Friday, December 29, 2006

A DEMOCRACIA DO BACO

 

 

TEMAS LOCAIS-18
   

 

Ferraz da Silva  

 

A DEMOCRACIA DO BACO         

 

São de antologia afirmações proferidas na última Assembleia Municipal que tratou da discussão do plano de actividades e orçamento para o ano que vem. A primeira tem a ver com a postura do presidente da Câmara que se recusou a esclarecer a oposição, ou seja a própria assembleia sobre o assunto em discussão , as grandes opções do plano para o ano que segue , a segunda a de um vereador que afirmou que estão a ‘acontecer grandes transformações, nomeadamente com o investimento em jardins públicos ‘, transcrevo.   A primeira afirmação tem conotações políticas preocupantes pois entra de facto, como refere a mesma oposição, no campo do despotismo, da cegueira umbilical e da falta de bom senso. Não foi para  chegar  a  este desiderato que se fez o 25 de Abril, nem é esta a filosofia politica, tanto quanto me é permitido supor, que persegue o partido que está na base da eleição autárquica que colocou este executivo no poder. Decorre sim do autismo, do cabouquismo e do abuso político, talvez fruto do perpetuar das mesmas pessoas no poder. E da negação pura e simples dos mais básicos princípios da democracia tal como a entendemos nos nossos dias.   A Assembleia Municipal é o areópago municipal por excelência onde tudo deve ser desassombradamente colocado e discutido e retirar-lhe esta função, seja pela má consciência dum presidente de câmara, seja por outro motivo qualquer, é esvaziar por completo as suas funções e retirar aos eleitores o direito de, através dos seus eleitos, participarem, como manda a lei, na vida do município. A situação criada não dignifica ninguém, Assembleia Municipal incluída.  Já o mesmo número do mesmo semanário da nossa terra donde recolhemos estas considerações, refere na secção das actas da Câmara um outro episódio onde a falta de democracia é patente, isto é, a propósito duma interpelação sobre os viveiros florestais feita pela oposição, diz o mesmo presidente da Câmara que os vereadores daquela oposição não conhecem as diligências feitas por ele próprio, mas irão conhece-las… (mais tarde, subentende-se?????????) Será que as reuniões de Câmara não são para que os vereadores conheçam o que se passa na Câmara? Será que a câmara é apenas o seu presidente? Será que não foram eleitos para trabalhar em colégio? Será que não devem conhecer em conjunto os problemas do município, que são os nossos, e será que não deverão procurar em conjunto as soluções? Será que ás oposições que representam quase metade do eleitorado está reservado o papel de observadores silenciosos? Será que a democracia é isto ?  Ou será que a Câmara já é propriedade plena do seu presidente?     Fiquemos por aqui e vamos ao segundo ponto que tem a ver com as afirmações dum vereador de urbanismo, segundo parece, que diz e repito estarem a acontecer ‘grandes transformações, nomeadamente com o investimento em jardins públicos …’De facto, do que este município estava a precisar, era de transformações em jardins. O desenvolvimento passa especialmente por aí. Estes são os grandes problemas do município da Mealhada, já todos o deviam saber. Faltava-nos apenas um vereador politicamente astuto, experiente e esclarecido para, como Colombo, por o ovo de pé. De jardins é que precisamos, o nosso futuro está nos jardins. O ganha-pão dos nossos filhos será o de jardineiros?   Santo Deus, que nem sou crente, nos valha, mais aquele Baco de mau gosto que colocaram na estrada para Coimbra em cima duma pipa de vinho… Faz parte das grandes transformações? Será o futuro do município?                      Luso, 12,2006                                                                                  

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O SONHO DO EMPREGO

TEMAS LOCAIS-17


 

Ferraz da Silva

 MUNICIPIO DA MEALHADA O  SONHO DO EMPREGO

 

 

   Só por milagre o município da Mealhada fugiria ao angustiante problema do desemprego no país, á estatística que tem rondado os sete por cento ano após ano, muito mais gravosa se os sucessivos governos não recorressem aos mais diversos malabarismos desde o emprego precário, aos contratados a prazo, ás acções de formação e outras habilidades semelhantes para calar os números, como dizia um reitor universitário muito recentemente a propósito duma outra questão, torturando os números até á confissão.   Para que o município da Mealhada escapasse a esta situação, haveria de ser obrigatóriamente uma espécie de paraíso português onde o rendimento das pessoas seria superior ao resto do país, o nível de vida melhor, os impostos cobrados maiores e os jovens, sobretudo os jovens, não tivessem que ganhar a vida fora do município e no estrangeiro. Além da pressão que o fenómeno acarretaria em termos de procura de emprego por candidatos de toda a região, uma pressão semelhante, consequência do mercado que não sendo grande nem qualificado, faria descer os salários para níveis de miséria.    Mas estas condições não se verificam, bem pelo contrário, estão longe de verificar-se mesmo num curto prazo alargado se quiséssemos ser optimistas.      Convém entender em primeiro lugar o que se considera emprego, quer no sentido da sua complexidade, da sua valia em conhecimentos, do grau académico para a sua realização, de now out trazido para o município, de possibilidades de progressão empresarial ou pessoal, de ambição, de rendimento, etc., etc., etc. Se entendermos o emprego nos limites da subsistência, sem levar em conta o trabalho qualificado e dermos a importância que não tem á mão de obra barata e á exploração talvez o concelho da Mealhada não seja dos piores, mas está mesmo assim bem longe do pelotão da frente. É evidente a inexistência no município de estruturas avançadas quer a nível de dimensão tecnológica ou de indústrias de ponta, de grandes empresas ou até ao nível de distribuição de rendimentos ou geração de impostos. As pequenas empresas que constituem o tecido empresarial do município são praticamente de dimensão familiar, de pouca criatividade e dinamismo, regra geral pouco abertas ao investimento e ao risco e os apoios institucionais correspondem a este cenário tradicional e estático.   É ignorância e disparate defender que no município não há desemprego quando o mesmo município passa por ser, em grande parte, um dormitório para naturais e para novos residentes. Daí mesmo a principal razão do crescimento demográfico verificado no último senso e não do aumento do tecido gerador do emprego e muito menos da riqueza criada. Que se saiba, o maior empregador do concelho reduziu sim, para menos de um terço o seu quadro de pessoal nos últimos anos e é sabido que a Mealhada tem uma colónia de emigrantes nos Estados Unidos da América e outra na Europa que não são insignificantes, bem como um número igualmente significativo de gente da industria hoteleira a trabalhar por este país fora. A meu ver, o emprego efectivo decresceu, não aumentou e deve-se perguntar para onde foram as centenas de despedidos que referimos.   Mas talvez mais pesado que tudo isso, pelos prejuízos que o presente e o futuro possam trazer ao município, constata-se igualmente que a maior parte dos munícipes com classificações académicas superiores não encontram trabalho no seu próprio concelho e são obrigados a ir procurar trabalho em municípios alheios e longínquos deixando por isso a mais valia dos seus conhecimentos por mãos alheias.  Um problema sério ao qual o município não tem sabido responder positivamente, apesar de se ter juntado a associações de desenvolvimento e inovação de concelhos vizinhos, das quais não soube obter qualquer benefício por clara falta de iniciativa ou por ter tomado as iniciativas erradas como o estudo dum nó rodo ferroviário onde gastou alguns milhares de contos sem que ninguém lhe tenha encomendado o sermão ou dum visionário campo de golf a reboque de interesses que estão longe de serem os locais e onde já gastou igualmente cifras consideráveis.    Num mundo difícil e competitivo como o de hoje é impossível fazer alguma coisa sem uma estratégia claramente definida para execuções planeadas evolutivamente, o que parece ter deixado de existir apesar da Mealhada já ter tido essa experiência com óptimos resultados.Municípios que sabem recorrer sem hesitar ao crédito antecipado, talvez uma descoberta sua em termos públicos, não podem funcionar com subterfúgios, sem ideias claras e estratégias definidas uma vez que não vão responder nem pagar por esse futuro longínquo. As vitimas principais , se for o caso, são portugueses inocentes. A meu ver vergonhosamente inocentes quando se trata de imputar aos nossos filhos a nossa incompetência geracional.  Tudo deriva hoje de estarmos numa sociedade capitalista, agressiva e desumanizada aberta a desafios que se ganham ou se perdem com tecnologia, ciência, trabalho e competividade . Num universo que, queiramos quer não é muito pouco sério nos seus procedimentos.    Quanto a taxas de desemprego por decreto, meu Deus, Estaline já lá vai, o  o muro de Berlim caiu há muito tempo e o mundo mudou como se atravessasse um abismo. E milagres não há, embora possa sempre haver quem os queira fabricar. É humano .  Luso,Nov,2oo6

