professores ?    Pois  que estava muito bem, respondeu-me o douto governante, era assim mesmo, que nada havia a mudar , leis e regulamentos para aqui , regras a cumprir para acolá, sindicatos para além, a conversa não lhe agradou, puxou dos galões e calou-se continuando a devorar prazenteiramente o leitão que o erário público lhe ofereceu, sem fazer reclamações ….Como os deputados faltosos, vão de férias pela páscoa para fora dum país cheio de dívidas que também só alguns têm que pagar !    É por estas e por outras, ainda muito piores , que estamos sempre na cauda da Europa.    Em minha opinião, e isto é apenas um artigo de opinião, a culpa não é de quem obedece, foi e é sempre de quem manda ! Têm por lei a justiça do chicote e usam a pedagogia das suas próprias barrigas. Mais propriamente, panças…                                                                                            S.Rocco,  Abril 2006

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A ÉPOCA DOS FOGOS

TEMAS LOCAIS -5

Ferraz da Silva

 

A ÈPOCA DOS FOGOS
   

 

  No verão passado, quando o fogo ameaçou a Mata do Buçaco fê-lo  pela freguesia de Carvalho, por lugares como Vale da  Formiga, Gondolim, Vale de Ana Justa, S. Paulo, Caldures, Mansores e outras pequenas aldeias escondidas na vegetação  cerrada das florestas por limpar.    Foram dias de angústia e de tragédia que se abateram sobre  populações quase indefesas num ano de escassez de água como poucos e, como mudou o governo, foram cada vez mais serôdios  os meios postos á disposição de quem os apaga.    Noutros tempos , no principio do verão , iniciava-se sempre a época balnear , não a dos fogos. O Luso, para quem mora nas encostas do Buçaco , limpava as suas ruas , os seus jardins, as suas casas, os  seus hotéis, as suas pensões, tudo se asseava  para dar inicio á época, com aquistas certinhos na chegada do rápido do meio dia vindo da estação do Rossio, mais tarde de Santa Apolónia e agora de parte nenhuma.  Tempos difíceis e de azáfama para toda a gente do lugar, um tempo  de dar resposta a um sustento anual rude,  magro, servil, chicoteado na palavra , ás vezes com assomos de piedosa simpatia e controlada piedade.   As termas, ao contrário dos campos de golf, dos centros de estágios, dos congressos temáticos , da cultura gastronómica popularizada  ou doutros desafios que hoje  preenchem a oferta da industria do turismo, geram uma permanência sustentada, pelo menos dos quinze dias de repouso e tratamento, numa unidade qualquer do parque de alojamentos. E  isso cria e mantém empregos , gere impostos para o Estado e para o Município , movimenta o comércio ou os divertimentos. É um dado adquirido, certo, regular e potenciavel.      O meu amigo Aurélio tem razão quando me diz isto , quando quer convencer um convencido da importância das termas e aponta  Mondariz e
La Toja e eu a  Caldea, no principado de Andorra , exemplos acabados do quanto podia ser o Luso se aproveitado nas suas potencialidades em termos de SPA com letras grandes , um verdadeiro motor de desenvolvimento capaz de preencher   por si só o parque de restauração e de alojamento para além da revitalização e aumento de todo o negócio subjacente a uma estância termal.
    Porém, as Termas  do Luso, graças á abundância da água , regressam  ás origens, isto é, percorrem o caminho contrário e, de atrofio em atrofio , não admira que cheguem ao fecho total num verão qualquer. É assim o capital sem rosto que  tem comprado e vendido o Luso  com o único objectivo de lhe acrescentar mais valias passando-o de mão em mão , após o amealhar  do lucro das sucessivas transacções.  Ontem de penas sul americanas, hoje de saias nórdicas, amanhã não se sabe de que  grotesco serrobeco, mas sempre sobre a capa dum português qualquer , um vasconcelos dos tempos hodiernos cujos valores já não assentam como dantes no honesto patriotismo das barbas empenhadas, mas na ‘heroicidade’ do dinheiro sacado  de qualquer maneira , a troco da venda, do pai , da mãe, dos próprios concidadãos, quanto mais da pátria antiga , um nome distante e sem significado, nada como o dinheiro , todo da mesma cor , do mesmo peso , do mesmo jeito.   Com avais de organismos, de autarquias, de Governos!!!  Hoje, a água do Luso  é propriedade das mesmas saias  que muitos escoceses traziam por aí nos anos sessenta durante as comemorações do 27 de Setembro, com um adido também de  “gona” axadrezada e um pelotão  ensaiado para um tatuo militar ou para um desfile aprimorado com cavalgaduras bem tratadas , à volta do Monumento. Era um mundo idílico, ingénuo, romântico ao ponto de se acreditar na moralidade , na justiça social e numa era melhor às portas de chegar. Enganos .O tempo vai  fechando as janelas do delírio  e a mistificação que é esse paraíso terreal que  o  coração pedia, acaba por ser impossível no espaço das nossas vidas. E de todas as vidas.     Nesta cavaquice de palavras dispersas foi-se o fio da meada inicial, da época dos fogos que veio substituir a época balnear . Tem agora data  sempre marcada para aparecer e aparece  todos os anos com a regularidade pendular que dantes tinha a época  termal. Com a desvantagem de não criar sustento , de não criar riqueza, de  tudo consumir e desbaratar na velocidade da sua passagem cega.    Conta a história que no tempo de  Sancho primeiro, O Povoador , calores abrasadores  provocaram num verão temperaturas altas e os incêndios alastraram por grande parte do reino. Dentre  os causadores do  mal, surgiram acusados uns madeireiros menos escrupulosos e uns carvoeiros   de pouca ética aos quais , apurados os factos, bem ou mal, mandou  o rei cortar a cabeça, considerando o crime de extrema gravidade.  Hoje , o que é que é grave neste país de salva vidas ?  Quem pôs o fogo, não se sabe e até os pinheiros ardidos empeçaram o corte nas vias burocratas…!Ano após ano, alguém é responsável pelo património comum ???? Ninguém… Buçaco,  2006
          

