A DEMOCRACIA DO BACO
TEMAS LOCAIS-18
Ferraz da Silva
A DEMOCRACIA DO BACO
São de antologia afirmações proferidas na última Assembleia Municipal que tratou da discussão do plano de actividades e orçamento para o ano que vem. A primeira tem a ver com a postura do presidente da Câmara que se recusou a esclarecer a oposição, ou seja a própria assembleia sobre o assunto em discussão , as grandes opções do plano para o ano que segue , a segunda a de um vereador que afirmou que estão a ‘acontecer grandes transformações, nomeadamente com o investimento em jardins públicos ‘, transcrevo. A primeira afirmação tem conotações políticas preocupantes pois entra de facto, como refere a mesma oposição, no campo do despotismo, da cegueira umbilical e da falta de bom senso. Não foi para chegar a este desiderato que se fez o 25 de Abril, nem é esta a filosofia politica, tanto quanto me é permitido supor, que persegue o partido que está na base da eleição autárquica que colocou este executivo no poder. Decorre sim do autismo, do cabouquismo e do abuso político, talvez fruto do perpetuar das mesmas pessoas no poder. E da negação pura e simples dos mais básicos princípios da democracia tal como a entendemos nos nossos dias. A Assembleia Municipal é o areópago municipal por excelência onde tudo deve ser desassombradamente colocado e discutido e retirar-lhe esta função, seja pela má consciência dum presidente de câmara, seja por outro motivo qualquer, é esvaziar por completo as suas funções e retirar aos eleitores o direito de, através dos seus eleitos, participarem, como manda a lei, na vida do município. A situação criada não dignifica ninguém, Assembleia Municipal incluída. Já o mesmo número do mesmo semanário da nossa terra donde recolhemos estas considerações, refere na secção das actas da Câmara um outro episódio onde a falta de democracia é patente, isto é, a propósito duma interpelação sobre os viveiros florestais feita pela oposição, diz o mesmo presidente da Câmara que os vereadores daquela oposição não conhecem as diligências feitas por ele próprio, mas irão conhece-las… (mais tarde, subentende-se?????????) Será que as reuniões de Câmara não são para que os vereadores conheçam o que se passa na Câmara? Será que a câmara é apenas o seu presidente? Será que não foram eleitos para trabalhar em colégio? Será que não devem conhecer em conjunto os problemas do município, que são os nossos, e será que não deverão procurar em conjunto as soluções? Será que ás oposições que representam quase metade do eleitorado está reservado o papel de observadores silenciosos? Será que a democracia é isto ? Ou será que a Câmara já é propriedade plena do seu presidente? Fiquemos por aqui e vamos ao segundo ponto que tem a ver com as afirmações dum vereador de urbanismo, segundo parece, que diz e repito estarem a acontecer ‘grandes transformações, nomeadamente com o investimento em jardins públicos …’De facto, do que este município estava a precisar, era de transformações em jardins. O desenvolvimento passa especialmente por aí. Estes são os grandes problemas do município da Mealhada, já todos o deviam saber. Faltava-nos apenas um vereador politicamente astuto, experiente e esclarecido para, como Colombo, por o ovo de pé. De jardins é que precisamos, o nosso futuro está nos jardins. O ganha-pão dos nossos filhos será o de jardineiros? Santo Deus, que nem sou crente, nos valha, mais aquele Baco de mau gosto que colocaram na estrada para Coimbra em cima duma pipa de vinho… Faz parte das grandes transformações? Será o futuro do município? Luso, 12,2006