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Romanos,soldados,barbaros,escravos

CRÓNICAS LOCAIS-16
  

 

 

  Ferraz da Silva   

 

   ROMANOS, SOLDADOS, BÁRBAROS e ESCRAVOS     

 

 

   Com trinta e dois anos no bom caminho , os portugueses não têm grandes razões para acreditar na classe política desde que foi restaurada a  democracia e enterrada a ditadura que a precedeu. Não aconteceu pela primeira vez na história pátria este fenómeno e nem  há-de ser a última  a ter lugar se história continuar a haver.    Como tantos outros, fui daqueles que  conheceu a época salazarista  que nos marcou a infância  com  dogmas  da igreja e da nação e nos amputou para sempre de alguns direitos mais comuns que foram  desalojados dos nossos espíritos por inércia , ambiguidade e omissão. Porém, quando numa manhã de trabalho  fui despertado pelos tambores julgados impossíveis duma libertação, convenci-me que esse seria , como cidadão, o dia mais importante da minha vida política e pátria, uma qualquer aljubarrota dos nossos tempos estava aí  ou a revolução francesa estava a entrar finalmente pela nossa porta dentro. Uma ilusão que se estendeu naquela época ao comum dos portugueses da mesma maneira que um eclipse do sol nos deixa pela primeira vez estupefactos e ao mesmo tempo inebriados.   Com o passar dos tempos a revolução esboroou-se . Não caiu como castelo de cartas ou de legos , mas desfez-se dia a dia, hora a hora, minuto a minuto cindida partícula a partícula numa poeira cada vez mais fina até desaparecer por completo da esperança e da memória.    Por isso que trinta e dois anos depois pasmo perplexo, quando os empresários deste país declaram através das suas organizações que não podem pagar diariamente um simples café a todos os seus empregados. Colaboradores , acrescentaria eu , que é o que os próprios  lhes chamam com referência ao marketing chauvinista de outras referências léxicas mais em dia com a vaidade individual de cada um. Sessenta cêntimos , exactamente o preço dum café e não já em todo o lado , para não falar em concreto no verdadeiro furto que é toma-lo , como outros bens , nas áreas de serviço das auto estradas onde os mesmos patrões pagam e não refilam talvez por ficar tudo entre os mesmos.   Sessenta cêntimos será o eventual aumento num ordenado mínimo  que põe em risco o tecido empresarial dum país , o mesmo país que costuma pôr-se em bicos de pés sempre que julga ser o primeiro em qualquer coisa da europa e do mundo, como recentemente o foi com o  ‘glorioso’ no primeiro lugar do guinesse book embora em campo , quando é preciso mostrar cada um o que é que vale, seja tudo moeda falsa ?   Trinta e dois anos de democracia também tem sido mais ou menos o tentar convencer-nos que os políticos que estão na mó de cima são sempre os primeiros, os melhores , a excelência , a nata ou gesta  da mais velha nação da europa , ou seja , em termos de guinesse e velhice , a primeira , circunstância que infelizmente não nos tira do último lugar entre os nossos parceiros que são os primeiros  ao nível de parâmetros que nos interessam muito mais que cegueira em bicos de pés.    Trinta e dois anos de excelência e duma fonte de ajudas a correr diariamente vinda da comunidade não sabemos clara e totalmente para quem nem para quê, oxalá a história daqui a cinquenta ou cem anos seja capaz de esclarecer os vindouros de como as coisas se passaram , se ainda formos autónomos na europa e não autónomos  na Espanha, para tudo terminar por agora , trinta e tal anos depois num monstro chamado défict , monstro que a grande maioria dos portugueses não ajudou a fazer nem recebe reformas por o ter feito  , mas que inexoravelmente  está condenado a pagar ?    Com medo do novo adamastor  se agitam pois os políticos. Perspectivando  desde já os próximos ciclos eleitorais , são incisivos  no liquidar das contas , inexpugnáveis na injustiça da redistribuição , intolerantes no permanente sugar do corpo anónimo da nação portuguesa, o que trabalha e paga impostos e finalmente  até no retirar da esperança para os próximos dois anos  da nau da governação.   Se isto não é um calendário eleitoral, eu vou ali e já venho… como dizia o meu avô sempre que o árbrito roubava ao sporting um golo de aflitos  que o impedia de ganhar o campeonato …! Mas pesa  nisto, como há trinta e dois anos tem pesado , e mais quarenta para tráz e por aí fora, a indignidade de quem governa para quem é governado.     Falta a tolerância da esperança, para não dizer a força em volta dum projecto que os portugueses vejam, sintam e recebam  como seu e dele beneficiem como se fossem um corpo e uma alma comuns. Falta a capacidade de esclarecer, informar e mobilizar todo o concidadão no sentido de sermos dignos, de termos consciência, de termos o orgulho de sermos generosos e ao mesmo tempo portugueses conscientes do caminho traçado. E avançar como um todo.  Mas isto, esta consciência e este envolvimento não se faz com a miséria e muito menos com a promessa de mais miséria vindoura. Isto não se faz com o decantado fado do sacrifício de hoje para se colher amanhã. Não se faz penalizando os fracos , cerceando o pequeno arremedo da  nossa democracia económica á grande maioria , não se faz ditatorialmente  porque , apesar das eleições legitimarem as pessoas, não legitimam tudo o que as pessoas fazem  muito menos o que prometeram não fazer.