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DA TOCA DO BOÇAL


 

TEMAS LOCAIS-4 

 

Ferraz da Silva

 

DA TOCA DO BOÇAL

 

 

 

 

                    Conta a lenda , ela própria  com barbas até aos pés,  que  um negro ou um escravo fugido das galés se refugiou nas encostas do Buçaco,  ali por uns  penhascos íngremes onde ora  estão instaladas as ermidas do Sepulcro . Por ali terá carpido as  suas mágoas no arvoredo gentílico das serras abandonadas e quando , de vez em quando, por necessidades  primárias descia  aos tugúrios pobres dos gentílicos  pastores  roubando-lhes  rudemente algum pão para a própria boca, espalhou o medo , criou o mito e  deixou a lenda , apenas lenda, para a posteridade.            Desta toca ou cova que ainda existe, adveio o nome de boçal, da rudeza e boçalidade do onírico habitante e desta lenda que persiste na pouca literatura sobre o assunto , teria surgido o nome de Buçaco , um acesso ingénuo e inócuo á etimologia do lugar. Seja.          Presume-se que o Buçaco pré florestação fradesca ,  fosse uma mata original de carvalhos e castanheiros e onde o pilriteiro , ainda hoje abundante, tivesse um lugar destacado.  Presumo ainda,   na minha prosa livre de ignorância botânica, que    fosse igualmente lugar de abandono a devesa esquecida de D. João de Melo , e assim se compreende que a igreja, tão sedenta de bens celestes como terrenos, cedesse tão facilmente á ordem de santo Elias umas serras no lugar do Luso , também ditas de Carvalho e algumas vezes por insuficiência geográfica , de Alcova , este último baptismo por ignorância suprema dos meios de comunicação  do tempo. O que não justifica de modo nenhum o abandono a que chegou a Mata, que , com a saída dos monges , esteve para ser vendida em hasta pública. Valeu-lhe o amor e o  espirito cientifico de  Morais Soares  que a recuperou a valorizou substancialmente, até chegar ao pasto comum  do interesse  turístico e histórico ,  dos nossos dias.     De administração em administração, no tempo em que aos administradores estava reservado o papel de guardiões  da coisa pública , passou para o tempo de não ter administração nenhuma, apenas um horário de trabalho para os guardas florestais que  no último verão , em noites de fogos intensos , largavam regra geral o serviço á hora regimental  e a Mata ficava á mercê de meia dúzia  de observadores voluntários e mais alguns mantidos por autarquias  com os meios rudimentares ao seu alcance.

  Foi assim que a entidade a que chamamos Estado  geriu o património do Buçaco , um dos mais variados parques dendrológicos, nome  esquisito, dos parques da Europa.  Porém o Estado, por ser Estado, não tem culpa nenhuma , fossem os homens que gerem o estado, doutro estado, e o Estado poderia comportar-se , como devia ser, doutra maneira.