   A este envolvimento  os portugueses não estão habituados, nem interessa que o estejam ,  pois seja como for, com deficit ou sem deficit, serão sempre os mesmos cidadãos a pagar crises após crises e serão sempre os mesmos beneficiados a colher os muitos ou poucos louros da resolução dos problemas. No estádio  tosco e bárbaro em que nos encontramos , a democracia política impropriamente dita , chega a todos , a económica  porém, chega apenas a alguns. Por falta de dignidade ,sim.

   assim era no império romano quando coexistiam com muito menos  cinismo, romanos, soldados , bárbaros e  escravos. E tudo ruiu.                                                                                         LUSO, Novembro 2006

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AINDA A PROPOSITO DUMA EXPOSIÇÂO

 TEMAS LOCAIS – 14
  

 

 

 

   AINDA A PROPÓSITO DUMA EXPOSIÇÃO     

 

 

 

     Pela época do natal, a Bélgica é um país frio e húmido  e quando se deixa o metro na praça Shuman , em Bruxelas , é preciso puxar a gola do sobretudo ,agasalhar o pescoço com   e  procurar  alguma comodidade no macio dos tecidos que nos envolvem como charuto.     Naquela tarde, á  hora crepuscular , o ar ameaçava mesmo  fazer cair sobre os transeunte alguns flocos de neve e dentro de casa, só o aquecimento central a todo o gaz.  permitia despir a roupa grossa de inverno e retornar ás mangas de camisa  trazidas com alguma  ignorância do sul.     Para jantar, nada mais apetecível que o conforto típico dum restaurante local  para transferir , como por osmose, o prazer gastronómico para o calor corporal . Foi por isso que procuramos na rua Franklin Rosevelt , pensando talvez nos custos ,  uma pizzaria  italiana, qualquer coisa parecida com la bella napoli ou ou le fiori della Toscana já não me recordo bem , mas  recordo que  no acanhado das divisões profusamente ornamentadas o empregado nos arranjou uma pequena mesa de dois lugares a um canto recatado logo ao fundo das escadas para o andar superior.    Não sei que tipo de pizza pedimos, mas acompanhamos com duas cervejas de copo e quando   a meio da refeição deglutíamos  descontraídos e satisfeitos  o sabor da pasta  siciliana com meia dúzia de alcaparras no cocuruto, eis que irrompe sala dentro uma espécie de jogral que , surpreendentemente , soltou da sua garganta de tenor  as notas do sole mio  com comprometido empenho, acompanhado ao acordeon com ritmo e calor incalculavelmente latinos.  Depois, a troco de coisa nenhuma, percorreu uma a uma  as mesas cheias de gente das salas e corredores do piso inferior misturando o canto com sorrisos  e simpatia quanto baste para dar á refeição simples duma pizzaria típica , um valor acrescentado de calor e de bem estar..  Nos quinze dias subsequentes , em Bruxellas , procurei sempre  que pude aquele lugar tranquilo para comer, beberricar e conversar em paz , fidelizado temporariamente á simpatia do sítio, uma  consequência do marketing eficaz produzido pelo inesperado cantor e misturando as pisas meridionais com as mais de setenta marcas de cerveja que se fabricam , muitas em formato artesanal, numa circunferência de poucos quilómetros em redor de Waterloo.   Isto vem a propósito da  minha última croniqueta sobre  a arte de bem acolher aqueles que nos visitam , se temos como objectivo manter e desenvolver exponencialmente  uma actividade que é capaz de nos proporcionar francos rendimentos e melhor qualidade de vida , coisas que só o tempo , a experiência  , a tradição e a formação constante , permitem.   Ao visitar a exposição Luzo-Bussaco, Memória e História , numa primeira vez com alguma  rapidez , numa segunda com tempo suficiente para degustar e saborear   as etapas da memória  colectiva, acabei a relembrar este episódio simples da pizza e do sol é mio , e a procurar ligar o que tem uma coisa a ver com a outra em termos de acolhimento.     E tem verdadeiramente muita coisa a ver. É que nestes pedaços de história do Luso e  do Buçaco, encontra-se , há , vive, esse saber  fazer, esse saber receber, esse acolher que são a escola  e a prática de muitos anos de metier. Esta mais valia que não se deve a uma formação académica e esporádica mas que assenta num conhecimento feito década após década, que se enraizou e vai ficando gravado pouco a pouco na consciência de cada um. Por isso as terras da industria do turismo são diferentes. Por isso  as gentes que trabalham na industria são diferentes, tem a sua  lógica e a sua deontologia próprias e vivem num mundo que , no caso dum pequeno concelho como este  , é visto pelos outros concidadãos como um  privilégio difícil de digerir , visão que estendida a eleitos  estranhos, conduzem á não fixação de metas nem objectivos e a prazo mais longo , ao definhar e á ruína  de bens essenciais criadores de riqueza e de bem estar. A industria do turismo é uma industria dinâmica , viva e que trata com pessoas . A compreensão deste âmbito e dos conceitos que lhe estão naturalmente adjacentes é fundamental para se poderem criar espaços de abertura ao investimento e á própria reprodução deste  mesmo investimento , irrequieto e vivo como a própria água donde brota.     O Luso precisa tanto de estruturas  e equipamentos de qualidade como deste savoir  faire ganho de geração em geração  e  precisa ainda que quem governa , quem manda, quem decide, quer no âmbito da esfera local , quer na esfera dos organismos próprios do turismo , perceba o que é turismo, o que é receber , o que é qualidade  de equipamentos e de vida , o que são estruturas e que o que é a sustentação de todo este património que constitui a riqueza duma vila e dum concelho e que contribui séria e decisivamente para o desenvolvimento municipal e regional.     Infelizmente , tem-lhe passado ao lado de forma sistemática o poder do mando , uma das razões principais para a maturação serôdia e apodrecida  do compromisso  turístico, apesar das termas do Luso e da Mata do Buçaco continuarem a ser,  na zona centro, dois recursos de importância vital para  o sustento da indústria.    Só a  incapacidade de se perceber  este fenómeno permite o adormecimento responsável dos  problemas estruturais  , trocado simples e comodamente pelo encolher dos  ombros  sobre a  cobrança eficaz do benefício da água.      Nada que se pareça com a pizzaria de Bruxelas mais o seu magnifico cantor na relativa medida do seu marketing , bem pelo contrário, trata-se apenas de limpar a carne á refeição grotesca  deixando  á terra  o osso , servido de bandeja por criados de mesa, de quarto, cozinheiros , famílias , dispenseiros , grumetes ou corretores que fazem a diferença entre a apresentação e a representação. Entre  uma pizaria de Bruxellas , á medida de toda a comodidade e uma tasca  sem qualidade dum aglomerado vulgar.                                                                       Nervi, Setembro,2006

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IR A ROMA

 

Temas Locais

 

 

Ferraz da Silva

 

 


 

 IR A ROMA E NÃO VER O PAPA - 15

 

 

 

           Ir a Roma e não ver o Papa é qualquer coisa como ir ao mar e não ver navios  mas foi o que me aconteceu na tarde do último  domingo, o papa não  estava, a audiência não se realizou e substituí a merenda volante na Piazza de S. Pedro por uma ida ao Ikea da Via Anagnina com um almoço de almondegas suecas em molho de graddsas e marmelada de mirtilo entre o rosa e o encarnado, sentado num sofá no vitral alongado da anárquica cantina perante o trânsito caótico da via Tuscolana em direcção ao centro da cidade.

        Este senhor Ikea, um sueco que é tão só o  quarto mais rico homem do mundo inteiro, tem a bondade de nos tentar vender ao mesmo preço, em Roma, Amsterdão , Paris ou em Lisboa, estas saborosas almondegas importadas em gelo da Suécia, descongeladas por aí  num microondas industrial, metidas depois numa ementa entre saladas locais e um doce igualmente de mirtílo e vendidas a menos pouco de cinco euros em capitais da europa e mundo fora.

      O senhor Ikea qualquer coisa ou o senhor qualquer coisa Ikea, um homem transparente que até dizem que utiliza os transportes públicos para fazer poupanças sem se saber para quê depois de começar a vida a vender parafusos ao kilo , é um fenómeno do capitalismo vencedor e luta a todo o custo para igualizar o mundo na senda aliás do sucesso da coca cola  ou do mecdonalde , este a procurar  abolir da dieta lusitana o cozido á portuguesa em prol do hamburguer americano e da batata frita engordurada.

       Ora o senhor sueco   vende por aí de tudo ao desbarato nas suas muitas lojas, desde camas de ferro a  partir de  cinquenta euros , colchões ,cortinas, lençóis, candeeiros, pratos, garfos, sofás, lâmpadas, flores , pinturas, despertadores, tapetes persas, penicos, até bolas de berlinde, cozinhas ou pasta de salmão . Uma feira da ladra made in china , india, bangladech , srilanka  ou na vizinha polónia , como se diz agora, a preços competitivos e que, mercê dos baixos custos  da mão de obra  e dumas  pequenas etiquetas a garantir um desenho escandinavo, consegue juntar tanta gente diariamente como a feira de espinho ou do relógio  de semana a semana.

    Por estas razões de ajuntamento, preço, centralidade , cosmopolitismo , desenho e almondegas, comprei  ao senhor ikea um quadro a óleo de oitenta por quarenta para pendurar atrás da porta de entrada da minha casa de habitação. Porém , durante o  ano seguinte vi o quadro pendurado em tanto lado  que acabei um dia por entrar na papelaria fernandes do largo do rato  em lisboa, comprar um kit giotto  para iniciados na pintura a óleo, curiosamente também made in china,  e assim comecei  a fazer isto  e aquilo, isto é,  a borrar as minhas próprias telas que hoje fazem a  decoração vangóguica da minha moradia. Ora, como na família não há experts nem licenciados em belas artes , acabei por me tornar involunta riamente no fornecedor  doméstico de pinturas a óleo, entretanto estendida á aguarela e ao pastel por curiosidade atávica.

   Além dos preços convidativos das mobílias de tabopan que sobrevivem a seco , tenho que  agradecer ao senhor ikea a descoberta espantosa das minhas habilidades pictóricas e reconhecer ao mesmo tempo  que no  mundo global tem muito mais habilidade que o meu amigo Zé Cromado que se vê aflito para retirar meia dúzia de contendores chineses do porto de leixões , vindos de xangai ,  com os quais governa a vida a vender bonecas por atacado , mais umas lapiseiras e uns porta chaves para partidos políticos na altura das eleições, ou uns martelos prateados ao preço da uva mijona como aquele que me deixou no ano passado de cabo na mão á segunda martelada.

    Melhor porém fez o xavier serradura que tinha em águeda uma fábrica de chaves com uma dúzia de operários e mais um que lhe fazia de vez em quando a actualização da oferta mais ou menos á mão.

      Aproveitou a economia global para fechar a oficina e mandar  o pessoal para o desemprego. Alugou as instalações ,  fez da sala de estar  escritório ,da garagem armazém  e manda vir as chaves da china por um  décimo do preço. Postas á saída do barco !!!!

    Tem um empregado sentado ao computador que chega para as encomendas e aproveita o bom tempo para ir marear na ria de aveiro num pequeno veleiro com motor, enquanto a mulher planta couves no quintal ou vai ao ritail parqk fazer compras num opel corsa de corrida…

   Se isto é a boa vida que nos traz a globalização imagine-se como é que não será o céu dos chineses !!!!

                                                               Nervi , Setembro 2006

 PS- Os itálicos são palavras oficiais segundo a nova gramática portuguesa , muito mais dura de roer que as palavras cruzadas do correio da manhã.Ao contrário do  produto chinês  que nos entra porta dentro , aqui é a vontade de aprender a língua pátria  que nos sai pela porta fora ante  o caudaloso compêndio de charadas que é o novo bê à bá das letras lusitanas…   

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REFORMAS E COMPETENCIAS

TEMAS LOCAIS-13
 

 

 Ferraz da Silva   

 

 

 AS REFORMAS E AS COMPETÊNCIAS      

 

 