    De tal sorte, que uns amigos castelhanos da região de Cervantes que assistiam acidentalmente ao desenrolar dos incêndios, enquanto ao longe as chamas quase devoravam a cidade de Coimbra,  deitavam as mãos á cabeça sem compreender  onde   tem os portugueses a sua  massa cinzenta , nem que fossem cinzas comuns já consumidas no velho fogo peninsular , diziam, para , no mínimo, salvaguardar um bem que, afirmavam, lhes pertence igualmente por parte da Ibéria e mais isto e mais aquilo, foram a resmungar para Palanquita del   Duero nos arredores de Valladolid , onde vivem numa pequena quinta de agricultura biológica e fazem vinho da ribeira do Douro de se lhe tirar o chapéu. Também biológico. E pensam que o Buçaco é um bem demasiado caro para ser devorado em qualquer noite de qualquer  verão pelo apetite tresloucado dum maníaco qualquer a tocar citara ou pelo menor descuido duma simples falta de vigilância num lugar de tal jaez.

 Factos são factos , soletrei  com voz ténue   após a sua partida e, agarrando no meu próprio  toyota de dois lugares , virei á Cruz Alta algumas noites, sentei-me nos degraus  do pétreo palanque virado á negrura do  horizonte marítimo e convenci-me que estava de vigilância aos fogos ,como qualquer bombeiro, procurando, por descargo de consciência , uma justificação para aquilo que a não tem. E  por lá encontrei outra gente do mesmo trato a contornar a noite   olhando os cantos da serra na busca de alguma chama perdida que um dia há-de chegar  e consumir a mata, se a inconsciência dos homens persistir  na cegueira surda e absurda de não tratar correctamente aquilo que receberam de herança, de cultura e de valor.

   Recentemente, o Buçaco recebeu mais um contributo para o seu entendimento  e compreensão , a edição do livro de Paulo Varela Gomes ,” Buçaco, O Deserto dos Carmelitas Descalços.” É um livro que vale a pena ler . Para entender e meditar.Para perceber a responsabilidade que pesa sobre cada um de nós e sobre quem tem poder sobre o património botânico, arquitectónico e paisagístico que ali está , para que não se deixe perder pela constante incúria o conjunto monumental que ainda resiste. Por milagre ? Sabe-se lá !   Gostaria de transcrever, com a devida vénia , a própria definição que o autor encontrou , para apresentar a sua obra. Diz ;”…De facto , o leitor não tem entre mãos mais um ‘guia’ do Buçaco mas um trabalho de história da arte e da arquitectura que se ocupa do significado artístico e religioso dos extraordinários edifícios e da mata criados pelos Carmelitas no Buçaco. Este significado ultrapassa em muito as fronteiras tanto da arquitectura como da cultura portuguesas , interessando a história e a cultura ocidentais como um todo. O Buçaco é património mundial –que não precisa desta designação ou da chancela da UNESCO para ser uma obra absolutamente extraordinária que pode e deve atrair visitantes cultos de todo o mundo.”

    Buçaco , Fevereiro,2006

 

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EM VIAGEM

TEMAS LOCAIS –3

 

 Ferraz da Silva

 

 

EM VIAGEM
   

 

    Diz Adriano Sofri numa das suas últimas crónicas  que, entre as coisas boas da vida, viajar de comboio é uma delas. Concordo. Tenho também comigo esse jeito gostoso de saborear uma boa viagem no conforto duma carruagem colectiva correndo animada e célere sobre a velocidade com que se percorrem  hoje os  perfis dos caminhos de ferro por essa Europa fora.       No mês passado , aguardava  na gare de Matabiau, em Toulouse, o comboio para Nice e Vintemiglia e tinha comigo as intermitências da morte , do saramago, que me entretinha a ler sentado num  banco corrido da linha dois , onde havia de surgir minuto menos minuto a locomotiva , quase silenciosa , a puxar  quase sem esforço , uma  dúzia bem contada  de carruagens nem muito nem pouco apinhadas de gente.      Entretido na leitura dos abismos  do nosso prémio nobel, fui-me apercebendo, inconsciente,  de uns pés que se deslocavam para um lado e para outro  na frente  do meu banco, apêndices a que  pouco liguei tão pouco me passava pela cabeça alguém me procurasse ou conhecesse naqueles confins do midi , entre o garonne e os briques avermelhados da cidade , para mais em trânsito para o leste, em plena gare , ao principio da manhã.      Porém, a sucessão dos passos , entremeados de pequenas paragens não longe da minha alheia figura, acabaram por fazer-me levantar os olhos para a estranha personagem, não pela curiosidade despertada, mais pela sugestão inconsciente nas arrumações do sótão,  como um raio de luz que passa e bate e nos acorda para um olhar qualquer.      Para espanto meu, de imediato, o homem dirige-me a palavra  em português corrente .Teria visto o saramago, pensei, perguntando-me se eu era português, sim, sou português , e por acaso não é do luso , sim , por acaso sou do luso, donde é que você me conhece , ou é também daquela  região, eu sou o alfredo , o alfredo pintas , andamos na escolas juntos  na professora laurinda…não se lembra…???      Dei meia volta ao miolo já arruinado  em muitas questões da memória mais longínqua e lembrei-me perfeitamente do pintas, então não houvera de lembrar …o pintas, as réguadas, o leite e o abreu, os jogadores da bola, o exame da 4ª classe, a distinção … bota para cá um abraço , então que é que fazes aqui ?     Palavra puxa palavra , rapidamente pusemos no dia possível as nossas andanças pelos caminhos do mundo e vim a saber, satisfeito , que o meu velho, no bom sentido, colega de escola dos tempos em que se levavam umas bofetadas do professor , se aprendia alguma coisa e havia disciplina , embora não seja cultor destes predicados pela simples retórica, era um senhor empresário do ramo do mobiliário no centro da cidade. Importador e exportador, ora essa!!! “Ganda” pintas, apeteceu-me dizer…    Bem sucedido, fiquei a saber depois , enquanto em simultâneo com as suas palavras serenas, convictas e humildes, me nascia interiormente uma satisfação   espontânea  sem limites e sem explicação. E de repente tudo se misturou , a escola e o mundo , o ontem e o agora , a mágica aparição dum amigo pregado na infância e um  senhor de sucesso , francês por fora , por dentro a alma lusa a recordar com saudade o tempo e a distância que nos uniu e une em qualquer ponto do globo, ao chão nativo.    Não tardou que a chegada do comboio, interrompendo estes minutos sem tempo á maneira duma qualquer teoria da relatividade, não permitiu levar mais longe que  a anotação de uns simples números de telemóveis, o nosso encontro .Promessas de voltar e selamos num abraço feito de toda a idade o nosso encontro feliz. E repetimos solenes havemos de regressar, quase jurando.   Já na via de Perpinhão e Nimes , com o comboio a devorar quilómetros na sua marcha certa, fui constatando a pequenez do mundo  a par da força do homem português obrigado a aplicar o seu engenho longe do berço, da escola   ou dos amigos , um esforço suplementar por onde lhe vão abrindo as portas ao trabalho e ao êxito, bem contrastantes com as portas da pátria , quase sempre fechadas pelo oportunismo   demagogo dos príncipes , dos reis, dos fidalgos ou dos eleitos.   Razão tem o Sofri. Viajar de comboio. Das coisas boas da vida ! E dá-nos sempre ahipótese duma libertação desse pequeno mundo onde nascemos , acanhado por si  , feito de nada,  perpetuamente  aberto para quem sai e cerrado na mingua de quem fica.    Nervi, Fevereiro ,2006 PS- Eu cá tinha as minhas razões . Confirma-se. Inatel em ruínas ? Como fazer ? Simples… O próprio boletim municipal  da nossa Câmara ensina o método,á  traulitada.  Cito  ”…a situação que se que se verifica há muitos meses  de portas exteriores arrombadas , janelas abertas e água da chuva a cair no interior do edifício obriga-nos a pensar que estamos num país de loucos, incompetentes e irresponsáveis…”  1)   Será que este país, da mesma cor da Câmara,  se estenderá ao  Inatel, o organismo estatal do turismo do mundo do trabalho ,e este, por sua vez,   estará  entregue a uma cáfila de bandidos que não sabem nada do ofício ?    Será que com este linguajar se vão obter respostas , diálogo e soluções ?   Será que esta  imagem, custando por mês á volta de trezentos contos antigos ,legal e legitimamente pagos mas sempre é bom saber-se , com dinheiro dos contribuintes, nos interessa ?  Será que três meses não  deram para fazer mais nada ? Ou trata-se de livrar a água do capote ?  Sabendo eu da extrema facilidade com que se marcaria uma reunião com o presidente daquela instituição mediante uma simples chamada telefónica, diabos se entendo a caturrice política que se estriba na denúncia albardada das situações fazendo tábua rasa do abc da cidadania ! 1)Boletim Municipal Mealhada  nº 16,Jan.Fev, página 7  

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