  Não é novidade para ninguém que a classe política se aposenta com  reformas acima da média  e com tempo de serviço abaixo do exigido para qualquer trabalhador. Basta ler na internet a lista de aposentados de caixa geral de aposentações. Assim como  só é novidade para os distraídos que os administradores de empresas, públicas e não públicas,  auferem de rendimentos  muitas vezes escandalosos a roçar o insulto á grande maioria dos portugueses que vivem com as dificuldades que todos sabemos.    Os políticos têm uma boa justificação , são eles próprios que tem o trabalho hercúleo de aprovar as suas próprias leis. É uma  circunstância que os coloca acima de qualquer cidadão, não de qualquer suspeita, mas que legitimamente  aproveitam para garantir uma velhice tranquila.   Porém,  num país  que se equilibra  entre a  incapacidade de se governar e as esmolas da comunidade europeia , num pais incapaz de gerar em oitocentos anos de existência uma estratégia  colectiva ,num país cujo déficit assenta sobretudo no exagero dos gastos públicos , não seria de presumir que fossem  os cidadãos eleitos  os primeiros a conter-se e a  arranjar soluções para  gastar menos ?  Não seria  razoável e honesto que antes de  legislarem e aprovarem para o cidadão comum medidas  restritivas que diminuem o já depauperado nível de vida que possuem , fossem eles próprios a dar o exemplo e os primeiros a suportar essas  mesmas medidas ?     Afinal não foi para isso que foram eleitos , para servir Portugal e os portugueses com espirito de sacrifício ? Não foi para isso que se candidataram e  quando tomaram  posse  não foi isso que juraram ,  servir os portugueses ? Ou servir-se dos portugueses?     É que , pesem os juramentos solenes, adquirem subitamente direitos que os outros cidadãos levam dezenas de anos a adquirir  além de substancialmente maiores que os destes , fugindo á regra elementar do tempo e da idade.  E , na hora da verdade, não  se retractam , escudam-se  simplesmente na lei que ajudaram a fazer  para  justificar a sua honestidade, os seus rendimentos ou as suas reformas. Com a  mesma legitimidade com que justificam faltas no areópago parlamentar  para acompanhar esse outro mundo  conspícuo e demagógico, que é o do futebol ?    Como é possível um político militante  ganhar num ano duzentos e cinquenta mil euros de pensão e mais duzentos e cinquenta mil de vencimentos, numa ‘quinta’ onde o ordenado mínimo se situa ao nível da sobrevivência de cinco mil euros no mesmo período, cem vezes menos do que aquele ?    Merecem eles as reformas  adquiridas ?  Não digo que não , mas merecem-nas  mais que os outros portugueses ? Enquanto se fala em diminuir as reformas de quem  aufere  rendimentos que dão para pouco mais que acordar diariamente , são legítimos  os privilégios concedidos a quem , por principio e por campanha  foi eleito para servir esses outros ? Para quem acumula ‘tacho’ atras de ‘tacho’ num país onde grassa o desemprego ?   Com que fundamentos, com que justiça , se já por nascimento e oportunidades  estão na primeira linha dos beneficiados?  Há dois mundos, duas bitolas, duas classes neste pequeno canto de intolerância cívica ?  Se a democracia não chegou á Madeira, como dizem os detractores do arquipélago, será que chegou ao continente ?  Democracia de quê  , em que sentido  e para quem ?    Não seriam estes servidores conscientes , que de forma voluntária e desinteressada foram eleitos para um órgão de soberania que nos dirige a todos, os primeiros a cuidar das despesas publicas , a colocar  ordem  nos cofres da casa comum , a respeitar as regras do jogo social, fraterno e justo ?    Alguém acredita que vão emendar o erro por muito tempo ? Ainda que o emendem hoje para aplicar aos de amanhã, alguém crê que os de amanhã aceitem o que emendaram os de hoje ?     Os segundos, os administradores , nascem da paranóia individualista  cuja doutrina assenta no pagar bem para bem fazer  . Paga-se principescamente ao top nacional  ( em terra de cegos quem tem um olho é rei) e o que fizeram e o que fazem  eles ?  Conduziram o país ao defit que tem , conduziram a indústria  ao nicho que é o sector , destruíram a agricultura e todo o sector primário , intermedeiam o sector dos serviços e desbarataram assim tanta competência não se sabe por onde  nem para quem ,  servindo além do seu próprio interesse, o desmantelar deste país.    Um dia, talvez cheguem a receber medalhas disto e daquilo  pela mão dos presidentes da republica que lhes reconhecem méritos . Talvez pela destruição que operaram já que não temos melhor bitola para medir Portugal. A culpa porém,  será sempre dos outros, sobretudo dum mundo do trabalho que tem no espaço europeu  os piores índices de rendimentos, de produtividade, de cultura e de vida.    Se ao dinheiro que se paga a muita desta  gente da pretensa vanguarda tecnocrata correspondesse competência ,  Portugal seria decerto um país mais digno, onde viver seria fácil , com justiça e com  uma repartição da riqueza que chegasse para todos .   E não é , está bem longe dessa meta  cada vez mais distante e inacessível.   Portugal é a cauda da Europa . Portugal é o país que se  permite queimar o erário em coisas como o futebol enquanto os portugueses continuam a procurar na emigração a alternativa á pobreza. Portugal é o país onde  subsistem pensões  mensais de cento e cinquenta euros com pensões mensais de dezoito e mais mil euros . Umas  ganhas com o suor de quarenta e tal anos de trabalho , outras adquiridas com meia dúzia de anos de juramentos solenes.                                     

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Thursday, December 28, 2006

A PROPÓSITO DUMA EXPOSIÇÃO

 TEMAS LOCAIS-12 

 

 

Ferraz da Silva
 

 

A PROPÓSITO DUMA EXPOSIÇÃO

 

 

 

 

       Quase setecentas pessoas visitaram no último domingo a exposição patente nos antigos escritórios da água do Luso que tem por tema , ‘Luzo Bussaco, Memória e História’. No livro destinado a esses mesmos visitantes , muitos deles deixaram mensagem de apreço e de estimulo , até de agradecimento pelo reavivar dum  tempo de prazo médio que correspondeu a um fluxo  de desenvolvimento e  engrandecimento da estância termal do Luso que  levou o concelho da Mealhada ao topo do conhecimento e fez confundir o Luso , concelho que não existe , com o seu  concelho próprio.    Porque isto  de não ser concelho seu  e depender de guerras intestinas  pensadas em casa alheia, tem que se lhe diga. Olhemos para Sintra , sede do concelho, e para o Luso. Olhemos para Òbidos, sede do concelho , e para o Luso . Olhemos para Marvão, sede do concelho, e para o Luso. Olhemos para Castelo de Vide , sede do concelho , e para o Luso. Olhemos para as Termas de S. Pedro do Sul, sede do concelho , e para o Luso. São alguns exemplos para concluir que muito tem perdido  , no caso concreto,  a Vila termal e turística do Luso , com o facto de ser um apêndice administrativo doutra localidade e consequentemente, não deter em si próprio o poder de gerir , decidir  e dispor do seu património próprio e de vias autónomas de desenvolvimento .   Esta excelente exposição sobre a memória duma vila , sua gente e actividade,  atesta  a riqueza da terra , realça a força  intrínseca que teve  o Luso  para se transformar , saltando duma pacata aldeia de água e de moinhos para uma estância termal  de primeira qualidade transformando o simples lugarejo de moleiros numa pequena cidade cosmopolita , simpática e acolhedora.  Ali se podem ver dezenas de postais   sobre o Luso e o Buçaco , primeiras edições do postal em Portugal em desenho e em fotografia , mas também objectos ligados á hotelaria, ás termas , á vida desportiva e cultural da vila , á propaganda turística , da primeira que se fez em Portugal , á água e sua venda , á guerra  peninsular .  Projectos  executados, como o Palace Hotel do Buçaco ou do Grande Hotel do Luso , estão a par de obras não levadas a cabo, como o  cine teatro do Luso ou o primeiro  estudo para o lago.Trata-se dum repositório valioso reunido com a colaboração efectiva de pessoas e de empresas , um espólio a pedir classificação e um museu , o museu do turismo e da hotelaria  , uma obra , como exemplifiquei atras, dependente de terceiros , pois o Luso não tem a autonomia nem o poder financeiro para decidir por si próprio escolhendo os seus próprios caminhos e sabe-se que infelizmente neste município ,  o conhecimento das coisas de turismo não passa por muitos responsáveis , sobretudo pelos autarcas eleitos na parte que lhes diz respeito.    Porém , o património , o now out, o saber fazer, estão bem patentes em todo o percurso desta mostra, rara no espaço do município e capaz de fazer pensar, refletir e procurar respostas e soluções para muitas perguntas que afligem hoje os homens do turismo. Porque essas soluções , essas vias , esses caminhos para prosseguir em frente, na hotelaria e turismo, como em tudo nos dias de hoje, têm que ser frutos da ambição, da criatividade e das apostas das gentes do sector , onde o público, quer estado, quer autarquias locais, tem uma responsabilidade acrescentada .   Quando  constatamos que uma autarquia é incapaz de  colocar a funcionar umas simples ‘barraquinhas’ para vender artesanato e actualizar de forma provisória um espaço  há muito degradado , barraquinhas que estão há quase um ano montadas no seu lugar, ficamos de facto  preocupados. O caso , para o sector do turismo, não é para menos.  Se a esta incapacidade  se juntar a promessa de recuperar o  espaço a desimpedir,  requalificar a zona central das termas  e fazer cumprir o projecto Luso 2007 , o caso passa  a ser dramático . E catastrófico  se a política turística deste município prosseguir com o gastar de largas somas de dinheiro em campos de golf para  freguesias sem aptidões para o turismo , projectos construídos á medida dos interesses dos políticos eleitos,  sem qualquer razoabilidade , sem qualquer estudo económico e sem qualquer perspectiva de futuro.     Percebe-se um campo de golf na Figueira da Foz, em Mira ,
em Monte Real , no Buçaco ou na Curia . Em  Barcouço , na Antes , na Pampilhosa , apenas por loucura política  ou por  brincadeira que ficará bem  cara  ao futuro do município.
    É preciso ter o sentido do interesse  regional dentro do sector especifico que é o turismo , um potencial  gerador de riqueza , não um tranpolim para satisfações pessoais.  Para isso, bastam as plataformas ferroviárias que, mesmo sem aprovação de ninguém, se podem justificar para levar mais  adiante. Mas aí, ficam pelo menos os terrenos para governo dos vindouros.   Para os munícipes interessados, uma visita á exposição atrás citada , é um momento bem passado , uma memória bem lembrada , um culto de município . Numa escala de vinte, face aos meios , dezoito valores. Excelente.   PS-Um conselho , de preferência façam a visita com tempo e  aos dias de semana , que ao sábado e domingo pode-se encalhar na confusão do trânsito .                                                             Agosto,2006
   

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D.CAMILO E O SEU PEQUENO MUNDO


 
TEMAS LOCAIS - 11

 

Ferraz da Silva  

 

DON CAMILO E O SEU PEQUENO MUNDO        

 

 Numa poltrona, em casa  do meu amigo Vicente , acabei de ver , naquilo a que chamam hoje o ‘home’ cinema ou cinema em casa, a deliciosa comédia  Don Camilo e o Seu Pequeno Mundo .       Lembrei-me  claramente da minha juventude e da magia que era então  ver este e outros filmes , passados ao domingo á noite  nos cine teatros locais onde, para se ter lugar ,  era muitas vezes necessário ‘tirar’ um  papelinho de cor, o bilhete , na véspera , se não se queria falhar uma fita   , donde , mesmo de barriga pouco cheia, se saía com franca disposição e um sorriso aberto nos lábios.      A bilheteira era um buraco redondo, ovalizado e da nossa dimensão etária , víamos apenas as mãos duma fantasmagórica  figura  que,  do lado de dentro, manuseava os dedos e nos  trocava  moedas dificilmente amealhadas  pelo feitiço da entrada , um papelinho apenas amarelo, azul ou cor de rosa, que nos abria a porta ao sonho e á diferença. Talvez diferença  de estar só , na escuridão,  num mundo irreal , na fantasia ,  no desconhecido e no futuro.    Os cinemas eram incómodos , a climatização inexistente  e o inicio do filme era , regra geral,  anunciado pelo retinir persistente e irritante duma campainha eléctrica que, naquele tempo, eram trompas do céu que enchiam rapidamente as cadeiras de espectadores  interessados e ávidos. Na região, as salas  eram todas  parecidas , não havia grande coisa que as distinguisse nem histórias que não dissessem respeito a qualquer uma delas , daí o seu valor histórico e patrimonial , ser semelhante. A ênfase que hoje se dá por aí a esta ou aquela  sala mais que a outras, não passa de verborreia vazia  e oportunista   e tudo o que se possa dizer sobre o assunto está  soberbamente  retratado  no ‘Cinema Paraíso’do realizador Giuseppe Tornatore .   Na série de  fitas iniciadas por  Duvivier , Fernandel e Gino Cervi, nas figuras de Don Camilo, o pároco de Brescello e Pepone, o administrador do concelho, faziam a diferença  e o incomodo das salas , onde a geral ou galinheiro era já um lugar de privilégio, não impedia a frequência semanal  aos muitos amantes desses passos heróicos do cinema.    As histórias de  Don Camilo, soberbamente interpretadas  pelo cómico francês Fernandel e pelo  actor italiano Gino  Cervi  começaram a ser rodadas em 1951 sob a direcção do francês Julien Duvivier e com argumento dum escritor desconhecido , um italiano de nome  Giovannino Guareshi , conterrâneo do grande Giusepe Verdi , ambos naturais  do município de Busseto, na província de Parma , em Itália.   Brescello , a paróquia cenário onde se rodaram os filmes , é hoje uma pequena cidade de cinco mil habitantes que vive da agricultura e beneficia dum considerável fluxo turístico  derivado dos filmes que lhe propagaram o nome. Dista vinte quilómetros  de Parma e perto, corre-lhe o rio Pó em direcção ao Adriático e  que na altura , com as suas cheias anuais, era um constante pesadelo para  os moradores da planura padana.   Lá está o museu Don Camilo , o restaurante Don   Camilo , o Bar  Don Camilo , o Hotel Don Camilo , quase tudo  na praça principal, a praça Matteoti, entre a  igreja de Santa  Maria Nascente  e a Câmara Municipal  ,  traduzidos em  fins de semana apinhados de turistas chamados pela curiosidade  das antigas filmagens .   Junto á igreja , a figura  do pároco , trabalhada em bronze , saúda a  do autarca  na diagonal oposta, nos paços do concelho , uma saudação mais sugerida que aberta , entre dois adversários teimosos mas leais. Coisas de então !!!!  No museu , que ocupa todo o primeiro andar duma modesta construção,  um rol de adereços , filmes, cartazes, máquinas de  filmar e projectar , revistas, comentários e notícias de jornais, entre muitas outras, fazem a delicia dos amantes da sétima arte.  Do lado de  fora  , uma locomotiva , um tanque de guerra e  utensílios agrícolas , utilizados nas rodagens, além da própria  povoação, palco de toda a trama dos vários filmes rodados.  No interior da  igreja , culto obrigatório para qualquer visitante , a imagem do Cristo que amiúde  falava com Don Camilo , o aconselhava e repreendia  nos momentos de  desespero ou casmurrice exagerada  em  imagens  profundamente gravadas   pelo cinema  na memória numa geração inteira.    Fitas que hoje são autênticas peças de museu  para  rever em casa e rir, rir de satisfação num tempo em que o cinema  se transformou em agente da agressividade , da violência, do ódio  e da guerra e quando as imagens televisivas transmitem as próprias lutas
em directo. Tempo em que os homens mudaram e o mundo mudou com eles.
  Relíquias como  O Regresso de Don Camilo , Don Camilo e o Nobre Peppone, Don  Camilo Monsenhor ou o  Camarada Don Camilo, entre outros , são testemunhos claros duma época de boas intenções herdadas do digerir da bomba atómica e do inicio da guerra fria ,onde o humanismo e uma ingenuidade infantil e angelical estão presentes.   A cidade de Brescello fez um museu a tudo isto e vende hoje o seu produto aos milhares de turistas que a visitam. Pouco mais tem para mostrar  mas este  pouco que tem, foi construído com o trabalho , a teimosia e a perseverança  dos seus  habitantes  mais a ajuda  incontornável dos seus eleitos locais.   Um pequeno mundo feito á medida da obra cinematográfica que lhe está subjacente num grande mundo feito de  coisas pequenas , que vale pelo seu conjunto e pelas diferenças de cada construção.   Entre as coisas pequenas de cada um , nós próprios faremos sempre o esforço necessário para as fazer diferentes ? É que o mundo não se faz ao tamanho do cenário , faz-se sim muito mais, ao tamanho das obras. Tudo  afinal como no Don Camilo e o Seu Pequeno Mundo.                                                                  Brescello , Julho, 2006
 

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CHEGOU O VERÃO

TEMAS LOCAIS –10

 

Ferraz da

 

CHEGOU O VERÃO

 

 

 

 


 
    Chegou o verão , viva, com o que tem de mais esperado, o calor.   Nas termas do Luso, já não se inspira e enche o peito para dizer bem alto sou do Luso como a anedota referia, doutros tempos . Agora, tudo gira num movimento mais uniformizado consoante as regras e as leis  do poderio económico e do próprio mercado, infelizmente, curto.    Há dias , li nos jornais, que  o mercado dos partos em Portugal valia não sei quantos milhões. Até o nascimento e a vida afinal, se medem hoje pelo dinheiro que  se paga para por um filho no mundo , quer seja o Estado a suportar o custo, quer sejam os pais a pagar a conta da nascença. Há sempre alguém á espreita para investir uns cobres se as perspectivas forem boas, isto é, sobejamente lucrativas.    Não admira que também as termas se meçam pelo preço dos seus custos e pelo valor dos seus resultados . E, apesar de toda  a envolvente que as próprias termas recriam como espécie de ‘holding’ geracional, poucos investidores, tendo em conta a  depreciação do sector e a  recusa da modernização dos parques termais degradados doutros tempos, apostam nesta área. Que curiosamente podem dar  dinheiro e constituiem um potencial de grande desenvolvimento se conveniente tratado e dimensionado .   O caso do Luso, talvez mais que qualquer outro, não foge á regra e de facto é só olhar para o exterior do edifício das termas para verificar  a pouca ou nenhuma sensibilidade para  com o ramo balnear que tendo tudo a ver com o sector das águas  anda bem longe dessas outras águas do engarrafamento. Esta singularidade da ‘emboutillage’, como soletrávamos com os amigos de Contrexeville  nos tempos recentes duma Europa cheia de romantismo e boas intenções , fez do Luso , dois Lusos, o das garrafas e o das termas,  hoje separados nos respectivos objectivos.    Os ingénuos motivos das visitas reciprocas da geminação onde  se apontavam a amizade, a igualdade ou a fraternidade terminaram. Nada que não tivesse de acabar quando o processo económico se esgotou e os desafios competitivos  se alargaram a quase todas as parcelas do mundo  abafando o dourado humanismo do pós guerra  forjado na morte, na dor e na solidariedade. O homem voltou mais ou menos á  selecção natural a que talvez  só as catástrofes retirem alguma substância. E voltou a um mundo de promessas vãs , de interesses individuais, de perspectivas futuras apenas realizáveis se , e nestes ses e mais ses, se diluíram os valores da palavra, dos compromissos , dos acordos. É o que se passa na opel da Azambuja a caminho de Saragoça , é o que se passa na água do Luso , deslizando para a Vacariça vai um ano , dois ou três.     Antes  da implantação dos pepelines , não sei se é este o termo que se aplica na condução da água pelas vias municipais , havia um mundo de promessas para um hipotético Luso 2007, um grandioso complexo que incluía  a panaceia do SPA , nova orgia  dos termalistas e justificação do capital para fazer alguma coisa ou não fazer coisa nenhuma ,uma espécie de publicidade enganosa capaz de convencer os incautos a assinar as licenças, os protocolos , até as acções judiciais que coloquem tudo em paz e harmonia com a exploração que se pretende. E o crente município , purgatório de boas intenções e angélica ingenuidade e também de nenhumas cautelas perante a responsabilidade que é representar a cidadania municipalista, apõe o que for preciso nos ditames e nas  promessas  seladas em sorrisos  dos homens de mão de investidores ocasionais,  normalmente representados por portugueses a soldo do capital sem rosto, sem o sentido da pátria ou dos interesses nacionais. Se vivêssemos no tempo do nosso primeiro rei, não eram terroristas que não havia o termo , mas não sobreviveriam á lamina reluzente e fio duma espada.  Podemos dizer agora que o Luso 2007 foi uma dessas promessas por cumprir mas não podemos ignorar que os pepelines, não sei se é este o termo correcto e utilizado para a passagem das águas, repito, continuam a passar pelas vias municipais  por meia dúzia de tostões o metro linear , ou seja, o mesmo dinheiro que  paga um cidadão comum se quiser atravessar a estrada com um cano de água para regar uns feijões na horta que lhe fica em frente, do outro lado da rua.      Singular e elucidativo!!!!!!!!!    E aqui, nesta monstruosidade política, começa  a péssima gestão dos homens que governam , por delegação dos eleitores que lhe deram o voto, o espaço municipal. Aqui tem inicio uma série de incompetências , de desinteresse, de alheamento , de prejuízos para todos esses, os munícipes , que votaram nos gestores, cuja inoperância política, está á vista .   Outro exemplo ,em menor grau , pois a gravidade do caso não é comparável seja de que maneira for, àquela outra, , estão aquelas barraquinhas da Avenida Navarro , destinadas a substituir  a absurda feira  de artesanato bugigante ( de bugigangas)  que prolifera todos os dias  quinta do alberto acima , numa amostragem clara do interesse da autarquia no turismo  de pé descalço que  protege eficazmente.     O cenário, pelo menos,   exemplifica o terceiro mundismo da Câmara da Mealhada  na matéria,  coisa que já não se vê em nenhuma parte deste país e é também a demonstração evidente da incapacidade duma equipa municipal  em colocar em funcionamento dúzia e meia de barraquinhas do outro lado da rua que, não sendo uma solução nem perfeita nem definitiva, são no entanto um avanço em termos de aparências, quanto muito, ambientais.      Estão desde Novembro montadas no local, sete ou oito meses  portanto e não conseguiram ainda pô-las em funcionamento. É obra !!!! Como é que conseguirão pôr de pé um campo de golf na terra do presidente da câmara e com que dinheiro , num país que não tem dinheiro para pagar as dívidas ?      Depois, aquelas barraquinhas, que não custaram um décimo das feiras que a autarquia faz e patrocina na sede do concelho, trazem , ao contrário de algumas afirmações demagógicas, mais gente ao município da Mealhada  que todos os eventos concelhios juntos.   Há quem o não julgue nem saiba , por isso prestam tão maus serviços nos lugares que ás vezes ocupam.                                                                                       Julho,2006
   

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S. Rocco

Temas Locais-9

 

Ferraz da Silva


 

S.ROCCO

 

 

     A montanha precipita-se subitamente sobre a superfície serena do mar mediterrânico , nesta altura do ano uma lâmina de água a perder-se de vista na linha  horizontal da distância onde se cruzam cargueiros e pequenos botes de pescadores locais com o  Moby dos turistas ou excursões das ‘cinque terre’ .

 No monte, a meia encosta, ergue-se o campanário rosa da igreja de S.Rocco, multiplicado além por S. Giacomo, Santo Hilário ou outra  qualquer divindade que dá sombra ás gentes das margens empinadas nos penhascos cobertos de vegetação. São como veleiros a sobressair do arvoredo ou sentinelas no seu lugar de posto de vigia a observar estáticas o dorso dos navios. Um átrio dá o  acesso á sombra dos pinheiros mansos  que ornam por sua vez as altas portadas da entrada  dos templos  num lagedo a descoberto onde se senta o sol em dias bons.

 Quem é fiel ou não poderá sempre entrar na penumbra da igreja , rezar ou descansar dos íngremes caminhos que de S. Frutuoso, á beira mar , conduzem de socalco em socalco aos cumes da neve do inverno que, em dias rigorosos, se mistura com mar na bruma branca que se estende entre os dois elementos numa junção comungada.

 Ali conduzo os passos lentamente  por  horas e mais horas de buscar o cair duma tarde que a pouco e pouco de mim  vai. Busco também na face de S.Rocco, porque não sou fiel  nem devoto de santos, o esforço de me encontrar na paz interior que me fugiu, aquela paz  feita apenas de tempo, que  tranquiliza e adormece  o cordame do nervo, a matriz eufórica de cada movimento que vem desde a nascença e que ás vezes se perde e se tresmalha nas  adversidades .

  A igreja edifício, templo ou monumento, está-nos a cada passo a abrir as portas da  poeira do tempo da nossa tradição judaica e de cristãos em arte , em história, em interrogações   que só a perfeição dum David em Firense ou o deslumbrante erotismo da  Capela Sistina , em Roma, se pode eficazmente contrapor, na medida em que absorve como por encantamento a nossa absoluta distracção.  Mas Roma fica longe  e neste derradeiro marinhar de pescadores ligures, onde o iate tomou lugar á vela, estou só e sentado no adro de S.Rocco. Pouco a pouco soletro-me na gravação em gótico da porta principal e pouco a pouco transponho a porta de madeira  até mirar o santo cujo altar, de porta aberta, olha vertente abaixo ao encontro do mar. Sento-me e verifico que me esqueci de orar. Procuro pois  a primeira ou a última figura da nossa romaria , da nossa procissão, da nossa expedição,  como qualquer mortal não dado á religião. E procuro
em S. Roco, S.Siro ou S.Donato ou santo Apolinário do Levante, todos erguidos nas suas torres rosas ou de grês , umas pintadas a tinta stucomat, outras restos de pedra. As mais antigas , esboroadas, rotas ,ogivas aramadas ao peso das sineiras em tijolo romano ou pedras de carrara, paralelas, a preto e branco ou rosso clarinho.
 Por dentro, são mais ou menos iguais na obscuridade dos altares ,na textura de imagens e de quadros e no silêncio e frescura que em qualquer dos casos são o verdadeiro tesouro destas casas a par das cores e da luminosidade em cada ícone.   Então, na marginalidade livre da nossa relação, nasce uma cumplicidade toda feita de interesse e desafio que nos atrai mutuamente na empírica busca de sermos qualquer coisa , ou gente ou espécie humana que aprendeu a procura nas primeiras pinturas das grutas naturais logo após as caçadas e a defesa comum.   E é na pesquisa dessa paz interior que nos sentamos enfim, olhando o santo numa figura ingénua de protector total com a graça do pai e toda a sua corte , e deixamos-nos ir pelos abismos de dentro tal qual como nos de fora, com seus próprios receios, seus sorrisos e lágrimas , suas estreitas veredas , numa reza pagã firme e ousada , igual a uma outra que outro dia encetei na serra da Peneda ,única vez que fui ao santuário para deixar promessas não cumpridas depositadas na caixa das esmolas.   S. Rocco, na Itália, a Senhora Del Rocio ,em Huelva , Espanha, ou a Senhora da  Peneda , em Portugal, são uma devota trilogia de  quanta santidade por aí há , acreditemos ou não, ás vezes um lugar de repouso e confissão dos nossos próprios medos. Mas também a memória de muito sonho perdido enredado nas teias dos silêncios que se albergam em nós.                                                                      S. Rocco, Maio, 2006

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